Quisemos fazer desta terra um País em África, afinal apenas fizemos mais um país africano.
Pepetela
A quarta e última parte de A Geração da Utopia distancia-se temporalmente da primeira em exatos trinta anos, período suficiente para uma abundância de vivências. “Para guerra então, é tempo demais” (Ibid, p.315). Em uma comparação entre os continentes africano e europeu, o romance salienta que a belicosidade
perpassa a história dos dois. No caso específico de Angola, conforme já discutido, além das experiências com os combates em prol da independência, o país imergiu em uma guerra civil que assolou milhares de vidas. Com relação à Europa, enfrentou “uma guerra que até se chamou Guerra dos Trinta Anos. E uma outra dos Cem Anos, devia ser recorde mundial” (Ibid, p.315). Ainda acerca dessa questão, e não menos relevante, a obra de Pepetela denuncia que o motivo pelo qual o continente europeu deixara de efetuar guerras em seu território não era porque havia se tornado pacífico, mas porque aprendeu a “fazê-las longe de casa”, de modo que “quem se lixa é o quintal do outro” (Ibid, p.315). Os apoios dados à rivalidade entre os grupos angolanos que se digladiavam comprovam isso. Na verdade, Estados Unidos e União Soviética usavam Angola como o seu quintal de guerra.
Com semelhante postura de descaso para com o país, inúmeros angolanos também se aproveitavam da terra e das pessoas que nela viviam, e o faziam para se beneficiar, a exemplo de Malongo, com o qual Aníbal nunca manteve uma boa relação. Usando um discurso falacioso de que pensava no progresso nacional, o pai da filha de Sara fazia negócios em prol do enriquecimento de empresas europeias, e não de sua nação. Para isso, ele se prevalecia das antigas amizades, em especial da de Vítor Ramos, com quem dividira quarto na época em viviam na Casa. Vítor, ou Mundial – seu nome de guerrilha –, havia se tornado ministro, conquista que obteve a partir das estratégias que começaram a ser adotadas na passagem pela chana, conforme a segunda parte da obra registra. Com o apoio de um amigo desse padrão, em poucos anos, Malongo “só tratava de negócios grandes [...]. Agora nadava no meio de tubarões e recebia grandes postas dos peixes caçados, já não se contentava com uma sardinha” (Ibid, p.316).
Visando a ampliar a rede de amizades, nas reuniões, ele falava sobre futebol e música, de modo a estabelecer uma relação de proximidade com os presentes. A parte da narrativa que focaliza essa atuação do “homem de negócios” no qual o ex- jogador se transformou tem uma estrutura semelhante à da fala. O excerto a seguir comprova isso.
No meio da conversa, já tudo muito animado, eh pá, meu, amanhã vou te
falar num assunto que tenho aí, hoje não, trabalho é trabalho, uísque é uísque, uma coisita pequena mas que me interessava resolver, sabes como é, um gajo tem de viver [...], vê se me podes conceder uma audiência amanhã, não, agora não, é chato, estás aqui todo descontraído, com a
família e os amigos, não te vou pôr assuntos de trabalho em casa, mas, já que insistes, é sobre aquele caso que te falei há tempos, estamos à espera duma decisão tua, claro que sabemos que houve concurso público e outras propostas, mas é evidente que a nossa foi a melhor, dá mais vantagens ao país, aliás a única coisa que nos interessa é o progresso do país, e tudo depende agora da tua decisão, basta dizeres que preferes a nossa firma e acabou, o resto nós resolvemos, mas claro que ainda não está resolvido, o teu diretor de gabinete disse ontem que o assunto está nas tuas mãos, então amanhã decides, está fixe, meu, assim é que é, vou tocar-te aquele sambinha que a malta dançava em Lisboa, lembras-te de certeza [...]. Os amigos acabavam assim por resolver os assuntos a favor das firmas que representava (Ibid, p.316).
Na passagem destacada em negrito, o narrador situa o leitor acerca de como estava a conversa de Malongo. A partir de então, a fala deste passa a ser evidenciada, o que pode ser percebido por meio da mudança tanto de pessoa gramatical – da terceira para a primeira do singular – quanto do ritmo da narrativa. Não há ponto-final entre os enunciados emitidos pelo negociante angolano, inclusive quando esse sinal de pontuação é obrigatório. Por exemplo, ele deveria ser usado para indicar o término do enunciado anterior e o início de “vê se me podes conceder uma audiência amanhã [...]” (Ibid, p.316). Decerto, a vírgula é utilizada por indicar uma pausa mais curta, de modo a refletir melhor, nesse contexto, a oralidade. Essa estratégia é enfatizada através do emprego de expressões como “eh pá” e “meu32”,
típicas da fala informal.
Com isso, delineia-se a intimidade que Malongo buscava firmar com dirigentes importantes. Porém, a garantia de fechamento de negócio com a empresa que ele representava não era fruto apenas da amizade. “Ele tinha de repartir sua comissão. Mas mesmo assim ganhava muito dinheiro. Ganhou dez vezes mais num ano que em toda a vida anterior” (Ibid, p.317). Com alianças firmadas de maneira escusa, ele conseguiu o suficiente para comprar uma casa em Angola, ainda que, à época, fosse “mais difícil encontrar casa em Luanda que água no deserto do Namibe” (Ibid, p.317). Assim, com a intenção de não só manter o padrão social conquistado, como também de aumentá-lo, Malongo abriu uma firma de import-
export. Em decorrência, a ele cabia definir os produtos e as tecnologias que
desejava inserir no país e, mesmo eventualmente, o que poderia ser exportado a preços competitivos.
32No contexto apresentado, o vocábulo “meu” não é um pronome, e sim uma gíria usada para o locutor se referir à pessoa com
Desse modo, mantendo a perspectiva de aumentar o próprio patrimônio, ele pensou em vender para fora as rosas de porcelana as quais, no romance Lueji, o
nascimento de um império (2008a), Pepetela menciona como originárias do Leste de
Angola, associando a referida flor à mitologia local. Conforme o oportunismo do empresário,
A publicidade podia ser baseada nos mitos, flores com máscaras tchokue, alusões à história do Império Lunda, coisas assim. Quando viesse o primeiro botânico filho da puta a provar que a origem da planta era doutro sítio, até talvez doutro continente, já a coisa tinha pegado, era mais um mito. E este mito dava muito dinheiro. Bendita loucura essa que atacou o tal escritor, provavelmente a chupar só espinhas de peixe agora que os livros não se vendem (Ibid, p.317-318).
Como se vê, a quarta parte da obra explicita que a forma de agir dos proprietários de empresas é semelhante, na África ou na Europa, pois a prioridade vem sendo o enriquecimento pessoal, mesmo que, para isso, seja necessário ludibriar e explorar o seu povo ou o estrangeiro. Afinal, “O génio do empresário é cheirar o dinheiro escondido nas ideias dos outros” (Ibid, p.318).
A Geração da Utopia mostra que, em 1991, dezesseis anos após a
independência, Angola vivia em um cenário de intensas contradições. Segundo Malongo, a economia de mercado vinha colocando as pessoas nos lugares certos, “cozinheiro na cozinha, o criado a lavar retretes e o magnata no iate” (Ibid, p.318). Para Orlando, namorado de Judite, filha de Sara com o ex-jogador, os empresários locais
[...] pensam só no imediato, são empresários primitivos, na fase da acumulação primitiva do capital. Os raros empresários com espírito criador, que poderíamos considerar como fazendo parte de uma burguesia nacional, não podem atender a todas as encomendas. E os europeus dizem uma andorinha não faz a primavera. Alguns empresários dinâmicos e com visão de futuro não fazem uma burguesia nacional. Num país sem burguesia nacional, ou o Estado assegura alguns serviços ou então é o vazio. Facilmente ocupado pelos estrangeiros (Ibid, p.321-322).
Era, de fato, o que estava a ocorrer: os estrangeiros vinham sugando a recente República, e tiravam dela aquilo que lhes interessava. Um dos fatores que contribuíam para essa realidade era a frágil formação educacional de alguns líderes
do MPLA, os quais estavam gerindo o país. Além disso, pessoas de cabeça “completamente vazia [...] enchiam os ministérios e as recepções oficiais” (Ibid, p.324).
De acordo com Judite, parte da população se denominava apolítica, o que ajudava a “[...] manter as coisas sempre paradas, sem progresso, qualquer que ele seja. E todos os regimes totalitários adoram esses apolíticos, embora não o reconheçam” (Ibid, p.323). Malongo, por exemplo, declarava-se avesso à política, o que era mais uma falácia, pois seu trabalho era eminentemente político, e o partido ao qual aderia era o seu bem-estar. No diálogo com o sogro e com o ministro Vítor Ramos, Orlando ressaltou que
Há sempre gente disposta a arriscar ficar com má fama para toda a vida, nem que seja por um dia de poder. O poder atrai mais que o sol. O problema é que quando se cria um regime de secretismo, a resposta da sociedade só pode ser pelo mujimbo. E pode haver injustiças, pagam os justos pelos pecadores. Mas que há pecadores, isso é inegável. Não é pelo facto de não se poder provar... As provas até devem existir, mas são retidas pelos acusados, os que detêm o poder. Muda o poder e aparecem as provas. E também muitas que são provas falsas, inventadas pelo novo poder só para queimar os adversários que antes o detinham. Já se viram coisas dessas, não será a primeira vez (Ibid, p.327).
Com colocações como essa, o jovem mostrava que o país seguia o mesmo rumo que outrora fora condenado por aqueles que fizeram a guerra pela independência. Inclusive Vítor, na época em que era morador da Casa, defendia o fim do colonialismo e a construção de um país onde houvesse justiça social, contudo, havia se transformado em mais um político oportunista e corrupto, para o qual “O povo esquece as coisas, interessa-se logo por outras” (Ibid, p.329). Além disso, em uma total incompatibilidade com o que pensava sobre o governo de Salazar, ele assumiu uma postura ditatorial, a ponto de afirmar que Orlando era um subversivo e que, se não fosse genro do amigo, “amanhã estava preso por ofensas a dirigente” (Ibid, p.331).
Na Angola do início da década de 1990, havia dirigentes como o ex- guerrilheiro Mundial e empresários como Malongo. Luanda era, provavelmente, a cidade na qual mais se bebia uísque doze anos no mundo. Contraditoriamente, nas ruas, as paisagens eram chocantes.
Nos largos e esquinas, mulheres e miúdos vendiam cigarros e cerveja. Alguns montavam banca de engraxar sapatos, sentados em cima de latas de leite. [...] O Horácio dizia os engraxadores percorriam toda a literatura angolana, porque eram a imagem mais acabada do colonialismo. Pois é, mas tantos anos depois da independência, os miúdos continuavam a fugir da escola para engraxar sapatos, se queriam ganhar a vida sem roubar. Imagem do colonialismo? Essa malta achava que ia fazer as coisas de maneira diferente dos outros africanos. [...] Afinal, tudo caiu no mesmo. Até a venda de produtos ao montinho, sem balança, resultado duma economia de miséria. E a prostituição, os pequenos negócios ilegais, os biscates. E a mendicidade dos governantes junto do Banco Mundial, CE, e todas as instituições de ajuda. Um povo tão digno tornado mendigo... [...]. Avançou pelo Miramar até ao Sambizanga. [...] Logo mudou de pensamento, ao ver as pessoas, sobretudo crianças, que se aglomeravam na lixeira, procurando restos de comida, roupa, ou coisas que pudessem ser vendidas, disputando-as com os ratos e as aves. [...] Quando o vento soprava do norte, o cheiro pestilento invadia as embaixadas. Uma vergonha. As pessoas se moviam por cima do lixo fumegante, tão sujas como a própria lixeira. E os bairros tinham rodeado a lixeira, para mais perto respirarem os miasmas que dela emanavam. Um médico lhe tinha dito que toda essa população tinha problemas respiratórios. Muitas vezes se falara em mudar a lixeira para fora da cidade, mas os camiões continuavam a descarregar ali nas barrocas. [...] Logo a seguir, num descampado que dominava toda a baía, ficava o maior mercado de Luanda, o Roque Santeiro. Nestes últimos anos que veio regularmente à terra, pôde acompanhar o crescimento imparável desse mercado, primeiro combatido, depois resignadamente aceite pelas autoridades. Milhares de vendedores se instalavam no chão para vender legumes, depois também roupa, sapatos, medicamentos, aparelhos domésticos, motos, peças de carros, enfim tudo [...]. Uma mulher bateu no vidro do carro, não tens nada, amigo? Claro, um carro parado ali, fora do mercado, chamava a atenção. Pensavam imediatamente que trazia cerveja para revender. Fez um gesto de negação sem baixar o vidro. Tinha de ir embora, senão mais gente vinha incomodá-lo. Mas a atenção dele foi atraída por um burburinho na zona esquerda do mercado [...]. Dele sobressaiu um homem que corria, perseguido por dezenas de pessoas. Viu o homem ser rasteirado por alguém, cair no chão, logo ser abafado por dezenas de corpos. As pessoas corriam de todos os lados do mercado para lá. E vinham também da estrada, a correr e gritar, passando pelo carro. [...] Os gritos anunciavam, um ladrão tinha sido apanhado. [...] Como num filme, Malongo viu a turba abrir um círculo, deixando no meio um corpo deitado que tentava levantar-se, depois alguém lhe despejar um líquido pelo corpo, devia ser gasolina, e segundos depois uma chama alaranjada sair do corpo caído, que se levantou, correu em direção às pessoas, as quais se afastavam em movimentos rápidos, para cair de novo sobre a terra vermelha de muceque e ficar a se consumir, chama e vida, num silêncio pesado de todo o mercado. Um carro da polícia chegava, com a sirene a tocar, e as pessoas correram para todos os lados, diluindo a responsabilidade coletiva no Dédalo de bancas e barracas, deixando o corpo no chão [...] (Ibid, p. 359-363).
Em comunhão com esse cenário de desordem, as ruas estavam esburacadas; aumentava o número de casos de AIDS; havia negros se considerando brancos, devido à ascensão social; em várias casas, os criados eram chamados de “burros”,
“pés-descalços” e eram maltratados pelos patrões; o sindicato não defendia o pessoal doméstico.
Outro aspecto relevante que a obra evidencia em O Templo (A partir de julho
de 1991) é a mudança de hábitos culturais. Por exemplo, “os dancings e cabarés,
locais de convivialidade africana por excelência, eram péssimos para a conversa. E a conversa era nas sociedades tradicionais o supremo prazer e a suprema arte” (Ibid, p.334). A música eletrônica interferia na cultura local, a ponto de muitos se deixarem levar pelo som, sem nem falar; outros dançavam ruminando, por estarem mastigando chicletes. “Os homens viravam os olhos para dentro, para sentirem as vibrações do stereo no crâneo, embebedando-se de vazios e dos movimentos cadenciados” (Ibid, p.334). Cenas como essas incomodavam até Malongo, que tocava viola e cantava, e nunca havia se deixado levar pela música do Zaire, a qual era vista, em alguns países, como o exemplar da música africana, “Como se não houvesse muitas Áfricas, todas diferentes...” (Ibid, p.335).
Em um contexto de tantas disparidades e desesperança, tornava-se fácil fazer da fé alheia um “trampolim”. Essa foi a tática empregada por Elias, aquele que, em 1961, estudava em Lisboa e era leitor de Frantz Fanon. Quando jovem, ele se integrou à UPA, que veio a ser a FNLA, e com o apoio do Partido estudou Filosofia e Psicologia nos Estados Unidos. Depois, por descrença nos conterrâneos, afastou-se da atividade política e doutorou-se em Psicologia Social, passando a ser professor. Passou um tempo ministrando aulas na Nigéria, onde diz ter ouvido o chamado que o levou a ser bispo da Igreja da Esperança e Alegria do Dominus. Afirmava curar doenças radiciais, “que os médicos não conhecem, ou não querem conhecer” (Ibid, p.338). Nas palavras dele, “Ataco na profundidade do ser, na sua apetência a ter uma doença. Curo o íntimo do indivíduo [...]. Interfiro nos fluxos de energia de base do corpo, no metabolismo essencial e nas trocas com a natureza” (Ibid, p.339). Adotando um discurso com esse teor e com uma voz impostada, Elias facilmente convencia muitas pessoas, o que foi observado por Vítor e Malongo. O bispo argumentava que
O mais importante é o ensinamento de que o homem é bom, como Dominus é bom. Muito diferente das outras religiões que dizem que o homem é mau, só porque o seu deus é severo e impenetrável. Como o homem se convence que é mau, então mata e fere, por culpa desses deuses da guerra. Dominus é transparente e as civilizações antigas conseguiram
apreender parte da sua essência. Por exemplo, Dionísio dos gregos e Baco dos romanos são manifestações parciais de Dominus, assim como Afrodite ou Vénus. Algumas culturas africanas também apreenderam partes da essência de Dominus. Este Nzambi que nos deixa à vontade, sem se imiscuir nas nossas vidas, é Dominus, claro. O problema é que nenhuma civilização o apreendeu na totalidade. [...] Dominus escolheu-me para se revelar. [...] A existência dessas parcialidades da sua essência, como Baco ou Yemanjá, provam que se revelou antes a outros. Mas esses talvez não tenham tido a capacidade de o apreender na sua totalidade, ou talvez a própria época não o permitisse. A mim incumbe pois a pesada e grata tarefa de ser o seu mensageiro. [...] O que não sabes é que isso é revelação de Dominus aos povos bantos e a Moisés. Daí que na Bíblia se diga que primeiro era o Verbo. Como hoje se sabe que tudo começou em África, pode-se dizer que foram os africanos que o ensinaram aos primeiros judeus (Ibid, p.339-340).
A demagogia atravessava as palavras proferidas por Elias. Ele, inclusive, observava que, em Luanda, estava em alta a mistura cultural no âmbito da música, então, explorou a mescla cultural na esfera religiosa, e relacionou Dionísio, Baco, Afrodite, Vênus, Nzambi, Yemanjá e Dominus. Seguindo esse viés, o bispo se colocou na mesma condição que Buda, Jesus e Maomé. Simultaneamente, disse ter cortado todas as amarras com a Ásia Menor, compondo uma igreja africana, “a primeira que proclama a virtude do amor e da alegria, desculpabiliza o prazer, que alia Deus e a festa. Dominus é Deus único, mas pagão, força sensual da Natureza” (Ibid, p.343).
A partir da exposição do “mensageiro escolhido”, bem como do seu interesse em montar um templo, surgiu um novo negócio na capital angolana, fruto da união do dinheiro de Malongo, da influência de Vítor e da persuasão de Elias. A “inauguração da empresa” deveria ser por meio de um grande culto, ou um show, termo utilizado por eles. Para a ocasião, fariam uso dos eletrônicos e de batuques, recursos de hipnose, vocabulário adaptado para o espaço angolano. Até os óvni foram lembrados. Tudo era devidamente pesado e pensado, a fim de garantir a exploração da fé daqueles cujo cotidiano era de desconsolo e privação. Até o nome “Dominus” era uma estratégia para ludibriar, uma vez que o latim, segundo o bispo ressaltava, “nas zonas aculturadas é imediatamente compreendido como língua de religião (Ibid, p.345).
Com essa igreja, o objetivo era ir além de Luanda, de Angola, de África. Fazia-se necessário, portanto, que ela fosse forte, de peso. E era.
A sua mensagem é muito mais moderna e mais de acordo com o ser profundo do homem angolano. Daqui transbordará para África e depois para todas as diásporas africanas. Imagina o mercado mundial de almas à nossa disposição. Com as crises económicas, com a perda da utopia da libertação política, com o fim do inimigo que estava do outro lado na guerra fria, com a dívida externa que tira qualquer hipótese de desenvolvimento aos nossos países, os jovens desempregados e sem instrução, a delinquência e insegurança galopantes, tudo isso leva as pessoas a verem a religião como a única salvação. Todos apelam a um deus que lhes indique um caminho na vida, que já não têm ou que nunca tiveram. Os políticos vão namorar-nos um dia também, porque seremos a força. Mas para já precisamos dum pequeno apoio discreto dum político. Uma palavrinha a quem de direito para que a Igreja seja legalizada. [...] Uma palavrinha não custa nada. Não te compromete muito. E terás o nosso apoio quando dele precisares, o que vai acontecer em breve, não é preciso ser feiticeiro para adivinhar (Ibid, p.349- 350).
Como sócio, o ministro precisaria usar seus conhecimentos e sua influência para conseguir legalizar a Igreja de Dominus. A sociedade entre os três foi firmada. Malongo “entrava com um capital, sobretudo para as aparelhagens sonoras, colunas de mil watts, lâmpadas de todos os tons e tamanhos” [...]. O Vítor dava o apoio político” (Ibid, p.360). A celebração do acordo foi com uma garrafa, “sem papéis,