Tradicionalmente, há um universo multifacetado de gramáticos22, por isso selecionei, atendendo ao critério de ordenação cronológica, as gramáticas de Eduardo Carlos PEREIRA (1926), Francisco da Silveira BUENO (1944), Carlos Henrique da ROCHA LIMA (1976), Domingos Paschoal CEGALLA (1976), Hildebrando Afonso de ANDRÉ (1978), Maria Helena Mira MATEUS et al. (1983), Louzã de OLIVEIRA (1983), Celso Ferreira da CUNHA e Luis Filipe Lindley CINTRA (1985), Napoleão Mendes de ALMEIDA (1989), Celso Pedro LUFT (1991), Enéas Martins de BARROS (1991), Roberto Melo MESQUITA (1995), Beth GRIFFI (1996), Suzana D’ÁVILA (1997), William Roberto CEREJA e Thereza Cochar MAGALHÃES (1998), Maria Helena de Moura NEVES (2000), Marcos BAGNO (2000), Domício PROENÇA FILHO (2003), Evanildo BECHARA (2004) e Leila Lauar SARMENTO (2005).
Pode-se observar, pelas datas de edição/reedição dessas obras, que elas cobrem uma escala cronológica que se estende por todo o século XX e início do século XXI, estando a maioria delas, reafirmo, ainda relativamente prestigiada pela pedagogia da língua nos dias atuais, embora sejam alvo constante de críticas e propostas de reforma.
Nesse sentido, é interessante destacar que a enorme diversidade de livros didáticos na área de língua portuguesa, vendidos ou distribuídos pelos programas educativos institucionais (MEC e Secretarias de Educação de Estados e Municípios), tomam, fundamentalmente, como modelos de análise dos fenômenos lingüísticos as orientações e estratégias metodológicas da gramática (normativa) tradicional. A propósito, em termos doutrinários, a GT continua sob a antiga chancela oficial da Nomenclatura Gramatical Brasileira – NGB (1959), e ainda desfruta da defesa e beneplácito da Academia Brasileira de Letras – ABL, a despeito das inúmeras 22 Doravante, esses gramáticos serão identificados apenas pelo último sobrenome (em caixa alta),
críticas e ataques ferrenhos disparados por estudiosos da linguagem, de ontem e de hoje, aos ditames reguladores desse polêmico instituto lingüístico-jurídico.
Metodologicamente, impôs-se a necessidade de delimitar, para fins de amostragem, um número reduzido porém significativo de gramáticas, cujo reconhecimento de seus autores como representantes consagrados da doutrina gramatical deve-se não somente ao fato de serem tomados como referenciais pedagógicos no ensino da língua materna, que se atesta pela tradição escolar, mas também pela forte presença no mercado editorial de livros didáticos e pela adoção de muitas dessas obras, repito, por organismos institucionais de governo.
Isso posto, abro este debate com Pereira (1926, p. 97), que considera a perífrase e a locução verbal como sendo termos equivalentes: “Tanto os tempos compostos como essas linguagens são expressões peripfrasticas ou circumloquios verbaes” [sic].
Na concepção de Pereira, possivelmente as construções pré-fabricadas ficariam circunscritos ao estudo das locuções verbais, precisamente da estrutura combinatória de verbo auxiliar + verbo principal que forma os tempos compostos. Esse autor denomina tais locuções de “expressões perifrásticas” ou “circunlóquios verbais”. Em que pese a distância temporal, não se vislumbra em sua gramática um exame mais profundo do assunto. O SVI, enquanto pré-fabricado verbal objeto desta investigação, ou seja, a combinação de V + OD, cuja máxima aderência interna dos itens léxicos a transforma em um amálgama morfossintático com carga semântica unificada, sequer é mencionada na gramática de Pereira.
Passo então ao enfoque de Bueno (1944), que além de incidir sobre as construções locucionais (expressão perifrástica ou composta), circunscreve o que chamo de SVI a um único verbo constitutivo:
Fazer (verbo vicário) – A palavra vicário significa: que faz as vezes de outrem – Como em numerosas expressões empregamos o verbo fazer por outros verbos, a fim de não repeti-los, ou porque não tenhamos tais verbos, passou a ser um verbo vicário, isto é, que faz as vezes de outros. Assim dizemos: fazer a barba (barbear), fazer compras (comprar), fazer pena (inspirar pena), fazer um brinde (saudar), fazer discurso (discursar), fazer viagem (viajar), etc. (BUENO, 1944, p. 313).
Bueno, de modo diferente de Pereira, analisa um exemplo de SVI, formado pelo verbo fazer, empregado como verbo vicário: fazer a barba (= barbear), fazer compras (comprar), etc. Esse autor alega que o falante se utiliza desses recursos ou para expressar idéias que não podem ser concebidas por verbos simples, ou para evitar repetições desnecessárias no discurso. Em todo caso, o autor limitou-se a abordar o SVI em relação a uma única ocorrência (fazer), o que restringe o entendimento desse fenômeno.
Em sua Gramática normativa da língua portuguesa, Rocha Lima (1976, p. 218) trata, em termos de pré-fabricados lingüísticos, apenas do objeto direto interno (complemento representado por substantivo do mesmo radical, desde que seja acompanhado de adjunto), ex.: morrer morte gloriosa, dançar danças malditas, sonhar sonhos ruins. O autor reconhece que esse fenômeno ocorre em outras línguas: beatam vitam vivere (lat.), viver uma vida feliz; morir una santa muerte (esp.), morrer morte santa. Alega, também, que os objetos diretos internos podem ser expressos por palavras que pertencem ao mesmo grupo de idéias: dormir um sono tranqüilo, chorar lágrimas de sangue.
Na 14ª edição de sua gramática, em relação às construções pré-fabricadas23, Cegalla (1976, p. 127) faz referência a tipos de conjugação composta, também chamada conjugação perifrástica, que correspondem às locuções verbais, constituídas de verbo auxiliar mais gerúndio ou infinitivo: Tenho de ir hoje. Estava lendo o jornal. Sandra veio correndo. De forma lacônica, o autor conceitua e exemplifica esses fatos lingüísticos sem análise dos aspectos semântico- pragmáticos, e sobretudo sem considerar outros tipos de construções compostas ou perifrásticas, como, por exemplo, os SVIs aqui investigados.
Autor da Gramática ilustrada, André (1978) não reserva espaço algum para o estudo dos construtos idiomáticos, nem dos SVIs em particular. Em verdade, adota procedimentos idênticos aos utilizados por grande parte dos gramáticos, ou seja, descreve exclusivamente, no campo da morfologia, as locuções (adjetivas, verbais, adverbiais, prepositivas). Obviamente, esses são exemplos claros de pré-fabricados lingüísticos, porém, essencialmente, são construções que não incorporam carga
23 A essa altura, é interessante explicitar que todo construto idiomático é um pré-fabricado, mas nem
semântica cultural; enquanto instrumentos gramaticais apenas veiculam valores sintático-semânticos relacionais ou circunstanciais.
Com uma proposta integrada de gramática e literatura, Oliveira (1983) resumidamente descreve as combinações de verbo auxiliar + particípio, gerúndio ou infinitivo, formando o todo uma locução verbal: haveremos de vencer, tínhamos saído, estavam pensando, etc. O mesmo autor também alega que essas combinações recebem o nome de perífrase verbal ou conjugação perifrástica. Esse é, a meu ver, mais um exemplo de como a orientação teórica tradicional costuma ser advogada e preservada no círculo de estudos gramaticais.
Sobre o assunto em foco, numa abordagem mais descritiva, Mateus et al. (1983, p. 227)24 declaram:
Com certos verbos transitivos que exprimem tipos gerais de eventos ou processos, o argumento que deveria ocorrer como OD final pode ser incorporado no verbo, passando este a exprimir um subtipo desse tipo geral de eventos ou processos [grifo dos autores].
O processo de incorporação do OD no verbo tem como entrada, segundo os autores, um verbo de n lugares e, como resultado, um verbo de n-1 lugares:
(7) (a) O presidente fez (um discurso)ODna Assembléia.
(b) O presidente discursou na Assembléia.
Em seguida (p. 230), esses autores assinalam que com os verbos dar ou fazer, seguido de um OD que designa um estado de coisas, OI é freqüentemente [- animado]:
(8) (a) dar (uma pintura)ODa (as estantes)OI às
(b) fazer (uma limpeza)OD a (a casa)OI à
24 Gramática de língua portuguesa, publicada em Portugal, mas difundida no ambiente acadêmico
Observe-se que estas construções admitem um OBL (= constituinte oblíquo: argumento sem função sintática central, opcional, em geral regido de preposição, que pode designar argumentos como, por exemplo, instrumento, locativo, beneficiário, comitativo) em vez de um OI:
(8) (a’) dar (uma pintura)ODn (as estantes)OBL
(b’) fazer (uma limpeza)ODn (a casa)OBL
As mesmas construções admitem incorporação de OD no verbo passando o argumento OI a funcionar como OD.
(8) (a”) pintar (as estantes)OD
(b”) limpar (a casa)OD
Para Mateus et al. (1983), essas construções passam pelo processo de transitividade verbal. Esses autores abordam a combinatória de certos verbos transitivos que exprimem tipos gerais de eventos ou processos, explicando que o argumento que deveria ocorrer como OD final pode ser incorporado no verbo, este esvaziado semanticamente, passando a exprimir um subtipo desse tipo geral de eventos ou processos. Nota-se, pois, que a abordagem desses autores contempla alguns aspectos relevantes para a compreensão da lexicalização de sintagmas verbais constituídos de VT + OD. Nos exemplos (8a) dar (uma pintura)OD às (estantes)OIe (8b) fazer (uma limpeza)OD à (casa)OI, observa-se que o complemento OD se integra ao verbo da cláusula, constituindo um grupo sintático unificado mórfica e semanticamente.
Embora os autores trabalhem – em relação aos pré-fabricados – apenas com esses dois verbos, a análise proposta por eles torna-se mais clara e pertinente que a de alguns de seus pares brasileiros, visto que se pode aplicá-la a outros verbos similares. Os autores também fazem referência à estrutura interna do sintagma verbal: SV = núcleo + complementos; núcleo = verbo(s) auxiliar(es) + verbo principal; complementos = SN, SA, SP, Frase. Com efeito, proporcionam um tratamento descritivo mais adequado do que o apresentado pela maioria das GTs clássicas.
Numa linha teórica mais tradicional, Cunha e Cintra (1985, p. 383) declaram que conjuntos formados de um verbo auxiliar com um verbo principal chamam-se
locuções verbais (ou perífrases). Esses mesmos autores não diferem in concreto da maioria dos gramáticos contemporâneos. Não tratam do SVI em sua gramática. Analisam apenas as locuções verbais formadas por verbo auxiliar + verbo principal (este numa das formas nominais: infinitivo, gerúndio, particípio). Embora as locuções verbais sejam um tipo de pré-fabricado recorrente na linguagem, existem outros tipos mais significativos do ponto de vista comunicativo e cultural (ver Capítulo 1). Além disso, pode-se admitir que a concepção de linguagem desses dois gramáticos se vincula a objetivos estritamente conceituais e normativos.
Seguindo parâmetro teórico análogo ao dos gramáticos retrocitados, Almeida (1989, p. 242) concebe os verbos ter e haver
como verbos abstratos, isto é, como auxiliares, eles se esvaziam de sentido; têm por função, nesse caso, indicar o tempo, o modo, a pessoa e o número do verdadeiro verbo, que aparece na frase na forma do particípio: tinha visto (ou havia visto) – tiveram feito (ou houvessem feito).25
Almeida trata da formação de locuções verbais no contexto dos estudos da conjugação verbal, caracterizando apenas aquelas constituídas por verbos auxiliares (ter e haver) e verbos principais. O autor ainda menciona a existência de verbos servis, ou seja, verbos transitivos, cujo objeto é outro verbo. Ele exemplifica com os casos: devo ir, posso fazer, costumava fazer, queria sair, conseguimos escapar (p. 315). Realmente, conforme já afirmei, esses são exemplos de pré-fabricados lingüísticos (gramaticais), embora o autor não lhes confira um tratamento de natureza semântico-pragmática.
Aqui chamo a atenção para a expressão “verdadeiro verbo” (ALMEIDA, 1989). Existe verbo falso ou fictício? O “verdadeiro verbo”, além de ser núcleo da predicação, não é o que se flexiona nas categorias gramaticais de modo, tempo, pessoa e número? Se o verbo auxiliar dá suporte à predicação e apresenta esses aspectos inerentes aos verbos prototípicos (plenos), não seria ele, funcionando auxiliarmente, um “verdadeiro verbo”? Como o autor não elucida a questão, parece ficar estabelecido um raciocínio obscuro.
25 Segundo Almeida (idem), “o esvaziamento de sentido dos verbos ter e haver é fenômeno operado
em português, porquanto o latim não possuía tempos compostos e, conseqüentemente, esses verbos nessa língua sempre possuíam significação própria, concreta”.
Por sua vez, Luft (1991, p.136) afirma que locução verbal (verbo auxiliar + verbo principal), em outra nomenclatura, equivale a Sintagma Verbal ou Frase Verbal, constituinte que exerce a função de predicado completo. Ainda acrescenta que as locuções verbais têm sido chamadas também de perífrases verbais, conjugações ou locuções perifrásticas. Afora isso, o autor não disponibiliza o menor comentário sobre os pré-fabricados lingüísticos, nem toma conhecimento em particular dos SVIs em sua Moderna gramática brasileira, que, por outro lado, incorpora no campo da sintaxe algumas contribuições formais da lingüística gerativo- transformacional (diagramas-árvores).
Na verdade, assim como a maioria dos gramáticos nacionais, ele trata do assunto apenas quando aborda, prototipicamente, os casos de locuções adjetivas, verbais, prepositivas, conjuntivas, – que se enquadram na tipologia de pré- fabricados gramaticais; e de locuções adverbiais, – já categorizadas aqui como pré- fabricados lexicais (ver Capítulo 1).
A seu tempo, Barros (1991, p.133) trata tão-somente das formas verbais perifrásticas (ou locuções verbais), que, segundo esse autor,
são constituídas de um verbo auxiliar (o qual traduz as categorias de tempo, modo, número e pessoa, mas se esvazia de significado) e de um verbóide (isto é, verbo numa forma nominal – gerúndio, infinitivo ou particípio –, que se esvazia das categorias citadas mas traduz o significado da locução: ando estudando, tenho visto etc.).
Apenas no glossário de sua gramática (p. 331), o autor define o termo lexia: a unidade lingüística correspondente à palavra. A lexia, segundo ele, pode ser simples quando formada por uma única palavra; e composta se formada de frases feitas, siglas, nomes compostos, etc.
De maneira semelhante a outros gramáticos brasileiros, Mesquita (1995, p. 265) compreende por locução verbal ou perífrase verbal a “expressão verbal formada por um verbo auxiliar mais um verbo principal nas formas nominais”. Mesquita também não se distancia metodologicamente de seus pares. Segue a doutrina tradicional de enfocar a locução verbal somente no espaço restrito da conjugação verbal, analisando-a exclusivamente no nível da estrutura, que se forma com a participação de verbo auxiliar + verbo principal. Mesquita ainda comenta
sucintamente o fenômeno do verbo vicário, já visto em Bueno (1944). Ademais, não se dispõe de margem para especulações semânticas, pragmáticas, discursivas ou mesmo sintáticas acerca do fenômeno sob análise (SVI).
Griffi (1996), de modo lacônico, também segue o posicionamento da maioria dos gramáticos: sem aludir à terminologia aqui adotada, descreve apenas os casos prototípicos dos tempos compostos dos verbos. Por seu lado, d’Ávila (1997) fala das formas nominais (infinitivo, gerúndio, particípio) que entram na composição das locuções verbais. Ambas as autoras também aludem aos casos de locuções adjetivas, adverbiais, prepositivas. Nada mais além disso.
Com o subtítulo Texto, reflexão e uso, Cereja e Magalhães (1998) abordam em sua Gramática os construtos formados por Vaux + Vprinc (= locuções verbais), procedimento de praxe adotado no campo da morfologia. Mas, merece destaque pelos autores os temas gíria de grupos sociais e as gírias regionais. Por exemplo, na p. 22, a partir de uma tirinha como texto-suporte, os autores explicitam o significado de levar um coice, equivalendo a “levar uma bronca” ou “receber uma ofensa”; na p. 23, chupar uma manguita tem o sentido de “se dar mal”, “cair”; e tratam das gírias regionais na p. 25: capar o gato, “ir embora” (RN), bater um fio, “telefonar” (SP), entre outras; de gírias de surfistas na p. 64: pagar mico, no sentido de “fazer besteira”, “passar vergonha”. Até então já é um vislumbre daquilo que poderia transformar-se num estudo contínuo, abrangente e produtivo dos construtos idiomáticos (SVIs).
Na Gramática de usos do português, Neves (2000) oferece contribuições interessantes sobre os pré-fabricados lingüísticos, embora não seja exatamente essa a nomenclatura utilizada pela autora. Ela reúne várias passagens sobre o que chama de expressões fixas. Veja as principais:
Sobre o emprego dos demonstrativos que entram na composição de expressões fixas, Neves indica algumas expressões correntes referentes à situação: Nesta / nessa / a esta / a essa altura (dos acontecimentos / do campeonato); neste / nesse ponto; nesta / nessa conjuntura; entrar nessa; esta / essa é boa (p. 507-508).
A preposição a na composição de expressões fixas (p. 624): ter à mão (ter disponível); estar a fim de (estar interessado em); estar a nenhum (= estar absolutamente sem dinheiro).
A preposição com formando expressões fixas (p. 640): ter (a ver) com; (não) ter (algo / nada) com (= ambas significando dizer respeito a).
A preposição contra na composição de expressões fixas (p. 644): ser contra/ ficar contra / ir contra (= opor-se a); falar contra (declarar que está na oposição); dar o contra (opor-se, recusar algo a); ser do contra / andar do contra (= ser / estar contra tudo).
A preposição de formando expressões fixas (p. 669-670): dar de ombros (= não dar atenção, não se tocar); dar de cara / dar de frente / dar de testa com (= encontrar repentinamente); cair de cama (= enfermar); cair de queixo (= ficar perplexo); cair de quatro (= cair com as mãos no chão, render-se a uma sedução); ficar de quatro (= abaixar-se pondo as mãos no chão, ficar embevecido); ter muito de (= ser parecido com).
A preposição em formando expressões fixas (p. 681): dar em nada (= não ter nenhum efeito).
A preposição entre na formação de expressões fixas (p. 690): entre outras coisas (= entre outros dados que poderiam ter sido mencionados); estar / formar entre + SN (= pertencer a um grupo que tem as mesmas idéias ou o mesmo comportamento).
Expressões fixas formadas com a preposição para (p. 701): para o que der e vier / para o que desse e viesse (= para tudo); vir para ficar (= ser definitivo); para dar e vender (= enorme, bastante).
A preposição por formando expressões fixas (p. 710): vez por outra (= às vezes); nem por sonho[s] (= de modo algum); não ter por onde (= não ser justificável).
A preposição sob na composição de expressões fixas (p. 714): viver sob o mesmo teto (= coabitar).
Expressões fixas construídas com a preposição ante (p. 722): pé ante pé (= devagar, com cuidado).
Expressões fixas formadas com a preposição sem (p. 731): sem quê nem para quê / sem quê nem pra quê / sem quê nem porquê (= sem razão nenhuma); sem mais (= sem outras interveniências, sem que haja nada mais a acrescentar); sem mais nem menos / sem mais nada (= sem explicação); sem mais aquela [de] (= desconsiderando, abolindo uma situação); sem essa [de] (= não venha com essa).
Convém destacar, também, que Neves (2000) alude a expressões verbais (deu na vista / deu por certo), e a locuções prepositiva, conjuntiva, adverbial, adjetiva (nos moldes teóricos da GT).
Sem dúvida, a contribuição mais pertinente e relevante sobre construtos idiomáticos do tipo SVI, Neves (2000, p. 53-61) somente proporciona quando descreve as construções com verbo-suporte (VS). A autora então define VS como sendo o verbo de significado bastante esvaziado que forma, com seu complemento (objeto direto), um significado global, geralmente correspondente a um outro verbo da língua de carga semântica similar. Veja alguns exemplos dados pela autora:
(9) Odete deu um grito, alguém acendeu a luz. (= gritou)
(10) E então o falante deu um riso e soltou a injúria suprema. (= riu) (11) Aí então resolvi dar uma investida de leve. (= investir)
(12) Severino faz um aceno para o Cangaceiro. (= acena)
Segundo a autora, algumas das construções com VS não têm um verbo simples em relação de paráfrase com a estrutura verbo + SN complemento:
(13) O próximo que der um pontapé vai ser anão.
Neves ainda cita alguns casos de construções com verbo (semanticamente esvaziado) + objeto que podem manter relações de paráfrase com verbos simples, embora não constituam casos de verbo-suporte visto que são expressões fixas, cristalizadas. Veja exemplos delas:
(15) O homem faz parte da natureza.
(16) O suco de fruta, porém, faz sucesso no exterior.
Aludindo às construções de verbo pleno + objeto direto, Neves assevera que ambos guardam total individualidade semântica, podendo assim o verbo pleno corresponder completamente a uma construção com VS. Eis um caso:
(17) Fiz exame pré-nupcial e descobri que era estéril, não podia ter filhos. (= gerar filhos).
Para Neves (2000, p. 54), as construções com VS compõem-se de: (i) um verbo com determinada natureza semântica básica, que funciona como instrumento morfológico e sintático na construção do predicado; e (ii) um SN que entra na composição com o verbo para configurar o sentido do todo, bem como para determinar os papéis temáticos da predicação.
Com isso, a autora alega que essa caracterização faz surgir um conjunto variado de construções, mais próximas ou mais distantes das construções reconhecidas como prototípicas. Assim afirma:
A indicação básica é, prototipicamente, que os verbos-suporte têm como complemento um sintagma nominal não-referencial, de modo que o complemento típico de verbos-suporte traz um
substantivo sem determinante (NEVES, 2000, p. 55). [grifos da
autora]
Para ilustrar essa assertiva, Neves cita algumas ocorrências: (18) A Alquimia deu origem à arte real.
Entretanto, nesse ponto de sua abordagem, é possível identificar um leve contra-senso na categorização das construções com VS. Basta comparar os casos de (9) a (14) com (18) e (19) para constatar que todos são considerados pela autora exemplos de construções com VS, indiferentemente se o SN complemento apresenta ou não elementos determinantes. Para atenuar esse descompasso metodológico, seria suficiente descrever inicialmente os casos centrais, mais prototípicos, então depois citaria os exemplos mais periféricos, isto é, menos prototípicos. Interessante notar que, proporcionalmente e em primeiro plano, Neves propicia mais exemplificações com casos periféricos que com casos centrais, mais prototípicos (cf. nota 71, p. 143) .
Outro ponto controverso passível de ser mencionado, a meu ver, é a série de terminologias utilizada pela autora para se referir às construções cristalizadas (nesta pesquisa, pré-fabricados lingüísticos, mais especificamente sintagmas verbais idiomatizados). Acompanhe a seqüência: construções com verbo-suporte (p. 54),