Nossos loci de pesquisa foram os cursos de Licenciatura Plena em Química, Biologia e Física da Universidade Federal da Bahia, que encontram-se fisicamente separados em Institutos específicos de cada área, porém muito próximos dentro de um mesmo campus. Como dispositivos de pesquisa utilizamos questionários, observações de aulas e entrevistas. Os questionários, com questões objetivas e subjetivas, foram respondidos por professores que lecionam disciplinas obrigatórias nos cursos de licenciatura em Biologia, Física e Química. Estes docentes são os sujeitos da pesquisa. Esses questionários foram respondidos por adesão voluntária, ou seja, por aquelas e aqueles que aceitaram participar da pesquisa. As observações aconteceram durante as aulas de professores(as) de disciplinas obrigatórias para essas licenciaturas. Três docentes de cada licenciatura aceitaram participar da pesquisa a partir de um convite feito por escrito. As entrevistas foram realizadas com os(as) mesmos(as) nove professores(as) que tiveram suas aulas observadas, e mais um professor do curso de Química, por ter participado ativamente das mudanças curriculares desta licenciatura.
54 Em todos os casos e dispositivos de pesquisa citados acima, estão sempre preservadas as identidades desses atores sociais por questão ética.
A escolha por uma abordagem qualitativa, acrescida de “dados” quantitativos, teve por objetivo a compreensão de um fenômeno complexo, multifacetado, que se dá nas relações professor-aluno, e assim sendo, decidimos por uma abordagem mais ampla e com olhar nas subjetividades, que possibilita acessar o fenômeno por diversas perspectivas.
Com os questionários (ver ANEXO I) conseguimos uma parte da visão qualitativa e os “dados” quantitativos do fenômeno a ser compreendido. Construímos uma perspectiva geral dos docentes dos três cursos de licenciatura, como proporção de faixa etária, de mestres, doutores e pós-doutores, de sexo, metodologias de mediação mais utilizadas, etc. Estes “dados” foram relacionados aos “dados” qualitativos em nossas análises. Com questões do tipo Likert (PAGAN, 2009), investigamos posicionamentos de concordância e discordância diante de vinte afirmativas. E, com questões discursivas, pudemos fazer uma análise qualitativa sobre compreensão dos conceitos de ludicidade, de saberes sensíveis, didáticos e pedagógicos, além das habilidades docentes que buscam desenvolver em seus alunos, como os estudantes aprendem melhor. Os “dados” quantitativos da pesquisa estão restritos aos questionários, sendo muito mais restritos que os qualitativos. O questionário foi submetido a uma validação por uma professora colaboradora, fora dos participantes da pesquisa, que trabalha com uma disciplina oferecida para o curso de Biologia. Ela respondeu o questionário, o qual foi analisado posteriormente para verificação de seu potencial para responder nossas questões de pesquisa.
O nosso segundo dispositivo de pesquisa foram as observações das práticas pedagógicas de alguns(as) desses(as) professores(as). Considerando que para a etnopesquisa o contato direto, a experiência são as melhores formas de verificação de determinado fenômeno antropossocial (MACEDO, 2010), consideramos necessárias as observações de mediações didáticas desses docentes. Não basta ouvir os sujeitos, é de extrema importância assisti-los em suas práticas pedagógicas.
Faz-se essencial ressaltar que a observação como dispositivo de pesquisa não se constitui de acompanhar o processo ao tempo em que ocorre sem envolver uma ação do(a) pesquisador(a). Nem mesmo se reduz a meros registros mecânicos, mesmo o ato de fazer anotações estando inevitavelmente presente, o(a) pesquisador(a), em ato de
55 observar, se insere num “processo de interação e de atribuição de sentidos” (MACEDO, 2010, p. 91). Sua presença já significa uma interferência, mas esta se justifica pelo ganho em percepção de detalhes do fenômeno observado. Alguns aspectos precisam ser cuidados no processo de observação e de compreensão das anotações realizadas durante esta.
Primeiro, o tempo necessário para uma aproximação adequada do campo, do contexto e dos atores socais. Segundo Macedo (2010), é o objetivo da pesquisa que deve servir de parâmetro para que a(o) pesquisadora(o) defina o período de observação e o grau de envolvimento necessário. Definimos de três a quatro aulas completas como suficiente para este fim. Todas as aulas foram acompanhadas do começo ao fim, independente do seu tempo de duração, para uma visão do processo envolvendo início, desenvolvimento e conclusão. Foram observadas aulas teóricas e práticas, dois formatos comuns nos três cursos.
O lugar em que as relações se estabelecem, o espaço físico faz parte do contexto, tendo participação do que se constrói no espaço-tempo. Outro aspecto é o contexto social, sabendo que os atores sociais não se fazem sozinhos, não atuam sozinhos, ainda mais em se tratando de uma instituição formal de educação, a qual se realiza nas relações sociais. É preciso estar atento para as organizações sociais, as estratégias construídas e utilizadas e os possíveis conflitos existentes.
A familiarização com a linguagem do meio social facilita a compreensão e a interpretação mais apuradas do meio. Ressaltando que a linguagem aqui é entendida em toda a sua amplitude, como citado anteriormente, não se tratando apenas da comunicação oral, mas de todo o gestual que carrega em si significados importantes. Ser ou tornar-se íntimo, claro, guardadas as devidas proporções, dos sujeitos da pesquisa, do meio, do espaço, da organização social só facilita o processo de compreensão. Diante da receptividade dos docentes essa aproximação não foi um problema. Todos(as) os sujeitos desta pesquisa se mostraram solícitos e atenciosos do começo ao fim.
O último aspecto diz respeito ao consenso social, uma espécie de modelo, que se pode extrair a partir dos sentidos que se observa como permeando e perpassando práticas culturais do meio social. Todo grupo, mesmo que heterogêneo, compartilha compreensões, comportamentos, ideias, objetivos, e por isso apresentam confluência em algumas atitudes. Esse processo interpretativo permite alcançar a natureza da estrutura social que ali se estabelece.
56 As entrevistas (ANEXO II) tiveram o objetivo de aprofundar questões contempladas nos questionários e aspectos que foram observados durante as aulas, além de acrescentar detalhes sobre a formação e as práticas pedagógicas desses(as) professores(as). A entrevista também foi submetida à validação com a colaboração da mesma professora que respondeu o questionário para testar o dispositivo. Compreendemos que a “entre-vista” (MACEDO, 2010, p. 102), é um poderoso dispositivo para captar representações e sentidos do entrevistado, o que assume um caráter de realidade, do ponto de vista de quem descreve. Percebe-se que a linguagem é um fator de mediação muito forte e nela não está apenas a expressão oral, mas todo o gestual, expressões faciais, qualquer atitude que expresse um significado. A entrevista deve estar acompanhada de uma observação participante, neste sentido, gerando além da fala, seu material primordial, elementos mais sutis, de relações, cumplicidades, denúncias, omissões, etc (MINAYO, 2011). Sobre a linguagem, Macedo (2010, ps. 103 e 104) coloca da seguinte forma:
“A linguagem revela, veicula e cria representações nas quais formas e significações estão inseridas no contexto social de sua produção e de seu uso. A linguagem nasce socialmente com aquilo que ela exprime. Ela não é nem falsa nem verdadeira, portanto. É seu uso social que lhe dará status de verdade ou
mentira. (grifos do autor)[...]. Em educação, certas práticas não
são discursos, mas os discursos sustentam, orientam e justificam a prática. Faz-se necessário frisar, também que a prática frequentemente resulta de uma produção de discurso.”
As entrevistas nos permitiram acessar “dados” primários, que são aqueles construídos no diálogo, que não poderiam ser acessados por outros dispositivos metodológicos, sendo estes os objetos principais da pesquisa qualitativa (MINAYO, 2011).
Com a perspectiva da triangulação dos “dados” (MACEDO, 2010), confrontaremos informações advindas dos três dispositivos propostos para uma melhor observação e compreensão das confluências e contradições dessas realidades. Essa dinâmica de relacionar, confrontar dados nos possibilita um maior alcance e
57 profundidade. Apresentamos os resultados desses esforços de pesquisa, observações e entrevistas individualmente, e apenas os questionários já em conjunto, de acordo com o curso. Propomos compreensões de cada licenciatura separadamente, a partir dos três dispositivos de cada uma apresentados, para uma reflexão da formação de professores de Biologia, Física e Química. E outra geral, pensando a formação dos professores das Ciências Naturais como um todo, relacionando as análises dos três cursos.
Para tanto, utilizamos a técnica de análise temática. Compreendendo que “ao analisarmos e interpretarmos informações geradas por uma pesquisa qualitativa, devemos caminhar tanto na direção do que é homogêneo quanto no que se diferencia dentro de um mesmo meio social” (MINAYO, 2011, p. 80). Assim, buscamos similaridades e também as diferenças entre o observado em campo.
Trabalhamos com três categorias de análise: mediação, saberes pedagógicos e saberes lúdico-sensíveis. Estas que foram os focos da pesquisa nos três dispositivos utilizados. Inicialmente foi feita a leitura densa de todo o material, destacando-se nesse processo os pontos de confluência, divergência e relativos às categorias.
Organizamos primeiramente a descrição e análise inicial dos “dados”, apresentando de acordo com cada curso na sequência: questionários, observações e entrevistas, de Biologia, Física e Química. Posteriormente, realizamos as interpretações de todo o material advindo do curso de Biologia, seguido pelas interpretações do curso de Física e depois de Química. Finalizamos com uma interpretação geral, unindo o que foi observado nos “dados” dos três cursos, relacionando-os e destacando suas particularidades.