• Aucun résultat trouvé

2.2 D´evelopper les connaissances sur l’action ergonomique en analyse des besoins 9

3.2.2 Les sp´ecifications en ergonomie

reuniu na localidade provençal francesa de Lourmarin cerca de quarenta escritores e pensadores europeus movidos pelo propósito de esclarecerem “alguns pontos relacionados com a decadência do espírito do Ocidente, com os seus males de provincialismo e de consciência perseguida, com as suas enfermidades de isolacionismo e de minoria que pensa a subtileza e o desespero”.1

O encontro proporciona a Agustina a oportunidade de encetar uma longa viagem, que começa em Salamanca e termina em Tordesilhas. De automóvel e a pé, a escritora contacta diretamente com lugares e povos europeus, sobretudo localizados em espaços menos frequentados.

Este diário de viagens é uma busca das raízes culturais da Europa, de alguns dos seus mais importantes criadores – escritores, compositores, pintores e músicos. Ao mesmo tempo, desvenda-se o conceito agustiniano da viagem:

A viagem é a intimidade do importuno. (. . . ) Muita gente muda de lugar, passa de um a outro continente (. . . ). Mas a viagem, com o seu mistério e a sua intimação à consciência, com as suas alegrias que nascem inexplicavelmente (. . . ) duma sensação de vida isolada e profunda (. . . ) essa viagem poucos a podem experimentar.2

A viagem revela um encantamento inesgotável pela Espanha, pela França e pela Itália campestres, numa espécie de regresso mítico à na- tureza. O interesse por diferentes línguas, povos e modos de vida é com- binado com a reflexão estética sobre literatura, pintura, filosofia e arqui- tetura. Aqui são recordados, entre outros, os pintores El Greco, Goya, Picasso, Leonardo Da Vinci, Botticelli e Giotto; os escritores Cervantes e Juan Ramón Jiménez, Corneille, Stendhal, Alexandre Dumas, Balzac, Per- rault, Apollinaire, Proust e Dante; os compositores Mozart e Verdi. Alguns desses criadores – El Greco, Picasso, Goya, Botticelli e Montaigne – são ficcionalmente biografados.

Esta viagem cultural envolve também um retorno à mitologia cristã e grega, com alusões ao Antigo e ao Novo Testamentos, e aos mitos de Apolo, Dioniso, Cupido, Júpiter, Saturno e Vénus.

1Agustina Bessa-Luís, Embaixada a Calígula, Lisboa, Guimarães Editores, p. 104. 2Idem, pp. 11-12.

A recuperação de valores culturais constitui, para Agustina, um modo de resistir aos autoritarismos que marcam a História europeia da primeira metade do século XX. A este respeito, vale recordar as considerações de George Steiner em A ideia de Europa, nas quais o pensador defende que duas guerras mundiais, matanças étnicas e torturas transformaram a Europa ocidental e a Rússia em lugares de morte, cenários de uma besti- alidade sem precedentes.3 A desumanização do continente europeu está alicerçada, segundo o pensador francês, na perseguição, e na humilhação política e social do povo judeu.4

O texto de Agustina parece antecipar estas considerações: tratando também outra viagem, a que Fílon de Alexandria fez a Roma com o propó- sito de convencer o imperador Caio César Calígula (imperador romano de 16 de março de 37 d.C. até ao momento do seu assassinato, em 24 de ja- neiro de 41) a respeitar um povo marginalizado e maltratado – os judeus5 –, o fracasso desta jornada pode ler-se como metáfora que representa, simultaneamente, o malogro do encontro de Lourmarin e a decadência da Europa quando ela é impulsionada por motivações preconceituosas e xenófobas. O declínio da Europa traduz-se também no desinteresse por valores da cultura humanista, e na violação de direitos humanos.

Tanto o relato de Agustina quanto a conferência de Steiner sobre a ideia de Europa são peregrinações de pensadores humanistas que buscam a identidade de um continente. Agustina refuta as comparações, defen- dendo que a Europa não deve manifestar-se preocupada em rivalizar com a hegemonia tecnológica norte-americana; Steiner garante que a digni- dade dos europeus se descobre na perceção da sabedoria, na busca do conhecimento desinteressado e na criação de beleza.6

A descoberta da identidade europeia, na narrativa de viagens de Agus- tina, supõe a cumplicidade e o afeto com os múltiplos aspetos que con- figuram a identidade dos povos deste continente: línguas, tradições e gastronomia, antecipando novamente Steiner, para o qual “A Europa mor-

3

Cf. George Steiner, A Ideia de Europa, Lisboa, Gradiva, 2005, p. 44.

4Idem, p. 51. 5

No inverno de 39 d.C., Fílon foi enviado a Roma para denunciar junto do imperador as perseguições movidas contra os judeus. O seu empreendimento fracassa, desde logo porque Calígula não se mostra recetivo ao pedido da embaixada.

rerá definitivamente se não lutar pelas suas línguas, pelas suas tradições locais e autonomias sociais. Se esquecer que ‘Deus está nos pormeno- res”’.7

Esbatem-se assim, em ambos os textos, as oposições entre “alta cul- tura” e “cultura popular”. Os “bocadillos”, a “paella” e a “tortilla” es- panhóis, o “spaghetti”, o “ravioli” e o Chianti italianos, a “bouillabaisse” francesa”, são tão relevantes para a identidade de países europeus quanto pintores consagrados, compositores clássicos ou escritores do cânone li- terário ocidental. Idêntica afeição é traduzida na imagem dos habitantes de Roma: “O romano é afável e possui uma infinita reserva de sentimentos delicados para com o forasteiro”.8

Esta disponibilidade emocional para o Outro possibilita ainda uma reconfiguração da identidade nacional. Para Agustina, viajar significa olhar de forma mais atenta e pormenorizada para o seu próprio país, no sentido de descobrir muito mais semelhanças do que diferenças com outros territórios europeus. Assim, aproxima portugueses e espanhóis como povos que descobriram na aventura marítima o seu modo de expansão e de superação de limites geográficos: “Não foram os espanhóis também além dos mares, as caravelas de Isabel não aportaram a baías desconhecidas, não se lhe pode chamar também um povo navegante?”9 No museu do Prado, comenta a respeito de Velásquez:

É o pintor do sentimento, é um pintor português. Como herdeira das características que são comuns na minha raça, posso compreender Velásquez, tímido e poeta da fidelidade, exprimindo o seu génio com uma serenidade formal, esperando pouco de si mesmo e dos homens em geral.10

Embaixada a Calígula não se confina, portanto, àquilo que seria o

percurso típico de um turista e menos ainda ao comportamento estereo- tipado que este muitas vezes assume, colecionando fotografias e fazendo comparações entre o lugar de origem e o lugar visitado.

7Idem, p. 50. 8

Agustina Bessa-Luís, op. cit., p. 235.

9

Bessa-Luís, op. cit., p. 14.

As opções deste percurso da escritora demonstram um esforço de rea- bilitação de uma Europa pouco conhecida ou conhecida apenas nos seus centros de interesse turístico. Apresenta-se nesta viagem o “espírito do lugar”, na medida em que pequenas povoações de Espanha, França e Itá- lia são transformadas em espaços extraordinários que, por vezes, recordam o paraíso bíblico. Caminhos misteriosos, regatos, árvores e flores definem lugares que teriam agradado aos deuses da Antiguidade.

Embaixada a Calígula assume-se, pois, como uma missão intelectual

e estética. A crise europeia retratada no texto – crise de valores, de iso- lamento, de confronto com outras culturas – é o ponto de partida para uma reflexão sobre o futuro que, para Agustina, deverá trilhar dois cami- nhos: o da arte, primeira manifestação da beleza, e o da identidade, como educação do olhar sobre o passado.

3. Poder-se-ia pensar que, numa manifestação de eurocentrismo,