Não há um consenso entre estudiosos sobre suas características, especialmente porque uma das suas características é não admitir uma definição. No entanto, Íñiguez (2002) e Spink (2004) apontam alguns elementos específicos desse movimento.
Um dos seus primeiros postulados consiste no questionamento das verdades acatadas. Há uma frase que aprendamos desde o início da graduação que reflete esta ideia: “Estranhar o familiar e familiarizar-se com o estranho”. Portanto, devemos problematizar o cotidiano, os discursos, a realidade, uma constante tarefa de desnaturalização. A partir do momento em que realizamos o exercício de questionar a forma como olhamos o mundo, passamos a questionar a nós mesmos e a problematizar os discursos que nos constituem. “Provavelmente, essa fórmula, esse princípio básico do construcionismo, é o mais característico: uma constante problematização das ideias e dos conceitos, inclusive daqueles que quase não podemos imaginar distantes de como nos foram ensinados” (ÍÑIGUEZ, 2002, p. 128).
Outro postulado consiste em considerar que todo conhecimento é datado historicamente, produto social e cultural. Compreendemos que o conhecimento é uma prática social como outra qualquer, resultado da interação social permeada pela linguagem. Está inteiramente ligado ao contexto e não existe fora dessa relação. “(...) qualquer conhecimento, da natureza que for, sempre deve ser visto como o resultado de um contexto histórico e cultural, deve-se analisar sua eficácia, função e utilidade no contexto, em vez de entendê-lo como um conhecimento universal” (ÍÑIGUEZ, 2002, p. 129).
Portanto, a construção do saber ou do conhecimento é relativa, está intrinsecamente integrada às condições econômicas, sociais e culturais produzidas ao longo do tempo por determinada sociedade. As nossas ações cotidianas, nossas trocas diárias, os diálogos que estabelecemos irão construir nossa concepção de mundo. Então, todas as formas de interação social são importantes para a construção do saber, resultando no terceiro postulado do construcionismo: todo conhecimento é uma construção coletiva. Assim, as interações mais estudadas por tal perspectiva são as baseadas na linguagem.
Tal fato irá influenciar o último postulado que consiste no conhecimento enquanto inseparável da ação social. Podemos notar que todos os postulados estão interligados.
Nesse exercício de problematização, notamos que o conhecimento produzido e compartilhado possibilita ou impede determinados tipos de ações sociais. Como o construcionismo é uma constante crítica, principalmente à Psicologia, devemos entender que os nossos saberes coletivos sustentam certas formas de relação social, mas excluem outras.
Certas práticas são possibilitadas e outras não. Como, por exemplo, tornamos alguns comportamentos patológicos e outros não, ditamos o que é ser louco ou saudável, entre mais. “Ser construcionista, nesse sentido, é buscar sempre o outro lado: verificar consequências e sua origem, além de problematizar o ponto de vista que aparece como inquestionável ou verdadeiro” (ÍÑIGUEZ, 2002, p. 131).
Mas então o que diferencia uma psicologia convencional de uma psicologia com uma postura construcionista? Durante nosso percurso na graduação e nas teorias dominantes da psicologia, notamos que há uma perpetuação da ideia de que o sujeito possui uma essência única ou uma identidade individual que permanece contínua ao longo do tempo. Inclusive algumas teorias defendem que tal essência deve ser decifrável. Em uma psicologia de orientação construcionista, o sujeito terá tantas identidades individuais quantos forem os contextos em que ele se movimenta. Portanto, a primeira característica de uma psicologia construcionista é o anti-
essencialismo, ou seja, não temos uma natureza determinada ou uma essência.
Quando estudamos as disciplinas de pesquisa na graduação com uma orientação mais convencional, aprendemos que a pesquisa para ter validade e credibilidade diante da comunidade científica precisa apresentar resultados os mais próximos da realidade, critério que se denomina como fidedignidade. Íñiguez (2002) afirma que inclusive estudamos isso porque se pressupõe que há uma realidade independente do conhecimento que podemos gerar sobre ela.
No entanto, no construcionismo uma característica que o diferencia de outros referenciais teóricos é anti-realismo, o qual consiste na negação entre o conhecimento e a percepção direta da realidade. Não consideramos conhecimento como representação da realidade, mas um processo de construção coletiva. O conhecimento não representa a realidade. Não é possível distinguir entre a nossa inteligência sobre o mundo e o mundo como tal.
Não há uma realidade que seja independente da maneira pela qual nos referimos a ela. O acesso à realidade é a partir das formas coletivamente construídas. Nesse sentido, nenhum objeto é dado de antemão. Não existe antes de o definirmos. Não espera que lhe coloquemos uma palavra. O objeto é construído pela convenção linguística utilizada no processo.
(...) não há objeto preexistente às convenções que o constroem. A verdade, portanto, é uma fantasia, já que, para que algo seja verdadeiro no sentindo convencional, deve ter uma entidade externa e independente do sujeito que o observa. (...) o objeto não pode ser definido independentemente do debate social, do processo social da convenção que o nomeia. Não há nenhuma realidade independente do acesso que temos a ela (ÍÑIGUEZ, 2002, p.120).
Spink (2004) afirma que o movimento construcionista rompe com a dicotomia sujeito e objeto, pois não há objetos naturais. Objetos naturais são objetivações de nossas construções, de nossas práticas. Eles são como são porque somos como somos. Tanto objeto como sujeito são tomados como construções sociais. E, como o conhecimento também é uma construção social, é esse socialmente produzido que constrói ambos.
Uma das críticas ao construcionismo social consiste em que esse postulado negaria a realidade e que esse relativismo produziria a máxima: “como tudo é construção social, tudo vale”. No entanto, pontuamos que falar e assumir uma construção da realidade não é negar sua existência. Realidade e existência são diferentes, o que negamos é uma realidade independente de nosso acesso a ela. E salientamos que uma construção social não é estática, é dinâmica. Concordamos com Spink (2004), ao responder sobre tal crítica:
O relativismo suscita a necessidade da reflexão sobre os efeitos daquilo que a gente produz; suscita, portanto, uma reflexão ética. O mérito de acatar tão abertamente uma postura relativista face aos fatos sociais é que ela abre o debate; força a reflexão sobre os efeitos de nossas práticas em pesquisa (p. 28).
Outra característica é a especificidade histórica e cultural do conhecimento (explanado anteriormente). Portanto, podemos refletir que as teorias psicológicas também são produtos de um tempo e de uma cultura determinada e não podemos compreendê-las como descrições definitivas da natureza humana.
Diante disso, podemos refletir que nossa concepção de mundo não deve ser buscada na realidade objetiva, mas em nossas relações cotidianas, na nossa história cultural e social. E tal acesso e construção se dá por meio da linguagem, a qual não é apenas uma forma de expressar o que está em nossas cabeças, um estado mental ou afeto. Ela é muito mais que isso, ela constrói nosso mundo, nossas emoções e nossa experiência psicológica. Essa compreensão resulta em duas características essenciais do construcionismo: a linguagem é condição prévia indispensável ao pensamento e a linguagem é uma forma de ação social. Portanto, a fala nunca é uma ação individual, mas coletiva constituindo-se como um processo em constante negociação.
É importante salientar que o processo de ação de linguagem não se produz enquanto uma pessoa fala,
(...) as explicações que procuramos, nossa compreensão de como são as coisas, não se encontram na mente individual nem nas estruturas sociais, mas nos processos interativos dos quais participamos cotidianamente. Ou seja, (...), as cognições, não estão NAS pessoas, estão ENTRE as pessoas. (...) Do ponto de vista construcionista, a interação focaliza-se nos processos em que se
encontram os conhecimentos, as cognições, as representações, os valores, as atitudes etc (ÍÑIGUEZ, 2002, p. 140).
Tal afirmação nos dá a base para compreender que o conhecimento é algo que as pessoas fazem juntas e não algo que as pessoas possuem. Essa é a última característica que diferencia esse referencial da psicologia convencional: a ênfase nos processos. Portanto, o conhecimento não é algo que se tem, não é uma propriedade que alguns possuem e outros não, sempre é resultado de uma ação coletiva.
Como os processos sociais são extremamente importantes nesse referencial, a análise dos repertórios linguísticos é uma das propostas metodológicas para analisar tais processos. Não podemos afirmar que existe um método único, mas o que é comum ao processo metodológico dos construcionismos é uma postura desreificante, desnaturalizante, desessencializadora.
Sobre as implicações ético-políticas deste movimento, podemos problematizar como o poder orienta a pesquisa. Os interesses econômicos e políticos incidem sobre as pesquisas, tanto em relação ao financiamento quanto ao que se deve pesquisar. É preciso problematizar sempre para entender os efeitos que produzimos. Não há pesquisador neutro. Pesquisar por si só já é um ato político.
Se a psicologia tem uma dimensão política porque estuda processos políticos, porque está assentada no poder ou porque produz conhecimento para as sociedades, seus cientistas devem decidir, em cada momento, a quem servir. Sabendo que nosso trabalho está relacionado a isso, devemos decidir em que direção queremos contribuir, (...) não há solução externa, não há critério que nos permita dizer o que devemos fazer ou não. (...) temos de ser reflexivos com nosso trabalho, analisando para onde nos conduz, e, portanto, desenhando o modo de orientar os processos sociais em um sentido que nos pareça eticamente mais comprometido (ÍÑIGUEZ, 2002, p. 152).
A partir do nosso referencial teórico, é um posicionamento ético-político dar visibilidade aos procedimentos de pesquisa, à interpretação e à dialogia presente no contexto do trabalho em que nós, enquanto pesquisadores, nos posicionamos e somos posicionados. Tendo em vista que a produção do conhecimento é sempre contextual e situada no tempo, dar visibilidade aos nossos passos de análise corresponde ao rigor metodológico e possibilita aos leitores identificar os passos de análise e compreender as interpretações desenvolvidas pelos pesquisadores (NASCIMENTO; TAVANTI; PEREIRA, 2014).
Assinalamos que atualmente o construcionismo tenta avançar na direção de romper a dicotomia humanos e não humanos, à medida que incorpora aspectos não linguísticos, ou seja, leva em conta materiais que permeiam todas as trocas linguísticas (SPINK; MEDRADO;
MÉLLO, 2014). Essa discussão é herança das problematizações realizadas pela Teoria Ator- Rede (TAR) que busca estudar fenômenos que envolvem matrizes de atores4 e atrizes
(humanos/as e não humanos/as) em toda complexidade. Implica considerar que não construímos a realidade sozinhos, porém agimos em conjunto com os mais variados elementos, tanto humanos quanto não humanos, tanto naturais quanto sociais (CORDEIRO; CURADO; PEDROSA, 2014).
A influência da TAR no construcionismo nos levou a aliar as contribuições de Anemarie Mol para nos auxiliar a compreender as diferentes versões de realidade, especificamente em nosso estudo as diversas versões de Apoio Matricial. Mol também nos ajuda refletir sobre “Ontologias Políticas” (MOL,2008). Isso nos traz também um desafio: como retratar essa complexidade. Assumimos este desafio no terceiro capítulo.
3.2. Práticas Discursivas e Produção de Sentidos
Após essa breve explanação sobre o construcionismo social, enfocamos nesse tópico o referencial teórico que utilizamos para compreender o fenômeno do Apoio Matricial.
O foco central de análise na abordagem construcionista são as práticas discursivas. Implicam em ações, seleções, escolhas, linguagens, contextos, enfim, uma variedade de produções sociais das quais são expressão (SPINK; FREZZA, 2013). O termo “práticas discursivas” é uma expressão utilizada para demarcar e distinguir o foco de interesse das pesquisas voltadas para o papel da linguagem na interação social, como já discutimos anteriormente (SPINK; MEDRADO; MÉLLO, 2014). São consideradas como meios privilegiados para compreender a produção de sentidos no cotidiano.
Sentido aqui é compreendido como “uma construção social, um empreendimento coletivo, mais precisamente interativo, por meio do qual as pessoas – na dinâmica das relações sociais historicamente datadas e culturalmente localizadas – constroem os termos a partir dos quais compreendem e lidam com as situações e fenômenos a sua volta” (SPINK; MEDRADO, 2013). A produção de sentidos é um processo sociolinguístico que é construído quando mais de duas vozes se confrontam: a voz de um ouvinte responde à voz de um falante. Esse confronto, ou melhor, essa interanimação, não é necessariamente física, o pensamento é dialógico. A pesquisa também é um processo de produção de sentidos perpassada pela interanimação de diversas vozes (SPINK, 2000).
4 Na TAR, Ator/actante/atuante é tudo aquilo que tem agência, que produz efeitos transformações, desvios. É qualquer coisa que atue ou modifique a ação (CORDEIRO; CURADO; PEDROSA, 2014).