À semelhança dos grandes vectores presentes no conceito de sustentabilidade – gestão ambiental dos recursos, continuidade e desígnio ético, que no âmbito da arquitectura estão umbilicalmente relacionadas com (respectivamente) o referencial de qualidade de vida, potencial de evolução e reabilitação, e capacidade de incorporar valores / significados culturais e do Lugar – a matriz a desenvolver organiza-se em três grandes níveis de integração (cada um deles relacionando um conjunto de parâmetros / descritores, construídos para a arquitectura a partir de princípios análogos ecológicos):-
(1) Eficiência, associada a uma visão dinâmica reactiva natural;
(2) Adaptação, focada na plasticidade de resposta sistémica à mudança do ambiente e contexto; e
(3) Adequação, reflectindo os níveis de coerência, organização, significado e potencial evolutivo do modelo conceptual e prático associado à edificação e respectiva sustentabilidade.
Dada a abrangência e complexidade da temática reflectida na construção desta matriz, os resultados apresentados situam-se sobretudo e ainda, no nível conceptual (definindo os conceitos, alcance e ligações potenciais) - abrindo contudo o caminho
para uma caracterização mais quantitativa e operacional de cada um dos descritores, permitindo um referencial crítico objectivo das metodologias de certificação da sustentabilidade ambiental na área da construção e arquitectura sustentável..
Quadro 17 - MATRIZ AVALIATIVA DO “EDIFÍCIO VIVO” Sinergias do comportamento natural e tecnológico
Âmbito de Avaliação
RECICLAGEM NEGENTROPIA /
POLUIÇÃO
Reutilização sequencial de materiais / Energia e eliminação de resíduos
REGULAÇÃO HOMEOSTASIA Capacidade de resposta natural automática a variações
bruscas ambientais
COOPERAÇÃO SIMBÍOSE /
AGREGAÇÃO
Potencial natural de associação de comportamento / Sinergias e Interacções organizativas
AFINAÇÃO SAÚDE /
METABOLISMO
Qualidade da relação de objectivos / recursos / resultados; presença de Patologias
DIVERSIDADE SOBREPOISÇÃO /
COMPETIÇÃO Multiplicidade de processos e respostas alternativas
RESILIÊNCIA TOLERÂNCIA Limites da capacidade de resposta sem rupturas /
Recuperação
AUTO-SUFICIÊNCIA PRODUTIVIDADE Nível de dependência de recursos e energias exógenas
ORDEM INTEGRAÇÃO /
HIERARQUIA
Coerência e organização entre escalas e insercção no contexto
BIOMIMETISMO MORFOGÉNESE Adopção de lógicas funcionais / formais biologicamente
referenciadas / análogas
APERCEPÇÃO SIMPATRIA Incorporação de informação significativa do Lugar e
contexto
EVOLUÇÃO SUSTENTAÇÃO Capacidade de Auto-aprendizagem, modificação e
crescimento / Continuidade
Quadro 5: Matriz Avaliativa do "Edifício Vivo"
ADAPTAÇÃO FLEXIBILIDADE
ADEQUAÇÃO INTEGRIDADE
Parâmetros / Princípios ecológicos
Parâmetros Agregados
EFICIÊNCIA DINAMISMO
Fonte: Autor
A metodologia utilizada foi a de caracterizar para cada um dos descritores escolhidos os conceitos ecológicos originais, contextualizando-os e exemplificando a sua aplicação no âmbito do funcionamento dos sistemas naturais e depois reinterpretando- os para o campo da arquitectura, especificando a sua utilidade e conexões, identificando exemplos significativos da escala do território urbano à dos sistemas e soluções construtivas, com especial ênfase (quando possível) nesta última vertente. Na sequência, estes descritores são cruzados e ponderados, no contexto das três grandes categorias definidas na matriz, consubstanciando um conjunto de grandes critérios que definem o paradigma do ―Edifício Vivo‖, que se exemplifica em
comparação com a abordagem actual do que se convencionou chamar ―Edifício Inteligente‖
Um dos factores fundamentais que pondera e unifica a avaliação destes descritores reside na leitura integrada do comportamento natural com o tecnológico - com o primeiro como abordagem base e o segundo como afinação complementar - valorizando as sinergias que resultam dessa associação, no âmbito da procura de níveis mais qualitativos de sustentabilidade ambiental, económica e social na edificação.
Um exemplo básico destas sinergias pode ser dado pela complementaridade que sistemas móveis mecânicos programados de sombreamento podem ter na afinação dos processos de captação e sombreamento associados aos sistemas solares passivos: - i.e., como a geometria solar (a variação da posição aparente do sol na abóbada celeste, diária e sazonal) é precisa e simétrica em relação ao eixo Norte-Sul em cada Lugar, é possível desenhar e orientar aberturas de modo a maximizar naturalmente o potencial de captação da radiação solar térmica nos períodos de carência energética e temperaturas climáticas inferiores aos parâmetros de conforto, e aproveitando a maior verticalidade dessa posição nos períodos de sentido contrário, sombrear (também de modo passivo e sem recurso a outras estratégias) os vãos envidraçados, minimizando o seu potencial efeito de estufa (indesejável neste período); contudo, como a simetria da geometria solar está afinada pelos solstícios (atingindo na nossa latitude o seu zénite, no solstício de Verão em Junho, diferenciadamente dos picos térmicos climáticos mais centrados nos meses de Julho e Agosto147), os percursos aparentes são similares em meses como Março e Setembro;por exemplo, em Portugal, se se quiser privilegiar a captação no mês de Março (Inverno), inevitavelmente haverá uma disponibilidade igual e indesejável em Setembro, quando as temperaturas externas ainda podem estar acima dos parâmetros desejados de conforto; essa divergência pode e deve ser resolvida através de elementos móveis associados aos vãos que podem ser accionados quer manualmente, quer mecanicamente (neste caso, preferencialmente com pouco dispêndio de energia exógena). Esta abordagem, assegurando uma resposta natural e passiva na maior parte das situações, afinando complementarmente através de uma solução tecnológica informada das geometrias do vão, protecções e solar, bem como
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A razão deste desfasamento tem a ver com a influência no clima da energia solar armazenada no solo (e na atmosfera) e a sua reemissão temporizada somada à radiação directa, fazendo com que o pico da emissão de radiação solar directa (solstício de Junho) não corresponda ao período em que genericamente as temperaturas climáticas são as mais elevadas.
das médias climáticas ou com sensores aferidos às temperaturas exteriores e interiores, é substancialmente diferente de uma abordagem exclusivamente tecnológica, que ignora a orientação solar e o clima local, obtendo eventualmente resultados similares, mas á custa da dependência de consumos energéticos exógenos e de soluções de custos mais elevados e pouco resilientes a rupturas no acesso a essa energia ou falhas tecnológicas.
Figura 40 - Sistema de sombreamento inteligente, Abu Dhabi’s Al Bahar Towers148
Os dois outros factores fundamentais que intersectam os descritores referidos correspondem aos níveis de incorporação de elementos e processos vivos, e a relação de integração entre as componentes ambientais com as vertentes cultural e social do Lugar, directamente relacionadas. Todos estes factores e descritores são cruzados ainda pela leitura integrada e complementar de escalas espaciais e temporais (urbanidade, arquitectura e construção; antes, durante e depois da intervenção arquitectónica), que permitem perceber a coerência e integridade ambiental das intervenções a avaliar.
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Fonte: http://freshome.com/2012/12/24/intelligent-shading-system-showcased-by-abu-dhabis-al-bahar- towers/
Numa primeira abordagem, explicita-se e exemplifica-se sumariamente, os princípios ecológicos escolhidos como referenciais para a definição dos descritores da matriz a construir, bem como a sua adaptação ao âmbito da Arquitectura. Neste contexto procura-se tipificar as funções e comportamentos a que cada um responde, nas escalas do desenho urbano, projecto de arquitectura e caracterização construtiva, bem como, quando adequado, enquadrar as situações prévias e posteriores à intervenção, com relevância ambiental e na sustentabilidade. A ponderação e caracterização mais objectiva deste processo, não é ainda objecto deste enquadramento, embora seja sugerida uma metodologia para esse processo, necessariamente carecendo de uma reflexão mais aprofundada, e a consequente investigação / aferição experimental.
Quadro 18 Metodologia de desenvolvimento dos descritores
Fonte: Autor