Os bispos participantes da 41ª Assembléia Geral da CNBB, em 30 de abril a 9 de maio, ficaram impressionados com o contexto das mudanças no mapa religioso do Brasil, assim os bispos do Estado de São Paulo. Concluíram que existem necessidades religiosas que não estão recebendo resposta adequada por parte da ação Evangelizadora e pastoral, logo foi criada uma comissão para estudar o fenômeno, que elaborou o projeto chamado de PAMP - Projeto de Ação Missionária Permanente, aprovado pela 25ª Assembléia das Igrejas particulares do Regional Sul 1, como referencial para a missão permanente. Foi publicado em 25 de março de 2004, festa da Anunciação.
A finalidade do PAMP era responder aos inquietantes desafios suscitados pelo contexto do recente mapa religioso do Brasil, pela perda de Católicos para as Igrejas Pentecostais. A preocupação vinha a partir do êxodo de fiéis para outras confissões religiosas, em particular as denominações pentecostais, mas também com o desligamento do catolicismo de muitas pessoas, que ampliaram as fileiras dos sem religião. Para dar resposta ao desafio da mudança religiosa, o Regional Sul 1 da CNBB, do Estado de São Paulo, formado por dezessete sub-regionais, idealizou o projeto, chamado de PAMP145, documento defensivo diante do avanço pentecostal. Foi dividido em quatro partes, dentro da metodologia de ver, julgar e agir. A primeira parte apresenta o fenômeno religioso e o homem urbano, contendo informações sobre os católicos que migram para outras denominações e a metodologia dos pentecostais na busca de fieis; a segunda parte coloca a evangelização e a vocação própria da Igreja, lembrando à tarefa
144 A pesquisa do CERIS, em 2002, nas seis maiores regiões metropolitanas brasileiras,encontrou cerca
de 25% dos entrevistados que freqüentam atos de mais de uma religião e cerca de metade deles (12,5% do total) o fazem sempre.
145 Segundo dados do CERIS o grupo que mais cresce é dos pentecostais, os quais, na cidade de São
dos cristãos de anunciar a “verdadeira doutrina”; a terceira parte relata a ação missionária, reúne propostas concretas e estratégias diante do pentecostalismo; e a última parte apresenta a comissão de apoio ao PAMP. Todo o documento foi elaborado segundo as Diretrizes Gerais da Ação Evangelização no Brasil - 2003-2006 (Cf. CNBB, Sul 1, 7).
O PAMP apresenta uma Igreja “ad intra” preocupada com a própria sobrevivência com um discurso defensivo, que apresenta como principal finalidade responder aos inquietantes desafios suscitados pelo recente mapa religioso146 do Brasil em vista das mudanças rápidas e profundas na sociedade, que romperam com as visões hegemônicas da realidade; que levaram o universo simbólico unitário da cristandade a ceder lugar a interpretações pluralistas, pois o desenvolvimento tecnológico, da economia, da cultura, das idéias, pautado no secularismo, acaba por negar a ação de Deus na história. (CNBB, Sul 1, 4).
Exclusivismo eclesiocêntrico. O PAMP, diante da realidade do avanço do
pentecostalismo e do pluralismo religioso, apresenta um discurso defensivo, com uma teologia eclesiocêntrica, na linha exclusivista, que coloca a Igreja e a Cristo como único caminho, consequentemente as outras Igrejas ou denominações cristãs são consideradas como deficitárias pelas seguintes razões:
Apesar da divisão entre os cristãos, a Igreja de Jesus Cristo não está dividida em várias Igrejas. Ela subsiste na Igreja Católica. A Igreja Católica possui todos os elementos de eclesialidade que encontramos no novo testamento: a mesma fé; a totalidade dos canais da graça que são os sacramentos; a sucessão do colégio apostólico na sua dimensão episcopal; a sucessão do ministério petrino exercido pelo Papa; o ministério da palavra como anúncio e magistério autêntico, isto é, como ensino normativo em nome de Cristo. Em nenhum outro lugar se encontra, como na Igreja Católica, a plenitude dos meios salvíficos queridos por Cristo (CNBB, Sul 1, 46).
Reafirmar que “a Igreja de Cristo subsiste somente na Igreja católica”, mostra o clássico exclusivismo eclesiocêntrico, tradução atual do axioma tradicional “fora da
146 O mapa religioso do Brasil mudou nos últimos anos. O número de católicos, que em 1980 representava
90% da população brasileira, chega hoje a 125 milhões de pessoas, o equivalente a 73,8% dos brasileiros, segundo o Censo de 2000. Já os evangélicos, em que se incluem as igrejas pentecostais e as denominações ditas “históricas” ou “tradicionais” (luterana, presbiteriana, metodista e batista, entre outras), ganharam fiéis e agora registram índice de 15,4% da população. O Censo detectou também o aumento do contingente dos que se dizem “sem religião”, que são 7,3%. O restante da população – uma fatia de 3,5% – é disputado por uma variada série de religiões e credos, como judaísmo, islamismo, espiritismo, budismo, anglicanismo, ortodoxia e xamanismo, além dos rituais praticados nas reservas indígenas (Cf. JACOB, 2003).
Igreja não há salvação”. Segundo os documentos da Igreja, como vimos anteriormente, “subsiste” significa que só nela há a plenitude dos meios de salvação, como os sacramentos e a sucessão apostólica. Afirmação presente na teologia do Concilio Vaticano II147, no Catecismo da Igreja de João Paulo II (1992), também na Declaração Mysterium Ecclesiae (1973), na Carta aos bispos da Igreja Católica Communionis notio (1992), e na Declaração Dominus Iesus (2000), as duas últimas foram promulgadas pela Congregação para a Doutrina da Fé. Conforme o discurso exclusivista católico, presente nos documentos citados, afirmar que a Igreja de Cristo está presente e operante através dos elementos de santificação e de verdade nelas existentes. A palavra “subsiste” indica que só pode ser atribuída exclusivamente à única Igreja católica. Nas outras “igrejas” não há todos os elementos constitutivos que Cristo colocou na Igreja Católica. De acordo com esta teologia eclesiocêntrica, apenas são reconhecidas como Igrejas irmãs as Igrejas ortodoxas; as protestantes e principalmente as pentecostais não tem todos os elementos necessários constitutivos da salvação por não terem sucessão direta apostólica, o que as torna teologicamente deficientes.
Ao chamar para um diálogo evangelizador (CNBB, Sul 1, 62), o Documento solicita que as emissoras de rádio e TV católicas façam uma maior divulgação e conscientização sobre o pluralismo religioso no Brasil e que sejam tratados temas de apologética (CNBB, Sul 1, 96c). Hoje evangelizar sem os meios de comunicação social é difícil. Porém, usar apologia como arma para defender a fé frente as Igrejas pentecostais, significa ir contra o pluralismo religioso próprio da teologia pluralista. Inclusive, para o PAMP, a única forma de cristianismo é o eclesial, já que “sem Igreja148 não existe cristianismo, pois não podemos saber quem é Jesus Cristo”. (CNBB, Sul 1, 45). Se, com efeito, a verdadeira religião é apenas a Igreja Católica e sem Igreja não há cristianismo, aí está um total exclusivismo eclesiocêntrico. Apesar dos bispos reconhecerem o pluralismo, o discurso do PAMP é uma crítica constante e direta ao pentecostalismo e ao pluralismo religioso. É um exclusivismo que reconhece elementos de verdade e valor nas Igrejas Evangélicas Pentecostais, mas continua a afirmação de que só a Igreja Católica possui a verdade integral.
O PAMP em seu exclusivismo apresenta um projeto de Igreja “ad intra”, voltada para dentro de si mesma, preocupada com a sobrevivência e com a crise demográfica no paradigma da pós-modernidade, onde a fé passa atender necessidades subjetivas,
147 Cf. CONCÍLIO VATICANO II. Lumen Gentium, 2.
desligada da comunidade e da realidade. As motivações para a desfiliação e transito religioso são de ordem pessoal. A tradição e a doutrina perdem o peso na escolha, o que causa uma postura defensiva.
Inclusivismo cristocêntrico O discurso do PAMP apresenta também um
inclusivismo eclesial preocupado com os católicos afastados e com o avanço pentecostal. Perante o subjetivismo individualista pós-moderno, o texto mostra sua preocupação, afirmando que: “o cristianismo nasceu em forma de Igreja; ninguém pode ser cristão isoladamente, à margem da comunidade. Sem a Igreja não podemos saber quem é Jesus Cristo, não podemos amá-lo e ser seus discípulos” (CNBB, Sul 1, 41). Existe na pós-modernidade uma mística individualista, subjetivista, desligada de qualquer Igreja e comunidade, de todo tipo de problema sócio-econômico e político. A nova mística cria uma euforia espiritual passageira intimista.
O PAMP quer fazer que todos se tornem discípulos de Jesus Cristo e membros da Igreja (Cf. CNBB, Sul 1, 55). A Igreja quis sempre ser fiel ao mandato de Jesus Cristo: "Ide e fazei que todas as nações se tornem discípulos149". O catolicismo sempre teve a pretensão de incluir toda a humanidade, de ser Universal e a única Igreja verdadeira de Cristo. “A vocação própria da Igreja é ser missionária” (CNBB, Sul 1, 41). A Igreja declara que desde seu nascimento teve o impulso e o mandato missionário de Cristo. As diretrizes da CNBB têm como objetivo aprofundar a consciência missionária através do anúncio explicito (CNBB, Sul 1, 60). A consciência missionária significa ir ao encontro das pessoas de casa em casa, nas escolas, nas instituições e não se conformar com os presentes nas paróquias, um trabalho missionário que deverá ser desenvolvido pelos leigos.
Os bispos afirmam no PAMP, que “não podemos ficar indiferentes diante da urgência da evangelização”, pois existem necessidades religiosas que não estão recebendo respostas adequadas por parte da ação evangelizadora e pastoral (CNBB, Sul 1, 2). Há urgência e preocupação para chegar até os católicos afastados e aos sem religião para que possam voltar para a Igreja Católica; eles são em teoria, os mais veneráveis a propaganda proselitista do pentecostalismo. Os católicos, na sua maioria, não participam das suas comunidades e buscam outras crenças e igrejas sobre tudo as pentecostais. Por esse motivo os bispos do Estado de São Paulo (CNBB, Sul 1, 5) vêm a
necessidade de se fazer “uma avaliação da qualidade da nossa presença junto ao povo como exigência da própria missão de evangelizar”; propõem a descentralização da ação pastoral da Igreja em direção à periferia com lideranças leigas e incentivar a organização da vida eclesial e a vocação apostólica dos leigos e leigas, bem como sua formação. Uma das principais propostas que o PAMP coloca é de criar uma cultura missionária permanente, principalmente através de visitas domiciliares onde se pode levar o anúncio do querigma fundamental da fé (Cf. CNBB, Sul 1, 84).
As palavras que mais aparecem ao longo do discurso do texto do PAMP são: “missionários”, “missão”, “discípulos” e “evangelizar”, mostrando assim a preocupação de incluir a todas as pessoas dentro da Igreja. A missão está situada dentro do universo da Igreja, com a autoridade que recebeu do Cristo. Pelo mandato divino, todos os batizados são missionários e “devem anunciar a verdadeira doutrina” (CNBB, Sul 1, 6). A verdadeira doutrina é constituída pelos dogmas e as verdades de fé católica.
A terceira parte do documento apresenta propostas concretas missionárias ou estratégias para se defender do avanço pentecostal. A Igreja como instituição deve ir ao encontro dos católicos afastados através das missões populares permanentes, as visitas missionárias domiciliares, a boa acolhida nas comunidades católicas, a abertura das igrejas durante o dia, adquirir novos espaços eclesiásticos, ter maior presença nos meios de comunicação social e na internet, com cursos, celebrações, cultos e pregações sobre a palavra, enfim, outras iniciativas que possam garantir um espaço maior da Igreja na cidade (Cf. CNBB, Sul 1, 83-93).
Como estratégia e táticas para não perder mais espaço para o pentecostalismo, os bispos propõem organizar a Escola da Palavra para agentes de pastoral com ênfase na formação para a missão; capacitar e habilitar ministros leigos da Palavra por meio de cursos bíblicos e doutrinais, laboratórios de pastoral e técnicas de divulgação da palavra; aprofundar as razões da fé e da esperança, com base na Bíblia, na tradição, no magistério e na realidade sociocultural e econômica; desenvolver a habilidade de comunicar a Palavra de Deus; capacitar para responder aos questionamentos e apelos pessoais e sociais do mundo atual; formação permanente dos Ministros da Palavra em vista da missão; incluir a disciplina Missiologia nas Faculdades de Teologia com ênfase na Pastoral Urbana; utilizar a Bíblia em todos os momentos da pastoral; editar Bíblias destacando passagens referentes à identidade católica e outros temas teologicamente importantes (CNBB, Sul 1, 65). Acreditamos que todas essas iniciativas pastorais são interessantes, mas não deveriam ser apenas estratégias ou táticas para conter o avanço
do pentecostalismo, mas meios para poder fazer ecoar a palavra de Deus reconhecendo que a “verdadeira doutrina” ou “verdadeira Igreja” não está apenas no catolicismo, mas todas as Igrejas são portadoras das verdades do Cristianismo.
A Igreja apresentada no PAMP é um projeto de Igreja “Ad intra”, na linha da RCC que procura enfatizar as práticas subjetivistas cheias de emoção, envolver os participantes, valorizar a pessoa ouvindo suas dificuldades, conhecendo cada um pelo nome diante da preocupação do avanço pentecostal. Tenta resgatar o corpo como instrumento mediador para com Deus. A subjetividade e o individualismo incorporam o discurso e na prática das Igrejas evangélicas pentecostais na igreja Católica. A Igreja Católica, com a tática inclusivista defensiva, vem adotando o modelo da RCC, tornar-se pentecostal para não perder fieis para o pentecostalismo.
Pluralismo - teocêntrico. O PAMP apresenta, na primeira parte do texto, o
discurso das mudanças rápidas e profundas na sociedade que romperam com as visões hegemônicas da realidade nas últimas décadas. O universo simbólico unitário da cristandade cedeu lugar a interpretações pluralistas; o desenvolvimento tecnológico da economia, da cultura, das idéias, pautado pelo secularismo, acaba por negar a ação de Deus na história. “O pluralismo é um fenômeno incontestável. Daí, certo relativismo e uma sociedade não coesa, de diferentes práticas sociais e religiosas. O que aumenta a idéia que todas as religiões são iguais porque todas buscam a Deus” (CNBB, Sul 1, 4). A teologia pluralista reconhece que há verdades nas diversas religiões, mas nem todas são iguais, embora todas tenham como finalidade conduzir a Deus. Reconhecer os valores presentes nas diversas religiões e denominações cristãs, não é relativismo, mas afirmação do pluralismo religioso presente na pós-modernidade, embora muitas vezes a decisão sobre escolher a religião está apenas nos valores subjetivos. Uma coisa é ter uma mente aberta diante do pluralismo, e outra, bem distinta é pensar que cada um pode fazer uma religião a seu gosto a partir de um sincretismo subjetivo caindo talvez no relativismo religioso. Acreditamos que a escolhia da religião atualmente vai além do subjetivismo e do intimismo.
Apesar de reconhecer que vivemos em época de pluralismo incontestável e o avanço do pentecostalismo, em nenhum momento o PAMP aborda o tema do diálogo ecumênico e muito menos o diálogo inter-religioso. Ao contrário, o documento vê a necessidade do discurso apologético para defender a fé e fazer um chamado para que todos os católicos sejam missionários, indo ao encontro dos afastados através de visitas
missionárias; uma idéia em si excelente, se não fosse apresentada apenas com o objetivo de defender a fé ou de trazer de volta os católicos nominais e os sem religião. O documento não apresenta maior novidade teológica ou pastoral, apenas tem estratégias e táticas defensivas e reitera teses tradicionais já trabalhadas pelo magistério da Igreja com uma atitude exclusivista. O PAMP vem marcar posição no Estado de São Paulo e no Brasil diante do avanço do pentecostalismo e do pluralismo religioso nas últimas décadas.
O projeto que aparece no PAMP reflete a linha de uma Igreja “ad intra”, voltado para a transformação interna, para a manutenção das estruturas eclesiásticas com táticas e estratégias defensivas perante o avanço das Igrejas pentecostais, o que dificulta o diálogo ecumênico e inter-religioso. A proximidade mimética com o pentecostalismo funciona como empecilho para a proximidade do diálogo com as Igrejas pentecostais. A dificuldade é ainda maior com o diálogo inter-religioso. A força da Igreja carismática concentra-se na oferta da salvação quase com exclusividade. As mudanças religiosas analisadas ao longo do texto do PAMP mostram claramente as preocupações e os desafios para a Igreja Católica voltada para si mesma, como conseqüência da perda de fieis para o pluralismo religioso, especificamente para o crescimento do pentecostalismo evangélico brasileiro.