O coping tem orientado inovadoras linhas de investigação no sentido de compreender os processos que o ser humano desenvolve para gerir o stress e identificar metodologias para controlar esse fenómeno, cujas consequências são bastante devastadoras ao nível da saúde e do bem-estar geral dos sujeitos (Pereira, 2006). Deste modo, sendo o coping um esforço físico, cognitivo ou comportamental que os indivíduos acionam para resolver exigências específicas que sobrecarregam ou excedem os recursos que têm ao seu alcance (Lazarus & Folkman, 1984,
Pereira, 2001), as estratégias de coping não serão mais do que orientações estabelecidas pelos indivíduos para lidar com situações se stress.
Ao mesmo tempo, é importante recordar que as situações de stress, poderão ser de dano, quando a ocorrência alvitra uma perda dolorosa para o sujeito, de ameaça, se o acontecimento sugerir que os recursos ou capacidade que o indivíduo apresenta não são suficientes para a sua superação, ou de desafio, no caso dos eventos ocorridos serem encarados positivamente, como um exercício de incitação ou melhoria dos recursos disponíveis (Lazarus & Folkman, 1984). Ora, os indivíduos poderão desenvolver uma ou mais estratégias de coping para cada uma das situações de stress referidas, o que resultará numa clara vantagem psicológica e social, já que contribui para o restabelecimento do equilíbrio, estabilidade e harmonia dos indivíduos e, por conseguinte para a sua saúde e bem-estar a longo prazo, ou seja, para a sua qualidade de vida.
Evidências empíricas sugerem que o coping envolve o planeamento ou a antecipação de potenciais barreiras ou obstáculos na vida dos indivíduos, funcionando como uma estratégia autorreguladora (Arbour-Nicitopoulos, Ginis, & Latimer, 2009). Exemplo do funcionamento desse mecanismo de autorregulação poderá ser o tempo de lazer. Wijndaele et al. (2007) defendem que as atividades desenvolvidas durante o tempo de lazer, designadamente relacionadas com o exercício físico, têm efeitos positivos na redução do stress, na medida em que os indivíduos se tornam capazes de controlar situações de dificuldade ou de desafio em termos físicos. Freire (2013) acrescenta que o lazer pode contribuir para o desenvolvimento positivo dos indivíduos, já que produz impactes na sua identidade (pessoal, social e de pertença), na sua forma de adaptação às situações e na convergência dos seus recursos pessoais para a sua evolução, tendo em vista a trajetória da saúde.
Investigação realizada acerca da população com incapacidade sugere que o exercício ou a atividade física poderá ajudar a diminuir ou atenuar sentimentos depressivos nos indivíduos, demonstrando simultaneamente que atividades promotoras de bem-estar, tais como exercício, reabilitação ou recreação, reduzem comprovadamente a fadiga e contribuem para o aumento significativo de condições de saúde secundárias, como o aumento da qualidade de vida, da participação social e da integração e inclusão globais dos indivíduos com incapacidade na sociedade (Vanner et al., 2008). Muito embora, viver de forma ativa seja muito importante para qualquer pessoa, o significado que se atribui à “vida ativa” varia de indivíduo para indivíduo e das circunstâncias em que este se encontra. Por exemplo, enquanto um grupo de aborígenes sobrevaloriza os aspetos culturais e espirituais na sua perceção de vida ativa, outro grupo de pessoas com incapacidade enfatiza a interação e contacto social no seu conceito de vida ativa (Iwasaki et al., 2006). Nesta perspetiva, os resultados das atividades de lazer poderão evocar processos psicológicos de coping, melhorando a autoestima, a autoeficácia e até a energia dos indivíduos (Wijndaele et al., 2007), ajudando os indivíduos a ganhar competências que lhes permitam encarar uma situação stressante no futuro, não como uma situação ameaçadora, mas sim como um acontecimento oportuno para colocar as suas capacidade à prova, ou seja, como um
Desta maneira, o lazer apresenta-se como uma solução para o controlo do stress, isto é, como uma estratégia de stress-coping. O lazer enquanto atividade recreativa em que os indivíduos participam voluntariamente durante o tempo livre, ou tempo de não trabalho ou obrigação, envolvendo ocupação, mas igualmente liberdade e construção pessoal através de ações individuais (Santos, Ribeiro & Guimarães, 2003), poderá, deste modo, ser apontado como método de controlo do stress (Folkman & Moskowitz, 2004).
O stress-coping é fulcral para a sobrevivência dos indivíduos nas sociedades modernas, acentuando-se, cada vez mais, como um pilar de sustento e prossecução de um estilo de vida saudável. As fontes de stress, ou seja, os danos, as ameaças ou os desafios com que os sujeitos se deparam ao longo da vida, bem como os mecanismos ou estratégias que desenvolvem para lidar com elas, são fatores de sucesso para o incremento da harmonia do dia-a-dia e, consequentemente, para a sua qualidade de vida. O papel do lazer no stress-coping é central e inseparável da natureza ou fontes de stress e das funções ou mecanismos de coping desenvolvidos pelos indivíduos (Iwasaki et al., 2006; Kleiber et al., 2002). Deste modo, é essencial examinar as formas como os sujeitos se envolvem no lazer para lidar com o stress, assumindo-se que a gestão ou controlo do stress é um componente fundamental à sua sobrevivência (Iwasaki et al., 2006). Na investigação realizada por Iwasaki, et al. (2006), concluiu-se que os participantes, entre eles um grupo com incapacidade, falavam abertamente acerca dos seus esforços em lidar de forma pró-ativa com o stress e demonstravam um “espírito de sobrevivência” e sentido de resiliência. De notar é o facto do lazer ativo ter sido um dos fatores chave neste processo, ou seja, para além da atividade física, os participantes referiram várias formas de lazer como estratégia de coping com situações de stress, tais como atividades sociais, culturais e espirituais, tendo contribuído para a sua perseverança e forças físicas e psicológicas.
Neste sentido, sugere-se que o lazer tem o potencial de operar como um meio ou instrumento de gerir e lidar com o stress de forma efetiva (Iwasaki & Schneider, 2003), já que surge como recurso de stress-coping no âmbito de vários estudos, comprovando-se a sua importância e papel ativo na gestão do stress e na manutenção e melhoria da saúde e bem-estar (Coleman & Isoahola, 1993; Hull & Michael, 1995; IsoAhola & Park, 1996; Iwasaki & Mannell, 2000; Iwasaki & Smale, 1998; Zuzanek, Robinson, & Iwasaki, 1998).
Alcançar e manter um nível ótimo de saúde e bem-estar é um objetivo genérico na vida de qualquer pessoa e, claro está, não menos importante para as pessoas com incapacidade, simplesmente, será tipicamente mais difícil (Wilhite & Shank, 2009). Segundo os mesmo autores, hoje em dia, o conceito de saúde dita que, não só é possível que a população com incapacidade alcance e mantenha a sua saúde, mas ainda que é imperativo que se contemple o seu bem-estar global, nomeadamente a sua participação total e ativa no âmbito da educação, emprego, família, comunidade e lazer.
Dentro de vários tipos de recursos e estratégias de coping, o lazer revelou ser gerador de suporte social, da perceção de liberdade e sentido de controlo ou autodeterminação (IsoAhola & Park,
1996). Sabendo que o suporte social envolve a perceção de que o indivíduo é acarinhado e estimado pelos que o rodeiam, é importante sublinhar que no caso da população com incapacidade, este aspeto é um dos mais importantes na gestão do stress, existindo literatura comprovativa que os indivíduos com incapacidade demonstram grande recetividade ao apoio emocional proporcionado por outros, quando eles próprios se encontram a lidar com aspetos tangíveis da fonte de stress (McColl et al., 1995)
Kleiber et al (2002) defendem ainda que o lazer como recurso de coping serve para minimizar o impacto de situações de vida negativas, na medida em que proporciona distração, otimismo e impulsiona a preservação do autoconceito dos indivíduos. Investigações recentes (Iwasaki, MacTavish, & MacKay, 2005; Iwasaki & Mannell, 2000; Schneider & Iwasaki, 2003) têm explorado o lazer enquanto estratégia de coping, particularmente na população com incapacidade, verificando-se que promove apoio social e autodeterminação, proporcionando perceções de liberdade e controlo, essenciais ao stress-coping.
Reconhece-se que há situações em que o lazer pode ser uma ameaça para os indivíduos. Por exemplo, no caso singular do turismo, muitos indivíduos com incapacidade têm simplesmente optado por não participar, devido aos malefícios de ansiedade e stress que essa participação implica, sobretudo devido à falta de empatia dos seus pares sem incapacidade (Richards et al., 2010). No entanto, estudar-se-á ao longo do ponto subsequente, considerando o pressuposto inicial da aplicabilidade teórica no âmbito do lazer à área de investigação particular do turismo, o papel do turismo como experiência de lazer positiva, assumindo-se que as pessoas procuram experiências agradáveis e pessoalmente relevantes quando praticam turismo, ao invés de tempo livre per se (Hutchinson et al., 2003). Kleiber et al. (2008) defendem que as atividades que oferecem oportunidades positivas que sejam pessoalmente expressivas e que, ao mesmo tempo, ofereçam experiências gratificantes que suscitem sentimentos de competência, são as mais benéficas para o coping. Neste sentido, crê-se que o turismo poderá ser uma das soluções mais adequadas já que é sinónimo de vários benefícios importantes para os indivíduos, especificamente para os indivíduos com incapacidade, tal como há foi referido no ponto 3.4, do Capítulo III, revelando-se como um possível instrumento de coping interativo, tal como se pretende esclarecer de seguida.