3.4 Methodes particulaires
4.1.3 Simulation exacte d'une mesure stationnaire
A ética ricoeuriana pode ser observada partindo de uma relação complementar entre a deontologia kantiana e a ética aristotélica. No sétimo estudo de O Si-mesmo como um outro, a perspectiva ética aristotélica mostra-se predominante à norma moral kantiana. De acordo com Ricoeur, a tradição ética aristotélica é marcada por sua finalidade (teleologia), pretendendo alcançar o viver bem. Portanto, atingir a realização pessoal dependerá do fim último das ações. Porém, no oitavo estudo, O Si e a norma moral, a ética deve passar pelo crivo da norma.
No que concerne o conceito de sumo bem, ainda que não fique evidente em Ricoeur, é possível pensar que, no momento em que Kant traz a questão do sumo bem, enquanto elemento da moralidade, de alguma maneira está partilhando da teleologia aristotélica. Neste ponto, observa-se apenas uma nota de rodapé tratando do sumo bem em Kant2. Entretanto, nesta nota fica assinalada uma possível
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Segundo Ricoeur, “foi a propósito que, numa reconstrução preocupada em situar com precisão o momento de maior distância entre o ponto de vista deontológico e a perspectiva teleológica, não se levou em conta a contribuição original da Dialética da razão pura prática. Esta, digamos, abre uma nova perspectiva de trabalho, com o tema do soberano bem. Sob a égide desse termo, Kant se interroga sobre o que convém chamar ‘o objeto inteiro de uma razão pura prática’ (trad. Picavet, p. 117; ed. Alquié [V, 109], p. 741) ou ainda ‘totalidade incondicionada’ desse objeto. Seria possível dizer que essa nova interrogação leva Kant de volta às águas da teleologia aristotélica. Certas expressões tais como esta: ‘o bem completo e perfeito enquanto objeto da faculdade de desejar de seres racionais e finitos’ (trad. Picavet, p. 119; ed. Alquié [V, 119], p. 742) dão algum crédito a essa interpretação. Mas, além do fato de que a conjunção de natureza não analítica mas sintética entre virtude e felicidade cria por Si mesma um problema específico, que, por sua vez, redunda o mais considerável ainda dos postulados da razão prática – é importante repetir, na esteira de Kant, que a Dialética não desfaz o que a Analítica construiu: é apenas para a vontade autônoma que se inicia a carreira dessa nova problemática do soberano bem e da felicidade. Além disso, o que impressiona é que, ao se concentrar na natureza do elo ‘identitário ou não, entre virtude e felicidade’, Kant não tivesse razões para cruzar com Aristóteles em seu caminho; entre seus antecessores, ele só encontrava o epicurismo e o estoicismo (ibid., trad. Picavet, p. 120ss; ed. Alquié [V, 112ss], p. 745). O formalismo da moralidade lhe vedava formular o problema do soberano bem em termos de dinâmica e visada, a despeito das expressões aparentemente tão próximas de Aristóteles mencionadas há pouco” (cf. RICOEUR, , 2014, p. 238, nota 18).
aproximação entre teleologia aristotélica e deontologia kantiana, como salienta Rossato:
O juízo deontológico e o teleológico, embora tenham alcances distintos, deverão ser complementares. Em suma, isso, desde logo, implica em observar dois movimentos diferenciados em sua proposta: em um sentido, a ética terá de ser articulada em relação a normas com pretensão de validade universal, efeito de constrangimento e obrigatoriedade; e, noutro, as decisões morais, tomadas com referência a valores pretendidos como universais, terão de ser avalizadas pela perspectiva da vida boa”. ( ROSSATTO, 2010, p. 46).
Então, trabalha-se sob o ponto de vista de uma complementação entre a teleologia e a deontologia. Assim, pode-se dizer que existe uma relação semelhante entre a ética aristotélica e a filosofia prática kantiana. Ricoeur aponta a pretensão de seu estudo: “a este estudo compete à tarefa de justificar a segunda proposição, a saber, que é necessário submeter a visada ética à prova da norma.” (RICOEUR, 2014, p. 227).
Além disso, a análise da postura de universalidade da primeira formulação do imperativo categórico, – expressa por Kant: “age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal” (KANT, 2007, p. 59).
Segundo Ricoeur (2014), é possível localizar essa conexão no conceito kantiano de boa-vontade, a qual se encontra na Fundamentação da metafísica dos costumes, demarcado nos seguintes termos: “neste mundo, e até também fora dele, nada é possível pensar que possa ser considerado como bom sem limitação a não ser uma só coisa: uma boa vontade” (KANT, 2007, p. 21). Neste sentido, o bom,
sem exceção, para Kant é percebido como moralmente bom, lembrando, assim, a impressão teleológica.
Desse modo, é possível notar que não há uma violação entre o formalismo e a teleologia, pois se encontra vestígios que representam a relação existente entre a norma moral e a perspectiva ética. De acordo com Ricoeur: “trata-se preferencialmente de isolar o momento de universalidade que, a título de ambição ou pretensão marca o fato de submeter à prova da norma o desejo de viver bem”. (RICOEUR, 2014, p. 228). Assim, a ética e a moral possuem uma vinculação com a vida boa.
Para Kant (2007), a busca da felicidade é algo inerente ao ser humano, o qual (do ponto de vista prático) independe da moralidade. Entretanto, a diferença para ele é que mesmo que a felicidade não provenha de uma ação moral, o mesmo considera que o agente não é digno de ser feliz, e é exatamente nesta questão problemática do merecimento que se fundamenta o problema central da filosofia prática de Kant.
Dessa maneira, o conceito de bom, para Kant, dependerá da vontade e, para ele, a vontade representa o início de novas ações e está ligada a própria autodeterminação do ser racional. Além disso, a vontade na moral kantiana está vinculada à lei, dessa maneira, o querer faria parte de uma denotação imperativa. Como esclarece Gubert:
A universalidade do imperativo se caracteriza por uma moral da obrigação e está vinculada à ideia de constrangimento, que, por sua vez, está atrelada à ideia de dever. A função do dever é constranger a vontade, livrando-a de limitações empíricas. (GUBERT, 2012, p.18)
Pois, de fato, o agente moral nem sempre é bem sucedido, em contrapeso, muito menos, o imoral é mal- afortunado. Em consequência disto, a dimensão de felicidade relativa à moral não é e nem pode ser conquistada facilmente. Segundo Ricoeur (2014), para Kant ação realizada por dever e boa- vontade são a mesma coisa. Além disso, Ricoeur dirá que se torna imprescindível:
Retroceder desta condição finita da vontade para a razão prática concebida como autolegislação, como autonomia. Só nesse estágio o Si terá encontrado a primeira base de seu estatuto moral, sem prejuízo da estrutura dialógica que, sem se acrescentar a partir de fora, desenvolve o sentido dele na dimensão interpessoal (RICOEUR, 2014, p. 232).
A autonomia constitui-se baseada na liberdade. A liberdade é o que determina a vontade, o que torna a autonomia obediente a Si mesmo. Ricoeur alega que, “quando a autonomia substitui a obediência ao outro pela obediência a Si-mesmo, a obediência perdeu qualquer caráter de dependência e de submissão. A obediência, seria possível dizer, é a autonomia” (RICOEUR, 2014, p. 236). Logo, esta filosofia kantiana de cunho moral incide a pensar em certa autonomia do sujeito, pois o mesmo não aparenta possui dependência de ninguém, como se a resolução de tudo estivesse na autonomia do sujeito que a determina.