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A constatação primeira de que o conhecimento científico implica necessariamente em dois pólos: o objeto a ser investigado e o sujeito que investiga, não estava satisfatoriamente equacionada na Psicologia. Sartre fez essa constatação ao verificar que nas investigações desta disciplina, ou se diluía o sujeito no objeto, como se o sujeito simplesmente encontrasse as leis psicológicas, ou se diluía o objeto no conhecimento, como se tudo dependesse das idéias. Foi para solucionar esse problema, antes de mais nada de ordem ontológica, ou seja, o esclarecimento do que é o ser do sujeito, o que é o ser do objeto, qual a consistência de ser de cada um destes pólos, qual a possibilidade real de um se diluir no outro, que Sartre consulta a realidade no seu tratado fenomenólógico de ontologia: O ser e o nada (Bertolino,1995, p.30).

A partir da constatação de Husserl relativamente a consciência como intencionalidade, Sartre clareou a primeira região ontológica, a condição transfenomênica do sujeito: a consciência ou o nada. Ao descrever a consciência, verificou como Husserl, que esta é pura espontaneidade, ou seja, ela é o ‘nada’ que permite tomar as coisas como objeto. É a consciência que permite ler este texto, ela é precisamente esse nada que toma esse texto como objeto. É ela que nos permite distinguir a folha e o livro, cada uma das letras, as diferentes páginas, a estante. Ser consciência da janela é destacá-la da continuidade da qual faz parte:

trata-se de diferencia-la da parede, do teto, do quadro ao seu lado, da paisagem que lhe é fundo. Tomar algo como objeto de consciência é abstraí-lo da continuidade do mundo.

É importante salientar que o livro não precisa que nenhuma espontaneidade o tome como objeto de consciência para existir. Entretanto, ele só se distingue da mesa onde está posto quando uma consciência o toma como objeto. Essa consciência não o move, não o altera, ela tão somente o abstrai, ou seja, o destaca do fundo que em si é contínuo. Ela o demarca enquanto livro, enquanto outro que a caneta, que a mesa ou a janela. Entretanto ela assim o demarca porque o livro impõe-se diante dela com toda sua opacidade material, a qual ela não modifica, tão somente se depara.

Assim, Sartre verificou que a consciência para existir é sempre consciência de alguma coisa. Para ocorrer ela precisa de um objeto transcendente a ela sob o qual absorver-se. Chegamos aqui a uma característica constitutiva de qualquer consciência: é ser consciência de algo. Ou, em outros termos, “a esta necessidade, que tem a consciência de existir como consciência de outra coisa diferente dela, chama Husserl “intencionalidade” (Sartre,1968, p.30).

Segue-se na elucidação desta mesma região ontológica, a verificação de que a consciência ao ser sempre consciência de algo, é necessariamente consciência de sê-lo. Isto sucede uma vez que a consciência é transparente para ela mesma, é um nada que absorvendo- se inteiramente no pólo objeto, é consciência de ser consciência. Para evitar entendimentos errôneos, cabe destacar que não se trata dela ser posicional de si. É próprio da consciência, pela transparência que lhe é própria, ser consciência de ser consciência. Ou seja, Sartre verificou que toda e qualquer consciência é sempre consciência si. Não tem como ser consciência de algo sem estar sendo consciência disso.

Por outro lado, o ser, que constitui a outra região ontológica, não depende da consciência para existir. Tem uma consistência de ser que lhe é própria, tem sua opacidade que independe de qualquer espontaneidade para encontrar-se em algum lugar do tempo e do espaço. O ser é opaco significa dizer que o livro tem sua própria consistência de ser, a folha em branco tem sua opacidade e seu ser próprio de modo que a consciência por si só não os altera. O ser é em si.

Olho esta folha branca posta sobre minha mesa; percebo que sua forma, sua cor, sua posição. Essas diferentes qualidades tem características comuns: em primeiro lugar, elas se dão a meu olhar como existências que apenas posso constatar e cujo ser não depende de forma alguma do meu capricho. Elas são

para mim, não são eu. Mas também não são de outrem, isto é, não dependem de nenhuma espontaneidade, nem da minha nem da de outra consciência. São, ao mesmo tempo, presentes e inertes. Essa inércia do conteúdo sensível, freqüentemente descrita, é a existência em si (Sartre, 1987, p.35).

O livro não se distingue nem da folha em branco, nem se assemelha para ele próprio dos demais livros da estante. Ele simplesmente é, e não se comunica nem com ele mesmo nem com nenhum outro ser. Não conhece a alteridade, é neste sentido que o ser “é plena positividade”, ou seja, ele simplesmente é, sem se reconhecer sendo, e sem necessidade alguma que uma consciência o tome como objeto para existir (1989). Essa consistência de ser, constitui a outra região ontológica: a do ser, ou condição transfenomênica do objeto.

Sartre verificou que exatamente por constatar duas regiões ontológicas irredutíveis entre si, que o conhecimento objetivo faz-se possível. A realidade é tal que independe da consciência para existir, e a consciência é o nada que abstrai os objetos sem modificá-los, por isso mesmo pode haver o conhecimento objetivo. Entretanto, essa condição não basta para a ciência se efetivar. Como esta poderia vir a conhecer as condições de possibilidade dos fenômenos se cada ser fosse essencialmente diferente do outro? Como conhecer as condições de possibilidade da AIDS se cada vírus fosse único, essencialmente diferente de outro?

A realidade tem regularidades, trata-se de uma condição ontológica que torna a ciência possível. O mundo impõe-se à consciência com a regularidade que lhe é própria. A caneta, pela sua materialidade, impõe-se à consciência como um ser de outro tipo que o ser do lápis, que do livro ou da janela. É sua opacidade que se impõe à consciência enquanto caneta diferente da mesa e do mesmo tipo que as demais canetas do porta-lápis. De imediato, ao nos depararmos com uma caneta, encontramos uma caneta. Não a confundimos com o copo. É seu corpo de plástico azul, sua ponta, seu reservatório de tinta que se impõe à consciência. Enquanto caneta, impõe sua materialidade, sua opacidade diferente do copo que está ao seu lado, de vidro, cilíndrico. A sua essência se impõe de uma só vez, de imediato, incluindo-se numa série de objetos do mundo: a série das canetas. Bem entendido, a sua materialidade impõe-se à consciência de imediato no universo das canetas, é a opacidade do seu ser que a inclui nesse universo de seres “canetas” perante a consciência. Como vimos, a consciência não altera essa materialidade, apenas a destaca.

Essa caneta impõe-se imediatamente como caneta, nesse universal, nessa série e por isso não a confundimos com a mesa, mas ao mesmo tempo não a confundimos com as

outras canetas espalhadas pela mesa. O que faz com que essa caneta seja precisamente “essa caneta”, como não a confundo com tantas outras? Ela é de plástico azul fosco, tem letras brancas no seu corpo, uma tampa que se destaca com sua ponta verde. Ou seja, ao mesmo tempo em que ela impõe sua universalidade, que se inclui na série canetas, impões-se como esta caneta singular, ou seja, impõe ao mesmo tempo sua existência. Os objetos impõem diante da consciência ao mesmo tempo sua essência e sua existência, ou, o que é o mesmo, sua singularidade e sua universalidade. Como esclarece Sartre, “a aparência não oculta a essência, senão que a revela: é a essência. A essência de um existente não é já uma virtude enraizada na profundidade desse existente: é a lei manifesta que preside a sucessão de aparições, é a razão da série” (Sartre, 1989, p.16).

Como vimos, a realidade para si mesma é contínua, não se diferencia. Entretanto, impõe-se com sua regularidade à consciência. Isto equivale a afirmar que, os seres apresentam-se diante dela sempre impondo sua essência e existência, ou, o que é o mesmo, que a consciência constata um conjunto organizado, ou seja, tudo o que nos cerca, o mundo se compõe de seres singulares e universais, seres que são sua essência e existência. Pulôveres, camisetas, calças, camisas, impõem-se sempre como singularidades: aquela camisa amarela é necessariamente pertencente a uma série camisas.

Em um objeto singular podem sempre distinguir-se qualidades, como a cor, o odor, etc.. E, a partir delas, sempre pode identificar-se uma essência implicada por elas... o conjunto “objeto-essência” constitui um todo organizado: a essência não está no objeto, senão que é o sentido do objeto, a razão da série de aparições que o revelam (Sartre, 1989, p.19).

Neste sentido que a ciência se faz possível já que, ao estudar um fenômeno sempre vamos encontrar um ser com sua universalidade e com sua singularidade, sempre o conjunto essência e existência. O que vale para um objeto daquela série vale para os demais, respeitada sua singularidade, sem recurso ao infinito. O mesmo ocorre com os fenômenos psicológicos. Uma emoção é sempre singular, sempre se dá numa situação específica, diante de objetos singulares em determinado tempo e espaço. Entretanto, há uma essência que nos permite identificar certos fenômenos enquanto emotivos e não imaginativos ou perceptivos.

Do mesmo modo, uma personalidade é sempre singular; se afeta por certas coisas, imagina tais outras, pensa tal outras, move-se para determinado futuro mediado por certas relações, tendo determinada história singular em determinado tempo e lugar concreto. Isso ocorre com cada um dos homens. Ou seja, a personalidade, assim como todo fenômeno é

também singular universal. Cada homem é ao mesmo tempo existência e essência. Enquanto a essência dos fenômenos psicológicos não for objetivamente demarcada não é possível a ciência em Psicologia. Como conhecer uma emoção, uma personalidade, uma imaginação se cada qual é única e singular? É a regularidade que possibilita a ciência, pela definição das essências.

Entretanto, não é diante de qualquer atitude de consciência que os fenômenos são intuídos com sua essência e existência. Se percebemos, descrevemos os detalhes um objeto, temos como resultado um amontoado de fatos, informações isoladas sobre ele. Pela percepção dos diferentes perfis de um objeto não chegamos à sua essência, pois os perfis de um objeto são sempre inesgotáveis, de modo que jamais teremos a infinidade de perfis que o constituem. O objeto sempre escarpa ao conhecimento que temos dele. Isto é o mesmo que dizer que pela percepção não termos a essência dos objetos. Como coloca Sartre, “o próprio da percepção é que o objeto só aparece como uma série de perfis... o objeto em si mesmo é a síntese de todas essas aparições” (Sartre,1996, p.20).

E temos acesso a essa síntese de todos os perfis ao mesmo tempo? A resposta deve ser verificada de imediato no nosso cotidiano. Quando por exemplo, esperamos na calçada enquanto o carro que está vindo passa na nossa frente, é perante a intuição da existência- essência daquele carro que esperamos. Não há aprendizagem. Não temos primeiro pneus, para-choque, faróis, capô, para depois termos ‘um carro’. Este aparece de imediato enquanto carro, como aquele outro que passa a seu lado, e ao mesmo tempo singular, vermelho, modelo antigo, passando dois metros a nossa frente. É neste sentido que constituímos a essência a partir da materialidade constitutiva do objeto. Para que a essência-existência se imponha diante de nós como conjunto organizado, é necessário, que a essência constitutiva do objeto, seja pela consciência, também constituída. Ou seja, a essência é constitutiva-constituída de imediato numa relação intuitiva reflexiva com o objeto. Como esclarece Sartre, “posso pensar as essências concretas num único ato de consciência; não tenho de restabelecer aparências, nenhuma aprendizagem a fazer. Essa é, sem dúvida a diferença mais nítida entre o pensamento e a percepção” (Sartre,1996, p.21).

Verificamos deste modo que a ciência torna-se possível por haver duas regiões ontológicas irredutíveis entre si: o ser que independe da consciência para existir por ter sua consistência de ser-em-si, e a consciência, que numa atitude reflexiva intui a essência dos

objetos a partir da materialidade que lhe é constitutiva. Perante esta atitude de consciência o mundo impõe-se como um conjunto de seres singulares-universais. Segue-se que para termos uma Psicologia científica, é necessário definir com base na realidade transcendente, a essência dos fenômenos psicológicos, ou seja, encontrar a universalidade destes, ou as condições de possibilidade deles ocorrerem. Foi exatamente esse o empreendimento intelectual de Sartre, e nas páginas que se seguem pretendemos anunciar a existência desta Psicologia formulada segundo o rigor da ciência moderna que está a nossa disposição desde o século passado.