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Simulation d’un système de multiplexage à deux utilisateurs

Aires A. Nascimento*

Ao longo de vários anos ocupámo-nos da Navegação de São Brandão e impressio nou- -nos sempre o desenvolvimento que, nas suas versões, é dado ao episódio de Judas quase no final da viagem (até pelo contraste que constitui — antes da chegada ao termo do percurso, para a visão da Bem-aventurança)1. Porém, só bastante recente -

mente se nos impôs a necessidade de relacionar com tal episódio algumas expressões populares portuguesas para as entender, mas não sem chegar ao limite de entrever nelas, especularmente, algo do carácter de uma personalidade colectiva na memória quase apagada do texto2. Com Herberto Helder, não negarei que “do mundo que

malmolha ou desolha não me defendo, / nem de mim mesmo, à força / de morrer de mim na minha própria língua, / porque eu, o mundo e a língua / somos um só / desentendimento”3, mas, embora desentendido, ousarei um exercício que me leva a

limites que não vejo frequentados por outros.

Sem esconder que o destinatário destas considerações merecia outro quadro (mais nobre e menos atreito a tons magoados), justamente em contraste, aqui lhas trazemos, em homenagem a quem academicamente sempre curou da elegância do traço e da acribia no conhecimento da cultura e da língua portuguesa, como é João de Almeida Flor: fique em exergo o testemunho de apreço pela sua amizade, que o levou à gentileza de se interessar pelo nosso estudo do texto latino-medieval da Navegação de S. Brandão em fontes portuguesas e particularmente pelas hipó- teses que fomos entretecendo sobre a ancianidade da versão por nós encontrada4,

colo can do também em perspectiva as relações antigas entre as nossas terras e a Hibérnia5; a sua gentileza é bem digna de registo, pois, como o velho Cornélio

Nepos para Catulo, admitiu “meas esse aliquid putare nugas” — ao menos para seu entretenimento.

Alargamos aqui o horizonte, para deixarmos em aberto que a legenda de São Brandão terá tido entre nós maior divulgação que aquela que os registos escritos nos revelaram (ao invés do que poderia supor-se a partir do tom depreciativo de Zurara — que não é original, pois depende de leituras feitas em Vicente de Beauvais, cujo Speculum existia na biblioteca real de D. Afonso V, de que o cronista havia sido constituído custódio6).

No cruzamento de dados, em ritmo lento, como que a decantar um processo de reflexão, foi determinante para nós uma obra de António Lobo Antunes, deixada em suspenso durante anos (não tantos quantos os da sua saída a público)7. Escrita

com a intenção de estigmatizar a “difícil aprendizagem de uma agonia”, numa “Angola, seca, desolada e decrépita”, recebeu tal obra nada menos que o título de Os cus de Judas. Era quase inevitável associar tal epígrafe a duas expressões de cunho vulgar e de bom vernáculo, ouvidas habitualmente em tom paródico: lá, no cu de Judas, e lá onde Judas perdeu as calças, com outras variantes (como a que, certa vez, em passagem por uma bomba de gasolina, na região nortenha, pudemos ler num cartaz: lá onde Judas perdeu as botas). Não havia dúvidas quanto ao valor de referência: trata-se do “fim do mundo”, lá onde todas as referências se perdem — sem afectos e com algum desfatio, mas sem desdém. Porquê?

Insistimos na leitura do livro de A. Lobo Antunes e ficámos surpreendidos como, na diegese do narrador, se cruzam, em amálgama, lugares de memória e esta procura expurgar, com descarga de sanita, os dejectos de uma sociedade apodrecida e necessitada de regeneração — ao menos pela depuração provocada pelo riso. Deu

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considerações de Giovanni Orlandi (cujo trabalho não chegou ao fim), com quem depois, e por motivos do estudo dessa versão, estreitámos laços de estima e amizade (infelizmente por menos tempo do que desejaríamos).

5 Cf. Aires A. Nascimento, “A Navigatio Brendani: da Hibérnia para a Ibéria, ou alguns elos de

uma antiga comunidade ocidental”, Anglo-saxónica, ser. 2, 10-11, 1999, 63-79.

6 Em boa hora, José V. Pina Martins, humanista atento ao que aparecia nos mercados de alfar -

rabistas, adquiriu o documento em que o rei D. Afonso V autorizava, em 1462, que Gomes Eanes de Azurara, encarregado da sua biblioteca de Lisboa, fizesse o empréstimo do Speculum a Rui Gomes de Alvarenga, presidente da Casa da Suplicação e Conde palatino, “sem pagar chancelaria dele”. Cf. José V. Pina Martins, Histórias de Livros para a História do Livro, ed. Aires A. Nascimento, Lisboa, Fundação C. Gulbenkian, 2007, pp. 217 ss. A identificação que aqui fazemos não consta da edição por nós preparada, pois não estava em causa qualquer comple mento, pois nos competia apenas acompanhar o processo editorial, já que ainda vivia o seu autor.

o autor a conhecer que aquele livro estivera para levar outro título (Memórias de elefante), mas que se fixara naquele porque este segundo fora desviado para outro exercício literário e que se decidira pela troca porque o novo título traduzia melhor uma situação vivida, pois a “expressão quer dizer traidores, para negros”8. Ora, se a

vontade do autor era atirar pelas traseiras um mundo tode ele nauseabundo, para que o fedor se perdesse longe, “nas terras do fim do mundo”, e sobretudo para que ficassem fora de campo as fezes que haviam caído na luminosa terra de Angola, vítima de sucessivas traições, a expressão aparecia-nos com contornos que éramos levados a sentir como novidade na transposição de cultura e isso induzia-nos a resga - tar a identidade, perdida longe, por causa de traços mais carregados e caricaturais. É facto que pouco sei de etnografia angolana (apenas fiz uma breve escala em Luanda), e não me reconheço jeito para abrir fossas sanitárias. Mas, sem pretensão de acertar com algum pico humano menos certificado, gostaria de contribuir também com uma sinalefa para o reverso de uma geografia dos lugares literários9e

para resgatar algum decoro no que é de outro cercado. A tinta com que o faço não tem, porventura, o contraste necessário: não conheço os ardores dos trópicos e tenho medo do negrume da noite, sobretudo daquela em que Judas se quedou sozinho, renegando tudo e todos, particularmente aqueles que dele se serviram e a quem, em último gesto, atirou os trinta dinheiros de prata — que nem chegaram a servir para comprar o campo do oleiro em que ficaria à espera de resgate (por mão benevolente que, em qualquer noite de Endoenças10, viesse ao seu encontro para

subtraí-lo à infâmia e à ignomínia do suicídio cometido por desespero).

Não me é possível a leitura do livro de Lobo Antunes sem me ver na distância do tempo e na experiência de quantos foram ostracizados em nome de outros; entrevejo também a hipótese de, pela distância, poder ir ao encontro das razões da rejeição do outro e ser mais humano na compreensão dele, admitindo que são insondáveis os caminhos da misericórdia divina — que julgo ser a mensagem maior do episódio incluído na Navegação de São Brandão, certamente ainda antes da fixação de uma doutrina sobre um local intermédio (o Purgatório) para remissão de penas

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8 Em entrevista ao Jornal de Letras, Artes e Ideias, ano I, nº 23, Janeiro de 1982.

9 Alberto Manguel & Gianni Guadalupi, Dictionnaire des lieux imaginaires, traduit de l’anglais

par Patrick Reumaux, Michel-Claude Touchard & Olivier Touchard, Arles, 2001 (1ª, 1998, mas com versão anterior, de 1981: Guide de nulle part et d’ ailleurs).

10 Não se estranhe o termo. A palavra situa-me no contexto específico de Semana Santa. A res -

peito dela explica, com pertinência, D. Manuel Franco Falcão, na Enciclopédia Católica Popular, Lisboa, Paulinas, 2008 (2ª ed.), mas também em linha: «Endoenças (corruptela popular de “in dulgências”). Antigo rito de absolvição dos pecadores públicos no fim da peni tência quaresmal que, na Península Ibé rica (ritual visigótico-moçárabe), ocorria na Sexta-Feira Santa, e, no resto da Igre ja latina, na Quinta-Feira Santa, ain da hoje conhecida popularmente por “Quin ta-Feira de Endoenças”». Cf. também António de Vasconcelos, “Origem histórica da palavra Enduenças”, Biblos, 3, 1927, 223-236. O termo está documentado em castelhano para

espirituais — tanto mais que a imagem dos dois estados de frio e de quente se documenta no dito episódio11.

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Se as expressões me situam em esfera popular, qualquer delas me leva ao quadro cujo centro fica na execução de Judas em final de Quaresma. Mais habitualmente, é ela designada por “queima / rebentamento de Judas” que acompanha, de norte a sul de Portugal, os dias da festa da Páscoa (antigamente em sábado de aleluia e, desde meados do século XX, do próprio dia da Ressurreição, por alterações de liturgia, com a restauração da vigília nocturna para a celebração pascal). A cerimónia passou para outras terras.

Um dado é óbvio quanto ao ritual ruidoso (ritual, digo, porque, se não obedece a regras fixas, tem sequências e formalidades a cumprir): tudo se passa fora do âmbito do sagrado litúrgico e longe dos olhares dos oficiantes que a este presidem; não é, porém, do regime do simples profano — tem referências, acumula memórias, prolonga o humano para lá de si mesmo, tenta redimir esse humano das limitações que lhe são próprias, pela eliminação de algo em que se transmuta e com o qual se identifica (eliminando ou sacrificando, por descarga psicológica necessária para novo tempo, agora em modalidade pascal, tempo e rito de passagem).

A esse mundo marcado pelo horizonte pascal nos leva um texto de Euclides da Cunha, em esquisito recorte literário. Escrito, ao que parece, na sequência de uma Missão Brasileira e Peruana à região da Amazónia, reconstitui-nos o ritual — caden - ciado e profiláctico, de transferência e de expurgação. O seringueiro, perdido nas deslocações a que é obrigado, entregue a si mesmo e sem o aconchego de quem quer que seja, só tem, para celebrar a Páscoa, aquilo que é ele próprio, na sua irredu - tibilidade de resistente a tudo e condenado às adversidades do fim do mundo. Nessa terra de mais ninguém, clamando silenciosamente contra a sua própria desfiguração, identifica-se ele com “o mostrengo de palha, trivialíssimo, de todos os lugares e de todos os tempos”, que ele próprio montou — uma bola desfigurada a fazer de cabeça, uma camisa enfiada no tronco e nos braços, umas calças a compor as pernas e umas botas cambadas a tapar as extremidades de fundo. Todas as peças estavam ainda capazes de servir para alguém (sobretudo de quem tem pouco para guardar e para consumir), mas, depois de as ter afeiçoado (como faria qualquer ama a uma criança ou algum estatuário mais prendado que olhasse bem de frente a sua criatura), num gesto rápido atira-o para longe de si, não lhe importando onde o boneco vai parar. O simulacro podia ser desfeito por estouro de pólvora se por ali houvesse alguém capaz de ouvir o estrondo que noutros lados se faz acompanhar dos gritos estrídulos de quem passa a outrem o seu drama. Ali, o seringueiro só tem a sua família mais próxima (mas esta faz parte de si mesmo, prolongando-lhe o sentimento

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11 Cf. Jacques Le Goff, La naissance du Purgatoire, Paris, Gallimard, 1981. Pertence ao registo

do Venerável Beda a transumância das almas de uma margem a outra (do quente ao frio) numa imagem que remonta a Gregório Magno.

— mesmo que não a tenha preparado para entender o seu gesto, ela aumenta o efeito de um espelho côncavo); aliás, nas redondezas, só tem a mais o rio que corre indi - fe rente: com a família partilha o drama da solidão e a inutilidade do que foi cons - truin do; por isso, num gesto mudo, ritualizado e sem palavras, fixando o olhar no que modelara à sua imagem e com os restos dos seus andrajos, descarregando nele pela última vez as iras da desdita mais vazia, atira o espantalho ao rio para que a água o leve para onde ninguém saiba, ou por onde todos o carreguem de enxovalhos — até ele perder a figura. É incisivo e certeiro Euclides da Cunha, ao retratar os movimentos do seringueiro:

Repentinamente, o bronco estatuário tem um gesto mais comovedor do que o «Parla», ansiosíssimo, de Miguel Ângelo; arranca o seu próprio sombreiro; atira-o à cabeça de Judas; e os filhinhos todos recuam, num grito, vendo retratar-se na figura desengonçada e sinistra o vulto do seu próprio pai. É um doloroso triunfo. O sertanejo esculpiu o maldito à sua imagem. Vinga- -se de si mesmo: pune-se, afinal, da ambição maldita que o levou àquela terra; e desforra-se da fraqueza moral que lhe parte os ímpetos da rebeldia, recal - cando-o cada vez mais do plano inferior da vida decaída onde a credulidade infantil o jungiu, escravo, à gleba empantanada dos traficantes, que o iludiram. Isto, porém, não lhe satisfaz. A imagem material da sua desdita não deve permanecer inútil num exíguo terreiro de barraca, afogada na espessura impe - ne trável, que furta o quadro de suas mágoas, perpetuamente anónimas, aos próprios olhos de Deus. O rio que lhe passa à porta é uma estrada para toda a terra. Que a terra toda contempla o seu infortúnio, o seu exaspero cruciante, a sua desvalia, o seu aniquilamento iníquo, exteriorizados, golpeantemente, e propalados por um estranho e mudo pregoeiro…12

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Porquê Judas nesse desamparo e porquê atirá-lo para o fim do mundo? Os antigos livros de piedade (a começar pelos Livros de Horas, mas estes inspiraram- -se em boa parte nas Meditações do Pseudo-Boaventura13) ensinaram a contemplar,

no Cristo entregue aos soldados na noite do julgamento, o retrato dos ultrajes sofri - dos e infligidos ao longo dos tempos em vítimas inocentes e caladas. O seringueiro não ousa identificar-se com Cristo, mas sente que a traição que lhe calhou em sorte

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12 Euclides da Cunha. “Judas Ahsverus”, À margem da história, Porto, Livraria Lelo e Irmão,

1946, pp. 85-94

13 O problema da autoria das Meditationes vitae Christi (aliás, Devotissimae Beati Bonaventure

Cardinalis meditationes) continua por resolver, ainda que alguns autores se inclinem para Iohannes

de Caulibus, um franciscano de San Gimignano, na Etrúria italiana (fl. 1376); cf. Jaime R. Vidal, The Infancy Narrative in Pseudo-Bonaventure’s ‘Meditationes Vitae Christi’: A Study in

Medieval Franciscan Piety, Diss. Ph. D., Fordham University, 1984, pp. 19-26. Iohannes de

Caulibus, Meditationes vitae Christi, olim S. Bonaventurae attributae, ed. M. Stallings-Taney (Corpus Christianorum, Continuatio Mediaevalis, 153), Turnhout, Brepols 1997.

(talhada pelos homens e pela natureza) impediu que ele sentisse a misericórdia divina do Salvador estender-se até ele. Sentimento trágico — mais forte que tudo quanto imaginou José Saramago em Caim14. Trágico porque consciente do desamparo em

que se angustia e porque não ousa revoltar-se e na negação de si mesmo apenas sobra a vergonha de nada lhe servir o sacrifício da sua identidade. No deserto (sem gente), não há quem lhe responda, falta-lhe uma voz para lembrar-lhe a possibilidade de redenção: de Cristo podia esperar a libertação máxima, pois os Evangelhos estão repletos de gestos libertadores, mas apenas lhe sobra um gesto que viu fazer e ele repete. Judas é culpado? Sobretudo por não se ter deixado convencer, como Pedro, da possibilidade dessa libertação, apesar de três anos de convívio com Cristo? Demasiadas perguntas para um drama que é pessoalmente de todos, sendo universal. Impossível responder por todos ou por outros, porque o drama é pessoal. Tanto ou mais que atirar sobre Judas vitupérios e injúrias, há que reconhecer um reflexo que o torna especular: no próprio isolamento a que se votou, sobre ele recaem, em ricochete, as rejeições acumuladas. Nisso se projecta o reverso de uma piedade que se moldou ao longo dos tempos na compaixão pelos sofrimentos de Cristo e assim procura reverter a ofensa do traidor, reconhecendo-se na sua figura.

No boneco de palha, apenas articulado pelas peças essenciais que na silhueta preser vam uma figura humana, fixa-se uma imagem grosseira, mas sobretudo a personificação da fragilidade. Necessariamente tem ele de ser destruído ou afastado como símbolo que é de purificação e de alívio que se busca: destruído, perde o efeito de identidade que há que preservar; no entanto, afastado, retém a relação mais marcada; que o seja para fora das fronteiras conhecidas é medida necessária para partir em busca dessa identidade com que raramente nos reconciliamos.

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14 Juan José Tamayo, “En lucha titánica con Dios”, El País (Cultura), de 18-06-2010, em comen -

tário a Caim de José Saramago, interpretou que, no desconcerto do protagonista e na ausência de uma resposta convincente do Criador, “Deus é o silêncio do universo e o Homem é o grito que dá sentido a esse silêncio”. Tal registo subverte claramente o sentido patente da obra, onde imagem de um Deus é a de quem fica enredada nas minudências de uma figura quesilenta e rasteira que é a de Caim, o pro ta gonista, que mantém uma acusação contínua por má cons - ciên cia de quem nunca se assume e por uma errância que não lhe cria raízes para pôr termo aos desvarios oníricos (na subversão da ordem dos episódios bíblicos e das figuras que amal - gama e na injúria permanente a uma divindade que parece não ter outra identidade que a de ser sarnenta – passe o termo). Se Tamayo (que é teólogo, que acredita em Deus sincera mente e por isso teme falar d’Ele, dando ao silêncio a reversão do que é sarcasmo no autor em causa) tem razão, alguém (Saramago ou outro por ele) reteve (indevidamente, porque não citou e não respeitou o sentido originário) as palavras de Bento XVI, pronunciadas em 28 de Maio de 2006, um domingo, na visita feita pelo Papa ao antigo campo de concentração de Auschwitz: “Num lugar como este, não há palavras. No final não pode haver senão um silêncio aterrador – um silêncio que é de facto um grito de coração dirigido a Deus: Porquê, Senhor, ficastes em silêncio? Como pudestes ficar silencioso? Como pudestes tolerar tudo isto ? O nosso silêncio torna-se apelo ao perdão e à reconciliação, apelo ao Deus vivo para que uma coisa assim não volte a ter lugar”.

O escárnio, com que mais vulgarmente se carrega a “queima de Judas”, talvez derive de algum ritual secular de magia simpática para exorcização das forças negativas da natureza e de expurgação de comportamentos viciados — que a outro nível são chamados às celebrações quaresmais para perdão sacramental, depois de terem no “bode expiatório” do Antigo Testamento um ritual de purificação15.

Na “queima do Judas”, a expurgação está contida tanto na leitura de testamento de paródia como no rebentamento do simulacro ou no arremesso do mostrengo às águas do rio que o leve para qualquer parte inominada e longínqua.

Foi o Judas levado das terras europeias para o interior brasileiro; nas celebrações pascais, sem o decoro litúrgico das cidades, ao seringueiro, escorraçado pela míngua de chuva do nordeste, fica-lhe livre essa figura angustiada, de que não consegue soltar-se. Como depõe Euclides de Cunha: “Ante a concepção rudimentar da vida — o sertanejo vivia ali em condições precárias, num tipo de vida primitiva; portanto era-lhe natural acreditar que nesse dia todas as maldades eram santifi - cadas”. Neste recanto do fim do mundo, “resignou-se à desdita. Não murmura. Não reza. As preces ansiosas sobem por vezes ao céu, levando disfarçadamente o travo de um ressentimento contra a divindade, e ele não se queixa. (…) Afogado [fica ele] na espessura impenetrável, que furta o quadro de suas mágoas, perpetuamente anóni mas aos próprios olhos de Deus”. Cansado de juntar desgraças e pesares, não tem mais com que aliviar consciência e penas do que descarregar angústias sobre a figura de ignomínia que a tradição lhe entregou e ele trabalhou à sua maneira. Arremes sado para qualquer lado, onde ninguém o atende, recebe opróbrio supremo, mas suportá vel, do esquecimento. Haverá algum outro maior?

No auge da rejeição, Judas pode perder todas a peças de vestuário que aqui se juntaram para fazer um simulacro. Ficar a nu, sem qualquer defesa dos olhares ou