Esta seção objetiva considerar pesquisas publicadas em periódicos de revistas de instituições de ensino superior. As pesquisas tratam do uso da LI para o letramento racial de crianças. A partir da consideração delas, pretendo refletir sobre a relevância do trabalho com a LI em sala de aula e também sobre possíveis impactos sociais que são relatados nessas pesquisas, considerando que nem sempre o racismo aparece explícito nos textos e nas imagens. Nesses casos, vale o olhar detalhista e observador do professor juntamente com os alunos para que seja possível perceber as entrelinhas e os impactos sociais que o livro de LI pode trazer.
Nesse sentido, trago aqui o texto de Araujo (2017), com o trabalho intitulado
Quem escolhe o que ler na escola? Refletindo sobre a diversidade étnico-racial na literatura infantil e juvenil. A autora apresenta dados resultantes de dois estudos
realizados em bibliotecas de escolas municipais de Curitiba - PR e em três turmas (4º e 5º ano), tendo como participantes alunos e professoras. A metodologia de pesquisa foi baseada em análise bibliográfica e documental, além de observação em sala de aula. As perguntas de pesquisa mencionadas no decorrer do texto foram: O que as crianças leem? O que são oferecidos para as crianças lerem nas escolas? O primeiro dado apresentado é parte de sua dissertação de mestrado cujos dados foram coletados em 2009, e o objetivo era “investigar nos discursos produzidos sobre livros literários com personagens negras indícios de uma ideologia racista, produzida e reproduzida no ambiente escolar pela formação literária a que as crianças eram expostas” (ARAUJO, 2017, p. 58), tendo como participantes da pesquisa a professora e uma turma do 4° ano, a qual a pesquisadora nomeou como “escola 1”.
A pesquisadora constatou “que além de reforçar a presença hegemônica de personagens brancas, as concepções de literatura e de leitura literária da instituição eram bastante restritas” (ARAUJO, 2017, p. 58-59). Ela ainda menciona a questão da precariedade dos livros disponíveis às crianças, tanto no que se refere à estética como também à qualidade do produto e conteúdo. Outro fato mencionado foi o tempo destinado à leitura, apenas 20 minutos semanais, tempo esse no qual as crianças não conseguiam desenvolver a leitura e nem a discussão proposta posteriormente.
A segunda pesquisa relatada por Araujo (2017) foi realizada em 2012, nomeada como ‘escola 2’. A autora apresenta os dados resultantes de uma Especialização sobre Educação das Relações Étnico-Raciais, promovido pelo Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal do Paraná, no ano de 2012, cujo objetivo foi “investigar em que contexto a literatura com personagens negras está presente nas aulas de leitura” (ARAUJO, 2017, p. 269). Essa pesquisa foi desenvolvida a partir de análise dos documentos de empréstimos da escola e também observação em sala com duas turmas (4° e 5° ano).
Ao pesquisar o espaço da biblioteca, Araújo (2017) descreve e apresenta imagens que mostram que se tratava de um pequeno espaço, menor que uma sala de aula, sem mesa, apenas com almofadas, poucos livros e a decoração da sala era com clássicos da literatura eurocêntrica (cinderela, branca de neve, entre outros), o que reforçava uma estética definida (branca). Outro fato apontado pela pesquisadora era de que, para as crianças menores (1° e 2° ano), não havia acessibilidade/empréstimo de livros, o que demonstra a falta de estrutura do local e de entendimento da equipe gestora.
Como resultado dessa pesquisa, Araujo (2017) destaca que nos registros de empréstimos foi possível observar que os livros de literatura afro-brasileira e africana eram emprestados apenas em períodos específicos (possivelmente devido ao período em que se discute sobre a consciência negra). No entanto, essas leituras traziam conteúdos relacionados ao esporte e ao bullying e não reconhecia/valorizava a cultura afro-brasielira/africana. Além disso, a pesquisadora constatou que não havia um encaminhamento posterior a essas leituras por parte da professora, logo, o processo de leitura sobre questões ético-raciais era “fragmentado”.
Com base no relato dessa pesquisadora, percebo que, embora as discussões a respeito de raça estejam expressas nos documentos que regem o currículo escolar, ainda há pesquisas como a de Araujo (2017) que mostram que a leitura (principalmente de livros que tratam de histórias e cultura negra e afro- brasileira e africana) não é utilizada adequadamente em sala de aula.
Após refletir sobre os dados apontados por Araujo (2017), busquei encontrar pesquisas recentes na perspectiva do LR e LRC desenvolvidas com alunos em sala de aula, entre 2015 a 2017. Vale ressaltar que os termos foram buscados em língua portuguesa (considerados também apenas os textos em língua portuguesa) e no conteúdo disponível de acesso gratuito, sendo consideradas apenas as pesquisas
que realmente abordam de alguma forma a perspectiva do LR e/ou LRC. Com referência ao LR, foram encontrados seis artigos, mas apenas um mencionava sobre a questão racial, embora o foco fosse o letramento literário. Referente ao LRC, encontrei três artigos; no entanto, nenhum estava relacionado a pesquisas realizadas com alunos em sala de aula.
Na perspectiva do LR, encontrei o artigo intitulado “Segredos mais que
secretos das princesas”: reflexões sobre práticas de letramento literário a partir de uma abordagem intercultural (FREITAS; JUNIOR; MARINS, 2015). É resultante da
intervenção dos alunos no campo de estágio supervisionado a da de docência da disciplina de Língua Portuguesa e Literatura em uma escola municipal, especificamente no Programa Mais Educação (PME), com alunos entre 12 e 14 anos, a partir de um módulo (Di)versificando: diferença na escola, intitulado Um grito
de negritude e Segredos mais que secretos das princesas, no qual se discutiu sobre
as diversidades/diferenças étnico-raciais e as relações de gênero. A pesquisa apresenta uma abordagem acerca do letramento literário a partir de uma perspectiva intercultural. No quadro 4, há uma síntese da pesquisa.
QUADRO 4 – Práticas de letramento literário
(continua) Pesquisas recentes (referentes aos anos de 2015 a 2017)
Palavras-chave utilizadas: Letramento Racial
Publicado em: Conexões Culturais, 01 December 2015, Vol.1(2), pp.122-138 (artigo). Título/autor: “Segredos mais que secretos das princesas”: reflexões sobre práticas de letramento literário a partir de uma abordagem intercultural, Santiago Bretanha Freitas (Universidade Federal do Pampa - UNIPAMPA -, campus Jaguarão), Agnaldo Mesquita de Lima Junior (Universidade Federal do Pampa - UNIPAMPA - , campus Jaguarão) e Ida Maria Morales Marins.
Objetivos: Relatar /refletir sobre práticas de letramento literário a partir de uma abordagem intercultural na rede básica de ensino.
Resultados: foi observado no discurso e mesmo no texto dos alunos embates entre a emancipação do feminino, “ficaram evidentes olhares, modestos, sobre o papel sociocultural da mulher na contemporaneidade” (FREITAS; JUNIOR; MARINS, 2015, p. 137),ainda foi presente em alguns momentos uma postura que limita a mulher em alguns contextos, mas em outros eles apresentaram-se abertos uma visão crítica sobre o “ser princesa” na vida real.
Aspectos principais apontados na pesquisa: leitura e interpretação da escrita, olhares críticos sobre a representação da mulher na sociedade atual (na mídia e nas histórias), relevância de discutir gênero em sala de aula. A falta de representatividade de princesas negras (FREITAS; JUNIOR; MARINS, 2015, p.132).
QUADRO 4 - Práticas de letramento literário
(conclusão) Lacunas de pesquisa: embora o texto cite a questão racial, principalmente no que se refere à falta de representatividade da mulher negra em histórias de princesas, não foi apresentado nenhum relato ou comentário de maneira explicita no texto. Em outro momento, os alunos foram solicitados a desenhar as princesas como quisessem e “a partir de uma autorreflexão, se deram conta que haviam “ridicularizado” as princesas que desenharam com características que também possuíam, desde o cabelo crespo, até o pé grande”. (FREITAS; JUNIOR; MARINS, 2015, p.134)
Embora não tenha sido detalhado sobre a questão racial, observamos que houve discussão e reflexão sobre princesas (im)prováveis, na qual aparece a mulher/menina negra e a sua falta de representatividade.
Embora o texto aponte para a necessidade de aprofundar sobre a questão racial, não se menciona se houve uma abordagem sobre isso.
Fonte: Organizado pela pesquisadora.
Embora meu foco não seja a análise literária e sim como a literatura pode possibilitar o LR e o LRC, o texto de Freitas, Junior e Marins (2015) permitiu-me refletir sobre a necessidade de aprofundarmos nas discussões referentes à raça em sala de aula, principalmente no que se refere ao ouvir e dar voz aos alunos para que possam expressar sua criticidade, seja por meio da escrita, do desenho ou da oralidade. Ao permitir que os alunos desenhassem “princesas improváveis”, foi possibilitado iniciar uma discussão sobre como a mulher é vista na sociedade, o que poderia ter elencado diversos outros temas para a aula, incluindo a questão racial, o feminismo negro, entre diversos outros temas.
Nesse capítulo, discuti os principais conceitos teóricos deste estudo, tais como raça, identidade racial, identidade racial de criança, letramento(s), multiletramentos, TCR, LR e LRC, infância e identidade racial de crianças. No próximo capítulo, descrevo os aspectos metodológicos do estudo.