A memória coletiva está estritamente ligada às memórias individuais que compõem os pensamentos e as ideais dos diversos grupos sociais, formando toda a cultura de um determinado lugar. Esses “pedaços de memórias” se combinam e se transformam em uma grande rede de idéias, valores e ideologias que moldam o senso de identidade do indivíduo a um grupo ou sociedade. Assim, memória e identidade se estabelecem através da prática social.
Fazendo-se um paralelo entre memória e identidade, baseando em Martins (2003), é possível dizer que grupos marcam a sua existência através da ocupação de um lugar, e ali, delimitam-se regras, normas de comportamento, vestuário, linguagens, ritos, que conferem a esse grupo uma unidade ou identidade. A partir daí, a história do grupo surge naturalmente nesse espaço imaginário. “Criam-se” as pessoas mais importantes, as menos importantes, as mais e menos abastadas, ou seja, baseando-se nessas normas formuladas pelo grupo todos os homens são qualificados ou desqualificados à medida que obedecem ou desobedecem às regras. Cada um tem a sua importância e o seu papel para o mantenimento desse sistema social: crianças, adultos, idosos, todos com o objetivo de melhorar as qualidades do grupo e suprimir aquilo que é nocivo à sua continuidade no tempo. Analisando-se rapidamente esses papéis, é possível perceber que as crianças são pequenos adultos, que através das brincadeiras e situações sociais vividas aprendem a viver nesse espaço criado pelos seus antecessores. Quando crescerem, tornar- se-ão um deles, participando ativamente e ajudando a modificar a história, a
memória e a identidade local. Os adultos são o presente, aqueles que neste momento estão a transformar, a modificar o espaço social em que vivem. Já os idosos são a memória viva de um tempo que já passou, fonte de experiências importantes para adultos e crianças que passam por uma vida previamente demarcada e condicionada por normas e leis.
Assim é a construção de um legado cultural. Cada grupo contribui à sua maneira. E essa preocupação em identificar grupos e papéis na constituição de um patrimônio é retratada no Curso de Educação Patrimonial Profissionalizante, pois é dessa forma que será possível mostrar aos jovens o seu lugar na conservação do patrimônio e na continuidade da história, através da criação de vínculos entre patrimônio e sociedades. Uma forma de criar esse elo é aproveitar o conhecimento tradicional e acadêmico dos professores nas aulas teóricas e também dar espaço para os mestres locais, restauradores do patrimônio, para que possam passar nas aulas práticas o conhecimento técnico necessário nas restaurações. É unir o conhecimento técnico ao tradicional, permitindo também a interação, o trabalho conjunto entre grupos e faixas etárias diferentes: jovens e adultos.59
Contudo, seria generalizar demasiadamente as sociedades só pela fase da vida, pela idade. Os indivíduos que compõem esses grupos são também diferentes entre si. Cada um está num momento, tem um temperamento, um trabalho, uma família. E quanto mais aprofundado o estudo das diferenças, mais estratificado e categorizado o grupo. O interessante é perceber que em cada uma dessas “camadas” – geradas pelas regras - tem a sua memória, que difere da outra “camada”. Isso porque se tem espaços, vivências, memórias em que é permitida a participação de todos, outros são limitados seja pela idade, pela cor, pelo sexo.
Como exemplo de diversidade social de grupos, em relação à memória, é possível perceber que as mulheres detêm uma compreensão da história de Sabará que difere da compreensão masculina. Sendo assim, a construção da
59 Essa interação pode ser bem maior se os filhos desses mestres se tornarem aprendizes no curso. Seria um reforço não só no aprendizado como também nos laços familiares.
memória e a consolidação dos elementos memoráveis se dão pela vivência da sociedade com todos os aspectos e objetos reconhecidos como pertencentes ao lugar60. E essa vivência não é igual para todos, podendo diferenciar-se por definições de gênero, classe, raça, etnia, preferência sexual ou idade. (HAYDEN, 1997).
Entretanto, vendo a diversidade cultural por outro aspecto, é possível apreender que esses grupos também interferem, cada um a seu modo, na construção do espaço, tendo cada um uma característica que enriquece a cultura local, evitando assim a padronização ou a homogeneização das localidades. No turismo, essa homogeneização é combatida, pois os demandantes por viagens priorizam conhecer, de maneira superficial ou não, o que é diferente de sua cultura.
Diante do exposto, fica mais clara a idéia de que a herança cultural é construída por grupos sociais diversos, até mesmo contraditórios, pois tratam das diversas visões sócio-econômicas e políticas que os grupos sociais têm de um mesmo fato. E levando-se em conta a dinâmica social, a memória é sempre reconstruída, descartando e agregando elementos que permitam a sua “perenidade”. E, enquanto se consolidam como memória, embates sociais continuam acontecendo.
Como forma de explanar um pouco mais sobre o patrimônio e a memória sabarense ligadas ao gênero, esse capítulo enfocará a relação desses elementos com a manutenção e conservação dos bens da cidade de Sabará. O que se pretende é mostrar que todo o legado edificado tem por trás de si mesmo subjetividades imateriais. A palavra subjetividade é aqui empregada não como algo que deva ser colocado em segundo plano, ou seja, hierarquizado. Mas, como um elemento que muitas vezes é esquecido quando se trata da materialidade ou tratado como objeto de estudo independente. É preciso reconhecer que ambos são indissociáveis.
60 Os aspectos de vivência são caracterizados pelos usos e significados que cada grupo faz dos elementos memoráveis. A criança relaciona os acontecimentos com o espaço da casa ou da escola, ambientes freqüentados por ela nessa fase. A mulher pode trabalhar a memória relacionando-a a casa, ao trabalho e a um grupo de leitura que faça parte, por exemplo. É assim que se dá a memória ligada à vivência.
3.2 O PAPEL FEMININO E MASCULINO NO CENÁRIO PATRIMONIAL