5.2 Notre activit´e en temps qu’ergonome dans le projet APTS
5.2.2 Recueillir les donn´ees n´ecessaires ` a la compr´ehension des besoins
Universidade de Campinas (UNICAMP)
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)
A atuação da mulher como leitora tem sido recorrentemente apon- tada como uma das causas da ascensão do romance, fenômeno que teria ocorrido na Europa entre a primeira metade do século XVIII e a segunda metade do século XIX. Em A ascensão do romance, obra que tem servido de referência para se pensar esse fenômeno, Ian Watt defende que as leitoras estão entre os principais agentes da expansão do romance na In- glaterra do século XVIII.1 Inúmeros romancistas, como Machado de Assis e Camilo Castelo Branco, corroboram essa perspectiva, fazendo, através dos diálogos entre narradores e leitoras, constantes referências ao ato de ler romances como uma atividade tipicamente feminina.2 Indo mais adi- ante na exploração dessa tópica, romancistas como Flaubert transformam
1 Cf. Ian Watt, A ascensão do romance, São Paulo, Companhia das Letras, 1990, p.
48.
2
Essa característica é recorrente em quase todos os romances de Machado de Assis e Camilo Castelo Branco, mas recordemos, à guisa de ilustração, dos clássicos Memórias
a leitora em objeto de representação literária, donde surge a ontológica Emma Bovary, protagonista do romance Madame Bovary (1857).
Os detratores do romance o consideravam inútil e perigoso, sobretudo para as mulheres, que eram consideradas “seres governados pela imagina- ção, inclinados ao prazer e sem ocupações sólidas que as afastassem das desordens do coração”,3 o que resultava constantemente no desestímulo ou mesmo na proibição da leitura desse gênero pelo público feminino, que, a despeito disso, não deixou de exercer um papel relevante no movimento de transformação do romance em gênero dominante na cena literária eu- ropeia e mundial. No entanto, o fato de as mulheres terem contornado essas interdições tem findado por servir de argumento para se reforçar a ideia de que o locus leitora é o espaço mais apropriado para elas nesse universo.
Assim, no âmbito da história e da crítica do romance, sobretudo as que versam sobre os séculos XVIII e XIX, a importância da mulher não tem ultrapassado a fronteira da leitura, restando-lhe o papel de leitora, e se apagando, em consequência, a sua atuação como escritora e romancista. Como salienta Ria Lamaire (1994), a maneira como vem sendo escrita a história literária constitui um fenômeno estranho e anacrônico, no qual as mulheres, mesmo que tenham escrito brilhantemente, foram eliminadas ou apresentadas como casos excepcionais.4 Seguindo essa direção, Ian Watt (1990), embora reconheça a importância das leitoras para a ascensão do romance, credita o surgimento desse gênero à produção de três escrito- res: Daniel Defoe (1660-1731), Samuel Richardson (1689-1761) e Henry Fielding (1704-1754).5 O clássico A teoria do romance, de Georg Lukács, aponta D. Quixote, de Cervantes, como o fundador do romance e a dupla Goethe/Dostoievski como continuadores da tradição.6 Mikhail Bakhtin
3
Márcia Abreu, Sandra Vasconcelos, Nelson Schapochnik e Luiz Carlos Villalta, “Ca- minhos do Romance no Brasil: séculos XVIII e XIX”, in Caminhos do Romance, Campinas, Unicamp, 2005, p. 3, disponível em: <www.caminhosdoromance.iel.unicamp.br/estudos/en saios/caminhos.pdf>, acesso em: 10 de setembro de 2015.
4
Cf. Ria Lemaire, “Repensando a história literária”, in Heloísa Buarque de Hollanda,
Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura, Rio de Janeiro, Rocco, 1994,
p. 58.
5
Cf. Ian Watt, A ascensão do romance, São Paulo, Companhia das Letras, 1990.
6
Cf. Georg Luckács, A Teoria do Romance, São Paulo, Duas Cidades e Editora 34, 2000.
(2010), apesar de fazer referência a um largo conjunto de romancistas, recuando até a Idade Média e Antiguidade, confere pouca ou nenhuma importância a romancistas mulheres7.
Se tomarmos como base o repertório escolhido por esses teóricos, fica- remos com a certeza de que, em relação ao romance, as mulheres ficaram confinadas no âmbito da leitura, hipótese que não se sustenta. A Ingla- terra setecentista a que Watt se refere (e mesmo antes) tem uma quanti- dade significativa de mulheres que escrevem romances, como A. M. Bennet, autora do “popularíssimo Beggar Girl and Her Benefactors (1798)”8, Ann Radcliffe e seus romances góticos, Jane Austen, Regina Maria Roche e Elizabeth Helme, que, ao lado de diversas outras romancistas, produziram aproximadamente metade (ou mais) dos romances publicados à/na época. Tão comuns, mas tão insignificantes para a história e a teoria da literatura, essas mulheres escreveram um conjunto de romances que foi fundamen- tal para se consolidar e transmitir essa forma literária, não apenas na Inglaterra mas também na França e mundo afora, até chegar ao Brasil, onde, segundo Marlyse Meyer, teve um papel importante na constituição do romance brasileiro, tendo influenciado autores consagrados como José de Alencar, leitor de Sinclair das Ilhas, de Elizabeth Helme.9
Na França, o quadro das romancistas parece ser ainda mais favorável do que na Inglaterra. A Bibliothèque d’un homme de gout, espécie de tra- tado bibliográfico que o francês Louis Maveul Chaudon concebeu em 1772 para orientar a formação de bibliotecas, dedica uma parte considerável ao romance. Nela, Chaudon apresenta uma seleção de romances que mere- ciam integrar a biblioteca de um homem de gosto. Nesse grupo, o número de mulheres é superior ao de homens, totalizando aproximadamente 40 romancistas, dentre as quais cabe destacar Madame de Lafayette (autora do clássico La princesse de Clèves), Madame de Grafigny (Lettres d’une
péreuvienne) e Madame Le Prince de Beaumont,10 escritoras que, não
7Cf. Mikhail Bakhtin, Questões de Literatura e de Estética: a Teoria da Literatura,São
Paulo, Hucitec, 2010.
8
Marlyse Meyer, Caminhos do imaginário no Brasil, São Paulo, Editora da Universi- dade de São Paulo, 2001, p. 48.
9 Cf. Marlyse Meyer, Caminhos do imaginário no Brasil, São Paulo, Editora da
Universidade de São Paulo, 2001, p. 48.
10
obstante a importância que tiveram na produção e na formação de uma tradição do romance, se tornaram, como as romancistas inglesas citadas anteriormente, invisíveis aos olhos da teoria e historiografia literária.
A invisibilidade do romance escrito por mulheres parece se verificar também entre o público. Embora tenha ultrapassado as barreiras postas no campo da produção, chegando a atingir a condição de parâmetro para a escrita de autores consagrados, a escrita de autoria feminina parece não ter conseguido fazer frente a um processo de desvalorização verificado no âmbito da circulação e da posse do livro. É nessa direção que apontam as bibliotecas particulares femininas portuguesas do século XVIII. Cristina Costa demonstra, em seu estudo sobre esse tipo de acervo, que 98% das obras ali presentes são escritas por homens, o que corresponde a uma representação quase residual da autoria de gênero feminino.11 Essa pro- porção não difere muito daquilo que se observa na biblioteca da princesa D. Maria Francisca Benedita.
Nascida em 1746 e falecida em 1829, essa princesa foi a quarta e úl- tima filha do rei de Portugal D. José I. Segundo catálogo feito, em 1831, na Biblioteca da Ajuda, sua livraria possuía 2156 volumes, distribuídos em aproximadamente 830 títulos diferentes,12valor muito superior ao número total de livros das bibliotecas femininas desse período, que variavam en- tre 5 e 52 obras. Os gêneros presentes e o modo como estão distribuídos na biblioteca da princesa é outro ponto que a difere desses acervos, nos quais as obras de temática religiosa correspondiam à “preferência [. . . ] da posse de livros”13, chegando a representar quase 90% do total na maioria dos casos.14 Esse padrão, marcado por um alto grau de especialização,
meilleurs livres eìcrits en notre langue sur tous les genres de sciences & de litteìrature : avec les jugemens que les critiques les plus impartiaux ont porteì sur les bons ouvrages qui ont paru depuis le renouvellement des lettres jusqu’en 1772. Avignon: impr. de J.
Blery: A. Aubanel, 1772.
11
Cf. Cristina Maria de Castro Correia Cardoso da Costa, As bibliotecas particulares
femininas nos espaços de educação no século XVIII em Portugal: um contributo para o estudo do género, Dissertação de Mestrado, FLUL, Lisboa, 2010.
12Catalogo da Livraria Que Foi da Sereníssima Princesa D. Maria Francisca Benedicta.
Lisboa: Biblioteca da Ajuda, 1831.
13Vanda Anastácio (org.), Tratar, estudar, disponibilizar: um futuro para as bibliotecas
particulares, Lisboa, Banco Espírito Santo, 2013, pp. 59-70 (p. 53).
também era observado entre a nobreza e a Família Real. A formação ca- tólica, etapa fundamental no processo de educação das princesas, passava pela leitura de obras de espiritualidade, o que contribuía para que esse gênero fosse o mais lido e possuído em maior número na Península Ibérica durante o Antigo Regime. A biblioteca da princesa D. Bárbara de Bra- gança ilustra essa tendência. O segmento religioso, composto sobretudo por vidas de santos, livros de orações e exercícios espirituais, sobressaía em sua coleção. A biblioteca de D. Maria Benedita, em contrapartida, se desloca desse padrão: o gênero mais presente é o romance (prosa ficci- onal), responsável por 119 títulos, o que corresponde a 15% do acervo, ao passo que os textos religiosos ocupam apenas a quarta posição no
ranking.
Figura 1: Frequência de gêneros textuais presentes na biblioteca de D. Maria Francisca Benedita.15
femininas nos espaços da de educação no século XVIII em Portugal: um contributo para o estudo de gênero, Dissertação de Mestrado, Faculdade de Letras da Universidade de
Lisboa, 2010.
15
Os dados coligidos nesse gráfico tiveram por base o catálogo da biblioteca da prin- cesa D. Maria Francisca Benedita, e são fruto da pesquisa de pós-doutorado intitulada “A presença de romances em bibliotecas femininas da família real portuguesa”, que de-
A presença do romance é bastante diversificada, abrangendo obras que foram best sellers, como As Aventuras de Telêmaco, de Fénelon; obras de cunho didático e moral, como os Enganos do Bosque, Desenganos do Rio, da portuguesa Sóror Maria do Céu; e obras licenciosas, como Mon Bon-
net de Nuit, de Louis-Sébastien Mercier. É, portanto, um acervo bastante
avançado para os padrões da época, se diferenciando das bibliotecas fe- mininas coetâneas pelo número de obras, preferências e diversidade de gêneros literários.
Entretanto, essa mesma distinção não se estende à frequência com que homens e mulheres aparecem nesse acervo, mais especificamente no que se refere ao romance. Dos 119 romances que integram essa biblioteca, apenas 9 foram escritos por mulheres: Histoire de la Vie et des Aventures
de la Duchesse de Kingston, da escritora inglesa Elizabeth Hervey; En- ganos do Bosque, Desenganos do Rio, de Sóror Maria do Céu; Histoire de Madame Henriette d’Angleterre, de Madame de La Fayette; Irma, de
Élisabeth Guénard (pseudônimo de Madame Brossin de Mère); Les Aveux
D’Une Jolie Femme, de Françoise-Albine Puzin de la Martinière; Les Che- valiers du Cygne e Mademoiselle de La Fayette, de Félicité de Genlis; Les Deux Amis, de Jeanne-Michelle de Pringy; Lettres à sa Fille et à ses Amis, de Madame de Sevigné; e a coletânea Recueil des Oeuvres de Madame du Boccage, de Anne-Marie du Boccage.
Como se pode notar, predominam nesse conjunto os romances escritos, ou traduzidos, em língua francesa, constando apenas um exemplar escrito por uma romancista portuguesa e outro vindo da Inglaterra. Apesar de ser o país mais recorrente nessa amostra, a França pode ser considerada pouco representada, já que essa quantidade é muito desproporcional em relação ao número de romances produzidos por homens que constam na biblioteca de D. Maria Benedita e também em relação ao número de romances escritos por mulheres na França, conforme os dados reunidos na Bibliothèque d’un homme de gout expostos anteriormente.
Esse conjunto de romances também evidencia outro dado: a quase au- sência de autoras portuguesas e inglesas, fato que, cabe salientar desde já, não se explica pela falta de produção literária feminina em Portu- gal ou na Inglaterra. Pelo contrário, apesar das restrições impostas à
mulher na sociedade portuguesa em relação à escrita, existiu uma quan- tidade significativa de escritoras que produziram romances nesse período em Portugal, como Tereza Margarida da Silva e Orta e Sóror Mariana Alcoforado, cuja ausência na biblioteca da princesa parece apontar muito mais para o desprestígio que se nota em relação à produção de romances por mulheres do que para a impossibilidade da sua proprietária adquirir obras dessas autoras. Aliás, como membro da Família Real, D. Maria Francisca Benedita gozava de ampla liberdade para escolher seus livros, inclusive da prerrogativa de poder ter em sua posse obras proibidas pelas instâncias censórias.
Assim, é plausível supor que a presença ínfima de romancistas do sexo feminino em sua biblioteca tenha tido por base suas escolhas pessoais, as quais estavam, em alguma medida, orientadas pelo desejo de constituir um acervo que a dignificasse socialmente. Não nos esqueçamos de que a biblioteca de uma princesa, naquela altura, tinha por finalidade, entre outras coisas, dotar a proprietária de prestígio, certificando uma trajetória intelectual exitosa. Nesse sentido, a composição do acervo deveria refletir a relevância social da princesa, o que implicava, numa sociedade como a portuguesa, que a posse de escrita de autoria feminina ficasse circuns- crita, quando a houvesse, aos gêneros poéticos ou, mais frequentemente, aos textos que narrassem experiências místicas, contassem histórias de santos, conventos e ordens religiosas, os quais serviam como índice de distinção e reconhecimento para a mulher, se tornando “importantes bens no mercado do prestígio religioso e social”16. A produção de romances por mulheres, embora ocorresse, não era chancelada, figurando muito ha- bitualmente como exceção ou até mesmo como transgressão.
Portanto, se as mulheres também produziram romances (em número igual ou superior aos homens), muitos dos quais fizeram sucesso entre o público e influenciaram romancistas consagrados posteriormente, se pode concluir que o pouco espaço que ocuparam nas bibliotecas se deve ao fato de os seus romances não agregarem valor simbólico e material às co- leções. Por isso, mesmo em coleções femininas que se diferenciavam em relação ao padrão do seu tempo, como é o caso da biblioteca da princesa
16
Isabel dos Guimarães Sá, “Os espaços de reclusão e a vida nas margens”, in José Mattoso (org.), História da Vida Privada em Portugal: A Idade Moderna, Lisboa, Círculo de Leitores, 2011, p. 287.
D. Maria Francisca Benedita, se nota uma presença majoritária de roman- cistas do sexo masculino. Pode-se concluir ainda que o desprestígio que incidia sobre o romance produzido por mulheres entre quem possuía livros é extensivo aos historiadores e teóricos da literatura, que tem findado por secundarizar ou ignorar esses romances, relegando as mulheres à mera condição de leitoras.