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Section des operateurs de la foret et de l'environnement (Avec stages)

Dans le document Avis 52.256 du 27 juin 2017 (Page 187-190)

A leitura de qualquer texto, literário ou não, mobiliza no leitor a busca por referentes discursivos, inscritos na memória, para que este possa recuperar o que lhe permita dar sentido ao que lê. Esta memória corresponde há uma série de “sentidos entrecruzados da memória mítica, da memória social inscrita em práticas, e da memória construída do historiador”, tal como afirma Pêcheux (1997, p.50). Não devemos conceber a memória como um simples local de armazenamento de informações. Dentro dos postulados pecheuxtianos, a memória é mais que esse lugar, é o espaço no discurso onde as experiências históricas e sociais, absorvidas inconscientemente, se entrecruzam e dialogam.

Todo discurso, portanto, instaura para o sujeito um encontro entre esse ‘novo’ dizer e o que ele traz com o que está inscrito na memória. A partir desse encontro, o leitor é motivado a questionar o que lê. Não se pode entender um texto como um todo acabado que encerra seus sentidos em si mesmo. Partimos da materialidade linguística para entender como o discurso se realiza na língua. Temos, em AD, o que está no âmbito do intradiscurso, estruturas que se relacionam, horizontalmente, no interior do texto; temos, também, o interdiscurso que nos remete a uma não-linearidade, que se refere à relação entre os discursos, ao atravessamento que estes sofrem por discursos e ideologias de distintas ordens. O que está no âmbito do interdiscurso é o que interessa, especialmente, à AD, pois se trata de um movimento de retomada de dizeres, de pré-construídos, pelo qual o sujeito encontrará lugar no discurso na língua do outro.

Na escritura de textos literários, o autor não é único, tampouco munido de meras intenções, como já sabemos, ele está interpelado pela ideologia e produz o seu discurso a partir de uma posição no interior da FD em que está inscrito, a qual, por sua vez, é suscetível ao atravessamento de outras FDs. Na materialidade linguística de um texto, encontramos, portanto, as marcas da posição sujeito ocupada na FD com a qual se identifica. A partir da leitura do texto literário, produzido por esse autor, que corresponde, antes de tudo, a um lugar no interior de uma rede discursiva, cada leitor recupera memórias individuais e coletivas para dar sentido ao que lê, produzindo efeitos de sentido e assumindo posições em relação ao dito. Essas retomadas ocorrem, como

33 postula a Análise do Discurso, a partir da análise de quais elementos da ordem linguística - isto é, do intradiscurso - permitem ao leitor direcionar-se ao interdiscurso, para ressignificar o dito, enveredando por suas falhas e brechas na busca de outros/novos sentidos.

Todo texto literário, ou não, se constrói sobre uma base estrutural, sobre uma forma. Sabemos que, em AD, essa forma nos permite acessar o que está além dela mesma, isto é, buscar aquilo que definimos como discurso. Portanto, é incongruente que no ensino de línguas continue existindo a bipartição: língua/literatura.

É necessário, como afirma Pêcheux, “multiplicar as relações entre o que é dito aqui, dito assim e não de outro jeito, com o que é dito em outro lugar e de outro modo, a fim de entender a presença de não ditos no interior do que é dito.” (2006, p.44) Relacionar todas essas nuances dentro do texto literário, resgatando e resignificando memórias a partir da leitura desses textos em língua estrangeira, é fundamental para que se possa estabelecer relações entre a materialidade linguística e a discursiva, ou seja, o que da superfície textual aponta para elementos extralinguísticos e, por conseguinte, seus discursos.

Acreditar que a literatura traz implícitos, no sentido defendido pela Pragmática, recuperáveis através da materialidade linguística em uma relação de imediatismo contextual, prejudica o deslocamento de sentidos que a literatura produz. Não se permite, assim, que o leitor vá mais além daquele contexto. O verdadeiro implícito está nesse além, consiste no que Paul Henry (1997) chamou de pré-construídos: aquilo que está “sempre já aí, na ordem histórico-social”4

, ou seja, nas enunciações que nos remetem a uma memória,

instaurada em uma sociedade, que traz consigo uma ideologia, e que se inscreve inconscientemente na memória coletiva dessa sociedade, ganhando voz no discurso através de seus sujeitos.

Refletir sobre a inserção da literatura nas aulas de língua estrangeira nos permite pensar, ainda, em sua relação com o elemento cultura. Frequentemente, no ensino de línguas estrangeiras, em uma tentativa de levar elementos culturais, entre eles a literatura, para o processo de ensino-

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34 aprendizagem, utilizam-se métodos os quais inserem atividades que representam hábitos em situações cotidianas e previsíveis de uso da língua. Pensa-se que, conhecendo estas situações e o emprego das formas linguísticas, o estudante será capaz de reproduzi-las uma vez que se encontre em semelhante situação. Outros aspectos culturais também se fazem comuns nos livros didáticos de língua estrangeira, trazendo aspectos da cultura daquela língua, representados por festas típicas e estereótipos, por exemplo. Nenhuma reflexão acerca do viver, diferente desse imposto pelos estereótipos, é fomentada, nem ao menos sobre os próprios estereótipos.

Entendemos, assim, que cultura não é apenas um registro de fatos, tidos como típicos de uma sociedade, mas como um lugar de interpretação (De Nardi, 2007, p.54), no qual os sujeitos dialogam com os discursos construídos dentro dessa sociedade, a partir das experiências sociais, históricas e político- ideológicas vivenciadas dentro desse novo espaço social. Esses discursos estão presentes na linguagem, nas diversas formas de expressão com as quais o aprendiz entra em contato, aceitando-as ou rechaçando-as. Entendemos que a cultura:

atravessa, portanto, os processos identificatórios por que passa o sujeito, já que constitui o cerne da organização ou sua relação com o outro. Para a Psicanálise, o sujeito mergulha na cultura assim que se insere na linguagem e, por meio dela, se constitui como tal, movimento que implica, necessariamente, uma relação com o outro, um ‘familiar-estrangeiro’, fonte de fascinação e repulsa ao mesmo tempo. (DE NARDI, 2007, p. 52)

Esse conceito de cultura proporciona aos discentes um processo de identificação real com a língua do outro, com sua materialidade linguística e discursiva. Há, em muitas práticas de ensino, o apagamento da história que constitui essa cultura e sua sociedade. Nos trabalhos que buscam relacionar a Análise do Discurso com ensino-aprendizagem de línguas estrangeiras, o maior desafio consiste em refletir sobre a forma material dessa nova língua sem dissociá-la de sua materialidade discursiva, ou seja, sem desconsiderar a história, os aspectos político-sociais e ideológicos que os discursos trazem consigo.

Serrani (2003, p.289) fala da “importância de não desvincular a língua da inter-relação sujeito-língua-discurso, ao conceber o processo de aprendizagem

35 de línguas em contexto educativo.” Como sabemos, cada sujeito, inconscientemente, inscreve-se em uma formação discursiva e assume posições sujeito no jogo discursivo, provocando efeitos de sentido. O contato com o discurso literário em língua estrangeira, pertencente a uma cultura diferente daquela do sujeito aprendiz, faz com que memórias sejam resgatadas a fim de se entender as questões que surgem a partir do encontro com os discursos inscritos na língua estrangeira, ou seja, do encontro com essa sociedade e sua cultura.

Nesse jogo, a literatura de língua estrangeira tem papel fundamental, pois está escrita em uma nova materialidade linguística diferente da materna, e nos permite submergir em um mundo de dizeres, ditos na história e guardados na memória desse outro da língua estrangeira.

Vários são os gêneros textuais, tais como: quadrinhos, receitas, propagandas, que permitem essa imersão, entretanto os gêneros literários trazem consigo o ser sujeito nessa nova sociedade. Mais que a introdução da literatura, busca-se pensar no processo de ensino-aprendizagem de espanhol como língua estrangeira (doravante E/LE), pensando na memória que o texto literário traz consigo e nas relações interdiscursivas que nele se materializam.

Dessa forma, este trabalho se volta para as reflexões produzidas no campo da AD pecheuxtiana para refletir sobre o tratamento do texto literário nos livros didáticos adotados no atual quadro de ensino de E/LE no Brasil. Propõe-se aqui o desenvolvimento de uma reflexão em que se conceba o alunado como constituído social, histórica e ideologicamente, sendo capaz de enveredar e mobilizar os discursos de seu próprio universo, para poder realizar o movimento de mudança de lugar discursivo, isto é, partindo do lugar que ele ocupa em sua língua materna, para um novo lugar na língua estrangeira.

Pretendemos, sobretudo, ratificar, com este trabalho, a importância de se conceber a literatura como materialidade discursiva, capaz de colocar o aprendiz da língua espanhola em contato não somente com a materialidade linguística deste idioma, mas com os discursos inscritos, recriados e resignificados dentro da cultura que constitui esse outro da LE. Ao dialogar discursivamente com esse outro, buscamos levar os discentes a refletir, também, sobre os discursos de sua própria sociedade. Uma vez que, assim,

36 compreendendo em que universo se vive, torna-se possível dialogar com o novo, com o outro da língua estrangeira.

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