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A. Lecture active : le lecteur lucide

2. Rupture avec la tradition comme condition au renouvellement

“A cultura passa a ser considerada como o território existencial do homem, abarcando todas as dimensões de sua existência, e não apenas o universo das obras de arte e afins” (Souza, 2013, p. 10).

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A cultura é a essência da sociedade, aquilo que a caracteriza. Para Fernandes (1988) esta “aparece, antes, como a condição da própria existência humana, no que ela tem de mais característico, pois é pela cultura que aquela existência adquire a sua verdadeira significação e o sentido do seu próprio destino” (Fernandes, 1988, p. 125). Para a sociologia e a antropologia a cultura determina os padrões de conduta da sociedade. No entanto, o conceito em si pode ser desdobrado em duas determinações, como dito acima, na sua vertente antropológica e numa vertente “ilustrada”, cultura “clássica”. Nesta vertente, cultura é tudo o que esteja ligado às artes, “ligado ao erudito e às artes superiores” (D. Silva, 2009, p. 92).

Ao mesmo tempo que os tempos foram evoluindo, a cultura foi sendo cada vez mais associada ao povo em si, logo surgiram conceitos como “cultura popular”. Aqui o conceito deixou de pertencer exclusivamente às elites. Hoje, numa sociedade capitalista, a cultura é de todos e para todos, tomou uma proporção mais industrial sendo vista da mesma forma que um negócio. Nasceram as indústrias culturais que se regem pelo mercado económico. As opiniões divergem entre se a cultura deveria ser de livre acesso a todos ou não, isto porque ainda há problemas na sua sustentabilidade.

O jornalismo cultural teve que acompanhar esta transição e adaptar-se de forma a transparecer para o público aquilo que ele quer ler. O jornalista tem um papel determinante na cultura e na sua transmissão. Para Mark Poster (1995) “os media sustentam, na sua essência, uma transformação profunda da identidade cultural, ao reconfigurarem os tradicionais mecanismos de expressão (palavras, sons e imagens)” (Poster apud D. Silva, 2009, p. 92). Cabe ao jornalista, mais do que informar, interpretar a mensagem, desconstrui-la e valoriza-la, de forma a enriquecer o público com os eventos culturais existentes. Martinéz (2010) afirma que:

“El periodista cultural se encuentra ante um contexto complejo y en constante cambio y su principal misión es la de reconocerlo, explicarlo, relaionarlo e informar sobre él a su audiência. Su labor no consiste em hacer una mera descripción del contexto cultura sino una interpretación y valoración rigorosas que garanticen la transmissión eficaz de los diversos códigos que conforman la información cultural” (Martinéz apud Moreira, 2012, p. 15).

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O modo de comunicar cultura foi sendo modificado ao longo dos anos acompanhando as modificações da própria cultura. Hoje, o jornalista cultural tem o desafio de tentar compreender a mensagem sem que ela se perca na “cultura de massas”. Há a necessidade de projectar tanto a “cultura popular”, do momento vivido, como a “cultura clássica”, a obra em si. O jornalista tem que cativar o seu público e ser conhecedor da matéria para garantir uma maior qualidade na notícia.

A concepção do jornalismo cultural é muito heterogénea, em Portugal as várias publicações optam por estilos diferentes, uns projectam uma cultura mais “clássica” e outros uma cultura mais “popular” que abrange os produtos das indústrias culturais. Jorge Rivera (2003) define o jornalismo cultural como sendo:

“(…) uma zona muito complexa e heterogénea de meios, géneros e produtos que abordam com objectivos criativos, reprodutivos e informativos os terrenos das belas-artes, as “belas-letras”, as correntes de pensamento, as ciências sociais e humanas, a chamada cultura popular e muitos outros aspectos que têm a ver com a produção, circulação e consumo de bens simbólicos, sem importar a sua origem e o seu destino” (Rivera apud D. Silva, 2009, p. 93,94).

Em Portugal foi com a Gazeta Literária e Notícias Exactas do Principais Escritos

Modernos que surgiram as primeiras referências ao jornalismo cultural. Foi depois do

25 de Abril que houve o maior boom de publicações desta génese. Foi também nesta altura que começaram a surgir as indústrias culturais. Uma impulsionou a outra. Actualmente a cultura não tem grande destaque na imprensa portuguesa, pelo menos não tanto como tem noutros países.

D. Silva (2009) afirma que:

“(…) não se pode dizer que o jornalismo cultural ocupe um papel importante na imprensa portuguesa, comparativamente com outros países, em particular o Brasil, a Espanha e o Reino Unido. Em Portugal, os principais diários têm suplementos de natureza cultural com periodicidade semanal, embora muitos tenham sofrido transformações consequentes […]” (D. Silva, 2009, p. 95).

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A publicação que dá mais destaque à cultura “superior”, sendo esta a literatura e a educação, é sem dúvida, o Jornal de Letras, Artes e Ideias. Mesmo tendo uma tiragem reduzida, está nas bancas há 27 anos e tem um público conquistado.

Como referido acima, o conceito de cultura sofreu muitas mutações e alterações ao longo dos anos, mas hoje a cultura que mais nos confronta diariamente é uma cultura virada para o lifestyle. Somos bombardeados com notícias sobre gastronomia, viagens, moda, design, tecnologia, etc. A música e o cinema são, de facto, as que mais destaque têm nos meios culturais portugueses. Isto porque consigo acartam um grande poder económico que provém de grandes estratégias de marketing e comunicação muito bem delineadas e, que de alguma forma, fazem o produto parecer mais valioso. Como nos diz Souza (2013) “é nessa reavaliação da noção de cultura que a questão da comunicação ganha importância de uma maneira como nunca antes teve” (Souza, 2013, p. 10).

Apesar desta “nova cultura” ser importante, é preciso ter em mente, que não é o suficiente. A cultura dita “superior”, “clássica”, deve também ocupar um lugar de destaque. No geral, em tempos de crise a cultura perde importância, outros assuntos ganham visibilidade e a cultura passa para segundo plano. Segundo Moreira (2012) “[…] em épocas de crise, a cultura começa logo a ser vista como um “adereço” e, por isso, seja uma das áreas onde mais de fazem cortes nas despesas […]” (Moreira, 2012, p. 17).

Outro ponto do jornalismo cultural são os desafios constantes com que os jornalistas se deparam. O culto às celebridades e o poder da internet conseguem perturbar a missão do jornalista em transmitir uma mensagem com conteúdo para o público. Hoje qualquer pessoa, através de blogs e páginas na internet, pode ser veículo de informação e a e escolha das temáticas tratadas parece, por vezes, não ser a melhor em prol da cultura. Para Silva (2009):

“O culto às celebridades começou lentamente a substituir o debate de ideias, as críticas nas páginas culturais e a exploração de novas tendências artísticas, dominando as capas e os destaques” e a internet fez com que os jornalistas tenham

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que “conviver com os criadores de conteúdos online, cidadãos não-jornalistas” (D. Silva, 2009, p. 96).

Esta nova lógica que se impôs ao jornalismo cultural, de que há muita informação a ser fornecida ao mesmo tempo, por diversos agentes, fez com que o interesse, os valores simbólicos do jornalismo, fossem sendo perdidos. Hoje o jornalista tem que ser rápido na produção de informação, tem que ter conhecimento de um pouco de tudo e ainda tem que conseguir procurar exclusivos. Como muitas vezes isso não acontece, limita-se a publicar aquilo que lhe chega via e-mail, não explorando muito o assunto. Como nos diz Almeida (2007):

“(…) a utopia/distopia contemporânea da internet como um tipo de curto-circuito cultural também deve ser ponderada: se de um lado temos a multiplicidade de informações e de acessos a novos sites e domínios, por outro lado é importante lembrar que uma das características dessa cibercultura – a velocidade, o constante fazer e desfazer -, choca-se com um dos aspectos da Cultura, que é o da sua permanência/duração” (Almeida, 2007, p. s.p.).

Esta é uma realidade que assombra as redacções. A cultura é submetida a uma lógica de puro acto de informação/ divulgação. Para Lopes (2004) “hoje o jornalismo tornou-se uma indústria, na qual a irrupção das novas tecnologias alterou radicalmente as formas tradicionais de trabalhar” (Lopes, 2004, p. 14). A entrada de outras formas de comunicação também contribuiu para a alteração do processo jornalístico. Estes novos meios (publicidade, marketing e relações públicas, etc.):

“(…) terão instaurado as redacções em lugares de tensão ou mesmo de perda de autonomia perante os objectivos comerciais e ajudaram a abrir espaço para que a lógica dos actos comunicativos se subsuma à tendência narrativa, performativa, imagética, instantânea e ubíqua” (Garcia apud Lopes, 2004, p. 13).

Piza (2003) afirma ainda que:

“Lemos muitos sobre discos, filmes, livros e outros produtos no momento da sua chegada ao mercado – e, cada vez mais, mesmo antes de sua chegada, havendo casos em que a obra é anunciada (e, pois, qualificada) com diversos meses de antecedência. No entanto, raramente lemos sobre esses produtos depois que eles

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tiveram uma “carreira”, pequena que seja, e assim deixamos de reflectir sobre o que significaram para o público de fato” (Piza apud D. Silva, 2009, p. 99).

A cultura hoje está desenhada para ir de encontro às vontades, necessidades do público. É um serviço que providencia dicas, roteiros turísticos e gastronómicos, playlists, cartazes de cinema, etc. A cultura crítica, reflexiva e apoiada em bases como a literatura, por exemplo, é deixada para um meio mais especializado, como o académico. Silva (2009) reforça que “este modelo é fruto das indústrias culturais, no qual é substituindo o conteúdo de opinião por conteúdos “de serviço” e “orientação ao consumo” (D. Silva, 2009, p. 100) sendo que “o desenvolvimento deste formato é proporcional ao desaparecimento da crítica estruturada, que está a ficar cada vez mais exclusiva das revistas académicas e especializadas” (Ibidem.).

As práticas jornalísticas foram alteradas havendo agora a necessidade de pesar vários factores para além do valor-notícia. A partir do momento em que a cultura se tornou uma indústria há a necessidade de a tratar como tal.