Questionnaire – VERSION DÉFINITIVE
B. Saine alimentation et activité physique
Duas semanas após o primeiro congresso, radiante com o sucesso, Freyre escreveu a Melville Herskovits, ressaltando que fora um evento monu- mental, realizado em grande parte por ele mesmo. Conforme ele descre- veu, o congresso tinha sido “organizado por um grupo de estudantes de questões raciais e culturais no Brasil, e a sugestão foi minha”.88 Na verdade, o próprio Herskovits apresentara um trabalho no congresso de Recife, o que sugere que ele já estivesse ciente do papel desempenhado por Freyre no evento, porém a carta revela seu desejo de reforçar o papel de autor in- telectual do congresso.
O tema do controle, e a questão de o congresso de Recife ter represen- tado uma “nova” iniciativa, podem ser vistos de maneira particularmente clara em duas seções dos anais do congresso: o prefácio, escrito por Arthur Ramos em dezembro de 1936 a pedido de Gilberto Freyre, e um ensaio no 87 Isso para não dizer que Freyre era completamente desinteressado da política; após seu envolvi-
mento na política oligárquica de Pernambuco, seus mais notórios posicionamentos incluíram o apoio ao golpe militar de 1964 e seu apoio aos regimes coloniais portugueses na África. 88 Em inglês no original: “organized by a group of students of race and culture problems in Brazil,
and the suggestion was mine”. Freyre para Herskovits, 28 de novembro de 1934; Herskovits para Freyre, 17 de janeiro de 1935, MJHP, série 35/36.
mesmo volume, que aparece com uma data um pouco anterior, uma ava- liação do próprio Freyre. O resultado deve ter sido irritante para Freyre, pois Arthur Ramos aproveitou a oportunidade para afirmar Nina Rodri- gues como figura fundadora da área, e ainda argumentou pelo predomínio e relevância de uma “escola” baiana de análise.89 Os dois ensaios juntos dão uma ideia da guerra regional e intelectual deflagrada pelo congresso, en- quanto Freyre fazia de tudo para afirmar que Recife era o centro dos estu- dos da área, e Ramos contestava alegando que a Bahia era, e sempre seria, o lócus dos estudos afro-brasileiros.
O ensaio de Freyre, “O que foi o primeiro Congresso Afro-Brasileiro de Recife”, ressaltava que o evento havia conseguido forjar um novo solo acadêmico. O próprio formato do congresso havia rompido com mode- los anteriores de conferências – sua falta de pompa e pretensão marcou-o como um novo tipo de empreendimento acadêmico. Envolvendo acadêmi- cos e doutores, personalidades locais, analfabetos e até cozinheiros negros, o congresso “atraiu ao mesmo tempo, a boa vontade da gente mais simples [e] o interesse da mais douta”.90 Freyre enfatizou que a conferência desper- tou a atenção de alguns dos maiores nomes da área, de Franz Boas aos mais proeminentes intelectuais brasileiros.
Para Freyre, contudo, a mais importante contribuição do congresso não era o fato de ele estabelecer um tom menos pretensioso para congressos no geral, mas o de que ele abriu um novo caminho para futuros estudos. Segundo Freyre, no final do congresso, “sentiu-se que definhara um mo- vimento da maior importância para a vida e para a cultura do Brasil”.91 Ele especificou assim a natureza desse novo movimento:
O Congresso do Recife, com toda a sua simplicidade, deu novo feitio e novo sabor aos estudos afro-brasileiros, libertando-os do exclusivismo acadêmico ou cientificista das ‘escolas’ rígidas, por
89 A publicação do segundo volume numa série editada por Ramos pode indicar que ele tenha sido solicitado a escrever o prefácio. Por um lado, é possível que tenha entrado no que teria sido uma situação difícil para Freyre, e que este, por gratidão, pediu-lhe que escrevesse o pre- fácio. Por outro, pode ser que Freyre tenha se sentido obrigado a pedir ao editor da série para prefaciar a sua obra por uma questão formal. Não está claro o motivo de os dois volumes dos anais do congresso não serem publicados pela mesma editora.
90 Freyre, “O que foi o 1. Congresso afro-brasileiro do Recife”, p. 351. 91 Ibid., p. 348.
um lado e por outro, da leviandade e da ligeireza dos que cultivam o assumpto por simples gosto do pitoresco... sem nenhuma disci- plina intelectual ou científica, sem um sentido social mais profun- do dos factos.92
Freyre contrastou os dois extremos da área – uma abordagem acadêmica formal e um interesse amador pelo exótico – e defendeu que sua própria abordagem pavimentou um terreno intermediário entre os dois. Sua du- pla técnica de celebrar a novidade do congresso e, ao mesmo tempo, atacar explicitamente as outras abordagens demonstrava que ele via seu papel na produção dos estudos afro-brasileiros como fundamental.
Concluiu seu ensaio referindo-se à inclusão do retrato de Nina Rodri- gues no volume, uma decisão que havia sido votada pelo congresso. Tal resolução representava, segundo descreveu, uma “homenagem ao pro- fessor da Faculdade de Medicina da Bahia que deu tão grande impulso aos estudos afro-brasileiros, impondo-se ao respeito dos africanologistas de toda a parte”.93 O termo escolhido por Gilberto Freyre – “impulso” – su- geria que Nina Rodrigues havia dado o empurrão inicial para os trabalhos nesse campo, mas nenhuma contribuição duradoura. O destaque dado a Nina Rodrigues enquanto pesquisador originário, mais do que uma pre- sença intelectual contínua, foi reforçado pela legenda do seu retrato, que o identificava como “o mestre baiano, precursor dos estudos sobre o pro- blema do Negro no Brasil”.94 Essa formulação não era, de forma alguma, acidental. Freyre queria diminuir o papel da Escola Baiana e deixar claro que Nina Rodrigues e sua visão, apesar de significativos historicamente, não eram mais essenciais. A partir de então, ficou claro que Freyre desejava marcar uma ruptura com a orientação baiana dos estudos afro-brasileiros. Mas seu silêncio foi tão eloquente quanto suas farpas e insinuações. Quan- do escreveu seu epílogo, o segundo Congresso já estava sendo planejado, mas, estranhamente, Freyre não fez nenhuma menção ao fato. Nesse caso, sua natureza competitiva ficou particularmente clara; o timing indica que ele tinha conhecimento do congresso antes da publicação do volume, mas 92 Freyre, “O que foi o 1. Congresso afro-brasileiro do Recife”, p. 351
93 Ibid., p. 352.
optou por não o mencionar, nem o reconhecer como sucessor do seu pró- prio congresso.95 Seus esforços de sabotagem intelectual foram neutrali- zados, no entanto, quando Arthur Ramos destacou o novo congresso no seu próprio prefácio. Ramos oferecia uma interpretação decididamente diferente do estado dos estudos afro-brasileiros – uma visão que realçava o papel primordial da Escola Baiana e, portanto, contrariava, de maneira flagrante, a posição de Gilberto Freyre.