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Os termos “alfabetização científica” e “letramento científico” têm sido muito utilizados na literatura e nas pesquisas em ensino de Ciências. Porém, é preciso se concentrar em analisá- los a partir da literatura brasileira e de documentos oficiais, visto que há uma preocupação e uma tentativa cada vez maior em introduzir a tão sonhada Educação Científica nos currículos escolares de forma efetiva. Parte-se, então, do conceito de alfabetização e letramento.
Para Mamede e Zimmermann (2005), Letramento e Alfabetização possuem objetivos e processos semelhantes, e por esse motivo, são inseparáveis. Porém, se distinguem em seus conceitos fundamentais. Segundo as autoras:
Na realidade, os processos da alfabetização e do letramento, embora intimamente relacionados e mesmo indissociáveis, guardam especificidades, pois se referem a elementos distintos. A alfabetização refere-se às habilidades e conhecimentos que constituem a leitura e a escrita, no plano individual, ao passo que o termo letramento se refere às práticas efetivas de leitura e escrita no plano social. Assim, uma pessoa letrada não é somente aquela que é capaz de decodificar a linguagem escrita, mas aquela que efetivamente faz uso desta tecnologia na vida social de uma maneira mais ampla (MAMEDE; ZIMMERMANN, 2005, p. 1).
Assim, alfabetização se refere ao ler e escrever, em um contexto individual, sem maiores aplicações no âmbito social. Por outro lado, o letramento são as aplicações que o indivíduo se utiliza através da leitura e escrita para participar ativamente das reflexões, ações e transformações, que porventura ocorrem na sociedade, em sentido amplo.
Para Chassot (2003), a alfabetização científica, mesmo levantando críticas a esse termo e defendendo uma visão mais ampla, atribui à Ciência uma linguagem, a qual se utiliza de signos. É necessária a decodificação dessa linguagem para compreender o mundo ao qual estamos inseridos, sendo analfabeto cientificamente aquele que for incapaz dessa compreensão, pois:
Mesmo que adiante eu discuta o que é alfabetização científica, permito-me antecipar que defendo, como depois amplio, que a Ciência seja uma linguagem; assim, ser alfabetizado cientificamente é saber ler a linguagem em que está escrita a natureza. É um analfabeto científico aquele incapaz de uma leitura do universo. (CHASSOT, 2003, p.91).
O ensino de Ciências deve conter elementos que vão além da escrita e leitura de mundo em um contexto individual, ampliando essa visão para que este seja capaz de propiciar ao indivíduo uma formação em que atuará ativamente nas soluções de problemas da sociedade e em discussões científico tecnológicas, modificando seu meio e melhorando sua qualidade de vida.
Dessa forma, incorpora-se a Ciência aos alunos, através da alfabetização científica, como uma nova cultura. A partir de Sasseron e Carvalho:
No entanto, usaremos o termo “alfabetização científica” para designar as idéias que temos em mente e que objetivamos ao planejar um ensino que permita aos alunos interagir comum a nova cultura, com uma nova forma de ver o mundo e seus acontecimentos, podendo modificá-los e a si próprio através da prática consciente propiciada por sua interação cerceada de saberes de noções e conhecimentos científicos, bem como das habilidades associadas ao fazer científico. (SASSERON; CARVALHO, 2011, p.61).
Muitos autores, como Mamede e Zimmermann (2007) e Santos e Mortimer (2001) utilizam a expressão letramento científico em suas escritas, na intenção de ir além da simples e diminuta leitura de mundo e na tentativa de ampliar esse conceito para a reflexão e ação na real sociedade.
O Termo Letramento surge em meados dos anos 1980. Aos poucos, o conceito foi ganhando espaço nas escritas e discussões acadêmicas, iniciando uma busca e tentativa pela unificação do termo “Letramento” com o tão habitual e utilizado até o momento “Alfabetização”, em uma tentativa de ampliação deste último. Termos e palavras novas são criados quando os atuais não dão conta de explicar fatos, evidências e fenômenos novos (SOARES, 2009). Foi na segunda metade do século XX que a Ciência e a tecnologia deram um salto em seu conhecimento e produtividade (UNESCO, 2009) evidenciando a necessidade de novos termos e palavras para explicar a realidade que se instalava globalmente.
Para Santos e Mortimer (2001), o letramento científico está atrelado ao ensino CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade), no qual o ensino de Ciências deve provocar reflexões e mudanças pessoais, formando cidadãos preparados para práticas sociais responsáveis. Por conta de a Ciência não ser uma atividade neutra e estar presente nos processos e desenvolvimento político, econômico, social, ambiental e cultural, há a necessidade e objetivo do ensino de Ciências em que os cidadãos sejam capazes de tomar decisões relacionadas à CTS para a melhoria da qualidade de vida da população, atingindo parcelas da sociedade cada vez maior.
Nesse sentido, discorrem as autoras:
Se mantivermos as diferenciações dos termos originais, poderíamos pensar na alfabetização científica, como sendo referente à aprendizagem dos conteúdos e da linguagem científica. Por outro lado, o letramento científico, se refere ao uso do conhecimento científico e tecnológico no cotidiano, no interior de um contexto sócio- histórico específico. (MAMEDE; ZIMMERMANN, 2005, p. 2).
O letramento científico não se refere apenas à natureza da Ciência, seus processos, desenvolvimento e conhecimento científico. Não basta saber como a Ciência funciona. É preciso aplicá-la no dia-a-dia, fazendo bom uso do conhecimento científico e tecnológico individual e socialmente.
Educar estudantes para o exercício da cidadania por meio da reflexão crítica e para a tomada consciente de decisões para a transformação da realidade a qual se encontra, é o objetivo da educação científica. Esse objetivo também é mencionado em documentos oficiais do país e do mundo, almejando uma educação para a Ciência, tecnologia, para o trabalho e para a cidadania.
Assim, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB/1996), artigo 1º, parágrafo 2º dispõe: “A educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social”. Entende-se que para o exercício das práticas sociais, em que se remete atuar no meio em que se vive, almejando transformações para a melhoria de vida própria e da população em geral, assim como, contribuir para novas formas de desenvolvimento econômico sustentável, seja necessário formar alunos capazes de refletir profundamente sobre questões adjacentes inerentes a Ciência, tecnologia, política, ética, sustentabilidade ambiental, e tudo o mais que diga a respeito das relações sociais existentes.
A Declaração Sobre a Ciência e o Uso do Conhecimento Científico, formulada na Conferência Mundial sobre a Ciência para o Século XXI: Um Novo Compromisso, construída em um encontro com representantes de diversos países em Budapeste, em 1999, considerou:
9. A crescente necessidade do conhecimento científico para tomadas de decisão, tanto no âmbito público como no privado, o que inclui claramente o influente papel representado pela Ciência na formulação de políticas e nas decisões regulamentárias (p. 28).
A educação é um direito de todos, garantido pelas leis vigentes no país. Isso implica a formação para a cidadania que, por conseguinte, só se efetiva a partir da educação científica. Esta é responsável tanto pelo desenvolvimento humano, quanto na construção do conhecimento científico, do avanço tecnológico, das relações existentes com o meio ambiente e social, visto que a Ciência é uma construção humana.
Considerar a criticidade dos estudantes é, antes de tudo, considerar que suas escolhas serão pautadas na análise sistemática de questões e ou problemas. Para isso, é preciso ter o mínimo de conhecimento científico específico (CACHAPUZ et. al, 2005), de modo que as decisões sejam coerentes com a realidade que se tem e a que se deseja.
Busca-se dar condições, nesta pesquisa, para que os estudantes possam se tornar alunos críticos e assim reconhecer Pseudociências nas redes sociais, em específico no Facebook, e tomar decisões baseadas em argumentos científicos construídos a partir de um pensamento crítico, propiciado pela educação científica.
Apresenta-se, como segunda competência geral da nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o Pensamento Crítico, Científico e Criativo. Por meio dessa competência, busca-se o entendimento dos processos de construção da Ciência, bem como o uso da metodologia científica para a identificação e resolução de problemas; o exercício da curiosidade, imaginação e criatividade para investigações mais profundas relacionadas ao cotidiano e ao mundo; propor hipóteses e verificá-las e analisar dados e refletir criticamente para tomar decisões adequadas a sua realidade, trabalhando todos esses aspectos em contexto com sua realidade e de forma interdisciplinar.
A maneira pela qual o estudante faz a leitura do mundo que o cerca é decorrente de sua forma de pensar, o que exerce forte influência em sua forma de questionar, de decidir e de aceitar os diversos acontecimentos ao seu redor. A Ciência deve ser compreendida como uma forma de pensamento, utilizado para desvelar desde os pequenos acontecimentos até os maiores.