No presente capítulo, desenvolvo a etnografia a partir de vinte e uma entrevistas que realizei em Turim e em Dakar, abordando a trajetória de vida e profissional de meus interlocutores. A maior parte das pessoas que entrevistei chegou em Turim na metade dos anos 1990, portanto, num fluxo migratório posterior ao dos primeiros migrantes senegaleses que, como citado acima, se instalaram na cidade na década de 80. Dois dos entrevistados entraram na Itália antes desse período, respectivamente, em 1983 e 1987, enquanto outros três chegaram em 2006, 2007 e 2010. Meus interlocutores têm idade média de trinta e cinco anos, apenas um deles é mais novo, tinha vinte e três anos à época da entrevista, enquanto o mais velho tinha sessenta e um. A baixa incidência de mulheres entre os entrevistados, quatro no total, caracteriza, como se disse, a dinâmica migratória senegalesa como um todo, tanto na Itália quanto em outros países de chegada. Ainda que o universo explorado nesta pesquisa seja muito restrito, a idade média e a incidência de gênero de meus interlocutores refletem características demográficas de âmbito mais abrangente.
A prevalência masculina dos migrantes é explicada em termos prescritivos por Coumba Mbaye36, uma das minhas interlocutoras. Numa das entrevistas realizadas, ela comenta: “uma mulher não deveria migrar (...) porque, segundo eles [os homens], você deve casar, ter filhos, cuidar da família... e ficar ali (...). Dificilmente uma mulher casada deixa o marido lá onde vive.”37 Papel da mulher é “cuidar da família”, primeiramente no lugar de origem e, depois do casamento, no contexto familiar do marido. “Ficar ali” aponta para o vínculo prescritivo que a mulher mantém com o espaço patrilocal ocupado depois do casamento, mas também indica, de forma mais geral, o universo doméstico como definidor de identidade de gênero. Nesse sentido, Coumba comenta: “No nosso país, as mulheres devem ficar unicamente dentro de casa”. Essas afirmações sugerem qual é o espaço de circulação feminino segundo as regras socialmente estabelecidas no contexto de origem, que, como
36 Coumba, em 2014, tinha 38 anos. Pertencente à etnia lebou, ela nasceu em Dakar, casou-se no Senegal e teve
um filho. Após a separação do marido, deixou Senegal junto com o filho. Chegou à Itália em 1998. Atuou em diversas áreas, como observaremos a seguir, entre as quais o comércio. Atualmente, é casada com um italiano com o qual teve um filho. À época da pesquisa de campo, trabalhava como auxiliar de enfermagem em um hospital público.
veremos melhor em seguida, inclui também ambientes não estritamente domésticos, mas a eles ligados. É importante ressaltar a manifestação de tensão em relação a tal prescrição, que é apresentada, pela Coumba, como uma dinâmica exógena, sendo uma regra estabelecida por “eles”, os homens, e da qual ela, então, toma distância. Essa postura de desidentificação em relação às regras de diferenciação de gênero é compartilhada por outras mulheres migrantes com as quais, também informalmente, conversei em Turim, assim como em Dakar. Por vezes, estas se posicionam de forma crítica frente ao papel considerado “de submissão e controle” que devem manter em relação aos homens, assim como em relação à prática da poligamia.
As relações sociais entre homens e mulheres no espaço doméstico em Dakar são analisadas por Lecarne-Frassy38 (2000) em termos políticos. Segundo a autora, a divisão de gênero das atividades, que prevê, por um lado, a fecundidade, a educação dos filhos e o trabalho doméstico enquanto deveres femininos, e, por outro, o sustento de mulheres e filhos como obrigação masculina - divisão característica da sociedade patriarcal -, marca fortemente as relações e, principalmente, os discursos masculinos:
Les hommes du groupe étudié voient lês femmes comme un groupe place sous leur autorité indiscutée – ou presque. Tout se passé comme si le marriage, indissociable de la compensation matrimonial versée par le mari aux parents de l´épouse, créait une dette inextinguible de l´épouse. (2000: 209).
E acrescenta: “[l´homme] beneficie d´une autorité legitime dans l´espace domestique, qui peut prendre la forme d´une domination absolue” (ibidem).
Tal forma de dominação é parafraseada por Coumba, que relata a respeito da autoridade masculina: “o homem decide tudo, faz o que quer”. Em outras ocasiões, escutei esta mesma narrativa associada, por exemplo, a episódios de violência doméstica, ou à poligamia. Se, por um lado, a fala de Coumba reafirma a posição de poder ocupada pelo homem frente a mulher, frequentemente legitimada do ponto de vista religioso nas narrativas dos próprios homens - que citam as prescrições islâmicas de gênero como modelo a ser seguido, por outro, existe também um domínio feminino, mais especificamente materno, associado à esfera afetiva e emocional em relação aos filhos. A mãe, de fato, representa a referência educativa para esses últimos e sua centralidade se reflete na crença, amplamente compartilhada, de que a conduta e sentimentos maternos determinam o jeito de ser das
38 Ver especificamente o capítulo “La dynamique des rapports sociaux entre femmes et hommes” em
Marchandes dakaroises entre maison et marche, L´Harmattan, 2000. Trata-se de uma etnografia sobre o trabalho
próprias crianças e dos adultos que virão a ser. Além disso, percebe-se que há um envolvimento significativo das mulheres também no âmbito da produção de renda para o sustento da família. As relações entre homens e mulheres, como Lecarne-Frassy (2000) ilustra etnograficamente, embora estejam pautadas pelas prescrições comentadas acima, se inscrevem historicamente e são permanentemente negociadas. Nesse sentido, o conjunto de regras que prevê as mulheres atuando na esfera privada como cuidadoras e os homens na esfera pública como provedores produz um modelo que é flexionado na dimensão das práticas sociais. De acordo com a autora acima citada (2000), três processos, respectivamente de ordem política, social e econômica, vêm redefinindo o modelo acima apresentado: o recente nascimento do Estado Nacional, o processo de urbanização e a crise econômica internacional. Em relação ao primeiro ponto, o Estado Nacional, em 1973, institucionalizou o Code de la famille, no qual se reconhece as mulheres como figuras jurídicas e lhes são garantidos direitos. Atualmente, principalmente entre as mulheres com um maior nível de instrução, tem- se desenvolvido um discurso relativo aos próprios direitos, visando uma menor desigualdade das relações de gênero (LECARNE-FRASSY, 2000: 125).
O processo de urbanização que interessa a cidade de Dakar, por outro lado, no contexto da crise econômica internacional, identificado na deflação dos termos de troca entre regiões norte e sul do planeta e os planos de ajustes econômicos impostos pelo FMI (ibidem: 164), impacta sobre a sociedade senegalesa na medida em que as mulheres passam a ser arregimentadas pelo mercado, vindo a participar da composição da renda familiar através do exercício de atividades como o comércio e a criação de cooperativas (CESCHI, 2006: 78), desconfigurando então, parcialmente, os parâmetros de organização social acima citados. A definição de tais parâmetros, em termos de gênero, é moldada principalmente pela moral “árabe” que determina uma restrição à circulação feminina, segundo a qual as mulheres devem permanecer afastadas do “mundo exterior” (BORSERUP, 1983: 207 apud LECARNE- FRASSY, 2000). Este último é considerado como “espaço de encontro com o outro” e, nesse sentido, Balandier (1985), citado por Lecarme-Frassy (2000: 21), afirma: “la sexsualité est socialisée; le partage sexsuel des activités atraverse tuot le champ de la societé et de la culture”. Essa regra impacta a tradição pré-islâmica que via o comércio, inclusive de longas distâncias, como domínio também feminino. Nesse sentido, como trataremos no capítulo a seguir, as mulheres não abandonam tal prática, mas a realizam com modalidades específicas.
Coerentemente com esse cenário, que vincula fortemente a figura feminina ao universo doméstico, segundo Coumba Mbaye, as mulheres que migram são as que “não têm marido”, isto é, aquelas que romperam vínculos de conjugalidade. Essa afirmação reflete
também os dados que recolhi, sugerindo que nem sempre a separação conjugal resulta em reagrupamentos familiares: as migrantes em Turim são frequentemente divorciadas, isto é, mulheres que, depois da separação, escolheram deixar seu país de origem acompanhadas ou não pelos próprios filhos39. Tratando-se de uma sociedade patrilocal, em caso de divórcio, a regra consiste no retorno das mulheres para o universo social da família de origem, enquanto os filhos deveriam permanecer na casa do ex-marido, sendo criados pelas irmãs dele e pela sogra. A fase da separação conjugal, então, representa um momento em que o sistema de controle sobre a mulher enfraquece, na medida em que se encontra momentaneamente rompido o vínculo de obrigações com ambos os núcleos familiares, gerando, então, uma situação de parcial suspensão, que oferece a possibilidade concreta da viagem, da saída, não sempre bem aceita pela família de origem. Os dados que observamos e parte das narrativas que recolhi sugerem que a migração, nesses casos, se apresenta como possibilidade de emancipação e, ao mesmo tempo, como alternativa de se subtrair à condição, por vezes constrangedora, do retorno à casa paterna. Pode-se, então, perceber uma certa proximidade nas motivações de homens e mulheres para a migração: os primeiros, como veremos com mais detalhes em seguida, buscam na “aventura” da viagem um modo de exercitar a “liberdade”, além de novas frentes financeiras; as segundas procuram novas oportunidades de circulação social, portanto também “maior liberdade”, em novos contextos sociais. A “aventura” e a busca de “liberdade” enquanto perspectivas associadas ao expatrio se aproximam, ainda que em tempos e espaços diferentes, das que O.R. Thomaz (2012)40 aponta em relação à migração de jovens camponeses moçambicanos para a África do Sul, na época do apartheid. No nosso caso, se a trajetória dos homens é não somente aceita, mas incentivada no contexto de origem, a das mulheres, muitas vezes, encontra entraves no Senegal e, como apresentarei melhor no capítulo sucessivo, coerção pelos conterrâneos no exterior.
Durante a pesquisa de campo, que foi desenvolvida principalmente em espaços públicos de Turim (ruas e feiras), percebi uma certa invisibilidade das mulheres senegalesas. Consegui encontrar algumas delas trabalhando nesses locais como vendedoras de benhe, café touba e comida típica senegalesa como ceebu yapp, ceebu jen e maafe41, preparadas nas
39 Três das mulheres que entrevistei eram separadas dos maridos quando viajaram. Nessa mesma situação se
encontravam outras mulheres com as quais conversei durante o trabalho de campo, como as vendedoras que cito em seguida.
40 “Lobolo e trabalho migratório: reprodução familiar e aventura no sul de Moçambique” em “Travessias
antropológicas: estudos em contextos africanos” org. Wilson Trajano Filho, 2012.
41 Respectivamente: begne é um doce frito feito com farina di grano ou milho verde e especiais; o café touba é
próprias casas, transportadas em carrinhos de mão e oferecidas nas feiras ou em frente às lojas senegalesas, especialmente para conterrâneos. Esses últimos, muito mais presentes “na praça”, como aprofundaremos sucessivamente, ocupam esses mesmos espaços como passeantes/clientes e/ou vendedores ambulantes trabalhando de maneira formal e informal. Enquanto os comerciantes senegaleses têm italianos e sujeitos de outras nacionalidades como clientes, as mulheres tendem a desenvolver suas atividades quase exclusivamente entre e para conterrâneos, optando, como se citou acima, por oferecer seus serviços de produção e venda de alimentos típicos para os homens da mesma comunidade. Essa prática se adequa às prescrições de gênero acima citadas e, mesmo que exercida em espaço público, restringe as interações com os sujeitos masculinos do grupo.
O contato com as mulheres senegalesas durante a pesquisa foi bastante difícil: os primeiros encontros foram quase todos barrados por atitudes de relutância, que me pareceram remeter a uma certa desconfiança, mas também foram dificultados pelo fato de não compartilharmos os mesmos idiomas42. Segundo alguns informantes masculinos, muitas senegalesas que vivem em Turim não falam o italiano pelo fato de “ficarem muito entre elas” e “serem fechadas”. Estas duas afirmações remetem à divisão tradicional de gênero, sustentada pelas etnias às quais pertencem e seu sistema de prescrições apresentado anteriormente, cujas inflexões se podem perceber tanto nas dinâmicas de inserção na sociedade de chegada quanto em relação às atividades profissionais realizadas pelas mulheres.
A desconfiança, a reticência diante da sociedade de chegada, devem ser também entendidas como consequências da pressão que elas sofrem por parte de seus conterrâneos homens. Estes, como citei anteriormente, exercem sobre elas uma observação constante: essa prática coercitiva, realizada principalmente por meio de fofocas e “rumores”, é constitutiva de um sistema de controle moral ao qual todos os senegaleses estão sujeitos, representando, portanto, um aspecto estrutural da vida dos migrantes. Em relação às mulheres, porém, a coerção é mais opressiva pois elas, ao migrarem, se subtraem ao domínio direto da família de origem e à regra que as quer ligadas a esse espaço doméstico. Na Itália, de fato, as migrantes, por um lado, tendem a reproduzir as prescrições tradicionais, e isso se reflete nas modalidades e espaços de circulação - constituídos principalmente pelos domicílios e os lugares públicos frequentados com finalidades religiosas ou profissionais -, mas também, por outro lado,
branco, carne (de boi ou de carneiro) e batatas ou verduras; ceebu jen contém arroz, peixe com mandioca e verduras juntas com um túbero chamado naué; enquanto que o maafe é preparado com pasta de amendoim que acompanha carne (de boi ou de carneiro), batatas doces e outros tipos de batatas.
42 A maioria delas conhece pouco a língua italiana, algumas não falam o francês e minha fluência na língua
podem flexionar e ressignificar as regras. Essas últimas situações representam casos significativos que etnografaremos há frente.
O comércio de itens que extrapolam o gênero alimentar também é praticado pelas senegalesas, segundo regras específicas. Como tratarei no capítulo a seguir, o domínio das mulheres e dos homens no campo do comércio, na Itália, se diferencia principalmente em termos de tipologia de produtos e formas de venda. As primeiras comercializam, em sua maioria, itens vinculados ao universo doméstico (alimentos, tecidos, roupas, bijuteria) e aos cuidados femininos (pentear, trançar, tratar dos cabelos, principalmente) atuando ou como vendedoras ambulantes itinerantes ou como comerciantes estabelecidas em lojas próprias ou de conterrâneos, sendo tais artigos direcionados a uma clientela restrita, oriunda da África Ocidental (principalmente senegaleses, mas também malianos, gambianos e nigerianos). Já os homens vendem mercadorias de um universo mais amplo: comercializam desde produtos chineses e itens falsificados até objetos artesanais africanos e orientais, roupas, pôster de personagens famosos etc.. Eles atuam seja como vendedores ambulantes itinerantes e com bancas, seja como comerciantes em lojas próprias ou de conterrâneos. Além disso, muitos homens e mulheres se engajam em atividades de comercio transnacional baseadas na exportação de peças da Itália para o Senegal. Essa prática, sobre a qual trataremos no último capítulo, pode ser realizada de forma mais ou menos estruturada pelos senegaleses, os quais desenvolvem mansões diversas e promovem o fluxo de produtos distintos segundo as prescrições de gênero.
A restrição em relação aos produtos e espaços de circulação das mulheres migrantes, bem como sua submissão a práticas coercitivas masculinas, porém, não as colocam necessariamente em uma posição subordinada nos contextos familiares de origem. De fato, a maioria das mulheres que observei, as quais na Itália permaneciam solteiras, foram impelidas – como ocorre entre os homens - a produzir renda não apenas para si próprias e para os filhos, mas também para outros parentes, passando, portanto, a ser provedoras da família no Senegal. Dessa forma, tal como os migrantes masculinos, elas se tornam figuras centrais em termos de expectativas de ajuda por parte dos parentes, assim como referência e suporte na acolhida de conterrâneos recém-chegados que integram suas redes de relações sociais.
A prática migratória pode levar a mulher a ocupar um papel de relevância na família de origem, como no caso de uma das minhas interlocutoras: Khady Camara43. Ela tem marido e filhos no Senegal e veio para Itália há “vinte anos”. A escolha do expatrio, nesse caso, é
43 Tem 61 anos, de etnia peul, é nascida em Dakar, onde é casada e tem quatro filhos. Migrou para a Itália em
assim explicada: “meu marido perdeu o trabalho no banco. Meu irmão, que morava em Turim, me mandou o dinheiro e vim aqui para trabalhar, para sustentar meus filhos”44. A aquisição do papel de provedora, exercido também em relação ao marido, que recebe uma aposentadoria complementada pela renda dela, levou Khady a se autodefinir como capofamiglia (chefe de família). O exercício da função provedora pela mulher, pouco explicitada nas narrativas masculinas, me pareceu também central no contexto que observei em Dakar, onde, como Lecarne-Frassy aponta (2000), apesar do tempo restrito de pesquisa, descortinou-se um panorama em que as mulheres adultas e casadas, em sua maioria, trabalham, principalmente como comerciantes, integrando ou respondendo sozinhas pela renda familiar. Adiante aprofundaremos etnograficamente a trajetória de vida e professional de Khady Camara e de outra migrante, Coumba Mbaye, dando ênfase no empreendimento das práticas comerciais que desenvolvem, e observaremos como negociam e flexionam os parâmetros prescritivos morais e de gênero.