A emergência sistêmica inaugurou, na década de 20 do século passado, um novo olhar científico sobre a natureza da vida, através da confluência simultânea de várias disciplinas. A primeira foi a biologia, que enfatizava a compreensão dos organismos vivos como totalidades integradas. Após, essa noção foi enriquecida pela psicologia, pela ciência da ecologia e pela física quântica. A idéia central da nova abordagem holística e ecológica refere-se à visão de entrelaçamento ou interdependência de todos os fenômenos (CAPRA, 2002).
É patente, portanto, no “pensamento sistêmico” de Capra (2002) e na idéia de “complexidade de base” de Morin (2002a), a tensão básica entre o todo e as partes62. Ao contrário da ênfase nas partes (apresentada pelo chamado paradigma
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Outros autores, como Branco (1989), vêem nessa tensão lutas de opostos. Branco (1989), que também adota a perspectiva sistêmica no exame dos problemas ambientais planetários, compreende que há duas tendências fundamentais, ou dois paradigmas de pensamento opostos, tanto na sociedade de hoje, como na de ontem. Um, integrativo ou holista, que não reconhece, nas partes, a existência do conteúdo do todo; sua divisão em partes fragmentadas é considerada um ato de violência e os seres e objetos da natureza são tidos como identidades cósmicas. Outra, reducionista ou dissociativa, reduz o todo a partes elementares, a fim de considerá-las em particular. Seu método, no campo de conhecimento, ficou marcado pela análise e asgeneralizações. As tentativas de negar o uno (partes) em detrimento do múltiplo (todo), ou vise-versa, nos parecem um exagero perante os atuais embates multifacetados que são vividos pelas diversas sociedades. Apesar da evidente importância da forma (função - qualidades), na percepção dos fenômenos vivos, a estrutura (substância - quantidade) não deve ser dissociada de seu contexto. A nova síntese, colocada por Capra (2002), necessita tanto do entendimento da forma, quanto da estrutura do sistema. Em outras palavras, essas duas noções não se anulam mutuamente.
disciplinar ou cartesiano), na visão desses autores valora-se a relação entre o todo e as partes, sendo que o todo é mais do que a soma das partes.
No princípio, os sistemistas do século XX, mesmo não introduzindo a complexidade na definição de sistema, perceberam que os sistemas não podiam ser apreendidos pela abordagem analítica da ciência ocidental, cujo eixo paradigmático se assentava no estudo meticuloso de partes cada vez menores (partículas). A emergência sistêmica opõe-se a essa noção redutora do espírito cartesiano, colocando ênfase na noção contextual dos fenômenos. Ou seja, as partes podem ser compreendidas “apenas” a partir da organização do todo, argumenta Capra (2002).
O termo organização designa o encadeamento de relações entre componentes ou indivíduos reunidos em uma unidade complexa, o sistema. No paradigma complexo de Morin (2002a), a idéia de organização é o conceito-chave que liga os elementos (partes) ao todo (sistema). Tanto na obra de F. Capra quanto na de E. Morin, há saltos de conhecimentos acerca da formulação da teoria dos sistemas. Além da crítica ao reducionismo clássico, ambos não se fecham à percepção simplificadora do holismo, que fora cunhado pelos sistemistas, na primeira metade do século XX63.
A ultrapassagem teórica do princípio sistêmico, manifesta-se no paradigma ecológico de Capra (2002, 2005) e no paradigma da complexidade de Morin (2002a). Ambos elaboram, em cada pressuposto, idéias que se interpenetram. Em sua produção teórica, Capra (2002) inspira-se nos critérios de auto-organização dos sistemas vivos, focando a importância do estudo da forma (ou padrão). O padrão de organização, observado nos sistemas vivos (componentes bióticos - organismos, populações, comunidades), dá ao sistema um sentido dinâmico e qualquer coisa de irredutível e irreversível que escapa ao método mecânico (BRANCO, 1989). Assim, as lições extraídas dos processos de organização de um ecossistema, em particular a sua base ecológica, inspiram autoridades, como Capra (2002), a propor uma sociedade sustentável pela “alfabetização ecológica”.
Por outro lado, no pensamento complexo de Morin (2002a), todo sistema reúne a unidade (partes) e o múltiplo (diverso), enquanto conjunto, de modo
63 O cientista destaque da teoria geral dos sistemas foi Ludwig von Bertalanffy. Ele enfatizou a
diferença básica entre sistemas físicos e biológicos e deu o primeiro passo, à visão de totalidade na ciência, ao reconhecer que os organismos vivos são sistemas abertos e auto-reguladores, isto é, que encadeiam mecanismos de retroalimentação (CAPRA, 2002).
complementar e antagônico. Conforme o autor, “não deve haver aniquilamento do todo pelas partes, das partes pelo todo. Importa [...] esclarecer as relações entre partes e todo, em que cada termo remete a outro. [...] Nenhum dos dois termos é redutível ao outro” (MORIN, 2002a, p. 158).
Fundamentalmente, a complexidade, transcende a visão holística. A noção de um sistema apenas harmônico e funcional é simplista na visão de Morin (2002a). O todo não é tudo, nem tampouco é imediatamente visível, exposto: há nele sombras e fissuras, que requerem ser rastreadas e interpretadas. Tecer a verdade dessas nebulosas, ao exercitar olhar a complexidade da realidade, traz em si a idéia de rupturas internas e crises eventuais. Por essa razão, qualquer sistema, seja ele qual for, mantém, no seu interior, o fermento da degradação (MORIN, 2002a).
Isso significa que não existe a possibilidade de uma totalidade homogênea ou plenamente harmônica. A complexidade reconhece que em todo fenômeno há potencialmente crises e, se há crise, há antagonismo. A crise se manifesta quando há falha na regulação do sistema, por não reorganizar e não mobilizar energias sinérgicas (de ligação) voltadas a contrabalançar as forças opostas e de dissolução, presumíveis, por exemplo, no grau de desordem observado no fenômeno da entropia. Nem mesmo uma organização ativa pró-manutenção do sistema e de suas qualidades emergentes é capaz de inibir eventuais perturbações ou ameaças de desordem. Aliás, o desenvolvimento da complexidade em E. Morin consiste no paradoxo de todos os fenômenos. A fecundidade de seu pensamento está, portanto, na percepção dialógica da dupla noção contrária: o desenvolvimento da unidade com o desenvolvimento da diversidade (MORIN; KERN, 1995).
Conforme a elaboração teórica moriniana, a verdadeira totalidade reconhece alguma coisa de sua insuficiência. O autor refuta a idéia de imposição (ou dogma) do todo (as emergências) sobre os elementos que o constituem. Ao perceber que o sistema detém contradições, devido à dificuldade de conceber-se um mundo todo organizado na totalidade, admite-se, “[...] em certos momentos, em certos ângulos, em certos casos, a parte [...] ser mais rica do que a totalidade” (MORIN, 2002a, p. 163). Isso significa que as partes guardam em si a verdade do todo e, por conta disso, podem ser entendidas também em isolamento, pois elas são possuidoras de qualidades ou propriedades próprias que são virtualmente inibidas, comprimidas, no interior do sistema, por imposição da relação organizacional. No referencial moriniano, não se instala a coerção entre o uno e o diverso. Constitui-se, sim, a idéia
de enriquecimento simultâneo do paradoxo (unidade - diversidade), elegendo para isso, o desenvolvimento da organização sistêmica, isto é, a intercomunicação dos opostos.
Ao contrário da decomposição, cujo fundamento científico funda-se na percepção de um universo constituído de objetos isolados, a nova concepção de organização sistêmica passa a inter-relacionar as coisas da realidade à observação humana e ao meio natural. A sugestão de Morin (2002a), à noção-piloto de conceito de sistema, engloba o caráter comunicativo entre o sujeito observador e o objeto observado. Ele mesmo coloca: “não há mais objeto totalmente independente do sujeito” (MORIN, 2002a, p. 179).
No princípio moriniano, igualmente, identifica-se a perspectiva da co- evolução. Morin (2002a) cita que o universo antropossocial (o conhecimento) e o universo físico (a natureza) não seriam absolutamente alheios entre si, pois cada um desempenha um papel co-produtor com relação ao outro.