Em Levantados do chão (1980), o autor português José Saramago (1922- 2010) concretiza o projeto de narrar a miséria e a injustiça sofrida por trabalhadores de zonas rurais no contexto de estruturas latifundiárias portuguesas. Para tal, esco- lheu como cenário o Alentejo, no centro-sul do país, dado que se entusiasmara com a reforma agrária implementada na região a partir de 1975. Com a finalidade de dar corpo ao romance, Saramago transferiu-se para a Vila do Lavre, onde estava insta- lada a Unidade Coletiva de Produção33 Boa Esperança. Entre março e maio de 1976, imerso no universo que pretendia representar, pôde entrevistar os habitantes do local, bem como colher depoimentos de homens e de mulheres que relatavam episódios de exploração, humilhação, resistência e esperança (LOPES, 2010).
Entretanto, a matéria, o tema e a ideologia de Levantados do chão estavam alinhados ao movimento literário português denominado neorrealismo34, o qual já se encontrava praticamente esgotado. Dessa maneira, dar feição artística a todo mate- rial coletado, incluindo marcas que distinguissem a obra das demais publicações da época e que indicassem ainda para alguma renovação, implicou uma difícil tarefa (LOPES, 2010). Em entrevista ao jornalista espanhol Juan Arias, Saramago explicou o processo de criação do romance, oferecendo a resposta sobre o modo como con- seguiu impor uma linguagem inovadora à temática/ideologia já exaurida:
[...] comecei a escrever como todo mundo faz, com guião, com diálo- gos, com a pontuação convencional, seguindo a norma dos escrito- res. Quando ia na página 24 ou 25, e talvez esta seja uma das coisas mais bonitas que me aconteceu desde que estou a escrever, sem o ter pensado, quase sem me dar conta, começo a escrever assim: in- terligando, interunindo o discurso direto e o indireto, saltando por ci- ma de todas as regras sintáticas ou sobre muitas delas. O caso é que quando cheguei ao final não tive outro remédio senão voltar ao princípio para pôr as 24 páginas de acordo com as outras (ARIAS, 2003, p. 74).
Baseada nesse depoimento, Szundy (2014) observa o posicionamento axio- lógico assumido por Saramago na efetivação de uma linguagem literária que rompia com a tradição do seu tempo. Tratou-se, segunda ela, de uma escolha consciente, que vem conformar o inconfundível estilo saramaguiano, elaborado, como todos os elementos da obra, a fim de oferecer sentidos ao leitor. A interpretação de Szundy (2014) evoca a premissa bakhtiniana de ato ético, para o qual a vivência de uma vi- da concreta impele ao sujeito uma determinada responsabilidade/responsividade, em que não há oportunidade para escusas. Nesse modelo, o sujeito realmente inse- rido no mundo da vida não pode justificar a sua não participação nela. É assim que Saramago assume uma crítica e expressa-a por meio da sua arte.
A criação, o processo de reescrita de Levantados do chão inaugura na experiência vivida do existir-evento sem álibi o estilo saramaguia- no, caracterizado pela escrita oralizada, pela insubordinação consci- ente às regras sintáticas e de pontuação, pelo entremeio de vozes em períodos longos que, persuasivamente, desconstroem, desestabi-
34 O neorrealismo português foi um movimento que expressou uma crescente insatisfação política, em que a intelectualidade portuguesa, posicionada mais à esquerda do espectro ideológico, buscava resistir ao governo autoritário de António Salazar (AMBIRES, 2013).
lizam o que até então era tomado como cânone na escrita literária portuguesa. As escolhas de Saramago revelam um posicionamento crítico perante a linguagem e a vida, a indisciplinaridade de quem sabe que escolhas verbais (e não verbais) transformam sentidos. Pa- ra Saramago só há lugar em projetos pedagógicos que criem espa- ços para um posicionamento crítico em relação a escolhas verbais e não verbais inscritas no existir-evento e não naqueles que abstraem as linguagens da vida, universalizando regras e estreitando sentidos (SZUNDY, 2014, p. 20).
Motivado pelo raciocínio de Szundy (2014), busquei depoimento de outro es- critor, cuja fala reiterasse a ideia de responsabilidade do autor em sua atividade lite- rária, encarando-a como ato ético, mesmo que não fosse nomeado dessa forma. Foi como cheguei Ao pós-escrito de O nome da Rosa, do italiano Umberto Eco. Nele, o escritor revela alguns dos bastidores da feição do romance, publicado pela primeira vez em 1984, e que, após sucesso de vendas, tornou-se filme homônimo em 1986, sob direção de Jean-Jacques Annaud. Em seu relato, Eco (1985, p. 40) problematiza o esforço do escritor em “construir o leitor” de um romance:
Ritmo, respiração, penitência... Para quem, para mim? Não, claro, para o leitor. Escreve-se pensando em um leitor, assim como o pintor pinta pensando no observador do quadro. Depois de uma pincelada, recua dois ou três passos e estuda o efeito: isto é, olha o quadro co- mo deveria olhar o espectador, ao admirá-lo pendurado na parede, em condições de luz adequada. Quando a obra está terminada, ins- taura-se um diálogo entre o texto e seus leitores (o autor fica excluí- do). Enquanto a obra está sendo feita, o diálogo é duplo. Há o diálo- go entre o texto e todos os outros textos escritos antes (só se fazem livros sobre outros livros e em torno de outros livros) e há o diálogo entre o autor e o seu leitor modelo.
E acrescenta: “[...] escrever é construir, através do texto, um modelo específi- co de leitor” (ECO, 1985, p. 41). Como se vê, Eco (1985) revela um planejamento estratégico do seu ofício, a fim de compor um escrito que busca um determinado tipo de leitor, aquele para o qual pretende apontar, definindo-o como seu leitor-alvo. Tra- ta-se, pois, como ocorrido em Saramago, de escolhas conscientes de um sujeito cri- ticamente posicionado na vida. O entorno do qual se dá conta é mais do que contex- tual, é constituinte do produto verbal do escritor-enunciador, em razão de que este reconhece e avalia axiologicamente os elementos que compõem a sua escrita. Com esse objetivo, inclui em sua atividade não apenas o dado verbal, mas ainda a comu- nicação/interação exercida por ele junto aos leitores, cujo perfil é idealizado e perse-
guido ativamente. Na citação destacada, Eco (1985) remete à metáfora do diálogo, como faz Bakhtin em suas obras. Essa interação está, em um primeiro momento, entre o texto e o autor, a quem cabe sugerir sentidos, propondo, para isso, um leitor imaginário. Dá-se, depois, a interação leitor-texto, em que as idealizações do autor são postas à prova, reproduzindo, como o esperado de uma ciência não exata, uma miríade de resultados-sentidos. Porém, o esforço do escritor concentra-se na sua ação consciente (ato ético) de orquestrar axiologicamente os componentes do todo artístico.
Para compreender a proposição da escrita literária como ato ético, como pa- lavra responsável, julgo importante aprofundar esse conceito, e depois retornar mais uma vez ao tema do autor pessoa bakhtiniano. Esse percurso é necessário para consolidar a proposta desta tese, que se dirige a discursos de escritores potiguares.