Cohérence des systèmes dynamiques réparables - Séquences de Coupe
2.4 Analyse des acceptions courantes de séquences de coupes minimales
A concepção original de infância, em Françoise Dolto, teve repercussões teóricas e clínicas na sua obra, em particular, e na teoria psicanalítica, em geral. A imagem inconsciente do corpo será o instrumento ad hoc para abordar os grandes desafios que o sujeito, desde a concepção in útero, lhe imporá.
A atribuição do estatuto de pessoa ao infans veio contribuir para um alargamento significativo do espaço psíquico do sujeito, em conformidade com as intenções de Freud: Quando Freud descreveu as instâncias do eu, dizia Françoise Dolto, fazia-o em função de tudo o que se passava a partir do complexo de édipo. Antes do édipo ele não podia compreender o que se passava… O meu contributo iria no sentido de investigar tudo o que se passa antes do sujeito humano poder falar em seu nome próprio4.
Numa fase da vida em que o ser humano ainda não pode falar, já é, contudo, um sujeito de palavra. A originalidade doltoniana está no seu interesse pelos começos absolutos da vida da criança, ao nível da arqueologia do sujeito: um novo espaço humano inexplorado
1 Na vertente da sua própria infância mencionam-se Enfances (1986) e Autoportrait (1989). Na vertente da
infância do outro mencionam-se, sobretudo, La Cause des Enfants (1985) e La Difficulté de Vivre (1986). 2
Françoise Dolto, Les Images, les Mots, le Corps, pp. 21-23.
3 Cf. J. Aubry, Quelques pas sur le Chemin de Françoise Dolto, p. 11.
4 Extracto de uma comunicação inédita de F. Dolto em Março de 1986, segundo os arquivos da Associação
que exigirá do psicanalista novos instrumentos conceptuais, adoptados por Françoise Dolto na sua teoria da imagem inconsciente do corpo. Noutras palavras, a imagem inconsciente do corpo operará, no âmbito psicanalítico, como um modelo conceptual susceptível de explicar e de interpretar o território onde o ser humano ainda não é capaz de se expressar verbalmente com os outros.
A representação da criança em Françoise Dolto arranca, pois, do dinamismo do desejo dos seus progenitores. Visa revelar os fundamentos últimos do sujeito humano, onde o qui parle qui encontra a matriz da sua origem. Ao estender os seus tentáculos heurísticos até aos primórdios da existência humana, a teoria da imagem inconsciente do corpo segundo Dolto, proporciona-nos uma nova e alargada compreensão psicanalítica da infância, desde as bases vivenciais da sua corporeidade.
O âmbito da primeira infância, assim delimitado por Dolto, torna-se um domínio de actividade psíquica onde as categorias clássicas da psicanálise não seriam suficientes do ponto de vista compreensivo.
A imagem inconsciente do corpo, segundo Françoise Dolto, via privilegiada de acesso à vida psíquica do infans, ajuda a perspectivar, dinamicamente, a criança antes do uso da palavra e a nível das suas protoinstâncias psíquicas: numa altura da vida em que a criança ainda não pode exprimir os seus desejos, senão parcialmente, através de projecções representadas à sua maneira1. A imagem inconsciente do corpo é um recurso epistémico para se compreender o estado de espírito de alguém que ainda não é capaz de dizer eu (je) e de assumir, coerentemente, o seu pensamento.
A imagem inconsciente do corpo, segundo Françoise Dolto, desperta a atenção dos psicanalistas para as origens precocíssimas da actividade psíquica do ser humano, nas origens da linguagem verbal e da psicose. Enquanto que Freud se posicionou, clinicamente, na clave pontual do complexo de édipo com o seu largo espectro de mecanismos psíquicos, Françoise Dolto conferiu ao édipo uma entidade espácio-temporal tão ampla, no ser e no operar, que os seus limites psíquicos se estendem desde as estruturas mais arcaicas pré-edipianas até às estruturas genitais pós-edipianas: uma concepção de édipo, cuja mobilidade e plasticidade psicológicas, conferem à criança a sua verdadeira dimensão humana, na ordem simbólica da lei, ainda antes de ter recebido o nome do pai2.
O novo paradigma, introduzido na psicanálise pela teoria da imagem inconsciente do corpo segundo F. Dolto, implicará uma versão original do inconsciente freudiano na matriz da
1 Françoise Dolto, L’Image Inconsciente du Corps, p. 31.
corporeidade, o que significa a recuperação do conceito de corpo para a psicanálise, como pressuposto sine quo non da subjectividade.
A questão que a imagem inconsciente do corpo, em Françoise Dolto, coloca à psicanálise é a de se saber o que é um corpo falante, não em sentido verbal, mas como realidade significante. Isto é, um corpo que, para além da sua estrutura biológica, é constituído por significantes e por significados capazes de nos darem uma determinada representação do mundo. Trata-se de um corpo que uma vez percebido, para além das suas linhas e das suas formas concretas, se transforma numa nova realidade.
Segundo o modelo psicanalítico, o corpo falante suscita sentimentos hors mots, cuja representação interior se apresenta sob a forma duma imagem, específica de cada um1.
A função da imagem inconsciente do corpo não é apenas assegurar a continuidade do sujeito no espaço e no tempo, mas torná-lo uma presença viva no meio da totalidade dos objectos do mundo. Enquanto que o mundo proporciona ao corpo o suporte e a consistência da sua imagem, o sujeito projecta ou recoloca no mundo a animação das suas vivências corporais partilhadas com os outros. Como refere Marie-Claude: O corpo não é senão matéria, enquanto não for reanimado pela imagem inconsciente do corpo. O corpo vive sem existir, pois a sua animação depende do lento processo da sua encarnação. É necessário descer no próprio corpo até senti-lo nas suas expressões mais profundas2.
Psicanaliticamente falando, a imagem inconsciente do corpo, segundo Dolto, é a encarnação simbólica do sujeito3. Neste sentido, o processo psicanalítico analista- analisando, de inconsciente para inconsciente, é mais do que uma permuta interior entre sujeitos de desejo, porque implica, no seu movimento transferencial e contratransferencial, a substancialidade dos corpos animados4. Sem perder as suas referências clássicas à psicanálise, Françoise Dolto transitou do complexo de castração freudiano para a castração simboligénia, cuja função é humanizar os sujeitos humanos na clave simbólica da intersubjectividade e através das sucessivas imagens inconscientes do corpo.
1 Cf. W. Barral, L’Image Inconsciente du Corps de l’Analysant et du Psychanalyste dans la Cure, pp. 395-409 e
W. Barral, L’Architecture Conceptuelle du Système de Pensée de F. Dolto, p. 151. 2
M. Claude, La Croissance Humaine est une Lente Incarnation : L’Image Inconsciente du Corps Peut-elle en Rendre Compte ?, pp. 351-355.
3 Françoise Dolto, L’Image Inconsciente du Corps, p. 22.