5.3 Etoile 83 ´
5.3.1 Comparaison sur plusieurs maillages
Pertencentes ao universo dos pré-fabricados lingüísticos, as formas cristalizadas nas quais o complemento verbal apresenta máxima aderência ao verbo comportam-se funcionalmente como autênticos amálgamas sintáticos, que venho denominando neste trabalho de sintagmas verbais idiomatizado (SVIs). Eles podem atingir um grau de aderência sintático-semântica tão forte, que se assemelham a vocábulos, caracterizados pela estabilidade funcional e identidade semântica indissociável.
A observação sistemática dos dados indica que os SVIs apresentam diferentes graus de integração entre o verbo e seu objeto, sendo possível, então, alinhá-los num continuum, a partir de critérios sintáticos e semânticos que refletem essa aderência. Por outro lado, merecem investigação as pressões pragmáticas, cognitivas e discursivas que, por hipótese, atuem no processo de emergência e estabilização das estruturas VT + OD idiomatizadas.
Nesse debate28, breve mais pontual, com pesquisadores dos problemas lingüísticos, pretendo reunir informações sobre o status funcional dos pré-fabricados verbais, especialmente dos SVIs.
Isso posto, inicio o colóquio com Saussure (1995, p. 144), que admitia haver um grande número de expressões pertencentes à língua: as “frases feitas”, nas quais o uso vetaria qualquer modificação, mesmo quando fosse possível distinguir, pela expressão, as partes significativas. O insigne lingüista cita exemplos em francês. Veja alguns: prendre la mouche (estar de lua), forcer la main (forçar a mão), rompre une lance (quebrar lanças em defesa de algo), pas n’est besoin de (dar de mão a). Para Saussure, o caráter usual dessas construções depende das particularidades de sua significação ou de sua sintaxe, pois são considerados torneios que não podem ser improvisados. São fornecidos pela tradição.
Sobre esse assunto, numa visão cognitivista, Langacker (1972, p. 90) assim se posiciona: “uma expressão idiomática [unidade lexical complexa] é uma locução cujo significado não pode ser predito a partir dos significados individuais dos morfemas que a compõem”. É interessante observar, segundo esse autor, que as expressões idiomáticas não são apenas semanticamente diferentes da seqüência correspondente de morfemas em sentido literal. Langacker, assim como Carone (1995), reconhece que a peculiaridade semântica das expressões geralmente é acompanhada de características sintáticas especiais. Em Penelope kicked the bucket, tem-se a variante passiva The bucket was kicked by Penelope. Todavia,
28 Não sigo aqui uma ordem rigorosamente preestabelecida na apresentação dos trabalhos. Também
não organizo os fragmentos sob uma filiação teórica explícita, nem mesmo com base numa caracterização epistemológica. Apenas tentei seguir, precariamente, uma ordenação temporal das obras. Sob a perspectiva temática, observa-se pontos convergentes e divergentes entre os autores. Contudo, priorizei as informações mais pertinentes e acessíveis, seja por meios físicos ou virtuais, sobre construtos idiomáticos. Obviamente, ficaram de fora dessa varredura vários outros autores que provavelmente também estudem o fenômeno dos construtos idiomáticos, mais conhecidos entre eles como expressões idiomáticas.
quando Kicked the bucket significa “morreu”, a correspondente passiva torna-se gramaticalmente inaceitável.
É sabido que as línguas estão cheias de expressões idiomáticas, cuja formação parece assentar-se mais em bases idiossincrásicas do que em esquemas regulares. Na concepção de Langacker (1972, p. 90-91):
As expressões idiomáticas em muitos casos são semelhantes a metáforas padronizadas como Stir up trouble [causar confusão] ou
The heart of the matter [o coração da matéria]. Na realidade, a
origem metafórica de muitas expressões idiomáticas é bastante evidente, e não há motivos para se tentar traçar uma linha divisória. Mas nem todas as expressões começam como metáforas. Se Kick
the bucket [bater as botas = morrer] teve uma origem metafórica, a
natureza dessa metáfora já não é evidente para os falantes do inglês. Outras expressões resultam não de metáforas, mas de elipses. O espanhol No hay de que, “não há de que”, corresponde ao inglês You’re welcome ou Don’t mention it. A expressão é enigmática enquanto não percebemos que a expressão total significa “Não há nada de que agradecer-me” ou algo semelhante. O francês Il n’y a pas de quoi é exatamente paralelo. O mesmo acontece com o português.
Dessa forma, expressões idiomáticas e metáforas padronizadas – para não mencionar outras construções lexicais complexas – são elaboradas claramente, segundo Langacker, pelo uso da língua.
Por sua vez, Pottier (1974) afirma ser a lexia (aqui SVI) uma “unidade de comportamento”, ou seja, trata-se de um SV que se fossiliza mediante um lento processo de cristalização, resultado de um hábito associativo. Embora seja importante o trabalho de Pottier sobre as lexias simples e complexas, o tipo de abordagem adotado por ele – essencialmente estruturalista – não proporciona maiores contribuições à natureza conceptual desta pesquisa.
Em estudo realizado na mesma década, Weinreich (1977, p. 240) afirma que “não podemos ignorar a obrigação de discutir a estrutura gramatical de expressões idiomáticas”. Essas deveriam ser incorporadas ao dicionário, identificadas como palavras únicas da categoria lexical principal apropriada, por exemplo: by heart, “de memória”, como um advérbio, shoot the breeze, “bater papo”, como um verbo. Outra alternativa seria fazer no dicionário uma listagem das expressões idiomáticas como “correspondentes a símbolos não-terminais da base”: by heart como um circunstancial, shoot the breeze como um verbal.
Citando Katz e Postal (1963), Weinreich até reconhece que algumas expressões idiomáticas não são bem formadas. Ilustra isso com o caso de um verbo normalmente intransitivo poder ser seguido de um sintagma nominal objeto: come a cropper, “estar gripado”.
Chamando a atenção para a constituição desses construtos idiomáticos, Elson e Pickett (1978, p. 39-40) advertem: “uma seqüência de morfemas em uma língua estrangeira não deveria ser considerada como expressão idiomática simplesmente porque a tradução nos soa estranha”.
Nesse contexto, para estes autores, as expressões idiomáticas são definidas dentro da própria língua e podem ou não coincidir com uma expressão idiomática, em outra língua. Assim sendo, o estudante não deveria considerar como fidedignas certas transferências semânticas, atentando para o fato de não traduzir literalmente algumas expressões idiomáticas nativas para uma segunda língua.
Por outro lado, autora de um estudo sobre as lexias verbais do português contemporâneo, Soares (1990) constata que se trata de um assunto sério mas sem exclusividade no campo das discussões gramaticais. “Há referências esporádicas em gramáticas e outros tratados, porém pouco profundas e não uniformes” (p. 244). Soares aborda as lexias verbais a partir de três enfoques: morfossintático, semântico, semântico-discursivo. Com isso, ela define a lexia verbal (LV) como um conjunto de palavras formado, basicamente, por um verbo + nome, que possui um significado unitário e que tem, quase sempre, um correspondente lexical constituído de apenas um verbo. Este verbo, geralmente, possui o mesmo lexema do N da LV.
Sobre a estrutura funcional da LV, Soares explica que o N pode ser preenchido por um substantivo, um adjetivo ou um advérbio, e pode também exercer variadas funções sintáticas, com mais restrição para a função de sujeito.
A autora classifica os tipos de LVs com base no Verbo Correspondente (VC): a) As que têm VC cognato do N da LV: ficar triste (= entristecer)
b) As que têm VC não cognato do N da LV: dar no pé (= fugir) c) As que não têm VC: andar de carro = Ø
A partir daí, ela admite que o N é base semântica da LV, embora o V, empregado em sentido literal ou figurado, contribua semanticamente para o seu significado global ou unitário. Concordo com a autora, quando adverte, porém, que o significado da LV pode, às vezes, apresentar-se opaco, desbotado em relação ao significado individual de cada constituinte da LV.
No seu Ensaio de semântica, Bréal (1992, p.119-120) postula:
Como peças de uma engrenagem que estamos tão habituados a ver se adaptar uma à outra que não imaginamos apresentá-las separadas, a linguagem apresenta palavras que o uso reuniu há tanto tempo que não existem mais para nossa inteligência em estado isolado. É o que se denomina grupos articulados [grifos meus]. Sua
importância em sintaxe é muito grande. Bastará citar como exemplo as locuções como pourve que [desde que], attendu que [visto que],
en raison de [em razão de], en égard à [em consideração a] etc. Não
há língua que não tenha um certo número deles. Foi o pensamento dos ancestrais que os ajustaram assim, e que os legaram às épocas posteriores como um apoio ou como uma alavanca. O que os formulários são para o direito ou para a administração, esses grupos articulados são para o raciocínio de todos os dias. [...] Não somente esses grupos articulados guardam inteira a significação dos elementos dos quais eles são compostos, mas se beneficiam, além disso, de um valor que não lhes pertence propriamente, mas que resulta da posição que ocupam habitualmente na frase.
A respeito da “força transitiva”, Bréal afirma não ter dúvida de que os verbos intransitivos seriam os mais antigos, a ponto de ter havido um período em que só existia esse tipo de verbos. Acredita que as palavras foram criadas para ter uma plena significação em si mesmas, e não para servir a uma sintaxe ainda não existente. Entende que alguns verbos intransitivos eram comumente associados a palavras que determinavam seu alcance, que dirigiam sua ação sobre um certo objeto. “O espírito habituou-se a um acompanhamento desse gênero, de tal maneira que se passou a esperar o que lhe fazia o efeito de um acréscimo obrigatório, de uma direção necessária” (BRÉAL, 1992, p.133).
Para Bréal, por uma “transposição ideal”, nossa inteligência acreditou sentir nas palavras o que é resultado de nosso próprio costume. Assim havia verbos que passaram a exigir depois deles um complemento. Deu-se então a criação do verbo transitivo. Surgiram daí duas conseqüências: (i) o sentido do verbo fora modificado; (ii) o valor significativo das desinências casuais ficara enfraquecido.
A força transitiva29, ainda segundo Bréal (1992, p.136), “não se limita a estabelecer um laço entre o verbo e seu complemento: ela transforma o sentido do verbo”.
A seu tempo, Givón (1993) observa que, em alguns verbos, o objeto-paciente prototípico é estendido para um produto abstrato, atividade ou evento mental. Por inferência, tal objeto é metaforicamente dotado com as propriedades de um paciente fisicamente criado. Objetos desse tipo geral são chamados objetos cognatos. A maioria desses objetos constitui verbos nominalizados. Givón cita, como exemplos:
(20) She sang a song. (She sang; her singing = a song)30
(21) He danced an original dance. (He danced; his dancing = a dance)31
Na medida em que a própria atividade é interpretada como objeto do verbo, esta de algum modo tende a ser dotada das propriedades do objeto, e é vista como produto do evento. Nesse processo, conseqüentemente, “song” e “dance” podem ser registrados em papel ou vídeo, e passam a ser considerados como pacientes criados.
O que há em comum entre as cláusulas transitivas com objetos cognatos e as cláusulas com as combinações VT + OD cristalizadas, lembra Givón, é que em ambos os casos o próprio verbo parece ser semanticamente vazio. Um pequeno grupo de verbos – dar, tomar, fazer, ter – são recorrentes nessas construções. É o próprio objeto que carrega o núcleo da informação semântica verbal. Isso está de acordo com o fato de que o objeto, em tais cláusulas, tende a ser um verbo nominalizado.
Sobre a natureza dos verbos com objetos cognatos, Givón (1984) já havia observado que eventos, denotando certas atividades e que são codificados essencialmente por verbos (semanticamente) sem objeto, podem ser interpretados
29 Aqui acrescento um detalhe imperativo: neste trabalho não faço aplicação direta do processo de
transitividade, embora reconheça a sua relevância para a análise sintática e semântico-pragmática dos verbos.
30Ela cantou uma canção. (Ela cantou; sua canção; uma canção). 31Ele dançou uma dança original. (Ele dançou; sua dança; uma dança).
como tomando um objeto que é de fato uma forma nominal do verbo, ou de um verbo semanticamente relacionado, como nos exemplos dados acima.
A cláusula toda, então, assume a aparência de uma cláusula transitiva, isto é, se conforma ao padrão sintático de agente-sujeito e paciente-objeto. Mais comumente, um verbo semanticamente mais vazio (desbotado) é usado com tais objetos cognatos, como em:
(22) He gave an interesting talk. (He talked)32 (23) She took a deep breath. (She breathed)33
(24) We had a meeting. (We met)34
As expressões sintaticamente transitivas à esquerda claramente têm perspectivas diferentes das suas respectivas paráfrases intransitivas à direita, embora elas sejam semanticamente (ou histórica e semanticamente) relacionadas de modo claro. Presumivelmente, um sentido de “paciente-afetado” é de algum modo transferido aqui para o “produto” objetivizado do ato, o qual é então sintaticamente codificado por analogia com os objetos reais criados, como nos exemplos citados por Givón:
(25) He built a house. [Ele construiu uma casa] (26) He painted a picture. [Ele pintou um quadro] (27) She made a dress. [Ela fez um vestido]
Analisando a natureza de verbos de conteúdo baixo (low-content verbs), Chafe (1994) verificou que em muitas combinações de verbo-objeto há razões para pensar que o verbo não transmite uma carga total de custo de ativação, no sentido de demanda de esforço para o processamento da informação. Em lugar de expressar uma idéia própria independente, o verbo é subserviente à idéia expressa pelo objeto. Com isso, surgem dois subtipos, o primeiro dos quais é menos problemático do que o segundo. Baseado nas características prosódicas desses verbos, Chafe refere-se a verbos de baixo conteúdo não-acentuados e acentuados. Interessa-nos, aqui, apenas o primeiro subtipo, que está sob o foco desta pesquisa. 32Ele deu uma palestra interessante. (Ele falou/palestrou)
33Ela tomou uma respiração profunda. (Ela respirou) 34Nós tivemos uma reunião. (Nós nos reunimos)
O subtipo não-acentuado envolve um pequeno inventário de verbos que ocorrem muito freqüentemente, entre eles ter, dar, fazer, tomar, usar e dizer. Eles são classificáveis de acordo com o significado que tomam do contexto. Um verbo de baixo conteúdo pode expressar (os exemplos foram traduzidos/adaptados para o português):
a) A posse do referente expresso pelo nome objeto. Os casos mais freqüentes são com o verbo ter : ter seguro; ter uma dor de cabeça.
b) A conversão do referente em evento: ter uma aula, fazer exercícios, tomar um lanche.
c) Uma propriedade característica do objeto: usar tamanho 42, comprar um 38, pegar o [ônibus] 66.
d) Um arranjo de itens em uma configuração complexa: botar você e ele juntos, botar os alunos em fila.
e) A atribuição de uma citação direta ou indireta à sua fonte: ela disse muito obrigada.
Sobre este assunto, Chafe declara que há também muitas combinações de verbo-objeto que podem ser interpretadas como sintagmas lexicalizados – colocações convencionais que já estão estabelecidas no repertório do falante. Elas constituem uma escala, que se estende daquelas que são mais convencionais para aquelas que chegam quase a ser combinações livres, mas sua propriedade crucial é que nenhuma delas é reunida pelo falante pela primeira vez no enunciado corrente. O extremo da convencionalidade é representado significativamente pelas expressões idiomáticas, sintagmas que ganharam, semântica e sintaticamente, vida própria, como dar dois dedos de prosa, dar carta branca, dar um tempo, dar com os burros n´água.
Muito mais comum que essas expressões são combinações de palavras que se tornaram convencionalizadas pelo uso freqüente, mas cujos significados são predizíveis dos significados das suas partes. Ex.: lavar pratos. Lavar pratos é uma experiência familiar, unitária, que é convencionalmente expressa com essas palavras. Freqüentemente tais colocações adquirem usos especializados, como em curtir o show.
Convém frisar, com base nesse mesmo autor, que dificilmente alguém pode se comportar lingüisticamente como um falante nativo de uma língua, sem antes aprender o grande estoque de sintagmas idiomatizados que os falantes nativos produzem e reconhecem. Esses sintagmas expressam idéias que são ativadas como blocos integrados – casos cristalizados de construção verbo-objeto que não mostram verbos e objetos ativados independentemente.
Em princípio, como saber se uma combinação particular é idiomatizada ou não? Segundo Chafe, a pergunta não tem uma resposta única ou fácil, embora talvez a resposta definitiva esteja na hipótese de que os falantes nativos de uma língua simplesmente sabem o que é lexicalizado.
Adotando uma postura preventiva, Jakobson (1995, p. 65) adverte:
A tradução intralingual de uma palavra utiliza outra palavra, mais ou menos sinônima, ou recorre a um circunlóquio. Entretanto, via de regra, quem diz sinonímia não diz equivalência completa [...]. Uma palavra ou um grupo idiomático de palavras, em suma, uma unidade de código do mais alto nível, só pode ser plenamente interpretada por meio de uma combinação equivalente de código, isto é, por meio de uma mensagem referente a essa unidade de código. [grifo meu]
Dessa forma, no uso das significações – gramaticais ou lexicais – se deveria redobrar os cuidados para não se compreender inadequadamente as noções de “regularidade” e “desvio”. As criações metafóricas não seriam casos de desvio. Seriam processos regulares de determinadas variedades estilísticas que funcionariam como subcódigos de um código total (JAKOBSON, 1995).
Carone (1995, p. 76), a seu modo, afirma que “a coesão entre verbo e objeto direto pode chegar a um grau máximo de aderência, que o conjunto (SV) torna-se cristalizado, dando origem a uma lexia”. A autora ilustra esse fenômeno com as lexias (chamo-as de SVIs) – pular corda, levar um tombo, fazer parte – nas seguintes frases:
(28) As crianças pulam corda. (29) João levou um tombo. (30) Eu faço parte da equipe.
Segundo a autora, essas frases não podem sequer sofrer transformação passiva, pois o objeto direto, que entra no processo da transformação, não pode desvincular-se do verbo. Para ela, são inaceitáveis as construções “corda foi pulada pelas crianças”, “um tombo foi levado por João”, “parte da equipe é feita por mim”. Carone identifica diferença entre pular corda e pular a corda, esta última podendo aceitar a conversão para a passiva: “a corda foi pulada”, embora o sentido seja totalmente diverso da outra construção.
Com base nas frases acima transcritas, Carone identifica que, dos dois argumentos (actantes: S e O) que compõem o evento comunicativo, o objeto direto é o mais fortemente articulado à base verbal, constituindo o que se chama predicado.
Para ilustrar o desinteresse ou inadequação de abordagem dos construtos idiomáticos (SVIs) por parte de gramáticos e até mesmo de lingüistas, registro aqui o entendimento do ilustre lingüista brasileiro Camara Jr. (1996, p. 142). Trata-se de uma posição idêntica a de Bechara (2004), porém soa mais estranhamente devido a seu profundo conhecimento dos estudos da linguagem, tanto nos aspectos diacrônicos quanto sincrônicos. No seu conhecido Dicionário de lingüística e gramática35, Camara Jr. define o termo idiotismo, no sentido lato, como sendo os traços lingüísticos de uma língua, que melhor a caracterizam em face das outras que lhe são cognatas. Em sentido estrito, seriam as “construções vocabulares e frasais que não se prestam a uma análise satisfatória na base dos valores atuais da língua”, porque foram resultados de fenômenos de analogia e atração, e só se explicariam, segundo Camara Jr., à luz da história da língua. Acrescenta ainda que “são especialmente dignos de nota os idiotismos locucionais, cuja significação não decorre das dos vocábulos componentes e da sua articulação sintática: dar as da Villa-Diogo, chorar pitangas” (idem).
Nesse cenário, Perini (1996) admite que o léxico precisa incluir certas expressões idiomáticas fixas, tais como: bater as botas, a olhos vistos, etc. Compreende também que essas não são propriamente palavras. As expressões idiomáticas, segundo ele, não podem tampouco ser consideradas frases ou 35 Cito J. Mattoso Camara Jr. não como representante da tradição gramatical clássica, embora ele
fosse um profundo conhecedor dela. Tomo seu depoimento de lingüista em relação aos construtos idiomáticos, contudo, como parece, seu Dicionário não apresenta noções mais profundas e consistentes sobre esse fenômeno.
sintagmas regulares36. Primeiro, na fala, jamais podem ser interrompidas por hesitações, sem destruir o efeito de sentido peculiar e seu status funcional. Assim ilustra: Cidinha bateu – ééé... – as botas. Nesse caso, bateu as botas não significa “morreu” (talvez apenas a ação de tirar a poeira delas). Segundo, essas expressões se compõem de elementos fixos. Não podemos sequer mudar certas flexões. Na frase Cidinha bateu a bota, novamente quer dizer que ela somente limpara o calçado. Na visão dele, tais “expressões não são estruturas montadas pela sintaxe e interpretadas pela semântica, mas verdadeiros itens compostos, listados separadamente no léxico” (PERINI, 1996, p. 347). Isso constitui, a meu ver, mais uma razão para se meditar sobre o teor estigmatizante de seus argumentos, sobre os quais faço comentário no rodapé da página anterior. Além do mais, pergunto: pode se conceber um ato discursivo sem sintaxe? Pois bem, se os construtos idiomáticos não são construídos no discurso – no efetivo exercício da linguagem – e nem passam por uma formatação morfossintática, então como realmente eles são codificados? De onde eles vêm e como eles vão parar no léxico?
Sobre os construtos do tipo SVI, aqui focalizados, Marques (apud AZEREDO, 2000b, p. 221) considera que “numerosos verbos, em si esvaziados de significado preciso, têm como complemento substantivos ou adjetivos, em combinatórias [verbo + SN ou SA predicativo] que se repetem”. São exemplos dessas construções a