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Após dezesseis anos longe de sua terra natal Gonzaga retorna ao seu antigo lar, agora já famoso, para rever a família por alguns dias. Ocorreram festas na fazenda de sua família para comemorar o sucesso alcançado pelo cantor. O encontro do artista com os pais após vários anos de separação foi transformado em versos pelo cordelista Vicente Antonio Batista, publicado no ano de 1989 no folheto

Exú chora a perda de seu rei:

Ao pé da janela do pai Gonzaga se encostou E disse “Seu Januário”, Eu quero falar com o senhor Eu trouxe uma encomenda

Que o seu filho mandou De fora daquela janela

Luiz Gonzaga falou: “Quando o senhor vier daí traga água do pote, por favor

Quando o velho bateu no fundo do pote Luiz Gonzaga escutou: “Tibungo”. O velho abriu a janela

e a água entregou

e com um candeeiro na mão disse: “Quem é o senhor?” “Luiz Gonzaga seu filho, no Araripe aqui chegou”. Januário gritou: “Santana!” Luiz Gonzaga chegou. Viva Deus, a meninada e nosso pai Criador! que Luiz voltou prá casa, nosso filho tocador”. Naquela noite seguinte foi cheia de alegria Assim Luiz cantava e no disco também dizia Era gente como o diabo irmão que nem conhecia

“Luiz puxa pela sanfona antes que o sereno seque” Tocando, todos dançando, fazendo seu lindo breque e Zé Jacó disse: “Luiz, respeita Januário, moleque.”

Nos versos acima Luiz Gonzaga é representado como um imigrante que volta às origens com muita saudade da família e das terras que não visitava há vários anos. É destacada também a alegria dos pais ao reverem seu filho de volta ao lar. Segundo José Nobre de Medeiros e Antonio Costa, com o retorno de Gonzaga ao lar, já muito famoso, ocorreram doze dias de festa em Exú. O músico mostrou nesta ocasião toda a sua habilidade musical para a família e para seus conterrâneos. 118 A saudade é um sentimento sempre presente nas músicas do cantor. Saudades da terra e do amor que foram deixados naquele lugar especial. Na canção Qui nem

Jiló119 é possível observar esse sentimento: Ai quem me dera voltar/aos braços do

meu xodó/Saudade assim faz doer/E amarga qui nem jiló/E ninguém pode dizer/Que vivo triste a chorar/Saudade o meu remédio é cantar.”

Nesses versos, o sertanejo exilado chora a saudade de sua terra e de sua amada que ficou no Nordeste. A saudade é um tema recorrente nas canções de Luiz Gonzaga. Há o desejo de reencontrar a paixão, sua ausência é amarga como um jiló, o fruto da planta herbácea jiloeiro, muito cultivado no Brasil, e famoso por seu gosto amargo.

Para Betânia Silva, a escuta desta canção nos leva a um sertão nordestino prazeroso, alegre, perfeito, com muita chuva e fartura. Luiz Gonzaga fala de um lugar que desperta saudades, cheio de música e dança.120 O artista usou em suas letras a dualidade entre fartura e seca para representar o sertão nordestino. Esta música é um exemplo de exaltação a sua terra natal.

Após reencontrar a família em Exú, no auge da carreira artística, Gonzaga retornou ao Rio de Janeiro. Meses depois conheceu a mulher que seria sua futura esposa, Helena. O primeiro encontro ocorreu após uma apresentação do artista na Rádio Nacional e no mesmo dia a empregou como contadora dos seus negócios. Em uma matéria do Diário de Pernambuco no ano do centenário de nascimento do

118

COSTA, Antonio ; NOBRE, José. Porque o rei é imortal. Salvador: Pagina e Editora, 2011, p.69.

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Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Qui nem jiló. Baião. Odeon. V34748b, gravação em 1950.

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CORDEIRO, Betânia Silva. As canções de Luiz Gonzaga sob o olhar da análise criticado

artista é afirmado que: “o namoro com Helena Cavalcanti foi rápido. Ela não era a única namoradinha de Luiz Gonzaga naquele ano de 1948, quando ele a pediu em casamento. Era, contudo, aquela que ele achava mais apropriada. Era educada, de boa família nordestina”.121

Porém, antes da cerimônia, Santana viajou até a Capital Federal para conhecer a futura nora e dar o consentimento para o casal, era um costume da região. No cordel intitulado “Cosório”, escrito em 1952, Zé Praxedi narra o fato:

No ano de quarenta e oito A dizêis de San João Casou-se Luiz Gonzaga Fanmôso rei do baião. Lá na cidade do Meier Na igreja de Aparecida Ele e cumadre Helena Uniro alí suas vida. Foi assim; primeiramente Eles casaro no civí, Qué pra tê as garantia Da forte lês do Brasil. O padrinho de Gonzaga Foi êle, o pai da rima Sua Excelentíssima esposa E o grande, Miguel Lima

Os versos representam o casamento de Gonzaga com Helena na época em que ele era famoso, ocorrido na cidade do Rio de Janeiro. O local do casamento foi detalhado pelo poeta que também destaca o casamento no civil, antes da cerimônia religiosa, para garantir oficialmente o matrimônio. A família de Gonzaga era bastante religiosa, principalmente por conta da influência de Santana, mãe de Gonzaga. Por isso aconteceu todo o ritual católico para a união entre o casal. Foi feita no cordel uma menção ao padrinho Miguel Lima122, um importante parceiro musical do sanfoneiro.

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DIÁRIO DE PERNAMBUCO. Recife. 10 de dez. 2012. Caderno Viver D4, D5.

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Miguel Lima foi o primeiro parceiro de Luiz Gonzaga, com quem compôs a mazurka "Dança mariquinha", os chamegos "Penerô Xerém" e "Cortando pano" e a valsa "Perpétua", todas em 1945. No mesmo ano, Manezinho Araújo gravou o samba "Dezessete e setecentos", parceria com Luiz Gonzaga e que se tornou um grande sucesso, sendo gravado diversas vezes. Ainda no mesmo ano compôs com Antenógenes Silva a marcha "Palhaço" gravada por Gilberto Alves com acompanhamento do próprio Antenógenes Silva. Ao longo da carreira compôs marchas, valsas, baiões, sambas, calangos e maxixes, entre outros ritmos. Teve composições gravadas, entre outros artistas, por Luiz Gonzaga, Severino Januário, Zé Gonzaga, Ademilde Fonseca, Antenógenes Silva, Trigêmeos Vocalistas, Carmem Costa, Vicente Celestino, Araci de Almeida, Augusto Calheiros,

Fig. 03. Casamento de Luiz Gonzaga

Fonte: Acervo pessoal de Regina Echeverria

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