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Séquences de Coupe Minimales d’un système de composants multimodes,

No âmbito da Sagrada Escritura, a exegese é a prática da interpretação bíblica, e a hermenêutica é a teoria da interpretação bíblica. A exegese e a hermenêutica proporcionam- nos a análise dos textos bíblicos em ordem à sua compreensão1.

Em conformidade com as normas da Comissão Pontifícia Bíblica, o modelo teórico- clínico de Françoise Dolto, aplicado à leitura dos evangelhos, não é propriamente uma exegese em sentido rigoroso, mas uma abordagem psicológica e psicanalítica2 onde a autora faz uma aproximação hermenêutica dos relatos bíblicos do Novo Testamento com os conceitos da sua teoria, a imagem inconsciente do corpo.

Como diz Philippi Julien “Les Évangiles et la Foi au Risque de la Psychanalyse” não são propriamente uma exegese, mas uma projecção mística do imaginário da autora que reage aos textos bíblicos como um analisando, sobre o divã, reage à procura da verdade3.

Françoise Dolto, por sua vez, diz: Os textos dos evangelhos, como documentos estabelecidos, tornam-se uma referência importante capaz de despertar o nosso imaginário em função da experiência da vida. Graças ao seu impacto no inconsciente, a nossa imaginação pode projectar-se. E porque não colocar as nossas projecções ao serviço da mensagem bíblica? Os relatos do texto bíblico tornar-se-ão criativos, na medida em que os recebermos, não passivamente, mas no movimento da nossa imaginação4.

Entendemos por exegese doltoniana a arte de aplicar a própria concepção de mundo, as próprias ideias e a própria maneira de sentir (reformuladas na teoria da imagem inconsciente do corpo) à leitura dos evangelhos, conferindo-lhes um sentido dinâmico e mais humano5.

Para Françoise Dolto, comenta Didier-Weill, Jesus não seria tanto o pretexto para uma opção apaixonada e absoluta por Deus, mas o anunciador do desejo inconsciente do

1 Cf. R. Gibellini, Panorama de la Théologie au XXe siècle, pp. 64-65.

2

Comissão Pontifícia Bíblica, pp. 70-72.

3 Ph. Julien, Autour de l’Evangile au Risque de la Psychanalyse, p. 3.

4 Françoise Dolto, Les Évangiles et la Foi au Risque de la Psychanalyse, pp. 49-50.

sujeito1. Ela entusiasma-se ao sentir-se como uma aventureira da mensagem dos evangelhos que lhe proporcionam novas energias, a maior parte das vezes, inconscientes.

Do seu ponto de vista, Jesus não ensina como se deve viver, mas como se deve sentir, a partir da dinâmica inconsciente do desejo: cada qual leva, em si mesmo, a dinâmica desiderante do cego de Jericó, da viúva de Naim e do paralítico de Cafarnaum2.

Françoise Dolto não pretende explicar os evangelhos, que permanecem um mistério oculto à consciência, mas despertar novas atitudes que facilitem o caminho do desejo. Não se torna justo aquele que cumpre a lei, mesmo que seja a lei divina, mas o que vive segundo o Espírito, origem do desejo e fonte de vida em nós. Jesus ensina o desejo e não a moral3. Noutras palavras e segundo Dolto, o importante é o desejo a orientar a vida para o encontro com o Outro, espécie de va-et-vient, suscitado pelo Espírito.

Nos diálogos com Gérard Sévérin, Dolto não só não tenta fazer uma abordagem exaustiva dos evangelhos, mas procura chamar a atenção para as situações de conflito entre o desejo e a lei, entre os detentores da autoridade e os seguidores de Cristo, cuja verdade fala ao coração4.

Dolto não só emprega uma linguagem simbólica, mas recorre à matriz simbólica do inconsciente, como instrumento da interpretação da Bíblia: A extensão moderna das pesquisas psicológicas ao estudo das estruturas dinâmicas do inconsciente, suscitou novas tentativas de interpretação dos textos antigos, inclusive a Bíblia5.

Por sua vez, Françoise Dolto diz: Quando leio os evangelhos encontro-me com Alguém… Através dos relatos e dos géneros literários, descubro uma humanidade, uma encarnação e uma presença tão vivas e profundas que se sente o divino… Através dos detalhes e das incoerências, para além dos aspectos formais, descubro a minha coerência interior que pode parecer extravagante6.

No seu próprio inconsciente, Dolto apreendeu a coerência incoerente dos evangelhos, que lhe possibilitaram o seu encontro com Deus, em Jesus de Nazaré: Estes textos produzem em mim ondas de choque que me impelem, com satisfação, a desejar o Reino de Deus7. E mais adiante, com os mesmos sentimentos e em sintonia com o seu inconsciente, dirá: Os evangelhos vieram confirmar as minhas convicções sobre o inconsciente humano onde o

1

W. Alain Didier , Un Désir d’Infinitude, pp. 557-558.

2 Cf. J. Solotareff, Lecture Symbolique des Évangiles, p. 53.

3 Françoise Dolto, Les Évangiles et la Foi au Risque de la Psychanalyse, p. 189.

4

Françoise Dolto, ibidem, p. 190. Como acontece, particularmente, no evangelho de Lucas.

5 Comissão Pontifícia Bíblica, p. 70.

6 Françoise Dolto, Les Évangiles et la Foi au Risque de la Psychanalyse, p. 223.

desejo, à procura da verdade, encontra as suas origens1. Sempre nas coordenadas do inconsciente e à maneira duma profissão de fé: Os evangelhos como uma torrente fantástica de sublimação das pulsões, como uma espécie de Boa Nova que recebi para testemunhar, ajudaram-me a descobrir a Cristo, Mestre do desejo, que atrai a todos para si2.

É de notar como a expressão torrente fantástica evoca a vitalidade do desejo humano, cuja humanidade emana do inconsciente e, graças ao qual, é possível a sublimação das pulsões através das castrações simboligénias. Uma vez retidas as pulsões arcaicas com os seus impulsos incestuosos, é possível reorientar os processos sublimatórios da vida psíquica para outras dimensões3.

A leitura dos evangelhos não só não contradiz o inconsciente, mas confirma as suas leis: O psicanalista encontrará nos evangelhos uma certa concordância entre aquilo que Jesus disse sobre o Reino de Deus e a dinâmica libidinal do inconsciente humano4. O evangelho, segundo Dolto, confirma o inconsciente como matriz do desejo de ser, para si mesmo e com os outros, em Jesus de Nazaré.

Ao colocar os relatos das curas miraculosas dos evangelhos na clave da teoria da imagem inconsciente do corpo (na clave do inconsciente freudiano reformulado à sua maneira), Dolto recorre aos seus próprios conceitos hermenêuticos (sujeito, desejo, esquema corporal, vivência corporal, simbolização, encarnação simbólica, palavra, relação verbal, imagem do corpo, pulsões de vida e pulsões de morte, narcisismo) para interpretar, simbolicamente, os relatos reais, imaginários e simbólicos dos textos bíblicos de Jesus de Nazaré, antes, no momento e depois dos seus milagres5.

Sobre a linguagem simbólica, como instrumento de interpretação da Bíblia, a Comissão Pontifícia Bíblica diz: A psicologia e a psicanálise contribuíram, particularmente, para uma nova compreensão do símbolo. A linguagem simbólica permite exprimir zonas da experiência religiosa que não são acessíveis ao raciocínio puramente conceitual, mas têm valor para a questão da verdade6.

A réplica de Françoise Dolto: Nós passamos muito tempo à volta das mesmas realidades… … Para além do mundo material, com as suas leis próprias, há outras dimensões, outro mundo invisível, ao qual estamos ligados simbolicamente. Tudo é

1 Françoise Dolto, Les Évangiles et la Foi au Risque de la Psychanalyse, p. 325.

2 Françoise Dolto, ibidem, p. 323.

3

Françoise Dolto, L’Image Inconsciente du Corps, p. 80.

4 Françoise Dolto, Les Évangiles et la Foi au Risque de la Psychanalyse, pp. 17 e 22.

5 Françoise Dolto, ibidem, pp. 392-393.

simbolizável e nada escapa ao poder simbólico do universo1. Do ponto de vista teológico, o desejo do homem, criado à imagem de Deus, é como uma torrente simboligénia e contagiosa em relação com o Outro2.

No Les Évangiles et la Foi au risque de la Psychanalyse as etapas da vida de Jesus são apresentadas como momentos simbólicos de realização do desejo de Jesus, verdadeiro homem, como expressão da sua encarnação, e não como eventos reveladores dum Deus sofredor. À medida que Jesus se desprende dos seus compromissos corporais, para ocupar-se das coisas do seu Pai, vai-se revelando n’Ele o mistério da sua divindade.

Quando aos 12 anos, no templo de Jerusalém, se confronta com Maria e José, é Ele próprio que os liberta (castração simboligénia) da sua possessividade3. As ressurreições operadas por Cristo dão lugar às mais variadas interpretações entre os exegetas cristãos.

No quadro simbólico da matriz psicanalítica, Françoise Dolto aborda a ressurreição do filho da viúva de Naim como a ruptura duma relação incestuosa entre a mãe e o filho4. Ao morrer, este filho tenta reunir-se ao pai, ideal do eu da sua infância, libertando-se do desejo perverso da sua mãe. Jesus veio relançar o desejo de viver onde não havia senão morte. Enquanto à cura da hemorroíssa e à ressurreição da filha de Jairo são relatos contextualizados, pela autora, na mesma matriz simbólica psicanalítica5.

Trata-se de duas mulheres desiderantes em apuros com a feminilidade, uma excluída há 12 anos do uso da sexualidade (a hemorroíssa) e a outra falecida no momento de entrar na puberdade (a filha de Jairo). À hemorroíssa, símbolo da mulher genitalmente imatura, Jesus responde: A tua fé te salvou diante de Deus, mas a confiança em ti mesma, como mulher adulta, só um homem ta pode devolver6.

Françoise Dolto sublinha a necessidade da mulher se tornar feminina, não para si mesma, mas para o Outro. Jesus, Mestre do desejo, é o Outro transferencial no qual o desejo humano de encontrar-se consigo mesmo, para viver em paz com Deus, é possível.

A Jairo, pai da menina de 12 anos, falecida, Jesus responde: Não tenhas medo. Se tiveres confiança na tua capacidade de seres homem e esposo, a tua filha viverá7.

1

Françoise Dolto, Les Évangiles et la Foi au Risque de la Psychanalyse, p. 347.

2 Françoise Dolto, L’Image Inconsciente du Corps, p. 82.

3 Françoise Dolto, Les Évangiles et la Foi au Risque de la Psychanlyse, pp. 27-28.

4

Françoise Dolto, ibidem, pp. 48-53.

5 Françoise Dolto, ibidem, pp. 60-77.

6 Françoise Dolto, ibidem, p. 73.

Com as curas miraculosas e as ressurreições, Jesus veio devolver ao homem a capacidade de desejar. Segundo Françoise Dolto, Jesus era amigo pessoal de Lázaro, figura paradigmática das intervenções de Deus na História da Salvação, através de Jesus de Nazaré1. A libertação de Lázaro do túmulo ecoou de tal maneira no inconsciente de Jesus que, emocionado no seu coração, chorou ao pressentir, simbolicamente, a aproximação do seu próprio destino2. Uma das constantes simbólicas da leitura dos evangelhos de Françoise Dolto é o tema da reconciliação, a reconciliação do sujeito de desejo com a lei: Eu não vim anular a Lei mas dar-lhe pleno sentido. (Mt 5, 17-21).

Na perspectiva doltoniana, não basta cumprir a lei, mas é necessário que a mesma se reformule e aplique em conformidade com a trajectória libidinal do desejo de cada um: Jesus é Mestre do desejo na medida em que suscita o desejo do homem libertando-o das forças que retêm a sua vitalidade3.