Cada espaço da Fundação tem seu próprio serviço educativo, tanto parque quanto museu. Apesar de ambos realizarem trabalhos colaborativos, cada um tem seus próprios programas e equipes, sendo o do parque voltado a produção agrícola e as ciências, enquanto o
do museu é direcionado à arte contemporânea. O serviço educativo do museu de Serralves tem por objetivo:
sensibilizar e motivar os diferentes públicos para as temáticas da arte, da arquitectura, do ambiente e da cidadania; reforçar a articulação museu/escola através de um trabalho continuado e em parceria; integrar momentos de formação, de partilha de conhecimentos e experiências que estimulem uma aproximação criativa e dinâmica à cultura contemporânea (LEITE; VICTORINO, 2008, p. 11).
O serviço educativo do museu é coordenado por Denise Pollini desde 2015, quando esta migrou para Portugal após candidatar-se para a vaga de coordenação que hoje ocupa, tendo sua formação acadêmica e experiência na área até então no Brasil. A referida coordenadora foi entrevistada para esta investigação em 22 de dezembro de 2017 (Apêndice U). Quando, nesta investigação, nos referirmos a essa entrevistada, ela será mencionada como coordenadora, cargo também chamado pelo Referencial Europeu das Profissões Museais (ICOM, 2008, p. 29) como “responsável pela mediação e serviço educativo”, ou seja, aquele que “coordena os programas, actividades, estudos e pesquisas relacionadas que divulguem junto dos públicos existentes e potenciais as peças/os objectos propostos pelo museu”. Suas responsabilidades são:
Ele/Ela participa, sob a responsabilidade do director /da directora, na definição da política de públicos e define o programa e as actividades em função do conjunto dos públicos-alvo. Para isso, ele/ela estabelece uma rede de organismos exteriores que funcionem com pontos de ligação junto dos públicos-alvo;
Ele/Ela associa os diferentes responsáveis cientifícos do museu às acções, á concepção e à realização dos documentos de apoio à visita;
Ele/Ela é responsável pela formação de mediadores/mediadoras. Ele/Ela participa na formação do pessoal de acolhimento e vigilância;
Ele/Ela participa na realização das exposições. Ele/Ela prepara e disponibiliza os instrumentos de avaliação dos programas e das acções. (ICOM, 2008, p.29)
A formação exigida pelo mesmo documento é também de formação em mestrado, com dupla competência, sendo uma ligada às coleções do museu e outra em museologia ou pedagogia. Nossa entrevistada atende a ambos os requisitos, tendo formação nas áreas de artes plásticas e educação.
A equipe do serviço educativo não tem um número fixo de colaboradores, pois há uma equipe que trabalha integralmente na administração, como Denise, e os mediadores, que propõem as oficinas e/ou visitas, “mas por volta de 15 (quinze) educadores participam do projeto e desenvolvem as oficinas a partir do tema” (Denise Pollini, coordenadora, Apêndice U, p. 449).
A coordenadora e o museu de Serralves denominam os profissionais que lidam diretamente com o público de “educadores”, nomenclatura de origem anglo-saxônica e frequentemente utilizada em outros países. Em Portugal, também são utilizadas as expressões “mediador”, “guia de visitas”, “animador” e “monitor”, os quais já possuem formações direcionadas para atuação nesses espaços a nível de graduação, especialização e mestrado. No entanto, quem ministra aulas na Educação Infantil é também chamado de educador e não considero que quem planeje atividades a serem desenvolvidas para o museu esteja apenas monitorando. Deste modo, quando me referir aos profissionais que trabalham no serviço educativo, em contato com escolas e estudantes, opto por chamá-los de mediadores, também assim denominado pelo documento de Referencial Europeu das Profissões Museais (ICOM, 2018, p. 30), e que “está encarregue de executar as diferentes actividades para todos os públicos actuais e potenciais”. Dentre as atribuições:
Ele/Ela participa na conceção e animação das actividades e dos documentos de ajuda que acompanham as exposições de longa duração e as exposições temporárias;
Ele/Ela participa na avaliação dos programas e das actividades;
Ele/Ela informa os/as responsáveis sobre as necessidades e expectativas do público no desenvolvimento de novos programas ou de novas actividades. (ICOM, 2008, p.29)
Foram entrevistados 06 (seis) mediadores que prestam serviços para o serviço educativo e que, geralmente, estão envolvidos no Projeto Anual com Escolas. Eles estiveram também na edição 2016/2017 do respectivo Projeto Anual, sendo que alguns preferiram manter o anonimato:
Raíssa (nome fictício), entrevistada em 07 de julho de 2017 (Apêndice I); Isa (nome fictício), entrevistada em 19 de julho de 2017 (Apêndice J); Ana Vieira Neto, entrevistada em 20 de julho de 2017 (Apêndice K); Joana Mendonça, entrevistada em 20 de julho de 2017 (Apêndice L);
Angela (nome fictício), entrevistada em 06 de setembro de 2017 (Apêndice M); Malu (nome fictício), entrevistada em 12 de setembro de 2017 (Apêndice N). Também foram entrevistados mediadores que estiveram envolvidos no projeto em edições anteriores, de modo que pudéssemos perceber os diferentes discursos que permeiam o projeto em sua trajetória. Os entrevistados foram:
Sónia Borges, entrevistada em 20 de junho de 2017 (Apêndice H); Samuel Silva, entrevistado em 07 de novembro de 2017 (Apêndice R).
Sónia, além de ter trabalhado como mediadora no projeto em algumas edições, também é responsável pela criação das “Folhas de família” em Serralves, que ficam disponíveis no hall de entrada do museu, destinado para visitas de crianças, de maneira que propõe atividades a serem desenvolvidas a partir da exposição. Ela também desenvolveu uma folha de família referente ao Projeto Anual com Escolas na edição 2017/2018. O entrevistado Samuel Silva, além de colaborador em várias edições como mediador, também coordenou uma edição do projeto, em um período de transição de coordenações do serviço educativo e tem artigo publicado, no qual realiza uma reflexão sobre o projeto, com o título “A reexistência do Projeto Anual com Escolas ou algumas pedras pequeninas que se atiram à água” (SILVA, 2016).
A exigência mínima para o exercício da profissão de mediador é “diploma universitário de primeiro ciclo numa das disciplinas ligadas às colecções dos museus e/ou em pedagogia e/ou em comunicação” (ICOM, 2018, p.30). Como verificado na coleta de dados, os mediadores têm as formações mais variadas, sendo que nenhum deles tem a formação inicial específica para atuação na área educativa de museus, mas em áreas ligadas às artes e à cultura, perfazendo o requisito mínimo, revelando que adentraram nesse espaço por diferentes meios, em sua predominância por convite de pessoas que já atuavam no serviço educativo dessas instituições. Dos entrevistados, temos as seguintes formações:
04 Formados em Pintura nas Belas Artes; 02 em Arquitetura;
01 em Escultura nas Belas Artes; 01 em Antropologia.
Profissionais com formação variada, enquanto integrantes do serviço educativo, possibilitam que sejam desenvolvidos trabalhos em diferentes áreas, promovendo a interdisciplinaridade. Porém, o fato de prestarem serviços ocasionais não permite que se dediquem integralmente a esta função. Francisca Hernández, especialista em museologia, já detectava essa problemática na década de 90:
na maioria dos museus, esses profissionais não gozam de reconhecimento oficial, portanto, seu trabalho é reduzido a colaborações ocasionais. [...] consequentemente, o pessoal estável desses departamentos é insuficiente, incapaz de assumir a implementação dos programas educacionais (HERNÁNDEZ, 1994, p. 268, tradução nossa)24.
24 Sin embargo, en la mayoría de los museos, estos profesionales no gozan de reconocimiento oficial, por lo que
Além dos membros do serviço educativo já mencionados, também foi entrevistada uma das idealizadoras do Projeto Anual com Escolas, a professora Elvira Leite, que coordenou o projeto por 12 (doze) anos e também prestava assessoria ao serviço educativo nas demais atividades ofertadas e executadas pelo setor. Consideramos que, apesar de a mesma já não trabalhar com o projeto, poderia elucidar o surgimento do mesmo, tal como seu percurso, contribuindo para uma percepção crítica e enriquecendo, assim, a investigação. A referida entrevistada, professora reformada com vasta experiência na rede pública de ensino e autora de livros sobre a temática de projetos, foi entrevistada em 21 de novembro de 2017 (Apêndice S).
Outra entrevistada foi Catarina Providência, uma das sósias da Empresa Cariátides, que organiza eventos e exposições e tem colaborado desde a segunda edição do Projeto Anual com Escolas, sendo responsável pelo desenho expográfico das exposições escolares. Catarina foi entrevistada em 21 de novembro de 2017 (Apêndice T).
Apresentados todos os entrevistados, trago trechos de entrevistas para explanar sobre o serviço educativo do Museu de Serralves, na perspectiva de seus membros, e do Projeto Anual com Escolas, reforçando o exposto até o momento sobre a área educacional nos museus.
A diretora do serviço educativo de Serralves, Denise Pollini, quando concedeu a entrevista, ressaltou que também percebeu crescente procura e discussão no âmbito da mediação cultural nos espaços museais na primeira década de 2000, o que condiz com os dados já apresentados sobre o aumento do número de museus, tal como da oferta e procura por programas educativos a partir da década de 90 e ano 2000:
quando eu entrei no serviço educativo, já se discutia muito mediação, mas isso estava ainda longe de ser alguma coisa já estabelecida. Quando eu começo a trabalhar nessa área de visitação discursivas, há um número muito grande de pessoas e gradualmente com muito mais força a partir de 2004, 2005, nota-se uma enorme diferença na atuação dos serviços educativos, pelo menos na minha experiência (Apêndice U, p.442).
O Projeto Anual com Escolas, que foi um dos projetos acompanhados nesta investigação, já está ativo no programa do serviço educativo desde 2002, tendo uma estreita relação com o desenvolvimento e o historial do campo educacional do museu, conforme palavras da coordenadora:
É projeto muito importante para o histórico do serviço educativo de Serralves! […] Foi um projeto de estabelecer uma parceria e um trabalho em conjunto com as escolas, de longa duração. […] Imaginar esse serviço
departamentos es insuficiente, no pudiendo asumir la puesta en práctica de los programas Educativos (HERNÁNDEZ, 1994, p. 268).
educativo, sem o Projeto Anual com Escolas, eu ficaria um pouco assustada (Denise Pollini, coordenadora, 2017 ).
O serviço educativo de Serralves se dispôs, por intermédio de sua coordenadora, a ceder a entrevista e ofertou cadernos publicados sobre o projeto, autorizando também minha participação em reunião, seminário e oficina com professores. Alegando uma reestruturação interna, foi negado acesso a documentos ou arquivos relacionados ao projeto, bem como informações de contato com professores participantes ou participação em oficinas com alunos na instituição.