Network Solution
B Figure 73: Multiple Link Resistors in a Tree
5.4 Series Connections of Resistors
As considerações já apresentadas sobre o caráter difuso dos limites entre as categorias, evidenciado pela semelhança de família, de Wittgeinstein, são válidas para o enfoque cogni- tivista. Em oposição ao modelo clássico, a visão de protótipos postula que as categorias não são estruturas homogêneas. Pautados em evidência experimental, alguns pesquisadores (ROSCH, 1973, 1975; KEMPTON, 1981; TAYLOR, 1989) mostra- ram que as categorias exibem uma estrutura prototípica, ou seja, apresentam exemplos bons e ruins. Os membros mais representativos, ou seja, aqueles dos quais os falantes recor- dam primeiro ao escutar ou ler o nome de uma categoria, são chamados prototípicos: é em torno deles que os demais se organizam. Por exemplo, CADERNO, LÁPIS e CANETA são membros prototípicos da categoria MATERIAL ESCOLAR.
Dado o caráter gradual dos limites entre as categorias, sua aprendizagem e compreensão com base em protótipos representa grande utilidade prática, visto que isso nos permite identificar categorias apesar do caráter difuso dos seus limites (TAYLOR, 1989). A abordagem de protótipos substitui a noção de traços ou componentes pela de atributos, uma vez que a noção acionada pelo termo “traço” ou “componente” parece já estar vinculada a um olhar binário sobre os fenômenos da linguagem. Cumpre acrescentar que admitir a existência de exemplos melhores do que outros implica hierarquizar os atributos, de modo que há os que são mais ou menos relevantes na configuração da categoria. Inclusive, em termos de hierar- quização entre categorias, ocorre um mecanismo de herança de atributos, que veremos mais à frente.
As investigações que serviram de base para a noção de protótipo tiveram como foco o estudo das cores básicas (BERLIN; KAY, 1969; TAYLOR, 1989). Os resultados dessas pesquisas pioneiras contradizem a hipótese estruturalista da arbitrariedade das categorias linguísticas e a concepção essencialista de organização das categorias linguísticas.
De acordo com as perspectivas estruturalistas e com enfoques centrados em componentes de significado, a reali- dade é um contínuo indiferenciado que a linguagem divide arbitrariamente em unidades discretas. As categorias não têm, portanto, nenhum fundamento objetivo com base na realidade. A terminologia da cor deveria evidenciar essa ideia, já que cada língua divide ocontínuoda cor de uma maneira. No entanto, o estudo de Berlin e Kay (1969) revela algo bem diferente. Embora seja correto afirmar que as línguas apre- sentam grande variedade de termos para cor, os experimentos evidenciaram a existência de um inventário universal de
onze cores focais (termos de nível básico, para os autores) de base cognitivo-perceptual. Nesse sentido, contrariando radicalmente a visão estruturalista, a divisão e a organização do contínuo de cores em categorias não estão constituídas em termos de unidades discretas, mas sim em torno de entidades focais (mais centrais, mais estáveis). Cada categoria de cor apresenta uma cor focal, que se constitui como um exemplar central primário, e é a partir da generalização desse exemplar prototípico que se organiza a categoria. Além disso, esse cará- ter focal é determinado por fatores biológicos (referentes à percepção humana), cognitivos e ambientais.
Dessa forma, as categorias de cor apresentam centro e periferia, e seus membros, em consequência disso, não apresentam o mesmostatus(existem roxos melhores, verdes melhores, amarelos melhores etc.). Os exemplares focais permanecem constantes dentro da categoria, independente- mente da quantidade de termos de cor, ou seja, não importa se outras cores são ou não lexicalizadas na língua. É possível afirmar, portanto, que as categorias de cor não constituem um sistema no sentido saussuriano (TAYLOR, 1989). Todo o avanço recente da noção de categorização, determinante para o desenvolvimento da própria Linguística Cognitiva, é conse- quência dos estudos sobre a categorização da cor.
Embora não se possa sustentar que todas as categorias tenham uma base biológica, elas se estruturam em torno de um centro cognitivo, seja perceptual ou motor. As entidades e seus atributos, dentro de uma categoria, se ordenam com dife- renças de graus a partir da projeção desses centros cognitivos. Os membros mais distantes do centro são casos limites que podem, inclusive, compor outras categorias, sobrepondo-as.
A perspectiva dos protótipos, por sua vez, introduz uma metodologia alternativa de análise e apresentação da estrutu- ra do significado. A descrição categorial deve ser capaz de dar conta de todos os membros: exemplos bons, maus e marginais (de pertinência duvidosa). Com essa informação, podemos projetar um mapa categorial que deve apresentar os atributos em ordem de representatividade. Os dados necessários para desenhar o mapa de uma categoria são obtidos do falante como resultado de diversas tarefas experimentais. Devemos ser cautelosos quanto às taxonomias científicas, uma vez que elas podem não corresponder ao modo como as pessoas orga- nizam e compreendem, de fato, a realidade.
Esse enfoque dado à categorização é cognitivo não só porque apela à competência lexical e pragmática do usuário de uma língua, mas, em especial, porque parte do pressuposto de que a organização da categoria na mente de quem produz ou compreende a linguagem, em termos de exemplos representa- tivos, determina seu rendimento nas tarefas experimentais, assim como a compreensão linguística e o modo como modela sua experiência na vida cotidiana. Em suma, um mapa catego- rial deve apresentar uma descrição prototípica da categoria.
2.6 A noção inicial de protótipo
De acordo com os estudos realizados por Eleanor Rosch e seu grupo, no início dos anos 70, o protótipo era considerado o exemplar mais adequado, o melhor representante ou o caso central. Depois, passou ser definido como o exemplar idôneo de uma categoria. Com essa alteração, os aspectos graduais da proximidade em relação ao protótipo dentro da categoria
passaram a ser definidos pela frequência ou pela atribuição dada por sujeitos participantes em pesquisas. A pretensão não era o estabelecimento de categorias verdadeiras, mas a compreensão de mecanismos psíquicos reais através dos quais estabelecemos categorias. Por exemplo, do ponto de vista do modelo de categorização clássico, BALEIA seria considerado tão MAMÍFERO quanto VACA. De acordo com o enfoque adota- do por Rosch e colegas, porém, baseando-se em experimentos, BALEIA estaria muito distante do protótipo de MAMÍFERO. No momento em que se oferece uma visão de categoria que acomoda a dispersão e a diversidade em torno de um protóti- po, são introduzidas novas formas de organização.
Essas propostas de organização das categorias contêm um duplo olhar sobre a categoria, pois marcam:
a) a estruturação interna da dimensão horizontal, em que se focaliza a contiguidade entre categorias, forman- do um contínuo;
b) a estruturação inter-categorial da dimensão vertical, em que se verifica a hierarquização das categorias em termos de abrangência, de modo que categorias mais específicas herdam atributos de categorias mais amplas. Para Rosch (1975), o protótipo atua como ponto de refe- rência cognitivo dos processos de categorização dos elementos que experienciamos cotidianamente. Quanto ao papel do protótipo na nossa forma de categorizar o mundo, a pesquisa- dora chegou às seguintes conclusões:
a) membros prototípicos são categorizados mais rapida- mente que membros não prototípicos;
b) membros prototípicos são os que as crianças apren- dem primeiro;
c) membros prototípicos são mencionados em primei- ro lugar quando falantes listam os membros de uma categoria;
d) protótipos servem de ponto de referência cognitiva, ou seja, conceituamos membros menos prototípicos com base nos membros mais prototípicos (por exemplo, quando dizemos que uma elipse é um quase círculo); e) geralmente, quando solicitamos os membros princi- pais de uma categoria, são mencionados os protótipos. A partir dos estudos das cores (BERLIN; KEY, 1969) e das taxonomias populares, Rosch et al. (1976) aprimoram a organi- zação vertical das categorias. Os autores sugerem a existência de três níveis de organização hierárquica da categoria:
Nível superordenado Nível básico Nível subordinado
Figura 1 – Hierarquia entre categorias.
De acordo com os autores, utilizamos essa hierarquia para estruturar mentalmente relações de inclusão. Nesse processo de estruturação, o nível básico é privilegiado, pois é nele que os conceitos apresentam maior número de atributos distintivos, sem criar demandas cognitivas desnecessárias. Nesse sentido, ELETRODOMÉSTICO é bem mais abstrato do que MÁQUINA DE LAVAR, que apresenta um número razoável de atributos para a identificação do artefato. No caso de MÁQUINA DE LAVAR INDUSTRIAL, um conjunto maior de atributos passa a ser utilizado na identificação do objeto. Para verificar se realmente o nível básico comporta membros identificáveis mais facilmente, Rosch (1976) solicitou que alguns participan- tes listassem todos os atributos de alguns itens nos três níveis da hierarquia (MÓVEL > POLTRONA > ESPREGUIÇADEIRA). Como resultado disso, descobriu que poucos atributos foram listados para as categorias superordenadas (como MÓVEL, por exemplo) e muitos atributos foram listados para as categorias dos dois outros níveis. Nesses níveis inferiores, foram listados atributos muito semelhantes para as duas categorias.
Rosch (1976) defende que os membros das categorias de nível básico (como, por exemplo, POLTRONA) são identificados mais facilmente devido a um equilíbrio entre:
a) informatividade, uma vez que categorias de nível básico apresentam um número intermediário de atributos; b) economia, uma vez que os atributos das categorias desse nível são mais relevantes para a distinção entre categorias (da dimensão horizontal).
Em suma, no nível superior, sacrifica-se a informativida- de e, no nível inferior, sacrifica-se a economia. De acordo com Kleiber (1995), os membros das categorias de nível básico são utilizados mais frequentemente, uma vez que elas são prioritá- rias no plano perceptual, funcional e comunicativo, conforme explicitado a seguir:
a) No plano perceptual, devido à sensação de se estar lidando com uma forma global que pode ser simulada mentalmente por meio de uma imagem simples;
b) No plano funcional, devido ao acionamento de áreas motoras responsáveis por nossa interação cotidiana com o mundo;
c) No plano comunicativo, devido ao emprego de palavras que, por um lado, são as mais curtas, as mais comumente empregadas e utilizadas nos contextos neutros e, por outro lado, são as que primeiro são apren- didas pelas crianças e introduzidas no léxico de uma língua.
Dessa maneira, o nível básico possui um grande número de atributos comuns: ANIMAL, por exemplo, do nível superor- denado, oferece menos informação que CACHORRO, do nível básico; BOXER, do nível subordinado, por sua vez, oferece um aumento de informação complementar, que repercute no aumento da carga mental. A perspectiva dos protótipos e seus princípios, segundo Kleiber, apresenta um amplo campo de aplicação, pois não só domina toda a semântica lexical, como
também pode ser aplicada a todo fenômeno que implique categorização: o conceito de protótipo pode ser aplicado, por exemplo, à gramática e ao discurso.