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6. Event Package Definition

6.2. Event Package Parameters

Luiz Gonzaga queria alavancar ainda mais a sua carreira e pensou em criar um movimento musical, cantar mais coisas de sua terra e tornar-se conhecido nacionalmente, a ousadia estava presente em seus planos. Era preciso encontrar um parceiro que o ajudasse a compor. Segundo Albuquerque Júnior, Gonzaga procurou um letrista que fosse capaz de transformar em poesia as suas lembranças de infância, os seus temas regionais.96 Para isso convidou o compositor Lauro Maia para fazer uma parceria, este não aceitou a empreitada alegando não possuir habilidades necessárias, porém indicou o seu cunhado, o cearense Humberto Teixeira, advogado e letrista para formar uma parceria com o Gonzaga. No primeiro encontro entre os dois, segundo o depoimento de Teixeira décadas depois, pode-se conferir como foi instituído o baião, o ritmo (re)criado pela dupla que ganharia projeção nacional:

Um belo dia estou no meu escritório de advogado lá no Rio, quando me procurou o Luiz Gonzaga. Ficamos, naquela tarde, de quatro e meia até quase meia-noite, nesse primeiro encontro. Naquele dia, nós chegamos a duas conclusões muito interessantes. Uma delas é que a música ou o ritmo que iria servir de lastro para nossa campanha de lançamento da música do Norte, a música nordestina no Sul, seria o baião. Nós achamos que era o que tinha características mais fáceis, mais uniformes. Naquele mesmo dia nós fizemos os primeiros versos, discutimos as primeiras ideias em torno de “Asa Branca”, que só dois anos depois foi gravada.97

Como vemos nesse depoimento, a dupla percebeu no primeiro encontro que o baião poderia ganhar repercussão nacional. Era o início de uma parceria que duraria até o início da década de 1950, quando Humberto Teixeira se elege para deputado estadual e se dedica mais a área política. Neste encontro, tem início o crescimento artístico de Luiz Gonzaga, nascia a semente para a trilha do sucesso.

96

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A Invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 2009, p.174.

97

Depoimento de Humberto Teixeira, em entrevista concedida ao jornalista Nirez em 1977. Jornal de

Poesia. S.1., 04/07/2000. Disponível em: http:/www.jornaldapoesia.jor.br/nirez.html, consultado em

Segundo o próprio Humberto Teixeira o baião seria o motor desta guinada. Para o jornalista José Teles, “embora sua origem esteja no distante sertão nordestino, o baião surgiu como música urbana, a primeira de “laboratório”. Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira conceberam o Baião como um ritmo e uma dança.98 Em 1946, o samba já havia alcançado à música da nacionalidade, o povo parecia estar se cansando de fox-trot e do bolero. O baião entrou em cena.99

Em 1946, com a música Baião, Gonzaga lança o ritmo que seria até o ano de 1954 o de maior sucesso no país e com repercussão inclusive no exterior. A sua música vai ser dirigida, sobretudo, ao migrante nordestino no Sul do país e ao público das capitais nordestinas que tinha condições de comprar discos. A música de Gonzaga vai ser pensada como representante de uma identidade regional que já havia se firmado tempos atrás por meio do “romance de trinta”.100

Esse momento positivo da vida do exuense foi relatado no folheto Vida e Morte de Luiz Gonzaga “O

Rei do Baião” publicado em 1994 pelo cordelista João Batista Ferreira Lima:

Quando fundou o baião junto a Humberto Teixeira aí a coisa mudou

Gonzaga firmou carreira tornou-se o Rei do Baião Dessa terra brasileira Aí Gonzaga inspirou-se Pra divulgar o sertão os costumes do caboclo do vaqueiro e tradição crendice, moda e cangaço botou tudo no baião

O cordelista mostra que a parceria com Humberto Teixeira foi essencial para Gonzaga chegar ao sucesso. A partir deste momento, o artista passa a divulgar os costumes de sua região. Este ritmo seria responsável, segundo o cordelista, por “divulgar o sertão” da maneira que Luiz Gonzaga desejava. Os costumes do caboclo foram destacados nos versos: a religiosidade, a vestimenta, o cangaço. Para o poeta esses temas foram bastante utilizados por Gonzaga nas letras de suas músicas. Para Jonas Rodrigues, o auge do baião se deu no período em que a música de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira teve projeção nacional e internacional. Para o

98

TELES, José. O Baião do mundo. Recife: Fundação da Cultura do Recife.2008. p.9.

99

VIEIRA, Sulamita. O sertão em movimento: a dinâmica da produção cultural. Annablume, 2000.

100

autor, a dupla tornou-se tradutora da linguagem discursiva e dialógica de Nordeste.101

Echeverria afirma que “o novo gênero” estourou em pleno governo do presidente Eurico Gaspar Dutra, que no mês de sua posse, em janeiro de 1946, assinou um decreto proibindo a prática de jogos de azar e o funcionamento de cassinos em todo o país. Para a jornalista, a música popular brasileira foi sacudida pelo baião, brasileiro legítimo e verdadeiramente uma novidade que substituiu a oscilação entre os ritmos importados e o samba canção.102

A experiência de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira acerca do Nordeste, ou seja, da tradição, dos sons e da cultura nordestina possibilitou que vislumbrassem um campo de ação para a organização do baião como música, num diálogo entre o urbano/rural. Com a junção do ritmo criado com o discurso das letras de suas músicas e a indumentária típica do sertão, Gonzaga representou uma parte do Brasil que estava sendo construída desde as primeiras décadas do século XX, e que ele ajudou a difundir. Segundo o músico Guerra Peixe não se pode dizer que o baião surgiu da noite para o dia. “Ele é fruto de um processo histórico que vinha sendo construído; de repente, ele emergiu. Foi no movimento da história da música popular e da dança que surgiu o baião.” 103

O baião criou sociabilidades no cotidiano das comunidades que se fez presente. A produção deste saber popular remonta às feiras do sertão nordestino, nas quais tocadores de rabeca ou violeiros se apresentavam firmando-as como verdadeiras festas para os artistas populares. Ao redor desses artistas as pessoas solicitavam motes, ouviam e se empolgavam com os desafios ou pelejas dos repentistas. Essas feiras serviam como elemento de reelaboração e comunicação de saberes manifestados nos fazerem tradicionais.

Foi neste cenário que Gonzaga passou a sua infância, e através de sua perspicácia criou um estilo musical. Gonzaga nomeia as falas e as imagens do ser nordestino e do espaço nordestino. Ele, com seu primeiro grande parceiro famoso, cria o baião como um estilo musical, um estilo rítmico, superando o baião que era

101

MORAES, Jonas Rodrigues de. Sons do sertão: Luiz Gonzaga, música e identidade. Annablume, 2012.p.43.

102

ECHEVERRIA, Regina. Gonzaguinha e Gonzagão: Uma História Brasileira. São Paulo: Leya Editora, 2006, p.82.

103 PEIXE, Guerra. “Variações sobre o Baião”. Revista da Música Popular. n. 5.fevereiro de 1955. In:

MARTINS, Ismênia de Lima; SOUSA, Fernando (Orgs.). Coleção Revista da Música Popular. Rio de Janeiro: Funarte/Bem-Te-Vi Produções Literárias, 2006, p.234.

conhecido como um simples dedilhado da viola ou a marcação rítmica, feita pelos violeiros – repentistas, entre um verso e outro de inspiração entre eles. Gonzaga descobre a “riqueza desse trechinho musical, de sentir que ele carregava em si a alma nordestina”.104

De acordo com Durval Muniz, “o baião será a música do Nordeste, por ser a primeira que fala e canta em nome desta região”.105

Segundo Jonas Rodrigues de Moraes “a música de Luiz Gonzaga é um reflexo de seus deslocamentos: a saída do sertão nordestino, sua passagem pelo exército, suas andanças por várias cidades do Brasil.” 106

As experiências vividas pelo artista se fazem presentes em seu repertório. O baião surge da dualidade: campo/cidade.107

Em um dos encontros entre Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga surgiu a música “No Meu Pé de Serra”108, um xote com melodia inspirada numa música do repertório do seu pai, Januário.

Lá no meu pé de serra

Deixei ficar meu coração Ai, que saudades tenho Eu vou voltar pro meu sertão No meu roçado trabalhava todo dia

Mas no meu rancho tinha tudo o que queria Lá se dançava quase toda quinta-feira

Sanfona não faltava e tome xóte a noite inteira O xóte é bom

De se dançar

A gente gruda na cabôcla sem soltar Um passo lá

Um outro cá

Enquanto o fole tá tocando, tá gemendo, tá chorando,

Tá fungando, reclamando sem parar.

104

DREYFUS, Dominique. Vida de viajante: A saga de Luiz Gonzaga. São Paulo: Ed.34, 1996, p.112.

105

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. Op. cit. p.155.

106

MORAES, Jonas Rodrigues de. Op. cit. p.44.

107

Williams trata desta relação entre cidade e campo. Para ele, o campo seria um lugar de inocência, paz, virtude simples, onde ocorria uma forma de vida natural. Já a cidade estaria ligada a um lugar de centro de realizações – de saber, luz, comunicações [...]”. WILLIAMS, Raymond. A Cidade e o

Campo. São Paulo: Cia das Letras, 1989. p.11. Para Thompson: “Uma cultura é também um conjunto de diferentes, em que há sempre troca entre o escrito e o oral, o dominante e o subordinado, a aldeia e a metrópole, é uma arena de elementos conflitivos.” THOMPSON, E. P. Costumes em Comuns. São Paulo: Cia das Letras, 1998, p.17.

108

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. No Meu Pé de Serra. Xote. Victor 800495 a, gravação em 1946.

Neste primeiro xote lemos a saudade do migrante nordestino, tema recorrente nas letras das músicas de Luiz Gonzaga. O sertanejo sente falta do cotidiano da sua terra natal e deseja voltar para este espaço. A canção se destaca por retratar a territorialidade do compositor. O xote, uma das variantes do baião, é exaltado. É um ritmo bom de dançar e, esta própria canção, ensina o modo de se dançar: ‘um passo

lá, o outro cá’.

Mas foi com a segunda parceria que ocorreu a entrada triunfal do cantor na história da música popular brasileira, o “Baião”.109

Eu vou mostrar pra vocês Como se dança o baião

E quem quiser aprender É favor prestar atenção Morena, chegue pra cá Bem junto ao meu coração Agora é só me seguir Pois eu vou dançar o baião Eu já cantei balancê

Xamego, samba e xerém Mas o baião tem um quê Que as outras danças não têm Quem quiser, é só dizer Pois eu com satisfação Vou dançar cantando o baião

Eu já cantei no Pará Toquei sanfona em Belém Cantei lá no Ceará

E sei que me convém Por isso eu quero afirmar Com toda convicção Que sou doido pelo baião

Nesta letra, o cantor afirma que já tocou vários estilos musicais no início de sua carreira em diversos lugares do Brasil, mais o baião tem algo especial que os outros estilos não têm e quem quiser aprender como se dança é só observar o próprio cantor que canta e dança ao mesmo tempo em suas apresentações. Gonzaga afirma que é “doido pelo baião”, ou seja, que é apaixonado por este ritmo que ele mesmo difundiu pelo Brasil.

Segundo Jonas Rodrigues, o artista introduziu com essa canção uma fruição estético-musical inspirada no cotidiano, na cultura e nos modos de vida dos

109

habitantes do sertão nordestino. “A letra enumera os diversos lugares em que já havia tocado e concluiu que o ritmo mais marcante foi o baião.”110

Em outubro de 1946 Gonzaga lançou um disco de 78 rotações que emplacou a carreira artística do sertanejo de Exú. Era o início da implantação e disseminação do baião que foi se tornando moda, manchete da imprensa. Os jornais e revistas importantes do período elogiam o novo ritmo do momento, chamando-o de “coqueluche nacional”, o gênero musical que “fazia estremecer”.111

A mídia focalizava a nova moda no Brasil. Luiz Gonzaga também apadrinhava outros cantores que se tornariam seus seguidores, com destaques para Marlene, Emilinha Borba, Ivon Curi, Ademilde Fonseca, Jamelão, Carmélia Alves e outros. Esta última recebeu título de “Rainha do Baião” pelo próprio Gonzaga após uma bem sucedida turnê em Pernambuco ao lado do músico Sivuca. A cantora foi coroada através de um gesto simbólico ao receber do “Rei” um chapéu de couro registrado pela imprensa carioca e passou a se apresentar para a elite nas boates da capital federal.

O novo estilo musical estava ganhando mais adeptos a cada momento em vários lugares e classes sociais do Brasil. Sua “criação” tomou proporções internacionais. Segundo Dreyfus: “A dupla Gonzaga/Teixeira adquiria imenso renome no meio artístico. Mandava e desmandava na música nordestina”.112

No mesmo período, a mais famosa dupla musical nordestina do momento compôs “Asa Branca” 113 que se tornou o hino da música nordestina. Para o povo do sertão, a fuga da ave da região é presságio de estiagem que vem acompanhada de sofrimento por conta dos males provocados pela falta d’água. Gonzaga narra o sofrimento e a dor do sertanejo ao perder toda a plantação. A música traz uma imagem que realimenta na memória dos brasileiros uma situação de penúria e traz uma carga de estereótipo, representando o nordestino como um povo marcado pela seca. Por meio da música, Luiz Gonzaga demonstra que a seca é um dos grandes problemas do Nordeste. A seca surge no discurso de Gonzaga como um grande problema do espaço nordestino, e o próprio intérprete assume a identidade de “voz do Nordeste”, tornando-se intermediária entre o “povo do Nordeste” e o Estado, fazendo os problemas da região visíveis através dos seus textos musicais. “A música

110

MORAES, Jonas Rodrigues de. Op. cit. p.46.

111

O cruzeiro de 29/10/1949; Diário Carioca, 13/09/1949; Revista Paulista,1949.

112

DREYFUS, Dominique. Op. cit. p.138.

113

de Gonzaga vai ser pensada como representante desta identidade regional que já havia se firmado anteriormente por meio da produção do romance regional”.114

Quando oiei a terra ardendo Quá fogueira de São João Eu perguntei, ai

A Deus do céu,ai.

Pru que tamanha judiação Que braseio, que fornaia

Nenhum pé de prantação, Por farta d’água

Perdi meu gado

Morreu de sede meu alazão Inté mesmo a asa branca Bateu asas do sertão Entonce eu disse

Adeus, Rosinha Guarda comigo Meu coração

Hoje longe muitas léguas Numa triste solidão

Espero a chuva cair de novo Pra mim vortá

Pro meu sertão

Quando o verde dos teus óio Se espaiá na prantação Eu te asseguro

Num chore não, viu Que eu vortarei, viu Meu coração...115

Jonas Rodrigues Moraes116 afirma que esta música constrói imagens que servem para realimentar na memória dos nordestinos uma situação de desolação e que estes elementos discursivos trazem consigo uma carga de estereótipo, representando os nordestinos como um povo marcado pela estiagem. Para o autor, esta visão ficou cristalizada. Penso também que Gonzaga contribuiu para a formação deste cenário de desolação atribuída ao Nordeste pelos habitantes de outras regiões do país, como se em todo os estados e cidades da região sofressem com a seca durante boa parte do ano. Mas é importante salientar que parece não haver um grande interesse da classe política brasileira em tentar diminuir os efeitos

114

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. Op. cit.155.

115

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Asa Branca. Toada. RCA VICTOR 80.0510 b, 1947.

116

MORAES, Jonas Rodrigues de. Sons do sertão: Luiz Gonzaga, música e identidade. Annablume, 2012.

da seca quando esta ocorre em alguns períodos e em determinados lugares do espaço nordestino, notadamente na região do semi-árido.

O poeta, radialista, escritor e advogado cearense Pedro Sampaio, nascido em janeiro de 1961 é neto do também poeta Manoel Galdino Bandeira e filho de Adalberto Soares Sampaio e Izaura Forte Sampaio. Lançou três livros e tem vários cordéis publicados. No rádio cearense Pedro Sampaio desempenha suas atividades onde atua no jornalismo como repórter e aos domingos apresenta o programa Gonzagão da Cidade em que realiza todos os anos a festa Troféu Centenário que contempla promotores da cultura nordestina. É membro da Diretoria colegiada da Associação Cearense de Imprensa como Diretor de Atividades Culturais e Cronista Esportivo.

O poeta descreve em seu cordel intitulado Cronologia do universo

gonzagueano, publicado 2012, a importância da canção Asa Branca para a carreira

de Luiz Gonzaga:

No ano quarenta e sete Início da sua glória O clássico “Asa Branca” Mudava a história Esse hino nordestino Mudou todo o seu destino Pra Gonzaga uma vitória

O poeta afirma que a canção Asa Branca foi a grande responsável para o início do sucesso de Gonzaga. Por meio desta célebre música, o cantor conquistou a vitória, a fama que tanto almejava. Esta música se baseia nas antigas cantigas do folclore nordestino conhecidas por Gonzaga na infância. Para gravá-la pediu para seu parceiro Humberto Teixeira fazer uma reformulada, a música alcançou um dos maiores sucessos da dupla e provavelmente da carreira do sanfoneiro.

A canção fala do drama dos nordestinos que fogem da seca que marca o sertão, onde seu povo é obrigado a viver na miséria, no trabalho árduo. Luiz Gonzaga mostra o sertão nordestino como uma terra árida, comparando-a a uma fornalha que destrói os animais e as plantações fazendo uma referência às consequências da seca.117

117

Por outro lado, o retorno da ave ao sertão é um prenúncio de chuva. Quando a água chega a região é um sinal de fartura, o verde toma conta do lugar. Não faltarão comida e festas para agradecer a Deus pelas bênçãos da chuva. Pensando nisso Gonzaga gravou “A volta da Asa Branca” que mostra este outro lado do sertão.

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