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Também conhecida como Teoria da Escola Francesa, por ter sido desenvolvida por pensadores da França, a Teoria Culturológica europeia teve início com a obra do sociólogo Edgar Morin26, Cultura de massa no século XX: o espírito do tempo (1967, 1977). Entre os adeptos, estavam semiólogos (analistas de significações), como Roland Barthes27, e estudiosos da mass culture, como Umberto Eco (1968, 1973, 1978), que a consideravam peculiar e inerente à atmosfera cultural que marcou as duas últimas três décadas do século XX. Tal paradigma tem como objeto de pesquisa a comunicação e a cultura das sociedades.

A Teoria Culturológica dá menos importância aos meios de comunicação e confere maior relevância às “produções significativas” da “indústria da cultura”. Filmes, jornais e revistas especializadas, histórias em quadrinhos, ficção de TV, etc., eram os principais objetos de estudo desse paradigma. A “culturologia” de Morin procurava corrigir a Teoria Crítica de Adorno, de Horkheimer e também de Habermas.

Em meados dos anos 1960, o panorama artístico da pop art, com Andy Warhol28, estava no auge despertando a atenção e o interesse por parte de intelectuais de toda a Europa. Morin não ficou alheio a essas representações,

26 L’esprit du temps (Paris: Grasset, 1962) traduzida com o título Cultura de massas no século XX: o

espírito do tempo.

27 Autor de Mythologies (Paris: Éditions du Seuil, 1957) e Élements de Sémiologie (Paris: Éditions du

Seuil, 1964).

28 Andrew Warhola ficou conhecido como Andy Warhol em sua brilhante carreira como pintor e

cineasta, vindo a se tornar o maior representante da pop art, em que utilizava serigrafias para representar figuras simbólicas da sociedade, tais como pessoas (Marilyn Monroe), símbolos culturais artísticos (Mona Lisa) ou mesmo grandes marcas consumidas pelos americanos (Coca-cola).

enxergando na cultura massiva uma variedade de imagens, símbolos, mitos e ideologias que faziam parte da vida real e imaginária.

O foco do sociólogo francês estava nos aspectos da cultura de difusão dos meios de comunicação. Morin (1967) procurava delinear as formas como uma cultura constrói e reconstrói uma mitologia.

A crescente necessidade de multidisciplinaridade e de interdisciplinaridade traduz timidamente a necessidade de uma abordagem adaptada ao fenômeno. A cultura de massa oferece uma visão da liberdade que pouco ou nada tem em comum com a lei social vigente. Por mais raquítica que seja, a noção de sociedade industrial traduz a necessidade de uma fenomenologia (MORIN, 1977, p.27).

Diferentemente das Teorias Funcionalista e Crítica, a Teoria Culturológica não pretendia compreender os efeitos sobre o público ou mesmo identificar suportes para a manipulação de massas. Sua tônica estava centrada na identificação de uma nova forma de cultura na sociedade contemporânea, os fenômenos da cultura de massa, gerada a partir dos mass media.

Morin postula que, na própria cultura, há variados fenômenos que permeiam seu entendimento máximo: “cultura seria um sistema constituído de valores, símbolos, imagens e mitos” (1967, p.15) que são, impreterivelmente, associados à prática da vida. Essa vida, estudada pelo autor, encontra-se repleta de imaginários coletivos, que a retroalimentam constantemente, fazendo com que os indivíduos compartilhem um sentimento de pertencimento ao grupo. Em outras palavras, é essa atmosfera simbólica que “permeia a inserção dos sujeitos no mundo”.

Tal estudo é contrário aos paradigmas fixados pela Teoria Crítica, pois, para a Escola Francesa, o que interessa é compreender a industrialização da cultura e seus impactos na sociedade, e não o contrário. Se para a Escola de Frankfurt o foco está na indústria cultural como fonte de controle e poder, para o modelo francês o que importa é como a cultura da indústria de massa se movimenta, aceita ou rejeita seus produtos. Enquanto na primeira a indústria é um forte objeto de estudo; na segunda, a cultura ganha espaço para análise.

O processo de industrialização da cultura, sua produção (de acordo com as normas de fabricação industrial), sua propagação (através das técnicas de difusão

em massa) e seu destino (à sociedade como um todo), são objetos de estudos e análises que formam as bases da Teoria Culturológica. Assim, ambos os estudos, Crítico e Culturológico, operam sob o mesmo objeto, mas de lugares teóricos e enfoques diferentes. A escola francesa de Morin pretende dar luz à perspectiva da complexidade e, sendo assim, o faz analisando a cultura a partir de dois pontos: da produção e do consumo.

Adepto à Culturologia, Umberto Eco afirmava que a “cultura massiva” era a forma cultural da expressão e representação do homem moderno. “Não há mais como separar cultura e fenômenos de Comunicação”, afirma Eco (2001) ao comentar a polêmica que opôs os teóricos do funcionalismo (“integrados”) aos seguidores da Escola de Frankfurt (“apocalípticos”). Em sua conclusão, Eco salienta que tanto os primeiros quanto os últimos enganaram-se ao tornarem um fetiche conceitos como mass culture e Kulturindustrie.

Em suas obras, ainda na década de 1960, e também na década seguinte, Eco analisa os produtos culturais modernos através de uma abordagem dos meios de expressão que tais produtos utilizavam. A fruição e o contexto histórico e cultural eram observados no intuito de constatar uma ordem política e social que os caracterizavam.

O Modelo Teórico dos Estudos Culturais

Foi na Escola de Birmingham, na década de 60, que os Cultural Studies (FERGUSON; GOLDING, 1997) lançaram mão de suas premissas acerca do que a própria nomenclatura indica: os estudos culturais. Em sua perspectiva estão as investigações no âmbito da articulação entre a cultura e os meios de comunicação de massa. Semelhante à Escola Francesa, seu objetivo não se centrava nos próprios meios de massa, mas no estudo da cultura contemporânea, entendendo os meios de comunicação como lugar central de produção e estruturação de uma cultura.

Seus pensadores consideravam as estruturas sociais em seu contexto histórico como fatores essenciais para compreender os meios de difusão de massa. Além disso, romperam com as influências advindas da Teoria Crítica, como o

Marxismo, inserindo na lógica dos estudos ingleses uma visão diferenciada, em que a cultura não é apenas um campo de ideias ou reflexo de relações de produção em prol de um ciclo econômico vigente.

Stuart Hall e Raymond Williams ganharam destaque na Escola de Birmingham. O primeiro afirmava que “a cultura não é uma prática, nem é simplesmente a descrição da soma dos hábitos de uma sociedade” (2001, p.24). Hall acreditava que a cultura perpassa as práticas sociais, sendo a representação da soma de hábitos e costumes de uma sociedade.

O sociólogo Stuart Hall (1997) estudou o papel ideológico da mídia de forma diferenciada do paradigma Funcionalista-Pragmático. Seu estudo procurou distinguir como o público, em variados contextos sociais e culturais, compreende e decodifica informações advindas da mídia. Stuart Hall pesquisou um programa de televisão, observando o comportamento receptivo da classe operária inglesa, acreditando que a recepção não era homogênea ou igualitária em sua totalidade.

Em 1958, Raymond Williams publicou Culture and Society 1780-1950, obra em que reforça que a cultura e a sociedade não poderiam ser dissociadas em qualquer contexto de análise. Nessa obra, Williams explica a cultura como uma soma de valores e representações em que a sociedade cede às experiências comuns um sentido. A cultura, para ele, é um “grupo de sentimentos onde se é capaz de compreender determinado objeto ou fenômeno de uma forma bem específica”.

A diferença na compreensão entre a Escola Francesa e a Inglesa está justamente na revisão do que se entende por cultura, ou seja, na noção de experiência que essa última introduz. O historiador socialista inglês Edward Palmer Thompson (1996) foi um dos pesquisadores que propiciou essa nova ótica, em que, ao invés de entender a cultura de massa com uma lógica estrutural interna, a qual leva à reprodução, incitou a observar que os estudos a respeito do tema devem considerar os indivíduos e seus papéis, atitudes e decisões em meio à estrutura social.

Thompson acreditava que eram exatamente essas atitudes individuais que condicionavam, selecionavam e creditavam o conteúdo das mídias de massa, sendo, portanto, essencial os seus estudos. Nesse ponto, ele ressalta a importância

de uma observação que leve em conta o fator dinâmico e até mesmo contraditório no processo cultural.

O que a Escola Inglesa destacava era a preocupação com as práticas comunicativas e suas negociações sociais vistas de um lugar teórico diferenciado, capaz de considerar o contexto em que as mesmas se dão. Assim, os Cultural Studies deixaram sua marca em meio às Teorias da Comunicação, propondo um aperfeiçoamento paradigmático que gerou um novo “modelo de transmissão da cultura”, em que o foco estava fixado no envolvimento entre as partes.