4. Multiple-Instruction, Multiple-Data (MIMD): There are multiple processing elements each of which has a separate instruction and data access to a (shared
2.6 Routing and Switching
2.6.2 Routing in the Omega Network
Manuel Heleno, como de resto a maior parte dos autores do seu tempo, a começar por François Bordes, que referimos anteriormente, considerava que Paleolítico Inferior e Médio deveriam ser apreendidos conjuntamente, dando lugar ao conceito de Paleo-
lítico Antigo. Esta divisão do Paleolítico (Antigo e Recente) tem sido frequentemente defendida até ao presente (cf., por exemplo, Gamble, 1986 e 1999), pelo relevo dado à fundamental diferenciação entre a história humana arcaica (todos os humanos pré- -sapiens) e a humanidade moderna (Homo sapiens). Acrescem os aspetos relacionados com a própria apreensão de ambos os períodos a que Heleno, enquanto historiador, seria especialmente sensível: o Paleolítico Antigo, mesmo na sua fase terminal, é ampla- mente dominado pelos paradigmas das ciências naturais e do tempo geológico, um tempo espartilhado entre os breves momentos (as cenas de reconstituição de ocorrências avulsas) e os milhões ou milénios; o Paleolítico Recente, pelo contrário, permite mais frequentemente a construção de narrativas históricas, com o melhor preenchimento do contínuo temporal que vai dos milénios aos séculos e destes aos presentes etnográficos. Deve contudo sublinhar-se que esta diferente perceção do tempo institui uma distinção que é apenas de caráter metodológico, quer dizer decorrente das limitações do presente, e não intrínseca ou inerente à própria condição humana em ambos os períodos. Heleno é quanto a isto muito claro, citando e corroborando Johannes Maringer (1958), quando afirma que «o homem produziu história desde o seu aparecimento, porque desde então contribuiu para o estabelecimento das bases da nossa civilização» e que a conceção em sentido contrário «apenas encobria a incapacidade dos sábios de então de detectar a his- tória além das fontes escritas» (Pré-História 1959/1960, Ficha 2).
Justifica-se, pois, que nestes apontamentos abordemos separadamente ambos os períodos e os tratemos pela forma binária indicada.
Quanto ao Paleolítico Antigo, pode dizer-se que foi o período em que Manuel Heleno encontrou maiores dificuldades. E de tal modo é assim que, em 1956, na sua síntese de um quarto de século de investigações, afirma desalentado:
«Devemos no entanto confessar que neste campo o nosso esforço nos não satis- fez: Muito embora tivéssemos explorado uma gruta em Rio Maior, com um espólio dos princípios da pedra lascada e tivéssemos procedido a sondagens em Mira d’Aire noutra caverna com ossadas dum veado maior do que o da Furninha, a verdade é que não encontrámos destes remotos tempos uma estação cuja estratigrafia pudesse ser a chave duma cronologia. E dada a instabilidade da nossa costa, a falta de segu- rança dos caracteres altimétricos das praias quaternárias, a falta de depósitos mari- nhos com fauna distinta da fauna actual, os perigos do critério das patinas usado por Breuil, o encontro duma estação nas condições citadas era basilar para a estruturação do paleolítico antigo de Portugal. Outros serão mais felizes do que eu.» (Heleno, 1956b, p. 227.)
Claro que o desalento indicado tem de ter em conta a exigência da base de partida, que era imensa e radicava no seu rigoroso método, que começa pela tomada de conheci- mento e análise crítica do saber do momento, neste caso as sequências-tipo do Paleolítico Antigo europeu («O Paleolítico Inferior na França», a «Distribuição do Paleolítico Infe- rior na Europa» e «nos outros continentes»; «O Estado social no Paleolítico Inferior»…). Neste âmbito percorre sucessivamente técnicas e métodos de talhe (estalamento, percus- são, martelamento, pressão, «débitage» remontante, com bigorna, ângulos de lascamento, blocos, retoque, percutor de madeira, planos de percussão…), tipos técnicos (lascas,
núcleos, alguns «com facetas preparadas, de que se vê parte nas lascas, mas as faces late- rais do núcleo são preparadas de maneira a dar lascas com uma forma pré-estabelecida», outros «discóides de grande talhe, outros rectangulares, oblongos…») e tipos funcionais ou morfológicos tradicionais (bifaces, «racloirs»/raspadores, pontas, algumas «encurvadas do tipo Abri-Audi», «hachoirs», discos…). Enumera depois os principais tecnocomplexos, conjugando os ensinamentos de Breuil e de Bordes (Abevilense, Clactonense, Acheulense, Tayacense, Micoquense, Levalloisense, Mustierense, Languedocense…), chegando nal- guns casos (Clactonense ou Acheulense, segundo os modelos de Breuil; ou Mustierense, seguindo a sistemática de Bordes), à apresentação de estádios evolutivos internos.
Toda esta massa informativa é usada, como dissemos, na perspetiva da avaliação do «estado da arte», mas não como sistemática obrigatória. Heleno é particularmente contundente na crítica aos modelos unilineares, dizendo ser «inaceitável o simplismo da escola evolucionista que admite que todos os povos passam pelas mesmas fases e explica não por contactos mas por convergências as analogias culturais.» Estas «não se podem negar», mas «o progresso contínuo e em linha é uma ilusão. Inaceitáveis também as atitudes externas da escola histórico-cultural ou da filosofia spengleriana (estabelece um certo número de culturas-tipo). A forma intermediária é que se aproxima da verdade.» (Sebenta, verso p. 12.)
Uma vez reunidos estes dados, Heleno contrasta-os com os métodos e os conheci- mentos existentes em Portugal e conclui por um diagnóstico muito negativo: «estudo tipológico dominante», âmbito geográfico limitado, estações de superfície, dando ori- gem a «mistura de objectos. Ex.: Casal do Monte.» O que fazer, pergunta-se? «Explorar novas áreas» e proceder à «exploração de grutas». No trabalho de síntese de 1956, já citado várias vezes, enumera os esforços que empreendeu e alguns dos resultados que obteve:
«Pelo que toca ao Paleolítico Inferior descobrimos na região de Torres Vedras muitas estações aonde Afonso do Paço apontava apenas uma; reconhecemos nos concelhos de Óbidos e Caldas da Rainha um intenso povoamento acheulense, ates- tado por mais de 100 estações, com milhares de magníficos instrumentos, onde aquele pré-historiador assinalava apenas três; encontrámos em Leiria e Marinha Grande mais de 60 estações com Abevilense, Clactonense e Acheulense, este na foz do Lis abaixo do nível actual dos mares, e numa zona aonde esta indústria era quase desconhecida; no Ribatejo, sobretudo em Rio Maior, levantámos a carta paleolítica, sendo rara a aldeia onde não encontrámos material; e do Alentejo — Montemor- -o-Novo, Alcácer do Sal, Monforte e Moura — trouxemos para o Museu preciosos elementos da mesma época.» (Heleno, 1956b, p. 226.)
As coleções, muito vastas, resultantes destes trabalhos permanecem hoje no Museu Nacional de Arqueologia, em grande parte ainda inéditas. É certo que algumas foram objeto de estudos recentes, um deles em contexto de tese de doutoramento (Cunha- -Ribeiro, 1999; cf. também Cunha-Ribeiro, 1992-1993), mas não se pode deixar de reconhecer a justificação das limitações apontadas por Manuel Heleno a todos esses conjuntos, desprovidos na maior parte de adequado controlo estratigráfico e, por isso, cronológico.
Todavia, ainda que estas limitações sejam reais, causa estranheza a falta de interesse de Manuel Heleno na análise e justa valorização dos trabalhos conduzidos sensivelmente na mesma altura por Georges Zbyszewski e Henri Breuil em amplas zonas do litoral e sobretudo do Baixo Tejo, trabalho que no entanto Heleno inclui em bibliografia. Acha- dos como os de Santo Antão do Tojal (Breuil e Zbyszewski, 1943; Zbyzewski, 1943), pela associação direta entre indústria lítica e mega-fauna plistocénica, ou os da região de Alpiarça (Breuil e Zbyszewski, 1945; Zbyszewski, 1946), pela quantidade e qualidade dos conjuntos líticos, assim como pela inserção em sequências estratigráficas e geomor- fológicas, estudadas à imagem do que antes o mesmo Henri Breuil tinha feito no vale do rio Somme, em colaboração com L. Koslowski (cf. Raposo, 1993-1994) — trabalhos esses que Heleno refere nas suas contextualizações europeias — não poderiam deixar de ser devidamente avaliados e tidos em conta. A sua omissão, ou quase, deve procurar-se, pois, noutra direção, de âmbito mais geral, porventura relacionável com o menor inte- resse atribuído a estes mais remotos tempos — e não por razões relativas à desconfiança quanto à importância, à natureza humana e à possibilidade da sua abordagem histórica, como já vimos.
Talvez a resposta para este aparente desinteresse de Manuel Heleno esteja, por um lado, na incapacidade que teve em, por si mesmo, encontrar suportes documentais con- sistentes, como reconhece. Mas poderá estar muito mais na avaliação que se depreende dos seus textos quanto ao lugar das mais remotas presenças humanas numa história da «etnogénese portuguesa». Nos apontamentos de aulas do final do seu magistério, em 1963-1964, Manuel Heleno regista sob o apartado «migrações quaternárias» a indica- ção de que as «culturas… do coup-de-poing» teriam «origem africana», tendo início no Günz (primeira glaciação alpina e começo da ocupação humana na Europa, como então se considerava); os estilos especiais do Abevilense achados no litoral português («tipo lusitânico») estariam ligados a esta filiação geográfica e cultural; já a «cultura das lascas» poderia ser «oriunda da Europa».
Importa ter presente que a questão das filiações africanas ou europeias para a mais antiga Pré-História portuguesa constituíam um dos principais focos da investigação de Manuel Heleno e até um dos seus mais vigorosos motivos de demarcação em relação a alguns investigadores portugueses (Mendes Corrêa) e grande parte dos espanhóis, domi- nados estes pela chamadas «teses africanistas». Heleno, na leitura que faz do final do Paleolítico Antigo (Paleolítico Médio, diríamos hoje) em Espanha, assinala:
«Deste período encontrou-se nos arredores de Madrid uma indústria especial sem coup-de-poings, com características pré-mustierenses (pontas rudimentares, raspadores com retoque em degraus) e tipos precursores do paleolítico superior (folhas com retoque marginais, com mossas, com dorso rebaixado, etc.) a que Perez de Barradas deu o nome, por o julgar oriundo da África, de pré-capsense.
O Mustierense, que se estende por toda a península, distribui-se do seguinte modo: Mustierense de tradição acheleunse no norte, centro (misturado) e, não se sabe ainda se no ocidente e sul; Mustierense de tipos pequenos no sul e também nos arredores de Madrid; Mustierense ibero-mauritano, aparentado com o Sbaikiense, por enquanto apenas no vale do Manzanares. Nesta região encontrou-se mesmo em Sotillo uma indústria com Mustierense clássico, Sbaikiense e Ateriense, que parece
demonstrar serem as últimas modalidades duma fácies do primeiro: o Ibero-Mauri- tano.» (Anexo 2, «Civilizações paleolíticas na Ibéria».)
A ideia de uma origem africana dos primeiros habitantes (desde os pitecantropídeos até aos neandertalídeos) parecia assim ter grande aceitação, sem que Heleno lhe pudesse opor argumentos, a partir das suas próprias investigações. Já quanto ao Paleolítico Supe- rior, ao Homo sapiens, ele era categórico:
«[…] nada de africano; ao contrário todas as indústrias da Europa ocidental da época têm larga representação no nosso país e por elas pudemos concluir que foram as raças europeias — a de Cro-Magnon, Combe-Capelle e Chancelade — que, elimi- nando o homem de Neandertal, constituíram o primeiro e mais importante estrato da nossa etnogenia […]» (1956b, p. 232-233.)
Quanto ao Homo neanderthalensis é visível que Manuel Heleno hesita na avaliação que lhe deve ser dada. Em certas passagens afirma que são os sapiens a «base da nossa etnogenia» — dela excluindo os Neandertais. Noutras, mais elaboradas, afirma pelo con- trário que:
«[…] esta cultura africana [dos pitecantropídeos em geral e do Atlanthropus em especial, portadores dos coup-de-poings] é porém substituída por uma de lascas, oriunda da Europa, empurrada para o sul pelos frios, em especial pelos glaciares do Wurm. Esta é trazida pelo Homem de Neandertal que se cruza com o primeiro e pro- duz, com a fusão das suas técnicas, o chamado Mustierense de tradição acheulense.» (1956b, p. 232.)
Vistas à distância do tempo todas estas interpretações, para além de insubstantivas, parecem um tanto estéreis. Mas enquadradas na época tinham toda a relevância cientí- fica e até política. Compreende-se, pois, que não podendo Manuel Heleno, através de investigação positiva própria, acrescentar elementos novos para o debate, dele se tivesse de algum modo desinteressado, na perspetiva da construção de uma «história nacional» e com isso tivesse também subvalorizado, injustamente, o trabalho realizado pelos inves- tigadores da chamada «escola geológica», que prosseguiam a sua investigação alheios a toda essa problemática.