O miracídio é o 1º estádio larvar de vida livre e é um organismo que não se alimenta, por isso o tempo de vida é determinado pela quantidade de energia armazenada (Graczyk e Fried, 1999).
O miracídio é uma larva com cílios (figura 2) que nada vigorosamente até alcançar o processo papiliforme retrátil do hospedeiro intermediário, esta etapa é facilitada pela secreção de enzimas proteolíticas que são libertadas pelo hospedeiro intermediário (Simpkin et al., 1980 ; Smythe e Halton, 1983).
É urgente encontrar um hospedeiro intermediário, pois geralmente o miracídio apenas sobrevive 24 horas sem hospedeiro (Andrews, 1999).
15 8.3. Esporocisto
Depois de penetrar no molusco, o miracídio perde os cílios e transforma-se num esporocisto de forma arredondada que migra pelo sistema digestivo do molusco (Smythe e Halton, 1983).
8.4. Rédia
O esporocisto dá origem a várias rédias por reprodução assexuada, através de divisões por mitose (figura 3). As rédias libertam-se do esporocisto (que posteriormente morre) e migram para o fígado e pâncreas do hospedeiro intermediário (Graczyk e Fried, 1999).
Normalmente cada esporocisto dá origem a 5 ou 8 rédias móveis. Sob condições adversas, a rédias atrasam o seu desenvolvimento e dão origem a uma segunda geração de rédias, também por mitose (Andrews, 1999).
Em condições adequadas as células germinativas das rédias desenvolvem-se e evoluem para cercárias (Andrews, 1999).
16 8.5. Cercárias
A cercária é libertada em meio aquático quando a temperatura está acima dos 10ºC.
Todo o processo, desde a infeção do molusco até à libertação das cercárias dura normalmente 40 a 80 dias, dependendo da temperatura. Temperaturas mais elevadas reduzem o número de dias necessários (figura 4). (Andrews, 1999; Smythe e Halton, 1983).
Figura 4 - esquema de uma cercárias de Fasciola hepatica. 1- Ventosa oral, 2- esófago, 3- ventosa ventral, 4- células embrionárias, 5- cólon, 6- células flama, 7- túbulo excretor, 8- ducto descendente primário, 9- ducto ascendente, 10- ducto descendente principal, 11- vesícula excretora, 12- ducto excretor caudal. (Adaptado de:
17 8.6. Metacercárias
Depois de sair do molusco, a cercária anexa-se à vegetação aquática presente. A cauda de cercária cai e as glândulas localizadas na lateral do corpo formam um quisto com quatro camadas. A formação da parede do quisto pode durar até dois dias. A metacercária é a forma infestante para o hospedeiro definitivo (Andrews, 1999).
A eclosão de um único miracídio pode produzir até 4000 quistos infestantes (metacercárias), devido à multiplicação nas fases esporocisto e rédia (Andrews, 1999).
Em condições adequadas (condições de elevada humidade e temperaturas amenas), as metacercárias conseguem sobreviver até 1 ano, mas em condições com baixa humidade, a capacidade de sobrevivência diminui (Suhardono et al., 2006).
8.7. Forma Imatura
Ao serem ingeridas juntamente com a vegetação, as metacercárias entram no intestino delgado do hospedeiro definitivo e perdem o quisto que as envolvia, libertando o parasita juvenil. O desenquistamento ocorre no duodeno devido às elevadas concentrações de dióxido de carbono e temperaturas de 39ºC (Andrews, 1999), a presença da bílis, sais biliares e sucos gástricos também proporcionam a destruição do quisto e a libertação do parasita (Mulcahy et al., 1999).
Os parasitas imaturos penetram na parede intestinal e entram na cavidade peritoneal, no prazo de 24 horas, a partir daí, vão para o fígado onde migram por todo o parênquima hepático consumindo células hepáticas e sangue durante cerca de 6 semanas até que encontram os ductos biliares (Andrews, 1999).
8.8. Adulto
Após cerca de 4 semanas nos ductos biliares, os parasitas atingem a maturidade sexual, geralmente dentro de 3 semanas após a infeção inicial (figura 5). A Fasciola fixa-se nas paredes dos ductos o que causa desgaste do epitélio e rutura dos vasos sanguíneos (Dawes, 1963).
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A infeção tem um período pré-patente de 8 a 12 semanas, podendo manter-se durante anos (Ballweber, 2001). Ocasionalmente podem ocorrer infeções ectópicas, podendo parasitas serem encontrados em quase todos os órgãos (Mas-Coma et al., 1999b).
Figura 5- Fasciola hepatica na forma adulta (Fonte: www.ufrgs.br).
19 9. Morfologia
A subclasse Digenea compreende uma grande quantidade de espécies com importância médica e económica. Como endoparasitas de vertebrados, apresentam adaptações estruturais para poderem fixar-se aos hospedeiros: glândulas de penetração, glândulas para a produção do material do quisto e órgãos de adesão (Hickman, et al., 2004).
Os Digenea têm também um sistema digestivo incompleto com a boca na extremidade anterior e um sistema reprodutivo bem desenvolvido (Hickman, et al., 2004).
O sistema nervoso é muito simples e os sentidos são pouco desenvolvidos (Hickman, et al., 2004).
A Fasciola hepatica tem um corpo plano em forma de folha e o tegumento externo coberto de espinhos. Geralmente, um adulto atinge os 20 a 30 mm de comprimento com 15 mm de largura (Fairweather et al., 1999; Valero et al., 2005).
As ventosas orais e ventrais localizam-se no cone cefálico. A ventosa oral tem um diâmetro de 1,0 mm (Muller, 2002).
O intestino dos parasitas adultos é muito ramificado com divertículos que se estendem desde a parte anterior do corpo até à parte posterior (Mas-Coma, 2004).
Os órgãos reprodutores femininos estão presentes perto da ventosa ventral e os órgãos reprodutores masculinos estão presentes perto do centro do corpo. Os testículos, altamente ramificados, encontram-se na metade posterior do corpo enquanto que o ovário está localizado logo acima dos testículos e está ligado a um curto útero que se abre para um poro genital acima da ventosa ventral. As glândulas vitelinas estão dispersas pela região lateral e posterior do corpo (figura 7) (Fairweather et al., 1999; Mas-Coma, 2004).
Os ovos de Fasciola hepatica têm uma forma elipsoidal (130-150 µm de comprimento por 60-90 µm de largura) e têm uma casca amarela-acastanhada com um opérculo. As células embrionárias não se distinguem do restante ovo (Valero et al., 2002).
O miracídio tem o corpo em forma cónica coberto por cílios e pode ter 130 por 30 µm (Mas- Coma, 2004).
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Figura 7 - Fasciola hepatica adulta (adaptado de www.scielo.org.pe ).
10. Ecologia
É necessário um conjunto de condições ambientais para a Fasciola hepatica sobreviver. A humidade e temperatura adequada são cruciais, tanto para os hospedeiros intermediários, como para o seu próprio desenvolvimento e crescimento (Mas-Coma, 2004).
A temperatura adequada para o desenvolvimento dos ovos de Fasciola, regista-se entre os 10º e 25ºC, assim como para o desenvolvimento dos estágios de vida livre e formação das metacercárias. O crescimento da Fasciola em ambientes mais quentes, entre 17º a 25ºC reduz a quantidade de tempo necessário para completar o desenvolvimento do parasita (Andrews, 1999).
A Fasciola heapatica é encontrada em quase todas as regiões temperadas, onde ovelhas, cabras, bovinos e outros ruminantes são criados, pois praticamente todas essas áreas têm
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humidade suficiente e temperaturas adequadas, pelo menos durante uma parte do ano, para sustentar uma população de moluscos (Mas-Comas, 2004).
Portanto, a ecologia da Fascioa hepatica está diretamente ligada à ecologia do seu hospedeiro intermediário. Juntamente com a presença de água e temperaturas adequadas, características fisiológicas, composição do solo, e fatores climáticos são da maior importância na faixa de sobrevivência e de reprodução das Lymnaeas e por isso na presença de Fasciolas (Myers et al., 2012).
As Lymnaeas são capazes de se adaptar a amplas condições físicas e químicas extremas com a uma grande variedade de vegetação aquática (Mas-Comas, 2004).
Do ponto de vista ecológico, o habitat das Lymnaeas pode ser dividido em dois tipos gerais: foco primário (ou reservatórios) e áreas de difusão (Chapuis et al., 2007).
Os focos primários estão localizados em ambientes permanentemente húmidos, tais como, rios, lagos, lagoas, canais. Os moluscos são normalmente encontrados em corpos de água estagnada ou perto das margens, onde a água flui lentamente. Os moluscos colocam os ovos na primavera quando a temperatura sobe acima dos 10ºC e continuam a postura, desde que a temperatura se mantenha acima dos 10ºC. Em situações de temperaturas mais altas, os ovos desenvolvem-se mais rapidamente (Chapuis et al., 2007).
Desde as 3 semanas de idade as Lymnaeas começam a por ovos, conseguem produzir até 3 gerações numa única estação desde que tenham água suficiente. Assim, estima-se que um só exemplar de Lymnaea truncatula consegue produzir até 100 mil novos moluscos numa só estação do ano (Acha e Szyfres, 2003).
Durante os verões excecionalmente quentes e secos, muitos moluscos podem morrer, outros entram em estivação e retomam o seu desenvolvimento quando a temperatura desce e as condições húmidas voltam. Durante invernos muito frios, também podem morrer e alguns entram em hibernação e apenas retomam a sua atividade quando as temperaturas sobem acima dos 10ºC (Luzün-Peña, 1994).
As Lymnaeas que por estivação e hibernação conseguem sobreviver às condições adversas das secas, calor e frio, são as responsáveis pela manutenção das gerações seguintes de
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Lymnaeas, e por consequência, das gerações seguintes de Fasciola hepatica (Luzün-Peña et al., 1994).
A temperatura acima dos 10ºC é o fator chave na epidemiologia da fasciolose, pois quando está abaixo de 10ºC os ovos de Fasciola não se desenvolvem, os hospedeiros intermediários não se reproduzem, os esporocistos, rédias e cercárias não se desenvolvem no interior do molusco, e o ciclo do parasita é quebrado (Luzün-Peña et al., 1994).
A adaptação das Lymnaeas às massas de água permanentes, faz com que a transmissão seja possível ao longo do ano, como observado nos países do sul da Europa e ilhas do Mediterrâneo (Valero et al., 1998).
As áreas de disseminação são caracterizadas pela alternância períodos de cheias e secas, mantendo uma grande concentração de Lymnaeas que podem também vir de focos primários trazidas pelas correntes das cheias, ou podem ser reativadas depois da estivação durante períodos de seca. Este tipo de ocorrências sazonais pode levar a surtos graves de fasciolose (Acha e Szyfres, 2003; Chapuis et al., 2007).
Tal como acontece com muitos parasitas, existe um padrão sazonal distinto de surtos de fasciolose com dois períodos principais de infeção, verão e inverno (Altizer et al., 2006).
Os ovos de Fasciola, transmitidos por animais infetados na primavera e início do verão, desenvolvem-se dentro dos hospedeiros intermediários e produzem cercárias e metacercárias até ao final do verão (Fox et al., 2011; Goodall et al., 1991).
Os ovos que são excretados durante o inverno não se desenvolvem até encontrarem as condições adequadas. No início da primavera os ovos iniciam o seu desenvolvimento até ao estado de metacercárias no final da primavera ou início do verão. As metacercárias são ingeridas pelos hospedeiros definitivos produzindo sintomas no verão e outono (Fox et al., 2011; Goodall et al., 1991).
Em regiões de clima tropical ou subtropical, a doença pode ocorrer em qualquer altura do ano (Togerson e Claxton, 1999).
Concluindo, os fatores climáticos como as chuvas, a temperatura do ar, são decisivos para o desenvolvimento de Fasciola hepatica, principalmente porque têm um impacto muito grande
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para o desenvolvimento do hospedeiro intermediário, do qual a Fasciola hepatica não está dependente para completar o seu ciclo biológico (Fox et al., 2011).
11. Hospedeiro Intermediário
A distribuição geográfica dos trematodes, entre outras coisas, está dependente dos seus hospedeiros intermediários. A Fasciola hepatica tem uma ampla gama de hospedeiros intermediários e, geralmente, diferentes regiões do mundo têm diferentes espécies de moluscos como hospedeiro intermediário da Fasciola (Graczyk e Fried, 1999).
Os hospedeiros intermediários são moluscos anfíbios da família Lymnaeidae (Bargues e Mas- Coma, 1997).
No passado, a maioria das espécies em questão foram classificadas como género Lymnaea, mas algumas dessas espécies receberam nova classificação incluindo os géneros Galba, Fossaria, Pseudosuccinea e Stagnicola (Acha e Szyfres, 2003).
As Lymnaeas são moluscos de água doce, de casca fina e alongada de forma ovoide. Alimentam-se de algas e detritos orgânicos e são hermafroditas (Kohl, 2012).
O hospedeiro intermediário mais comum para a Fasciola hepatica é Galba truncatula (Muller, 1774) anteriormente conhecido como Lymnaea truncatula. É o hospedeiro intermediário principal na África, Ásia e Europa (Graczyk e Fried, 1999).
A fasciolose tem uma origem europeia, mas conseguiu expandir-se para o resto do mundo, a novas regiões onde a doença foi introduzida, diferentes variedades de moluscos desempenham um papel muito importante como hospedeiro intermediário de Fasciola hepatica (Mas-Coma e Bargues, 1997; Mas-Coma et al., 2003).
Espécies que incluem (figura 8): Galba cubensis (Pfeiffer, 1839), Galba viatrix (d’Orbigny, 1835), Lymnaea diaphana (king, 1830) e Pseudosuccinea columella (Say, 1817) na América do Sul. Na América do Norte os hospedeiros intermediários podem ser Fossaria bulimoide (Lea, 1841), Hinkleyia caperata (Say, 1829), Lymnaea humilis (Say, 1822), Galba cubensis e Pseudosuccinea columella. As espécies Galba cubensis e Pseudosuccinea columella
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encontram-se na América Central. Lymnaea tomentosa (Pfeiffer, 1855), Austropeplea ollula (Gould, 1859) e Pseudosuccinea columella na Austrália e Nova Zelândia (Acha e Szyfres, 2003).
A Lymnaea truncatula ou Galba truncatula foi relatada também na América do Sul especialmente em áreas hiperendémicas de Fasciolose (Bargues, 1997; Mas Coma, 2001).
Figura 8 - Hospedeiros intermediários da Fasciola hepatica. a- Fossaria bulimoide; b- Galba viatrix; c-
Pseudosuccinea columella; d- Galba cubensis; e- Galba truncatula. ( Adaptado de www.psteinmann.net ,
www.dpd.cdc.gov , www.fwgna.org , www.scoopweb.com).
12. Hospedeiros Definitivos
A Fasciola hepatica tem uma grande gama de hospedeiros definitivos como ovinos, caprinos, bovinos, que são os hospedeiros predominantes (Mas-Coma, 2005). Atualmente a Fasciola hepatica tem mostrado a capacidade de expandir o seu leque de hospedeiros definitivos para animais exóticos em todo o mundo (Mas-Coma, 2004). Muitas espécies de herbívoros domésticos e silvestres podem servir como hospedeiro definitivo, no entanto, alguns apenas são hospedeiros temporários e não podem manter um ciclo do parasita por muito tempo, o que faz com que estes animais não cheguem a contaminar as pastagens (Acha e Szyfres, 2003).
25 13. Dicrocoelium dendriticum
O Dicrocoelium dendriticum é também um parasita relativamente comum nos fígados de bovinos e muitas vezes causa de reprovação dos fígados de bovino em matadouros. É uma infeção hepática frequente em mamíferos, geralmente ruminantes, característica de solos secos, calcários ou alcalinos, que é o habitat natural dos seus dois hospedeiros intermediários. Como primeiro hospedeiro intermediário, o Dicrocoelium dendriticum utiliza os gastrópodes terrestres dos géneros: Zebrina (Zebrina detrita), Helicella (Helicella negleta) e Cionella (Cionella lubrica), como segundo hospedeiro intermediário tem as formigas do género Formica (Formica fusca, F. rufa, F. pratensisi) (Arias et al., 2012).
As cercárias não possuem mobilidade e encontram-se dispersas pelo segundo hospedeiro intermediário. Os adultos destes parasitas residem nos canalículos biliares (figura 9) e foram encontrados não só em ruminantes como também em camelos, cavalos, porcos, coelhos, cães e até humanos (Arias et al., 2012).
Embora as condições climáticas que este parasita necessita sejam distintas das condições necessárias ao desenvolvimento da Fasciola hepatica, o Dicrocoelium dendriticum realiza a postura de ovos ao longo de todo o ano, havendo vários relatos de infeções mistas (Fasciola hepatica em simultâneo com Dicrocoelium dendriticum) no hospedeiro definitivo (bovinos) (Arias et al., 2011).
Dicrocoelium dendriticum penetra nos ductos biliares causando dilatação e inflamação (angiocolite). Macroscopicamente apresentam-se como cordões brancos típicos de angiocolite, mas menos numerosos, mais curtos e mais finos do que na fasciolose (Corrêa, 1976).
Ao contrário da Fasciola hepatica, os adultos de Dicrocoelium dendriticum não são hematófagos, alimentando-se de células epiteliais de descamação e mucina da hipersecreção. Os seus ovos são mais pequenos do que os de Fasciola hepatica (36x30 μm), com forma elipsoide, de coloração castanho-escuro, estão embrionados no momento da postura e têm um opérculo pouco visível (Dorchies, 2006).
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Figura 9 - Vesícula biliar de pequeno ruminante parasitado por Dicrocoelium dendriticum (Fonte: www.capraiaspana.com )