Como já colocado anteriormente na seção 1.2.2, a estratégia adotada pela pesquisadora para a sua inserção em campo foi de utilizar como principal auxílio quatro guias turísticos com mapas ilustrados. Tais mapas, datados nos anos de 2011, 2013, 2015 e 2016, possuem informações breves do município, fotos de pontos turísticos, alguns com calendário dos eventos anuais e um mapa ilustrativo com comércios locais e pontos de artesanato. (ANEXO A)
O objetivo desses mapas é trazer aos turistas os principais atrativos da cidade, sendo este o principal recurso de auxílio ao turismo. Ao analisar os mapas é possível observar controvérsias relacionadas aos pontos de artesanato local e a complexidade na interpretação dos mesmos, dificultando o percurso de quem não tem familiaridade com o município por esses atrativos.
Nesse momento da pesquisa tem-se o que Latour (2012) considera ser o fruto de ações heterogêneas, pois os agentes não humanos passam a ter ações sobre os humanos. Quando em contato com os mapas, tem-se o que o autor considera como objetos intermediários e silenciosos passando a assumir o papel de mediadores. Ou seja, os mapas eram até então autônomos e exerciam sua função mesmo sem a interferência da pesquisadora, no entanto, quando os mapas manifestam uma ação heterogênea em conjunto com a pesquisadora se tem acesso a primeira controvérsia gerada por eles. Pois não atendem a função a que se propõem, que é o de facilitar a localização dos turistas em São Bento do Sapucaí.
Aqui, o problema de Design relatado vai além dos artefatos artesanais, pois dificulta o acesso a eles. A análise dessa controvérsia revela outro elemento não humano fundamental para essa compreensão, a representação gráfica utilizada nos mapas. Portanto, aqui, o Design Gráfico encarrega-se do seu papel diante do artesanato local que é o de auxiliar na sua visibilidade. E, portanto, oferece uma nova possibilidade de atuação tendo em vista as interferências que já haviam ocorrido no município. E que tinham por intuito principal transformar o artesanato apenas por meio dos artefatos.
Nesse momento é importante salientar qual a importância das controvérsias para Latour (2012) e Pereira e Boechat (2014). Para eles, elas são ideais para a análise da formação de estruturas sociais, pois evidenciam atores, relações e agências que de outra forma poderiam passar despercebidas. De outra maneira, não seria possível observar essa agência entre o mapa e a pesquisadora e a relevância dela para a compreensão do artesanato local.
Outro ponto importante relatado anteriormente na seção 1.2.3 e que merece destaque para a compreensão da ação dos objetos, se deu no Campo 3 – “Coleta de Dados Oficiais e Fontes Preliminares”, mais precisamente na fala da subsecretária de turismo, que enfatiza a relevância do site da Prefeitura como fonte de dados sobre o artesanato local. E, que, portanto, reforça a perspectiva de Latour (2012) diante da ANT, que diz que os objetos também agem e causam transformações, ou seja, a“continuidade de um curso de ação raramente consiste de conexões entre humanos ou entre objetos, mas, com muito maior probabilidade, ziguezagueia entre umas e outras” (LATOUR, 2012, p. 113).
Deste modo, ao explorar o site e se atendo ainda aos mapas, observa-se que tal recurso se mantém como principal auxílio ao turismo. Isso se justifica, pois, quando em acesso a aba “Turismo” do Menu Principal do site, tem-se como primeira aba a subcategoria “Informações Geográficas”, onde é possível ter acesso ao mapa do Google Maps (1) de São Bento do Sapucaí (2) (
Figura 53) e ao mapa ilustrado com os principais atrativos turísticos naturais e informações dos principais acessos ao município. No entanto, tal mapa, apresenta dificuldade e pouca legibilidade das informações, não sendo possível ampliá-lo para melhor interpretação.
Figura 53 Captura de Tela – Informações Geográficas
Fonte: Site da Prefeitura de São Bento do Sapucaí. Disponível em: https://www.saobentodosapucai.sp.gov.br/site/informacoes-geograficas/
Até esse momento da pesquisa, fica clara a importância assumida pelos atores não humanos para a compreensão deste social tendo em vista as redes que se conformaram até aqui. Portanto, agora, o lema que antes era apenas “siga os atores” passa a ser complementado por “siga os atores enquanto enveredam pelo meio das coisas que acrescentaram às habilidades sociais para tornar mais duráveis as interações em perpétua mudança” (LATOUR, 2012, p.104).
Logo, ao retomar a entrevista realizada com a subsecretária de turismo, onde destaca a necessidade de se atentar também as informações contidas no site, confirma-se que
A ANT não alega, sem base, que os objetos fazem coisas “no lugar” dos atores humanos, diz apenas que nenhuma ciência do social pode existir se a questão de o quê e quem participa da ação não for logo de início plenamente explorada, embora isso signifique descartar elementos que, à falta de termo melhor, chamaríamos de não humanos. [...] O projeto da ANT cifra-se em ampliar a lista e modificar as formas e figuras dos participantes reunidos, esboçando uma maneira de fazê-los agir como um todo durável. (LATOUR, 2012, p. 109)
Dando sequência a investigação acerca do site, tem –se que a rede responsável pela identificação do artesnato local formada é pelos atores representados abaixo, que estão identificados por três diferentes cores que fazem referência às categorias que estão localizados, sendo elas: “Arte e Artesanato”; “Atrativos Turísticos” e “Roteiros Turísticos”. Percebe-se que não há nenhuma associação simbolizando a ação dos atores, visto que, essa rede se propõe apenas a fazer um levantamento de como os pontos de artesanato estão distribuídos no site.
Figura 54: Pontos de Artesanato Site
Fonte: elaborado pela autora.
No entanto, apesar de se mostrar necessário esse recorte, a pesquisadora optou por fazer uma breve análise de como se dão as associações em cada categoria do site de modo a listá-las para compreensão do quão vasto é esse mundo social. No entanto, para o que se destina essa pesquisa, se faz necessário reduzir e limitar algumas análises e relatos para não perder o principal, que é a reflexão em torno da relação Design e artesanto. E, portanto, as redes aqui representadas serão tidas apenas como um modo de exemplificar a teoria utilizando dos dados levantados.
Desse modo, dando sequência a investigação do artesanato no site, tem-se a primeira rede, de acordo com a primeira destinada a tal, localizada na aba “Turismo”, “Arte e Artesanato”. Posteriomente, segue-se para as redes ilustradas pela figura 55, a qual representa a categoria “Atrativos Turísticos” e a rede da figura 56, representado a categoria “Roteiros Turísticos”.
Figura 55: Rede Arte e Artesanato
Fonte: elaborado pela autora.
Na rede representada pela
Figura 55, estão distinguidos os principais atores de acordo com as associações de seus materiais, sendo as circunferências maiores os atores com maior nível de agência e as menores, os de menor agência. As associações foram identificadas com diferentes cores que representam o principal material utilizado na produção de seus artefatos.
A variação de cor utilizada no ator “Agroarte” é para identificar a associação relacionada a proximidade de matéria –prima com o “Arte no Quilombo”, no caso, ambos utilizam do resíduo da bananeira. Já a variação do “João do Boi” não se dá pelo material, por isso a ausência de ligação com a associação das selarias, no entanto, se aproxima pela temática relacionada a cavalos.
Figura 56: Rede Atrativos Turísticos
Fonte: elaborado pela autora.
Já para a representação da rede de Atrativos Turísticos acima optou-se pela classificação de acordo com a categoria artesanal a qual se enquadram e sua associação com o Monumento Natural da Pedra do Baú. Neste caso, os atores maiores são representados pelos principais pontos de artesanato e aqueles que se repetem da primeira rede. Também se optou por trazer os atrativos turísticos naturais, relacionados ou não, com o Monumento Natural da Pedra do Baú, por compreender a relevância de tais para o entendimento dessa rede.
Figura 57: Rede Roteiros Turísticos
Fonte: elaborado pela autora.
A rede aqui representada, traz como principais atores e de maior circunferência os que repetiram nas redes anteriores. Sendo as associações realizadas a partir das semelhanças identificadas entre eles, tipo de artefato produzido (artesanato local/regional), caráter do local de comercialização (ateliê) e material utilizado (fibra/palha de bananeira). Já os demais atores representados em cinza não apresentam associações relevantes para o entendimento dessa rede. Apesar da breve análise levantada nessa seção a respeito da importância dada a ação dos objetos destaca-se, mais uma vez, a necessidade de não se ampliar a discussão em torno desses dados, o que é justificado seguinte afirmação de Latour (2012):
Quando definimos o controle de qualidade dos relatos da ANT, temos de ser bastantes escrupulosos e constatar se realmente o poder e a dominação são explicados pela multiplicidade de objetos aos quais se atribui um papel capital e que são transportados por veículos empiricamente visíveis. (LATOUR, 2012, p.123)
Portanto, compreende-se o site da prefeitura como sendo um ator não humano responsável por um vínculo social importante para a compreensão dessa pesquisa, visto que é
tido como um veículo empírico responsável pelo armazenamento de informações de como se configura esse artesanato, mas que também se dá pela ação de um ator humano, a subsecretária de turismo, que é a responsável pelo desenvolvimento do conteúdo e alimentação do site.
Por fim, conclui-se que, “os objetos pela própria natureza de seus laços com os humanos, logo deixam de ser mediadores para se transformarem em intermediários, assumindo importância ou não, independentemente de quão complicados possam ser por dentro” (LATOUR, 2012, p.119). Nesse momento, o site se torna então um intermediário responsável apenas por armazenar informações que foram utilizadas para compreensão a respeito do artesanato local.