A África do Sul sediou a Copa do Mundo de 2010, ocorrendo entre 11 de junho e 11 de julho. Os jogos ocorreram em nove cidades e de acordo com Farias (2014a), nem todos os investimentos para o megaevento foram positivos. Exemplos para tal fato são oito dos dez estádios construídos em nove cidades-sede que estão sem uso, como foi o caso do Green
Point, na cidade do Cabo, já que sua construção se deu em um local onde já havia outras três
instalações esportivas adequadas ao futebol. Em virtude disso, o Governo chegou a cogitar até mesmo a sua demolição, devido aos altos custos de manutenção (Farias, 2014a).
Em contraposição, destacam-se as infraestruturas com relação ao transporte, sendo as mais visíveis, e em segundo plano uma melhoria nas telecomunicações e no aeroporto (Joffe, 2010), todavia, não foram completamente finalizadas para o início da Copa (Farias, 2014a). Segundo uma entrevista realizada com Peter Alegi, professor de História Africana da Universidade Estadual de Michigan (Fellet, 2014a), existiu um sentimento de orgulho por grande parte da população sul-africana por estar desfrutando da melhora no seu padrão de vida desde 1997, visto que a classe média, formada principalmente por negros, adquiriu novos empregos, residência própria e conquistou a liberdade de pensamento e opinião.
De acordo com entrevistas realizadas pela BBC Brasil, em 2014, com moradores de diferentes locais na África do Sul, houve maior reconhecimento do país após os jogos. O evento gerou uma imagem positiva da África do Sul para as pessoas de outros países, que a partir da mídia, aumentou o número de turistas no local (Remus, 2011). Ademais, a população sentiu-se mais unida, juntou classes e culturas diferentes, além de reconhecer as melhorias no transporte público, visto que houve a inserção de ônibus BRTs (Bus Rapid Transit), sendo
esse uma solução moderna para o transporte urbano, utilizando tecnologia sobre pneus que opera em vias dotadas de faixas exclusivas para ônibus, e uma linha de trem em alta velocidade em Johanesburgo. Entretanto, devido aos altos preços mesmo após quatro anos do megaevento, tais serviços podem ser utilizados somente por aqueles com melhores condições econômicas (Fellet, 2014b).
Em contraposição, entrevistas realizadas por Burocco (2014, p. 67) com pessoas removidas, afirmam que a “reclamação mais comum em relação à Copa do Mundo era a
disposição do Governo em tornar invisível a pobreza que existe na África do Sul, através de remoções forçadas para longe dos olhos dos turistas”. Essas famílias relacionam-se com
ocupações de edifícios abandonados e construções irregulares em terrenos públicos localizados na rota que liga o aeroporto da Cidade do Cabo ao centro da cidade.
Logo, o evento não foi positivo para todas as classes sociais. Em uma proporção menor do que está acontecendo no Brasil, a África do Sul realocou 72 mil pessoas que moravam em áreas próximas aos estádios (Chade, 2010). Muitas dessas foram transferidas para zonas segregadas, como na cidade do Cabo, conhecida como Blikkiesdorp, onde as famílias foram realocadas em 2008 para as chamadas “Cidades de Lata”, acampamento construído com zinco, sem conforto, saneamento e segurança (ver Figuras 2.11 e 2.12). Localizadas em terrenos sem acesso a serviços básicos, trabalho e transporte, seriam moradias temporárias, contudo, tornaram-se permanentes (Burocco, 2014).
Segundo a mesma autora (Burocco, 2014, p. 68), “famílias de sete pessoas vivem
amontoadas em espaços de três por seis metros. Eles se queixam de que as paredes de zinco tornam o interior das moradias sufocantes nos 40 ºC do verão, e oferecem pouca proteção contra o frio no inverno”.
Figura 2.11: Cidade de Lata/Cidade do Cabo – África do Sul.
Fonte: Galvão, 2014.
Figura 2.12: Vista aérea da Cidade de Lata/Cidade do Cabo – África do Sul.
Aproximadamente 100 moradores foram removidos em 2009 para o sul de Durban para viabilizar a ampliação do Estádio Umlazi. Essas famílias estão vivendo em habitações temporárias até que o Governo construa as novas residências, contudo, passados cinco anos, não há previsão para a conclusão dessas (Farias, 2014a). O local atual é o maior centro químico africano, em virtude da quantidade de dejetos tóxicos (resíduos químicos e hospitalares) depositados por companhias químicas e refinarias, causando a contaminação do ar (Burocco, 2014). Além disso, outros problemas desfavoreceram a população de baixa renda, visto que os investimentos em educação e saúde pública no país foram aplicados na qualificação de estádios e aeroportos (Farias, 2014a). Levando em consideração essa situação, Farias (2014a, p. 377) afirma:
A infraestrutura, de fato, melhorou, mas a maior parte dos investimentos foi feita em áreas nobres, onde moravam os mais ricos. Lucros aconteceram, mas a maior parte dos ganhos beneficiou, sobretudo, a própria FIFA, as empresas estrangeiras financiadoras do evento e os estratos mais ricos da sociedade sul-africana, em suma, os que já tinham seus privilégios (Farias, 2014a, p. 377).
Com relação aos empregos oferecidos durante o período de preparação para o megaevento, destacam-se aqueles relacionados à construção civil, principalmente por estarem vinculados à construção dos estádios e das novas infraestruturas. No entanto, devido aos baixos salários (US$340 por mês) os trabalhadores entraram em greve e protestaram para assegurar seus direitos e evitar a exploração às vésperas dos jogos, reivindicando um aumento salarial de 15% (Remus, 2011). Além disso, esses empregos eram na maioria temporários, o que gerou um alto índice de desemprego após o término das obras (Farias, 2014a; Burocco, 2014).
Durante o evento criou-se um perímetro de exclusividade ao redor dos estádios, evitando que vendedores ambulantes pudessem usufruir da área de uso exclusivo para grandes redes e marcas (Marcellino, 2013). Essa delimitação no entorno dos estádios também aconteceu na Copa do Mundo de 2014 no Brasil como exigência da FIFA, conhecida como “área de restrição comercial”, onde os trabalhadores informais foram vetados (Callaghan, 2012).
Em suma, é verificado que a Copa na África do Sul avançou principalmente com relação às obras de mobilidade urbana, facilitando a vida de trabalhadores. Todavia apenas a parcela da população com melhor situação econômica conseguiu desfrutar dessa conquista. Junto a isso, observou-se sentimento de nacionalismo e confiança cívica por uma parte da
população (Joffe, 2010; Remus, 2011), enquanto a parcela dos sul-africanos que viveu o processo de remoção ainda espera por melhorias (Remus, 2011; Burocco, 2014; Farias, 2014a). Ainda, é difícil falar em legado sustentável quando há um investimento de 40 bilhões de randes (aproximadamente US$ 3,68 bilhões) para a preparação do megaevento, em um país onde 25% da população estão desempregadas e 47% vivem abaixo da linha da pobreza (Galvão, 2014).