A proveniência dos meus interlocutores masculinos é heterogênea. Originários das cidades de Dakar, Casamance, Louga e Touba, na maioria dos casos, antes de se estabelecerem na Itália, migraram para outros lugares: quase todos moraram em um ou dois países europeus (França, Espanha, Portugal, especialmente) e muitos também viveram e trabalharam em outros Estados da África Ocidental. Nesse sentido, Serigne Mansour Tall (2008) distingue entre uma ancienne migration e uma nouvelle migration sénégalaise (2008: 38). A primeira, segundo esse autor, se estendeu até as décadas de 60 e 70 do século XX e foi constituída principalmente por migrantes de etnia soninké e pular, originários dos vales ao redor do rio Senegal, que se deslocaram respectivamente para a França e países da África Ocidental e Central. O segundo fluxo teve início na metade da década de 80 do século passado, tendo como metas a Europa do Sul (Itália e Espanha), os Estados Unidos e o Canadá (TALL, 2011). Nos anos 70, segundo Tall, se observa a complexificação das condições políticas e econômicas em alguns países a que se destinavam os senegaleses na África, como Gabão, Costa do Marfim, Congo, Camarões e Zaire, bem como mudança nas normas de entrada dos senegaleses na França, que, a partir de 1974, passaram a precisar de visto de
permanência para entrar nesse país. Essas conjunturas contribuíram para redirecionar os migrantes senegaleses para novas metas, sendo, segundo o autor, os Estados Unidos e Canadá os destinos procurados pelos mais instruídos e a Europa do Sul, pelos comerciantes. Além das rotas mencionadas, é importante salientar que a migração como prática de deslocamento dentro do Senegal (rural/urbano e rural/rural) e para países fronteiriços é intensa e assume, muitas vezes, o caráter de itinerância, como se verá adiante, rompendo-se, dessa forma, a imagem estereotipada desse tipo de trajetória como sendo linear, unívoca e de matriz definitiva.
O primeiro impacto, no momento da chegada à Europa, foi desnorteador para muitos. Cheikh Lô45 descreve assim suas primeiras impressões:
Eu pensava, honestamente, de encontrar uma vida mais fácil (…) fiquei um pouco chocado quando cheguei na França e vi meus conterrâneos, a forma como viviam…: amontoados todos dentro de um quarto, em quinze pessoas, fiquei um pouco chocado, o primeiro impacto não era positivo, não era positivo porque eu era acostumado a ter o meu quarto (...). Fiquei chocado quando vi todas essas pessoas em quinze em um quarto, e de manhã todos a se colocarem um monte de gri-gri!46 (risos). Não tinham problemas de
higiene, mas fiquei igualmente chocado tanto que uma semana depois queria voltar. No final, eu consegui, resisti graças a meu primo que insistiu muito para que ficasse e conseguiu me fazer permanecer.47
A experiência aqui descrita se refere à de um integrante da onda migratória da década de 80 e retrata uma condição de moradia que se verificava também na Itália com modalidades parecidas. Essas moradias coletivas constituídas na Europa - “casas aldeias”, como eram chamadas – se caracterizavam por serem espaços domésticos compartilhados entre pessoas que pertenciam ao mesmo lugar de origem - aldeias ou bairros -, em geral parentes ou amigos, que tinham enfrentado a experiência migratória juntas ou em um lapso de tempo relativamente próximo. Esse tipo de residência atualmente não existe mais, pois se modificou a forma de inserção dos migrantes senegaleses oriundos dos fluxos sucessivos. Hoje, esses podem contar com familiares ou amigos já estabelecidos, que possuem seus próprios apartamentos ou os alugam, podendo, dessa forma, hospedar os conterrâneos em lugares mais amplos e confortáveis. Isso não implica, porém, que o “choque” dos recém-chegados seja menor: a forma considerada “individualista” dos italianos viverem, as situações de
45 De etnia pel, tem 56 anos, nasceu em Dakar, mora na Itália desde 85. Foi casado com uma mulher senegalesa
no Senegal e com uma mulher italiana da qual agora é separado. Tem um filho na Itália e um no Senegal. Atualmente, convive com uma mulher italiana. Foi militar no Senegal e em Turim atuou como operário e comerciante, atualmente é comerciante. Entrevista, 16 de janeiro de 2014.
46 Amuletos.
preconceito às quais os migrantes são submetidos, bem como o estilo de vida do norte da Itália, caracterizado por um ritmo “frenético” da vida cotidiana e do trabalho são os argumentos citados para qualificar o impacto negativo da chegada, amenizado por impressões positivas (qualidade das infraestruturas urbanas e o “alto” padrão de vida da maioria da população).
Esse “choque” na chegada pode ter como consequência o retorno temporário ao país de origem48: tais retornos, quase em seguida à migração, servem, estrategicamente, como forma de ajuste, pois amortecem o impacto e, ao mesmo tempo, anunciam uma modalidade própria de migrar e viver, o “vai e vem” a que se refere (CASTAGNONE, 2005). Essa prática, de fato, como veremos, se dá também nas fases sucessivas, quando os migrantes já estão estabelecidos, sob condições específicas. Como vimos acima, no caso de Cheikh, a volta enquanto opção escolhida para o enfrentamento do primeiro impacto com a nova realidade não se concretiza graças aos pedidos, e certamente aos suportes, de seu primo. A força dos vínculos sociais é uma característica do tipo de sociabilidade que existe entre meus interlocutores e a rede que se constitui é central na determinação de destinos, metas e escolhas individuais.
As motivações que levaram os entrevistados a migrar se articulam em um quadro complexo, no qual, além das questões estritamente econômicas, sobressaem a vontade de explorar novos espaços e encontrar oportunidades diversas, não somente financeiras, mas existenciais. A viagem pode ser vista como a concretização de um “sonho”, como no caso do Cheikh, citado acima:
Viajei assim, como muitos outros jovens da época, com o sonho de vir para Europa... era um sonho ver este grande país rico, desenvolvido e tudo mais, tinha o sonho de colocar os pés aqui... desde criança, assistindo os filmes, eu tinha este sonho de ir para Europa, de chegar até lá, de ver... porque para nós era um espelho, não é? Um modelo de vida positivo.
48 Como no caso de François Sané. De etnia diola, nasceu em Casamance, tem 35 anos. Professor de matemática
e física no Senegal, na Itália ele dá aulas particulares de francês, wolof, matemática e física e atua em outros setores, como veremos à frente. Atualmente, pratica também o comércio. É casado na Itália com uma italiana e tem dois filhos. Chegou em Turim em 2007, experiência sobre a qual relata:“Quando cheguei aqui, depois de dois meses voltei para o Senegal, não queria estar aqui porque era difícil demais (…) fiquei dois meses no Senegal e voltei para a Itália” (entrevista, 11 de fevereiro de 2014). O mesmo narra também Ibrahima Diajne: “Em 87, comprei a passagem e viajei, fiquei na Espanha por três meses, mas não gostei muito e voltei para o Senegal. Depois que cheguei lá quis de novo viajar para a Europa” (entrevista, 3 de março de 2014).
A imagem de uma terra “rica e desenvolvida” sugeria-lhes a possibilidade de uma melhoria da qualidade de vida49. O imaginário, nesses casos, é ativado especialmente pela mídia, no entanto, pode também ser acionado por narrativas dos migrantes que voltam regularmente ao Senegal, destacando-se, como trataremos em seguida, a forma como são recebidos e considerados.
A ideia da Europa como “eldorado” (RICCIO, 2007) é tão arraigada que se mantém inalterada também frente às notícias sobre a crise econômica europeia, veiculadas tanto pelos meios de comunicação de massa quanto por quem retorna. O argumento da “crise” é frequentemente acionado, principalmente pelos migrantes que vivem na Itália há mais tempo, para justificar entre familiares a diminuição de suas remessas ao país de origem. Apesar disso, a atração que a Europa exerce sobre o imaginário de quem fica permanece forte. A posição dos migrantes em relação a esse chamado é muito delicada: desestimular um amigo ou parente a migrar pode ser interpretado negativamente, pois essa atitude se contrapõe à noção de “destino”, constitutiva da religião islâmica, segundo a qual não existe uma correspondência efetiva entre condições reais e caminhos possíveis. Em uma perspectiva determinista, oportunidades, entraves, encontros “já estão escritos”, como muitas vezes ouvi dizer, isto é, marcados por uma causa sobrenatural. Diante disso, a atitude considerada moralmente correta é alertar sem interferir e, caso a opção seja por viajar, se dispor a apoiar o recém-chegado.
Do ponto de vista de quem fica no Senegal, na perspectiva masculina, a partida para viver em outro país é geralmente qualificada como ato de valentia. Quem faz essa escolha possui jom, isto é, coragem, destemor, determinação (mas também orgulho, amor-próprio, dignidade), qualidade que, como veremos também sucessivamente, representa o aspecto positivo mais importante do universo moral senegalês no contexto pesquisado e é acionado também em outras esferas semânticas50. É importante ressaltar que quem se afasta fisicamente do próprio meio familiar permanece mantendo obrigações em relação a este. A natureza de tais deveres, principalmente para os homens, mas, como relatamos anteriormente, também para as mulheres, é também econômica: como dizem, eles precisam prover os parentes e, quando migram, passam a efetivar esse papel por meio de remessas materiais e/ou financeiras. O respaldo financeiro que proporcionam aos familiares é uma prática central em torno à qual
49 Assim como nas palavras de Mamadou Fall: “Pensávamos em uma vida melhor como se via na TV, nos
documentários, pensávamos numa vida melhor, por isso vim para cá” (Entrevista, 5 de dezembro de 2013). 50Esse foi o termo que escutei com mais frequência nas narrativas dos meus interlocutores, não somente para qualificar a adequação moral de alguém frente a uma situação, mas como elemento constitutivo da noção de pessoa. Ter ou não ter jom representa um discriminador que divide os sujeitos entre honrados e horáveis ou indignos.
é tecida uma aura de reconhecimento, mas também de expectativas que enredam os migrantes. Ao lugar de reconhecimento que passam a ocupar por ter exercido valentia e coragem ao escolher “partir” e por estar cumprindo o papel de provedores exigido, de fato, corresponde uma dimensão de demanda, que se traduz em severas pressões, consideradas por eles como esmagadoras, porém justificadas, como veremos melhor à frente, por um outro imperativo moral ao qual são submetidos, isto é, a obrigação à ajuda. Como veremos, a função de corresponder a essas demandas se, por um lado, é árdua, tem como reverso a aquisição de um status de prestígio diante da sociedade de origem, almejada pela maioria dos migrantes51.
A construção do status de prestígio é alimentada, por um lado, pela ostentação da riqueza e/ou pela simulação de ter alcançado essa condição, que, como veremos, constitui um elemento estratégico da autorrepresentação dos migrantes para com os parentes e amigos no Senegal e, do outro lado, como Riccio (2007) sugere, pela representação dos migrantes enquanto modelos de sucesso por seus conterrâneos locais. Segundo o autor, “os retornos periódicos”, especialmente quando acompanhados da ostentação acima citada, influenciam a imaginação das pessoas que permanecem e, dessa forma, constituem um estímulo simbólico e moral à partida” (2007: 47). O autor acrescenta: “estes novos modelos de referência que revolucionam as categorias sociais de poder e prestígio são estruturados mais sobre o saber prático e a disponibilidade à aventura migratória que sobre o itinerário clássico de escolarização proposto pela tradição retórica da modernização pós-colonial” (idem: 49), representando uma alternativa a esta última. Deve-se também considerar que o aporte financeiro produzido pelos migrantes em forma de remessas enviadas para o Senegal contribui na construção positiva desse modelo.
A relevância dessas remessas pode ser expressa em relação ao produto interno bruto (PIB) do país de origem: acredita-se que, a partir dos anos 90 do século passado, o fluxo de remessas transferidas por meio de canais oficiais representava 3% do PIB (CASTAGNONE et all., 2005) e foi crescendo respectivamente para 6% em 2001, 8,6% em 2007 até 12,1% e em 2017 por um valor equivalente a 2.220 milhões de dólares (ANSD, 2018), ao qual se devem somar os fluxos informais, que, segundo o Banco Africano de Desenvolvimento (AFDB), representariam cerca do 46%. Em algumas regiões do Senegal, por exemplo em Louga, as remessas já chegaram a somar 90% das rendas familiares. Em razão desse aporte econômico, criou-se uma gratidão social à figura do migrante, que pode ser visto como herói, como nos
51É interessante destacar como a representação dos migrantes em Dakar tenha se modificado: inicialmente, de fato, os modou-modou que sazonalmente da região rural se deslocavam na capital para fazer pequenos comércios eram vistos negativamente (RICCIO, 2007), enquanto que, após ampliar seus deslocamentos para a Europa e aumentar suas rendas, passam a ser considerados, como dito acima, sujeitos prestigiosos.
textos das canções do álbum intitulado Immigrés, lançado em 1988 pelo cantor senegalês Youssou N´Dour.
Por quanto o aspecto econômico seja considerado central, o que parece atrair e retroalimentar a prática migratória não são apenas seus resultados financeiros e/ou materiais, mas também a forma como essa prática é realizada. Exemplar é a fala de Cheikh Lô a esse respeito:
(Eu) tinha um primo na França. Ele comprava as mesmas coisas que eu compro agora e ia para a França vendê-las. As coisas caminhavam bem para ele: ficava seis, sete meses lá (...) não ficava fixo ali, digamos, nove meses na França e três no Senegal... assim fui tomado por essa paixão.
A “paixão” à qual Cheikh se refere é a atividade comercial translocal, mas também a modalidade de “ir e vir” que essa prática econômica viabiliza. O “vai e vem” da Itália para o Senegal, e vice-versa (CASTAGNONE et all., 2005), pode se traduzir em viagens anuais ou até mais frequentes entre os dois países, com duração média de um até quatro meses, dependendo da ocupação do sujeito. Os retornos periódicos ao Senegal são motivados, conforme as falas de meus interlocutores, pela nostalgia e necessidade de visitar os parentes, com os quais mantêm deveres tanto afetivos quanto econômicos, além do objetivo de encaminhar e monitorar atividades econômico-financeiras para os próprios migrantes e seus familiares. A intensa sociabilidade que caracteriza os vínculos entre senegaleses explica também a necessidade de um estreitamento do espaço que os separa. Essa dinâmica migratória circular remete, então, a valores fundamentais para a comunidade pesquisada: por um lado, garante a manutenção dos laços com a família de origem, assim como com as esposas e os filhos que permanecem no Senegal e, por outro, reafirma autoridade e prestígio no próprio meio social.
A pessoa que circula é percebida, e se percebe, como autônoma e livre pelo fato de ter experiência de vida em diversos lugares: ela domina e conhece uma gama maior de espaços geográficos e sociais. Nesse sentido, a viagem é também considerada como forma de emancipação: se migra pelo yokuté - em wolof, “vontade de melhorar” (idem: 2005) -, mas também pelo desejo de conhecimento. Essa perspectiva, já presente na narrativa de Cheikh Lô - “eu tinha este sonho de ir para Europa, de chegar até lá, de ver” -, é proposta também por Babacar Diop52: “eu já tinha viajado para Mali, Camarões, Nigéria, Costa do Marfim, Gana
52De pai nigeriano e mãe senegalesa, tem 50 anos, nasceu em Dakar onde é casado com uma mulher e tem quatro filhos. Atua como técnico de geladeiras e aquecedores e comerciante.
(…), aí quis ir para Europa para ver como era.” Nesse último caso, a migração para a Europa é considerada como continuação de uma experiência de viagem prévia que, nas suas palavras, tinha começado no Mali, “assim, sem pensar”. Ou seja, “ver” é sinônimo de conhecer, descobrir e, com isso, acumular novas experiências.
A modalidade circular da migração senegalesa já era experienciada pelos primeiros migrantes que inauguraram o fluxo na Itália, na metade dos anos oitenta do século passado. De fato, três ou quatro meses ao ano, na estação estiva, comerciantes senegaleses se deslocavam para as praias italianas, vindo do Senegal ou de outros países europeus, para vender artesanato e bijuteria. “Ir e vir” se tornou, então, uma forma consolidada de deslocamento à qual todos os migrantes aspiram, mas que se realiza sob condições específicas: tem que se ter tempo, possibilidades formais (visto de permanência) e econômicas (dinheiro para despesas de viagem, uma quantia para a estadia, além da disponibilidade de valores a serem doados a amigos e parentes). A viagem de volta ao Senegal é sempre considerada onerosa, principalmente por causa desse último item, representando o maior impasse para quem deseja voltar temporariamente. Atender às demandas de parentes e amigos do país de origem, as quais não cessam a distância, mas, ao contrário, se multiplicam, representa, como já se disse, uma obrigação. As condições citadas nem sempre são realizáveis, resultando em períodos mais ou menos longos de permanência na Itália, na tentativa de ampliar os recursos, o que resulta, segundo meus interlocutores, em sofrimento e saudade da família.
Essa modalidade de idas e retornos frequentes entre países não é praticada somente pelos migrantes senegaleses na Itália, mas, como já mencionamos, fundamenta o modo dos senegaleses migrarem, como Serigne Masour Tall e Aly Tandian descrevem no artigo “Migration circulaire des Sénégalais. Des migrations tacites aux recrutements organisés” (2011). Segundo os autores:
La migration circulaire a été longtemps pratiquée par les Sénégalais, de manière certes spontanée, bien avant qu´elle ne soit inscrite dans l´agenda international comme une piste de gestion concertée des migrations internationales et comme um moyen de réconcilier le couple migration et développement. En effet, les migration sénégalaises étaient de courte durée et étaient caractérisées par des retours fréquents suivis de ré-émigration selon la force et la nature des réseaux de départ.
La migration circulaire est tout simplement une migration temporaire de personnes quittant leur pays d´origine pour exercer une activité économique dans un autre pays et revenir ensuite dans leur pays d´origine après une durée determinée. Tout de même, une approche de l´histoire des migrations internationales sénégalaises montre qu´elles ont été solvente circulaires et spontanées.
A modalidade circular foi observada tanto em relação aos fluxos no interior da África Ocidental (Gabão e Costa do Marfim, por exemplo) quanto aos fluxos transnacionais para a Europa. Segundo os autores, quanto mais as destinações são próximas, mais frequentes são os retornos. Na França, por exemplo, os migrantes têm realizado um sistema migratório chamado noria, um modelo rotativo, que, além das idas e voltas regulares, inclui a substituição do migrante por outro membro da família ou irmão social, uma vez que o primeiro tenha encerrado sua estadia no exterior. Segundo Tall e Tandian (2011), a construção desse fluxo específico, que tem origem no vale do Rio Senegal, e a duração da experiência migratória obedecem às lógicas familiares, segundo as quais os diferentes membros da família teriam papeis e responsabilidades específicas, coletivamente estabelecidas (2011: 04).
A ênfase que os autores atribuem à busca de uma melhoria econômica como motivação central que propulsiona os deslocamentos deveria ser, a nosso ver, relativizada, no sentido de incluir outros elementos, como o desejo de conhecimento, autonomia e liberdade e o anseio de adquirir um papel de destaque no próprio meio social (o que chamamos de status de prestígio), como descrito acima, os quais enredam de forma mais complexa o conjunto de motivações e expectativas relativas à viagem. Uma análise unicamente econômica, de fato, reduz o quadro, simplifica-o, uma vez que desconsidera aspectos que os próprios migrantes identificam como significativos, os quais compõem o sistema migratório determinando lógicas e práticas específicas. A própria modalidade circular se dá em parte em razão dessas outras motivações, ao mesmo tempo que as reafirma e reforça.
A prática de deslocamento dos migrantes senegaleses não se limita à circulação entre país de origem e de chegada, mas pode assumir uma forma nomádica. De fato, como se percebe tanto pelas trajetórias migratórias de meus interlocutores quanto nos dados coligidos em outras pesquisas (Castagnone 2005, Riccio 2007, Ceschi 2006, Tall, 2008), a mobilidade dos migrantes pode ser marcada por fases de circularidade e outras de verdadeira itinerância, que são intercaladas com voltas periódicas ao país de origem, enquanto meta final dos percursos. Nessa perspectiva, trajetórias caracterizadas por saídas temporárias para países da
África Ocidental, assim como sucessivas mudanças no interior da Europa, marcadas por