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Começa a ser tempo de se fazer a História disto tudo.

Pepetela

Segundo Joseph Ki-Zerbo (2010), como ciência, a história é feita para aclarar e motivar a consciência do indivíduo e do povo. Sob esse ponto de vista, para se narrar a história de África, não se pode desconsiderar a ótica do africano e meramente se repetir o discurso do estrangeiro como aquele que detém a verdade. Da mesma forma, a história de Angola não deve prescindir do olhar de quem com esse lugar mantém um sentimento de pertença. Para Hayden White (2001), ao estudar o passado, o historiador precisa relacioná-lo com o presente, objetivando responder a questões contemporâneas e se deter sobre problemas da atualidade. Sendo assim, a literatura favorece uma reflexão sobre o presente, ao retratá-lo, inclusive quando ela põe em foco elementos do passado e evidencia rastros de passeidade, conforme terminologia empregada por Paul Ricoeur (2007). Com isso, o texto literário possibilita que, por meio dele, a sociedade se veja, afinal, a arte nunca está desvinculada de tempo e do espaço em que é produzida.

No caso do romance A Geração da Utopia, como se pôde verificar, ele não só diz que, em 1961, havia muitos estudantes de Angola em Portugal e que a maioria desses almejava ver seu povo livre. Ele vai além. Registra os conflitos que permearam o referido ano e que desencadearam a guerra pela independência. Ele traz a vivência de quem estava na Casa dos Estudantes e entregou-se à causa, assim como mostra a existência de insegurança, desconfiança, solidão e saudade entre os que, por estarem distantes de sua terra, de seus costumes e da sua gente,

encontravam-se desterritorializados. A obra põe em foco características do espaço angolano, ao exibir a chana e compará-la com a floresta, ao fazer menção a cidades, ao litoral, a rios, ao cacimbo, à calema, à diversidade de animais, a estradas. São também destacados diversos aspectos culturais, de crenças e danças à riqueza etnolinguística. Parte da história de Angola é contada, sob a perspectiva do seu interior, ou seja, sob uma ótica angolana, proposta que comunga com as ideias de Ki-Zerbo.

A narrativa tem algumas passagens nas quais a linguagem se aproxima da oralidade, seja por conta de expressões mais comuns à fala, seja em virtude do ritmo adotado, o que, na escrita, foi demarcado pela pontuação usada. Decerto, as marcas de oralidade são utilizadas como recurso para pôr em voga uma característica da cultura africana, que é a valorização do oral, modalidade linguística por meio da qual o conhecimento era propagado pelos mais velhos. Também há trechos nos quais o poético se evidencia, sobretudo nas partes em que a ênfase é dada ao erótico-amoroso e à tentativa de definição da chana. De um modo geral, a linguagem do texto familiariza-se com a que é comumente empregada na historiografia, considerando-se, inclusive, a presença de alguns tropos.

De acordo com Hayden White (2001), no discurso historiográfico, é recorrente a presença da metáfora, da metonímia e da ironia, figuras que se sobressaem em A

Geração da Utopia. A metáfora mais significativa do romance é a do polvo, inimigo

que perseguia Aníbal desde a época em que este era criança. Para ele, o animal se mostrava como poderoso, ameaçador e aparentemente invencível, por isso a relação nutrida com o molusco era de vítima e algoz. Logo, não era aleatória a presença marcante do polvo nos pesadelos do guerrilheiro que, frente a esse “monstro marinho”, fraquejava e se considerava vencido. Durante o período de exílio na Caotinha, entretanto, após as vivências bélicas, o Sábio mergulhou no território do inimigo, para enfrentar mais uma guerra, a mais importante de sua vida. No mar, ele se deparou com o polvo e, pela primeira vez, venceu o medo alimentado durante anos e foi ao encontro do animal, atingindo-o e destruindo-o. A luta parece homérica, até que, diante do molusco morto, o angolano descobriu que não havia monstro algum, que a grandiosidade do inimigo era imaginária e que a invencibilidade só existia em sua mente, acometida pelo temor.

Nesse contexto, o polvo, o qual “tinha tentáculos que entravam por toda a parte, agarrando lulas e peixinhos desprevenidos, para os tragar selvaticamente” (Ibid, p.283), irrompe como metáfora do Estado autoritário e castrador português. Considerando-se similaridades, as colônias portuguesas foram tragadas pelo colonizador. Foi por meio das águas marinhas que o lusitano chegou ao continente africano, escravizou inúmeros habitantes e se colocou como dono de parte do território, a exemplo do que fez em e a Angola. Isso justifica a sensação de perseguição experimentada pelo Sábio, bem como a impressão de monstruosidade do animal. O polvo residia em uma gruta – imagem relacionada ao inconsciente –, assim, o enfrentamento desse molusco representava o enfrentamento de um trauma de anos. Explica-se, dessa forma, a sensação de Aníbal de que a morte do seu inimigo coincidia com o cataclismo universal. Explica-se também a data escolhida para o embate, a mesma da morte do herói angolano e de Mussole – metáfora da angolanidade violentada pelo invasor.

Quanto à metonímia, revela-se mais fortemente na relação parte-todo presente na abordagem que é feita da chana e da mata, à medida que, por um lado, são apresentadas como zonas naturais de Angola, distintas das outras, como o deserto e o litoral, por exemplo, e diferentes entre si. “O deserto é um mundo fechado. A chana são vários mundos fechados, atravessados uns pelos outros” (Ibid, p.143). No caso da floresta, “não será uma simples ilha [...] onde coqueiros nascendo da areia procuram com seus penachos acariciar as nuvens?” (Ibid, p143). Por outro lado, a chana é focalizada como um todo, o universo em que há “[...] a angústia, a interferência de mundos, o inconforto, a mobilidade, a instabilidade” (Ibid, p.219); de modo semelhante, a floresta também é um universo, “[...]uno e indivisível da tranquilidade, da facilidade, da quietação” (Ibid, p.219). Cada universo desse é parte constitutiva de Angola – um todo –, assim como esta é parte constitutiva de África – outro todo. Além disso, considerando-se que a metonímia é uma forma secundária de metáfora, é pertinente a leitura de que a chana e a floresta metaforizam opções de caminhos a serem seguidos pelos líderes Sábio e Mundial, guerrilheiros que compunham a geração da utopia e participaram da conquista da independência.

Em relação à ironia, pode-se dizer que está tão presente na narrativa quanto a metáfora. Um exemplo bastante expressivo está vinculado à fundação da Igreja da

Esperança e da Alegria do Dominus, cujo bispo estudou em Lisboa, financiado por uma igreja protestante. Como membro da UPA – depois FNLA – Elias recebeu uma bolsa para estudar nos Estados Unidos, onde cursou Filosofia e Psicologia. Após, aderiu à Unita, mas afastou-se da vida política e fez o doutorado em Psicologia Social. É irônico o fato de que o investimento feito nele, pela igreja e pelos partidos políticos, não tenha levado a contribuições para o desenvolvimento do país, e ele tenha, com toda a formação obtida, se especializado em ludibriar a massa. É um deboche que, em seus cultos, ele se refira a outras igrejas como concernentes a religiões que oprimem as pessoas e lhes façam sofrer, chorar e sentir culpa. Não menos sarcástico é ele ter atuado nos referidos grupos políticos, os quais, conforme consta na obra, adotavam postura tribalista e violenta, e ainda, como líder religioso, defender que todos são irmãos.

Para financiar o primeiro “culto-show”, legalizar a igreja e construir o templo, Elias se associou a Malongo – empresário oportunista que, por ter se tornado rico, “embranqueceu” – e a Vítor Ramos – ex-guerrilheiro que substituiu os ideais sociais por interesses pessoais e chegou ao cargo de ministro. É fortemente irônico que, apesar dessa sociedade essencialmente empresarial para a implantação de uma igreja, o discurso religioso defendido no culto e incutido na mente das pessoas seja o de que “Dominus falou, vamos ensinar a verdade, Dominus falou, mas não queremos dinheiro sujo, [...] Dominus falou, dinheiro da corrupção é sujo, Dominus falou, [...] dinheiro do roubo é sujo [....]” (Ibid, p.384), ao passo que os assistentes enchiam os sacos com dinheiro e bens do povo, despejavam no local previamente destinado para esse fim e voltavam para receber mais. É patente a ironia na felicidade da massa, a qual, embora roubada e manipulada, embora sobrevivendo na continência ou na ausência, pensasse que estava a “[...] ganhar o Mundo e a Esperança” (Ibid, p.384).

Além da recorrência desses tropos na obra de Pepetela33, há outros aspectos

que assemelham o romance a um texto historiográfico. Ainda segundo a ótica de White (2001), a interpretação está presente na historiografia esteticamente, através da opção por uma estratégia narrativa específica; epistemologicamente, por meio da escolha de um paradigma explicativo; e eticamente, através da definição da estratégia em que se possam deduzir implicações ideológicas que contribuam para a

compreensão do presente e uma consequente atuação sobre ele. Em contiguidade com o texto histórico, o ficcional já é concebido com uma estratégia narrativa que, para o autor, atende à interpretação que ele visa realizar acerca do “objeto” tratado, o que já denota o estabelecimento de uma forma que possibilitará a elucidação da interpretação feita. Afora isso, a opção pela estratégia adotada é, na essência, ideológica, e não está desvinculada do contexto a partir do qual o discurso é emitido. Dessa forma, ao tratar de questões do passado, o texto historiográfico ou o ficcional também trata do presente.

Nessa perspectiva, para atender a seu compromisso com Angola, na condição de escritor, Pepetela concebeu A Geração da Utopia como um romance, gênero textual que possibilita a abordagem do espaço e da sua relação com o tempo, com os fatos expostos e com os personagens envolvidos neles. A voz narrativa está em terceira pessoa, de modo a indicar um distanciamento da interpretação apresentada sobre três décadas de Angola, as quais abarcam da luta pela independência aos dezesseis primeiros anos de República. Um narrador dessa natureza é comum a textos historiográficos, nos quais é usual que quem conta os fatos não se evidencie. No romance, inclusive, o personagem mais crítico – Aníbal – se distancia do convívio social, simbolizando o afastamento necessário para ele avaliar Angola após a emancipação, e fazê-lo de forma mais sensata. Essa estratégia lhe possibilita recordar e perceber as conquistas realizadas, a importância do engajamento e da coesão, contudo, também permite a percepção de que o ideal de uma sociedade justa não foi alcançado, uma vez que a desigualdade, a exploração e o pouco acesso à educação permaneciam como componentes do quadro social angolano.

Na concepção de Michel de Certeau (2006), a sociedade conta-se graças à história, que traz relatos através dos quais passado e presente são associados. A obra A Geração da Utopia foi publicada em 1992 e, conforme denominação de cada parte que a compõe, exprime uma leitura de 1961, de 1972, de 1982 e a partir de julho de 1991. Ou seja, considerando-se o ano da publicação, a última parte do romance continuava representando o presente de Angola, o que explica o fato de Pepetela não a ter demarcado temporalmente como 1991, apenas, e sim ter empregado a locução “a partir de”, que denota uma continuidade. Conforme Certeau (2012), a heterologia – logos do outro – é a essência do discurso histórico. Por isso,

este traz indícios da alteridade, principalmente através de citações e referências a nomes próprios, datas e fatos, o que contribui para o dito ser avaliado como verdadeiro, racional e objetivo. Essa se constitui, então, uma característica propensa à diferenciação entre o texto histórico e o de ficção, o qual explora o simbólico e é comumente subjetivo. O referido romance pepeteliano, porém, contraria essa visão.

As marcas de passeidade ficam evidentes em toda a narrativa em análise. Além das já expostas, elas estão no enfoque dos três grupos que marcam a política do país – MPLA, UPA, com menção até à mudança para FNLA, e UNITA; em detalhes como o dado de que os guerrilheiros – turras – usavam sapatilhas, e os soldados lusos – tugas –, andavam com botas; na alusão a nomes de importantes angolanos, como Mário de Andrade e Viriato da Cruz; de portugueses, a exemplo de Camões, Pessoa e Salazar, com sua ditadura; de brasileiros, como Drummond de Andrade, ou de filósofos proibidos, como Marx e Fanon. Estão em fatos e datas mencionados, como a rebelião do Norte, ocorrida em março de 1961, ou o dia 14 de abril, aniversário da morte do Herói de Angola; a ocorrência da Guerra Fria e das potências envolvidas; o tribalismo e episódios do passado do país, como a guerra dos kuata-kuata e a escravidão.

Encontram-se rastros de passeidade também na focalização de Lisboa, em 1961, e de Luanda, a partir de 1991, como espaços urbanos com realidades bastante distintas, não sendo o tempo a razão para isso. A passeidade está, enfim, no registro de mutilações e mortes, ocasionadas pelas minas; no relato da guerra pela independência, com um olhar que abarca da idealização à realização; na colocação da criticidade e da intelectualidade como instrumentos necessários à reestrututação do país; no reconhecimento da existência de um povo crioulizado, advindo de um pai branco e uma mãe negra, alusão metafórica à cultura compósita, segundo Édouard Glissant (2005), oriunda da mistura de civilizações.

Com base nos estudos de Paul Ricoeur (2010), defende-se que A Geração da

Utopia é uma obra na qual se tem, simultaneamente, a ficcionalização da história e a

historicização do texto ficcional. Trata-se de uma obra literária, o que implica a incorporação do imaginário, que se presentifica na criação de fatos, personagens, falas, ações, visando a reconstruir um passado que não pode ser esquecido, tampouco desconhecido. Mas se trata também de uma obra na qual o “ter-sido” não se desvincula do real vivido; mais que isso, a ele faz constantes menções,

focalizando vivências que estão na memória coletiva do africano, especialmente do pertencente a Angola. Em síntese, Pepetela recorre à ficção para narrar a história de seu país, e o faz historicizando o texto ficcional. Ele lança um olhar para o passado, possibilita uma leitura crítica do presente e realiza aquilo que Hama e Ki-Zerbo (2010) salientam que a história também deve fazer: uma exortação do futuro. Assim, trazendo a História dentro da história, o autor de A Geração da Utopia constrói um projeto de nacionalidade, passo fundamental no continuum que é a re-construção de uma identidade angolana.

5 TERRA SONÂMBULA: O REGISTRO DA HISTÓRIA COMO RECURSO PARA A RE-CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE MOÇAMBICANA

Seria preciso esperar séculos para que cada homem fosse visto sem o peso de sua raça. Mia Couto

Com publicação em 1992, o romance Terra Sonâmbula aborda as consequências devastadoras da guerra civil que se instalou em Moçambique pouco tempo após manifesta a sua independência. A obra está dividida em onze capítulos e em onze cadernos, os quais são apresentados alternadamente. Isto é, para cada capítulo, há um caderno, a exemplo de Primeiro capítulo e Primeiro caderno de

Kindzu. Cada uma dessas partes tem um título, que sugere o foco em torno do qual

o segmento gira. No texto, duas vozes narrativas são predominantes: a de um narrador observador, que faz o relato dos capítulos, e a de Kindzu, que, através de seus cadernos, conta suas vivências. Além disso, há passagens nas quais alguns personagens assumem momentaneamente a voz narrativa e relatam uma história.

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