“A função do escritor é fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e
considera-se inocente
diante dele”.
(Sartre)
Maria Adelaide Almeida Santos do Amaral nasceu em 1942, em Conselheiro do Valongo, Portugal, e reside em São Paulo desde 1964. Graduada em jornalismo, atua como dramaturga, escritora, tradutora, roteirista e telenovelista. Mais conhecida do grande público por seus trabalhos para a Rede Globo de Televisão, Maria Adelaide produziu as novelas Meu Bem, meu Mal; Anjo Mal; Plumas e Paetês, além de várias outras novelas e minisséries.
Estrela Nua: amor e sedução (2003), sem dúvida, é o mais lúdico no enfrentamento dos temas mulheres e amor dentre os livros que compõe a Coleção em tela. Ao contrário das demais tramas que apresentam narradores observadores em terceira pessoa demasiadamente distanciados, incógnitos, sem identidade sexual claramente definida, e oniscientes, a novela de Maria Adelaide nos traz um narrador em primeira pessoa demasiadamente visceral, e não hesitamos em afirmar que ele se configura como protagonista da trama, numa subversão dos papéis assumidos por homens e mulheres nos demais exemplares da Coleção Amores Extremos. E é através do olhar desse narrador que as mulheres do enredo nos são apresentadas. Ao fazer escolha de tamanha perspicácia, perigosamente a autora tanto pode refutar como referendar os discursos androcêntricos sobre as mulheres. Semelhante ao exemplar Através do vidro: amor e desejo, de Heloísa Seixas, esta novela de Maria Adelaide Amaral também apresenta uma narrativa dentro de outra narrativa, ou “em moldura”: trata-se da história de um jovem rapaz que escreve uma história de amor, se colocando como protagonista, sob efeito de um delírio esquizofrênico e de substância psicodélica. De todos os sete exemplares da Coleção Amores Extremos, este é o mais próximo de uma autoficção, do ponto de vista estrutural, mas para frustração dos leitores mais
curiosos, Maria Adelaide Amaral criou um personagem narrador, eliminando possíveis rastros biográficos da trama.
A trama centra-se em um longo monólogo de Carlos Eduardo que, ainda preso à recente infância, faz questão de ser chamado de Cadu. Ele é um rapaz de classe média alta, músico, de dezoito anos, que atravessa no presente da narrativa o auge da fase de rebeldia adolescente e decide sair da casa dos pais como um rito de passagem para a conquista da autonomia emocional e financeira. Típico “filhinho da mamãe”, Cadu chegou aos dezoito anos como uma criança mimada que passou a existência sem traumas, sem problemas de qualquer ordem, e que adota o “estilo anos sessenta de viver” no que esse período tem de mais estereotipado: sexo, drogas e rock roll. Cadu namora Júlia, toca numa banda, é usuário de drogas (álcool e maconha); abandonou a graduação em Direito e tem um grande amigo e confidente: Rubinho. Para conseguir manter-se sem ajuda da família, Cadu atende a um anúncio de jornal e se apresenta como pianista para a mulher que irá mudar a vida dele dali em diante: a decadente cantora de ópera Hilde Brandão, que nos é apresentada na trama, desde o início, como a materialização fantasiosa de uma mente ainda juvenil e delirante.
A construção da personagem Hilde é deliberadamente pautada na inverossimilhança. A autora deixa muito explícita a configuração clicherizada dessa mulher, misto de cantora, atriz, professora e heroína folhetinesca, que de modo sintomático se apresenta como sendo uma estrela: “Precisa-se de um pianista para acompanhar estrela de bel-canto”, escreve Hilde no anúncio que fisga Cadu para o espaço da irrealidade, da fantasia e do delírio. Ao longo de todo monólogo, a ex-celebridade Hilde Brandão será nomeada por Cadu como “estrela”, palavra que a autora sintomaticamente registra sempre com inicial minúscula.
O enredo é um dos mais explorados em novelas: a sedução e concomitante educação sexual de um jovem por uma mulher mais velha. Nesta escolha da autora, no entanto, percebemos, de modo subliminar, uma crítica a um comportamento cada vez mais estimulado nas sociedades capitalistas pautadas no aumento desenfreado do consumo inconsequente, que parte da adultização precoce das crianças e dos adolescentes. É comum neste tipo de sociedade, onde o valor econômico se sobressai sobre os
demais, a ação de “queimar etapas” e considerar adolescentes ainda carentes de atenção e cuidados como adultos autosuficientes e emocionalmente maduros, o que tem transformado as últimas gerações num paradoxal coletivo desconexo de pessoas deprimidas, fragilizadas e mergulhadas numa profunda distopia.
O que a autora nos lembra nesta trama é que os homens demoram mais (do ponto de vista emocional) no longo processo de ingresso na maturidade, e que aos dezoito anos ainda estão clivados entre o desejo de permanecer cuidados como crianças e o de ter liberdade de ação, normalmente restrita à possibilidade de manter uma vida sexual e à experimentação de ícones da vida adulta, como o acesso a drogas lícitas e ilícitas, morar longe dos pais ou largar os estudos para se dedicar a atividades essencialmente lúdicas como tocar em bandas, exatamente o que fez Cadu.
Tal fato nos é apresentado em várias cenas da novela, dentre as quais destacamos estas falas de Cadu, quando ele se conscientiza de que estava estabelecendo uma relação afetiva e erótica com uma mulher com idade para ser sua mãe ou avó; ressaltamos que as cenas referidas acontecem quando, finalmente, após meses de assédio, Hilde determina que aquele era o momento da realização do ato sexual entre ela e o inseguro rapaz: “ Sabe do que eu tinha vontade? De voltar a ser criança. É. Tinha vontade de retroceder, de voltar ao tempo em que obedecia a meu pai.” (AMARAL, 2003, p. 69).
Ao subir as escadas em direção ao quarto de Hilde, Cadu reproduz mentalmente, e quase em pânico, a cena romântica, típica de algumas produções do cinema hollywoodiano, que mostra o homem carregando nos braços a mulher amada até o leito, numa demonstração da força dele e da passividade dela: “Eu jamais conseguiria subir com ela em meus braços com a virilidade do Schwarznegger”. (AMARAL, 2003, p.70). Esta é uma das falas mais importantes na trama, do ponto de vista simbólico, se consideramos que a falta de virilidade que Cadu reconhece em si, ao se comparar com um dos maiores símbolos de masculinidade do cinema, não tem relação alguma com a sua sexualidade ou com o seu porte físico, já que ele apresenta tipo “atlético” e Hilde tinha físico de criança, bem ao estilo mignon, mas é uma consequência direta da epifania que o assola naquele momento decisivo: ele, com dezoitos
anos e vida sexual ativa com a namorada Julia, não passava de um menino assustado diante de Hilde nua exigindo uma performance sexual dele.
Essa epifânica consciência de si será responsável por uma das cenas mais alegóricas e bonitas da novela, e que nos mostra como uma autora contemporânea, conectada com os ritmos, condicionamentos sociais, usos e costumes culturais deste tempo percebe a importância do questionamento de papéis tradicionais da mentalidade androcêntrica. O comportamento agressivo e ao mesmo tempo sub-reptício, adotado por Hilde na sedução de Cadu, é o mote para a revelação de um estado de atordoamento percebido em alguns homens ainda inseguros diante desse novo padrão de mulher ativa, segura de si e determinada a realizar suas fantasias sexuais com homens escolhidos apenas com o intuito de serem objetos descartáveis de satisfação física. No quarto de Hilde, vendo pela primeira vez quem de fato ele era, para além da aparência refletida no espelho de homem adulto, Cadu mal consegue verbalizar o que sentia: “... fiquei acachapado pela quantidade de espelhos que multiplicavam minha imagem de garoto assustado”. (AMARAL, 2003, p. 71 – grifo nosso).
Não há como ler Estrela Nua: amor e sedução sem rememorar Amar, verbo intransitivo, publicado por Mário de Andrade em 1927, e sem associar Hilde Brandão a Elza (Fräulein). A referência direta ao romance modernista nos é dada quando Rubinho diz que Hilde provavelmente era uma atriz contratada pelo pai de Cadu para convencer o filho a ir estudar na Europa. A exemplo da protagonista de Mário de Andrade, ao ser flagrada por Cadu pagando a um homem com quem acabou de manter relações sexuais, Hilde também defende a contratação de pessoas que prestam serviços sexuais sem nenhum tipo de envolvimento sentimental, e ela mesma faz uso de um desses profissionais: “Você não paga para ir ao cinema, por um bom jantar? Por que o sexo tem que ser de graça?” (AMARAL, 2003, p. 59). Hilde certamente publicou o anúncio no jornal buscando mais um parceiro sexual do que um pianista, e isso explica por que ela ficou decepcionada com a pouca idade de Cadu, a quem estranhamente ela sempre pagava com moeda estrangeira. Hilde também perturba o rapaz ao dizer que nunca foi casada, mas teve dezenas de amantes, dentre eles um irmão dela, e defende a prática das relações incestuosas com o argumento de “estar defendendo o direito de as pessoas se
deitarem com quem lhe apetece”. (AMARAL, 2003, p. 45), numa alusão muito direta às bandeiras de luta de certa parcela dos movimentos feministas.
É importante ressaltar que nesse ponto a personagem feminina desta novela transgride comportamentos convencionais e assume uma posição que sempre foi considerada tipicamente masculina na sociedade brasileira, como atestam as seguintes falas de Cadu: “Hilde me esmagava não porque fosse mais velha, mas porque revelava a todo o momento o meu lado tolo, imaturo, convencional” (AMARAL, 2003, p. 77); “ _ [Cadu] Quando vou saber que estou pronto? _ [Hilde] Quando você enxergar nesse espelho um homem e uma mulher. E foi assim que começou a minha instrução sexual”. (AMARAL, 2003, p.78).
O homem desta trama era completamente maduro, ativo, resoluto e realizado sexualmente com a sua namorada jovem e adolescente, mas diante de uma mulher adulta e muito mais experiente, no campo da sexualidade, ele não conseguia passar de um menino, fruto de uma educação familiar machista e da assimilação dos piores preconceitos sociais contra mulheres, o que faz com que ele e quase todos os homens, ainda em nossos dias, as separem entre as “santas” (as pertencentes aos seus círculos familiares) e as “putas” (as demais mulheres). O descompasso aqui se insere porque ela tinha experiências de vida que ele, com a pouca idade, desconhecia, e a relação dos dois é marcada pelo signo da diferença, enquanto ele e a namorada Júlia se igualam em vivências, preferências, hábitos e conhecimento de mundo.
Um dos índices de que a autora lança mão para desconstruir concepções do falocratismo que atribui às mulheres determinados padrões de comportamento indicadores de mais fragilidade, como o medo da realidade, extrema sensibilidade emocional e pensamento mágico, pode ser verificado em várias cenas nas quais Cadu se comporta com sintomas quase histéricos. Por não entender mulheres autosuficientes como Hilde, pois sua pouca idade não favorecia esse conhecimento, e principalmente por não conseguir aceitar racionalmente o fato de estar amando uma mulher cinco décadas mais velha do que ele, Cadu passa a atribuir tudo o que vê e sente a intervenções do plano espiritual, como percebemos nestas falas dele: “Precisava procurar um centro espírita, uma benzendeira, um pai-de-santo”. (AMARAL, 2003, p. 52). “Minha vontade era bater em retirada, cortar o acesso dela aos meus
pensamentos, impedir que comandasse a minha mente”. (AMARAL, 2003, p. 52).
Comportamentos assim são tidos, desde os tempos das fogueiras medievais, como típicos das mulheres, pois rotular o universo feminino como irracional foi e ainda continua sendo uma das principais armas dos homens para subjugar as mulheres e deixá-las de lado no trato dos assuntos “sérios”, como o gerenciamento de assuntos econômicos, militares, políticos e científicos. Paradoxalmente, no campo das artes, sempre foram os homens os maiores consumidores de filmes, livros e dramas nos estilos terror e gótico; também são eles os maiores apreciadores de ficções sobre zumbis, fantasmas, extraterrestres, paranormalidade e temas afins, comprovando que a arte serve de elemento catártico para que os homens vivenciem, em surdina, suas crenças místicas sem serem tidos como irracionalistas.
Ao transferir o pensamento mágico para um personagem homem, portanto, Maria Adelaide Amaral rompe com mais um preconceito que teima em atravessar o curso da história sem muitos questionamentos. Aparentemente banal, o diálogo entre Cadu e seu amigo Rubinho (que reproduziremos em seguida) pode surtir mais efeitos na formação identitária de uma mulher leitora ou nos arranjos sociais de hoje do que dezenas de passeatas feministas, porque vai atingir, através de um discurso subliminar e sem o tom professoral de alguns dos discursos afirmativos, questões basilares do inconsciente coletivo:
- Ela tá te possuindo. É como naqueles filmes de terror, explicou Rubinho, em que o sujeito passava a obedecer ao comando de uma mente perversa. Tem que resistir, cara, se não, vai acabar virando zumbi.
- [Cadu] Eu tinha que ficar atento. (AMARAL, 2003, p. 50).
A autora denuncia tais comportamentos retrógrados pondo em uma das falas de Hilde uma sentença que se afina bastante com as posturas norteadoras dos estudos pós-estruturalistas, negando o pensamento binário típico da mentalidade patriarcal, homofóbica, misógena e machista, e se aproxima de uma concepção livre das amarras de uma identidade fixa,
característica das mulheres que superaram a condição de subserviência: “Sabe qual é o seu problema? O pensamento binário. Sabe que existem mil e uma possibilidades entre o sim e o não?”. (AMARAL, 2003, p. 65). Num outro trecho da trama é Cadu quem sintetiza em poucas palavras o tom “subversivo”, característico da novela de Maria Adelaide Amaral: “Quando eu era pequeno, morria de inveja do filho da vizinha, porque a mãe dele era gerente de banco. Se a minha mãe trabalhasse fora, a gente seria mais feliz (inclusive ela)”. (AMARAL, 2003, p. 34). É imperioso apontar que o senso profissional de Hilde era sua característica mais forte, e a impressão que a personagem nos passa é de estar fazendo um enorme sacrifício em nome da arte ao seduzir Cadu, como depreendemos de várias falas dela, inclusive desta:
Parceria. Isso não tem a ver com sexo nem com romance, mas com outra natureza de afeto, ou de afetos. Eu quero um tipo de relação que não necessite de palavras nem de grandes gestos. Quero que a gente se entenda por música, no sentido figurado e no sentido literal. (AMARAL, 2003, p. 43).
Há um outro diálogo bastante revelador de como uma autora de agora consegue, com sucesso, tecer uma possível escrita de mulher realmente comprometida com a busca pela superação do androcentrismo que ainda resiste em nossa sociedade. No diálogo ao qual nos referimos, Hilde diz que um homem jamais compreenderá uma mulher e Cadu, sentindo-se ferido por ser incluído por uma mulher entre os seres de baixa capacidade cognitiva (todos os homens), reage sendo extremamente rude como a maioria dos homens em situações semelhantes, e tenta humilhar Hilde, chamando-a de velha (“... principalmente quando há cinqüenta anos de diferença entre eles, tive coragem de falar”). A resposta de Hilde a essa tentativa de ofensa revela então o embate constante, na trama e na nossa sociedade, de duas correntes (a que reifica as mulheres e a que luta pela erradicação do androcentismo): “ Às vezes, você é muito mais velho do que eu”. (AMARAL, 2003, pp. 52 - 53).
Em outras cenas, Cadu reproduz novamente em sua fala bastante rude o preconceito que ainda hoje paira sobre mulheres que não abdicam de uma vida sexual na maturidade: “É o seguinte: envelhecer todo mundo envelhece,
mas você não espera que uma pessoa daquela idade resolva fazer um joguinho de sedução”. (AMARAL, 2003, p. 39). Cadu assume que de certo modo ele se prostitui na relação com Hilde, o que é mais digno para ele do que admitir amar uma “velha”: “O fato é que, quando você é duro, também fica mais difícil ser digno. O negócio era engolir o orgulho e o sapo”. (AMARAL, 2003, p. 41); “Eu já estava começando a achar que a estrela me pagava muito pouco para ter que agüentar aquela encheção de saco”. (AMARAL, 2003, p. 21). O preconceito etário, ao longo de toda a trama, se constitui como um escudo com o qual Cadu se protege dos seus próprios desejos e do crescente afeto em relação a Hilde: “Era só olhar para ela e para mim. Uma mulher que podia ser minha avó, não fazia diferença que o corpo fosse jovem. Mais uns dez anos, estaria morta”. (AMARAL, 2003, p. 75); “Não gosto de velha!”. (AMARAL, 2003, p. 16).
O insucesso de Cadu em não deixar de amar Hilde vai se revelando crescente a cada cena. Ao contrário do que acontece nos demais volumes da Coleção Amores Extremos, nesta novela de Maria Adelaide Amaral o amor erótico ou o ato sexual em si não são ponto de chegada, mas sim ponto de partida para que sejam postas em relevo questões mais contundentes dos relacionamentos sociais. Neste sentido, é dado realce na trama ao paulatino amadurecimento emocional do personagem masculino, responsável por diversas quebras de paradigmas existenciais do personagem a ponto de ficar evidente que o cerne da narrativa está na construção de um homem jovem capaz de manter uma relação madura com uma mulher semelhante às que agora existem nas malhas de nossa sociedade. Cadu, de fato, só consegue amar a própria mãe e a avó após ter passado pela sofrida metamorfose que favoreceu seu amor por Hilde: “Foi nessa época que eu comecei a visitar minha avó. Achava que, se a gente ficasse íntimo, eu poderia compreender melhor uma pessoa mais velha”. (AMARAL, 2003, p, 56). Falando sobre a reaproximação com os pais e com a avó, Cadu reconhece que este fato foi motivado pelo amor dele por Hilde: “Uma coisa eu tinha que admitir: Hilde começava a ter sua utilidade”. (AMARAL, 2003, p. 26).
No contexto das relações atuais, a união entre um homem jovem e uma mulher idosa ainda se revela como exceção, e causa reações de preconceito e espanto não percebidas com tanta intensidade quando na relação o homem é
bem mais velho que a mulher, mas em ambos os casos os envolvidos de idade inferior acabam sendo vistos como oportunistas, usurpadores ou levianos. Em sociedades que supervalorizam a juventude, a beleza e a “geração saúde”, estabeler relações afetivas com conotações sexuais na terceira idade chega a ser um ato de resistência, de atuação política contra os arranjos sociais disciplinadores impostos pelos discursos do biopoder, e na trama de Maria Adelaide Amaral esse é, ao nosso ver, o maior indício de que a autora escreve para se inserir nos debates e questionamentos do contexo social do século em curso com uma contundência e uma participação política (via ficção) não percebidas nas demais autoras da Coleção em comento.
Do ponto de vista formal, a tessitura desta novela também se destaca dentro de nosso corpus analítico por ser a mais bem planejada com o intuito de surpreender o leitor. Apenas no final do enredo se confirma a impressão inicial de que a personagem Hilde é uma projeção imagética do personagem Cadu, não tendo, pois, uma existência real dentro da lógica interna na trama. Cadu apresenta seu longo e caótico monólogo a um interlocutor que se manifesta apenas nas últimas cenas do enredo, num recurso estrutural que nos remete a Guimarães Rosa, com a técnica narrativa de Riobaldo Tatarana em Grande Sertão: veredas.
Quem seria o ouvinte privilegiado a quem Cadu narra sua fantasiosa “educação sentimental”? As pistas nos são dadas logo no início da trama, quando Cadu diz que ele mesmo considera totalmente inverossímeis os fatos que narra sobre Hilde e atribui a irrealidade deste acontecimento ao fato de estar narrando sob efeito de uma droga, com potencial estímulo ao delírio e à alucinação: “Talvez fosse o efeito da maconha em meus neurônios, como o Dr. Drauzio havia mostrado naquela reportagem do fantástico”. (AMARAL, 2003, p. 08). “E todo mundo que me enchia o saco porque uma vez ou outra eu fumava um baseado principalmente quando estava tenso, como aliás era o caso ali”. (AMARAL, 2003, p. 08).
No início da trama, ele confessa que se apaixonou por Hilde por ser esquizofrênico, ou seja, ele é portador de uma alteração neuroquímica que também provoca delírios e alucinações. O interlocutor de Cadu, portanto, se justifica como um terapeuta em uma sessão de análise; Cadu delira durante a consulta e “escuta” o terapeuta revelar sua identidade desconhecida: ele (o
terapeuta) é o irmão com quem Hilde mantinha uma relação incestuosa, e que foi morto numa guerra nos Bálcãs. O fato de Cadu ser um personagem construído fora dos padrões estreitos de uma certa normalidade explica então