As ocorrências anómalas, na sua generalidade, podem apresentar muitos aspetos conjugados com fatores adversos, que podem dar-se simultaneamente no tempo ou surgir na sequência da acumulação de efeitos, provocando ou acentuando o processo de degradação. (Aguiar et al 2006) Visto isto, é fácil entender a dificuldade de elaborar uma metodologia, procedimento ou até mesmo uma conduta corrente com o intuito de determinar e compreender as origens/causas de uma dada anomalia, tendo a noção que cada ocorrência anómala é um caso particular, devendo a mesma ser analisada como tal. (Amaral, 2013)
4.3.1. CAUSAS HUMANAS
No que se refere à classificação das causas ou origens das anomalias da construção de edifícios, estas podem ser divididas em causas com origens humanas e causas com origens não humanas. Segundo os autores, Aguiar, J., Cabrita, A. e Appleton, J., o fator humano pode ser um dos principais causadores do aparecimento e desenvolvimento das anomalias da construção. (Aguiar et al 2006) As ocorrências anómalas derivadas de erros humanos são caracterizadas pela sua enorme diversidade, estando presentes em todas as fases do processo de construção de um determinado empreendimento, como é possível observar na figura 32.
4.3.1.1. Erros na Fase Conceção e de Projeto
Durante a fase de conceção e de projeto são vários os erros possíveis de ocorrer. Estes podem ter origem durante o estudo preliminar, na execução do anteprojeto ou durante a elaboração do projeto de execução. Alberto Pinto (2003) considera que as falhas de conceção e do projeto devem-se essencialmente à falta de conhecimento dos projetistas, à repetição dos mesmos erros e à falta de comunicação e informação disponível, contribuindo assim para casos anómalos que têm como consequência uma acelerada degradação com altos custos de manutenção ou retificação. (Pinto, 2003) A economia e rapidez pretendida na elaboração de projetos, a falta de pormenorização nos projetos, a inadequação ao ambiente, o surgimento constante de novos materiais, as soluções arquitetónicas arrojadas de projetos, a errada avaliação da resistência dos solos de fundações, a incorreta utilização de programas de cálculo automático e a despreocupação pelas possíveis deformações das soluções construtivas, são exemplos de outros erros de conceção e projeto, descritos por vários autores que levam à ocorrência de situações anómalas. (Gonçalves et al., 2008)
4.3.1.2. Erros na Fase de Execução
A sequência lógica do processo de construção indica que a fase de execução só deve ser começada após a conclusão da fase de conceção e de projeto, com os respetivos estudos e projetos que lhe são inerentes. Os erros que podem ocorrer durante a fase de execução são vastos e de natureza diversa, podendo ir desde uma deficiente compreensão do projeto, no que respeita aos pormenores construtivos e às caraterísticas e exigências dos materiais utilizados, até às deficiências no planeamento, utilização de tecnologia inadequada, mão-de-obra não qualificada, falta de condições no local de trabalho, falta de motivação por parte dos trabalhadores, inexistência de controlo de qualidade de execução ou mesmo irresponsabilidade técnica. Nas estruturas, vários problemas patológicos podem surgir consequência de uma fiscalização ausente ou de uma fraca liderança no comando das equipas de trabalho, que normalmente estão relacionadas com a baixa capacitação profissional do engenheiro ou do encarregado de obra. (Gonçalves et al., 2008) Na figura 32, é possível observar algumas das causas das anomalias presentes no processo de execução dos empreendimentos.
4.3.1.3. Erros na Fase de Utilização/Manutenção
Finalizadas as fases de conceção/projeto e de execução, e mesmo quando tais etapas tenham sido de qualidade adequada, as construções podem vir a apresentar problemas anómalos originados pela utilização errónea, ou pela falta de um programa de manutenção adequado. As ações de conservação e manutenção correspondem a uma serie de medidas, preventivas ou outras, aplicadas à construção com o intuito de permitir que esta desempenhe as suas funções, para o qual foi concebida, de forma satisfatória durante o seu período de vida (Apicer, 2000). A implementação de planos de manutenção permite detetar e corrigir antecipadamente os casos anómalos, impedindo o seu agravamento e evolução com repercussões ao nível das condições de habitabilidade e ainda evitar o seu aparecimento (Gonçalves et al., 2008). As medidas de manutenção permitem também uma poupança financeira em relação aos custos de reparação que existiriam se tais medidas não fossem implementadas, visto que a falta de manutenção leva, em certos casos, à degradação não só do elemento construtivo principal, mas também de toda a estrutura envolvente, aumentando os custos de uma possível reparação ou reconstrução. A alteração das condições inicialmente previstas implica uma modificação na envolvente, no elemento, no seu uso ou nas exigências dos utilizadores em relação ao que foi pensado, previsto e concebido
durante as fases de conceção/projeto e execução. Constituem exemplos de erros na fase de utilização/manutenção, os apresentados na figura 32.
4.3.1.4. Desastres devidos a causas humanas imprevisíveis
Os desastres devidos a causas humanas imprevisíveis encontram-se associados à responsabilidade humana, como por exemplo explosões, colisões, inundações, incêndios, etc. A implementação de medidas cautelares nos edifícios pode diminuir os riscos de acontecimentos anómalos resultantes associados com esta causa.
Fig. 32 – Quantificação das causas de anomalias em edifícios de origem humana (Aguiar et al 2006)
Caus
as
H
uman
as
Fase de
Conceção e de
Projeto
-Ausência do projeto e má qualidade de conceção; - Inadequação ao ambiente;
- Inadequação a condicionamentos técnico-económicos; - Informação insuficiente;
- Escolha ou quantificação inadequada de ações;
- Modelos de análise ou de dimensionamento incorretos; - Pormenorização deficiente ou insuficiente;
- Erros numéricos ou enganos de representação; - Seleção e especificação incorretas de materiais e técnicas construtivas.
- Adjudicação baseada exclusivamente no preço mais baixo;
- Demora a tomar decisões, nomeadamente pelo Dono de obra/cliente;
Fase de Execução
- Não conformidade entre o que foi projetado e o efetivamente executado;
- Falta de preparação e de qualificação da mão-de-obra utilizada;
- Manuseamento e processos de aplicação inadequados de materiais;
- Má interpretação do projeto;
- Alterações inadequadas das soluções de projeto, incluindo no que se refere aos materiais propostos.
Fase de
Utilização/
Manutenção
- Alteração das condições de utilização previstas, implicando, nomeadamente, o agravamento das ações consideradas no projeto;
- Alteração das condições de utilização previstas; - Remodelação e alterações mal estudadas;
- Degradação dos materiais, deterioração anormal por incúria na utilização;
- Ausência, insuficiência ou inadequação da manutenção; - Alterações das condições do contexto envolvente do edifício, não previstas no projeto.
4.3.2. CAUSAS NÃO HUMANAS
Além das causas de origens humanas, as anomalias podem ocorrer devido a causas não humanas, que poder-se-á classificar-se em ações naturais e em desastres naturais. (Amaral, 2013) É no exterior que as ações ambientais se fazem sentir, afetando os materiais que com elas se encontram em contacto. O nível de gravidade e de dano provocado pelas ações ambientais depende do grau de intensidade com que estas ações atuam sobre as construções. Visto isto, as condições ambientais têm um papel fundamental na escolha dos materiais a utilizar, nos métodos e técnicas construtivas e nas condições de aplicação. Se as condições ambientais não forem consideradas durante todas as fases do empreendimento, são vários os processos patológicos e o aparecimento de problemas anómalos que poderão surgir nas construções. Em relação às ações naturais, o grau de incidência destas, depende das condições a que os edificados se encontram sujeitos e como tal, as ações naturais podem ser divididas em físicas, químicas e biológicas, como se pode observar na figura 33.
Fig. 33 – Classificação das ações naturais, que poderão suscitar ocorrências anómalas (Aguiar et al 2006)
Os desastres naturais, como o próprio nome indica, são ações que têm origem em causas naturais como sismos, ciclones, trovoadas, avalanches, erupções vulcânicas, tsunamis, etc. Estas em comparação com ações naturais, vistas anteriormente, têm um maior grau de intensidade. Estes tipos de acontecimentos são caraterizados pela sua rara ocorrência, porém quando se manifestam, as consequências e os efeitos são quase sempre graves. (Amaral, 2013)
Açõ
es
N
atur
ai
s
Físicas
- Acção da gravidade;- Variações da temperatura e de humidade relativa; - Temperaturas extremas;
- Vento (Pressão, abrasão, vibração);
- Presença de água (Chuva, neve, humidade do solo); - Radiação solar;
- Efeitos diferidos (Retracção, fluência, relaxação); - Alteração das condições do solo.
Quimicas
- Oxidação; - Presença de água; - Chuva ácida;
- Reacções electroquímicas;
- Radiação solar (acção dos raios ultra - violetas).