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Nos Estados Unidos da América, o debate sobre competência teve início na década de 1970 entre os psicólogos e administradores, devido a uma publicação de McClelland que fez referência ao tema. Segundo McClelland (1990 apud FLEURY; FLEURY, 2000), a competência é uma característica subjacente a uma pessoa que é casualmente relacionada com desempenho superior na execução de uma tarefa ou em uma posição. Esse estudo diferenciava competência de aptidões – talento do indivíduo que pode ser aperfeiçoado; de habilidades – demonstração de um talento singular na prática; e de conhecimentos – o que as pessoas necessitam saber para executar uma tarefa (MIRABILIE, 1997, apud FLEURY; FLEURY, 2000).

Na década de 1980, Richard Boyatzis, em seus estudos sobre as competências gerenciais, também constatou um conjunto de características e traços que definem um desempenho superior.

O conceito de competência, nesta perspectiva, apresenta-se como um conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes que demonstram um elevado desempenho; acredita-se que os melhores desempenhos estão alicerçados na inteligência e personalidade dos indivíduos. Ou seja, a competência é compreendida como um estoque de recursos que o sujeito retém. Na literatura americana sobre o tema, seus autores costumam direcionar as competências às necessidades instituídas pelos cargos ou funções nas organizações. Percebo que nos textos fundamentados sobre a prática administrativa o conceito de competência é sempre o conjunto de tarefas pertencente a um cargo.

Nos últimos anos a palavra competência tem sido utilizada para designar um indivíduo qualificado para realizar uma atividade. O oposto de sua palavra sinaliza uma pessoa que se encontra ou se encontrará marginalizado do contexto de trabalho e de reconhecimento social.

A palavra competência vem do latim competentia e é entendida como aptidão ou capacidade para resolver qualquer assunto. Outra possibilidade de entender o termo é: capacidade legal para julgar pleito.

Com o desenvolvimento da globalização, o setor produtivo exige cada vez mais refinamento na formação e seleção de seus profissionais. No mundo do trabalho o conceito de competência não é recente, pois sua compreensão no circuito das empresas está associada à questão da flexibilização, da precariedade do trabalho e ao aumento das exigências profissionais.

No Brasil a noção de competência surgiu por volta da década de 1970 e passou a ser utilizada nos discursos de empresários, de técnicos de órgãos públicos, cientistas sociais e pelo governo. O termo competência é usado tanto no campo educacional quanto no campo empresarial, sendo que em ambas as áreas têm caráter generalizado. No campo empresarial Fleury e Fleury (2000, p. 189) buscam, de forma ampla, definir o conceito de competência da seguinte forma: “[...] um saber agir responsável e reconhecido, que implica mobilizar, integrar, transferir conhecimentos, habilidades, que agreguem valor econômico à organização e valor social ao indivíduo”. Assim, entende-se que o saber agir é apoiado por três eixos: educação, competência e experiência profissional. A competência do sujeito é um conceito complexo e que não se esgota apenas nas habilidades do indivíduo.

A lógica da competência está inserida no contexto organizacional e algumas empresas empregam sistemas específicos de remuneração por competências e habilidades, a partir de demandas indicadas pelos gestores de recursos humanos. Segundo Fleury e Fleury (2000, p.189), no âmbito das empresas “Competência seria a capacidade de combinar, misturar e integrar recursos em produtos e serviços”. Sendo assim, a competência pode ser construída no contexto da organização, aliando-se a fatores internos e externos, como, por exemplo, consultorias e cursos de qualificação destinados aos funcionários. Convém ressaltar que essa busca envolve inovação e capacitação de recursos humanos. A construção da competência numa organização requer um processo de formação continuada inserido na própria organização, que nutre e renova a empresa num ciclo de aprendizagem permanente.

O Conselho Nacional de Educação define competência profissional, no art. 7º da Resolução CNE/CP no. 3 como:

Capacidade pessoal de mobilizar, articular e colocar com ação conhecimentos, habilidades, atitudes e valores necessários para o desempenho eficiente e eficaz de atividades requeridas pela natureza do trabalho e pelo desenvolvimento tecnológico (Resolução CNE/MEC – 2002).

O professor e antropólogo Philippe Perrenoud (1999, p. 7), estudioso das competências na área da educação, define competência como a “[...] capacidade de agir com eficácia em determinadas situações apoiada em conhecimentos, mas sem limitar-se a eles”. Diante da definição proposta pelo autor, nota-se que o sujeito mobiliza seus recursos cognitivos, além de criar operações mentais para enfrentar situações. Em seu cotidiano de trabalho ou vida social o indivíduo, ao se deparar com as situações, utiliza recursos cognitivos para adquirir conhecimentos que possam resolver os problemas e imprevistos. Nas palavras de Perrenoud (1999, p.7) “A competência trata-se de uma faculdade de mobilizar um conjunto de recursos cognitivos (saberes, capacidades, informações etc.) para solucionar com pertinência uma série de situações”.

Assim, um profissional, antes de ter competência técnica, deve ser capaz de identificar suas próprias competências pessoais, e isso exige um trabalho sobre a sua relação com o saber. Reportando ao profissional guia de turismo, entende-se que o seu principal recurso é a sua capacidade de relacionamento com o grupo, de refletir sobre suas situações em seu contexto de trabalho, coordenar o grupo de visitantes, gerenciar as situações de problemas e imprevistos, dentre outras capacidades mais precisas no seu dia a dia de trabalho.

Conforme Perrenoud (1999) os seres humanos não vivem as mesmas situações, pois desenvolvem competências adaptadas ao seu mundo. A selva das cidades exige competências diferentes da floresta virgem; pessoas inseridas em classes sociais diferentes têm problemas diferentes para resolver. Algumas competências se desenvolvem na escola, outras, não.

Para Durand (1998), o conceito de competência está baseado em três dimensões: conhecimento (saber que o indivíduo acumulou durante a vida), habilidade (capacidade de aplicar e fazer uso produtivo do que aprendeu) e atitude (aspectos sociais e afetivos associados ao trabalho). Há um caráter de interdependência entre elas, portanto, essas três dimensões se complementam. O autor ainda discorre que a competência em saber o quê e o porquê, o como querer

fazer explicam as habilidades, os conhecimentos e as atitudes dos profissionais para o exercício de suas atividades. Essa correlação induzida pelos indivíduos de maneira eficaz conduz a organização a gerar recursos financeiros, alcançando seus objetivos. Esta compreensão indica que a competência profissional é condição para o bom desempenho organizacional.

Go (2001) apresenta uma pesquisa realizada para definir as competências e habilidades de um profissional do turismo. Foram selecionadas dezoito habilidades fundamentais para um indivíduo atuar no setor turístico, conforme especificado no Quadro 4, a seguir.

Comunicações eficientes 97,4%

Perspectiva internacional (incluindo sensibilidade para as diferenças nacionais)

94,7%

Habilidades criativas para a solução de problemas 94,5%

Capacidade analítica 93,9%

Saber tomar decisões 93,3%

Saber planejar/organizar 88,8% Trabalhar em equipe 88,7% Qualidades de liderança 87,5% Vontade de mudar 87,1% Iniciativa 85,1% Ética 84,9%

Aspectos socioculturais do turismo 83,7%

Comprometimento com a aprendizagem atual 77,1%

Habilidades com o computador 74,3%

Habilidades de conhecimento experimental 73,7%

Espírito empresarial (assumir riscos) 71,2%

Conhecimento de idioma estrangeiro 69,4%

Geografia do mundo e do turismo 63,0%

Quadro 4– Habilidades e características Pessoais Fonte: (GO, 2001, p.476)

Analisando o quadro 4, percebo que as características citadas podem ser encontradas em qualquer profissão. Contudo, a competência profissional do guia de turismo deve incluir conhecimentos técnicos e culturais para atender às

necessidades e às expectativas do turista. Isso inclui habilidade para orientar, informar e comunicar-se adequadamente, participar da tomada de decisão e liderança durante as visitas, criatividade, desenvoltura, reflexão, autonomia, disciplina, flexibilidade, iniciativa, paciência, sociabilidade e simpatia, dentre outras categorias. O Instituto de Hospitalidade Empresarial – IBHE11 elaborou um projeto de norma referente à profissão de guia de turismo, no qual são apresentadas as seguintes competências desse profissional:

 Conhecer história, geografia, artes e cultura popular de maneira genérica;

 Conhecer técnicas de entretenimento e lazer, condução de grupo, integração e estratégias para solução de conflito;

 Conhecer regras de etiqueta social e cuidados com higiene pessoal;

 Conhecer técnicas de vendas;

 Conhecer procedimentos de primeiros socorros em ambiente urbano;

 Interpretar mapas rodoviários e turísticos, cálculos de distância e estimativa de tempo para percurso;

 Ler e escrever para elaborar relatórios de ocorrências;

 Ter preparo físico para viagens longas e transportar peso;

 Ser uma pessoa líder, decidida, empreendedora, prática, dinâmica e ativa;

 Ser uma pessoa capaz de apresentar comportamentos controladores ou democráticos, dependendo da necessidade;

 Ser empático e expressivo na comunicação, argumentar com lógica de maneira clara e articulada, sem vícios de linguagem;

 Ser uma pessoa tranquila, segura e modesta, que mantém o equilíbrio emocional para administrar situações constrangedoras, de emergência ou inesperadas;

 Ser uma pessoa que planeja em curto prazo, considerando requisitos contratuais e condições ambientes;

 Ser ético ao recomendar pontos de compras ou passeios adicionais. De acordo com os itens expostos, evidencio que todas estas atribuições são pertinentes ao guia de turismo, no entanto, para compreender a complexidade desse profissional é importante conhecer sua prática, com seus limites e possibilidades.

O mundo do trabalho exige que o indivíduo seja capaz de produzir permanentemente. No contexto empresarial, o funcionário competente é aquele capaz de mobilizar, produzir de maneira eficaz e eficiente as diversas funções de um sistema; que se utiliza de recursos tão diversificados quanto são os mecanismos de raciocínio, os conhecimentos, os saberes e as capacidades relacionais. Em relação

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ao guia de turismo, certamente este profissional está inserido neste universo de exigência.

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