Antes de tudo, reitero a posição desta tese em assumir a perspectiva bakhti- niana de autor como subsídio à análise pretendida. Não obstante, após apresentar outras abordagens, sugiro breves reflexões do que podem aproximar ou distanciar esses pontos de vistas. É evidente que se trata de autores com bases epistemológi- cas distintas, o que se evidencia na elaboração dos seus construtos teóricos. Por- tanto, a proposta aqui não se conserva em definir essas bases, mas interpretar al- guns tangenciamentos, ainda que fazendo comparações pouco justas.
De início, expus o autor para Bakhtin, focando-me na leitura de quatro dos seus ensaios. A partir deles, é verdadeiro afirmar que Bakhtin toma por base um su-
jeito responsivo, sócio-historicamente situado, e que por isso relaciona-se com um mundo concreto e toma posição frente à realidade. Esse sujeito, na posição de au- tor, estabelece com a personagem um diálogo, a fim de compor um objeto estético, elaborado de forma ativa e reflexo de uma posição volitiva-emocional frente a perso- nagem. Nisso, considera duas consciências autônomas, a do autor e a da persona- gem, que dialogam de modo recíproco. Para tanto, é indispensável o distanciamento para com a personagem, a fim de que o autor exercite o chamado excedente de vi- são estética, que pressupõe ver a personagem como um outro, como uma consciên- cia livre, que não coincide com a consciência autoral. No caso do romance, este se desenvolve em um diálogo social de linguagens, baseado no heterodiscurso social, o qual se modela em um todo artisticamente organizado.
Nesse seguimento, vê-se que Barthes (2004) valoriza o leitor em detrimento do autor, pois acredita que somente no primeiro é possível deslindar os sentidos de um texto, sem restringi-lo a um sentido único, que lhe foi conferido pelo autor. Em Bakhtin, porém, considerando os pressupostos da interação para a efetivação da linguagem, os sentidos estão, no caso da literatura, entre autor, leitor e herói. A questão envolve também a responsividade do sujeito, concepção defendida por Bakhtin. Com essa compreensão, aponta Arán (2014, p. 22), para o autor russo, “a consciência se materializa na linguagem e ela está sob o comando do sujeito que autoridade sobre ela e se responsabiliza por sua ação discursiva”. Assim, o homem é responsável pelo seu enunciado, envolvendo-o sempre pelo manto de uma valora- ção social. Já em Barthes (2004, p. 57), “a escritura é esse neutro, esse composto, esse oblíquo pelo qual foge o nosso sujeito, o preto-e-branco em que vem se perder toda identidade, a começar pelo corpo que escreve”.
Já Foucault (2009) se ocupa em examinar unicamente a relação do texto com o autor, a quem lhe atribui uma função, a denominada função autor. A função autor seria, segunda Foucault (2009), a base para o modo de existência, de circulação e de funcionamento de certos discursos no interior de uma sociedade. Nesse caso, o nome do autor funciona para caracterizar um certo modo de ser do discurso. Com essa abordagem, um texto cotidiano – uma carta, um cartaz, um contrato – não pos- sui autor, uma vez que o nome daquele que o assina/grafa/elabora não lhe atribui nenhum prestígio, nenhuma posição diferenciada no rol dos textos cotidianos. Reco- nhecida a função autor, Foucault (2009) parte para caracterizar o discurso dotado dessa função, explorando ainda em que ele se distingue de outros discursos, isto é,
aqueles que não comportam a função autor. Somente por meio desse retrospecto, pode-se dizer que a perspectiva foucaultiana difere-se daquela cunhada por Bakhtin, pois este demonstra-se muito mais empenhado no diálogo entre autor e obra, no trato do autor com o seu objeto estético, para fins da sua construção, do que a fun- ção exercida pelo nome autor na obra já criada. Bakhtin parece ocupar-se muito mais de um quadro estético, à medida que Foucault elabora teorias de cunho espe- cialmente social.
Por fim, expus o que seria uma revisão de Chartier (2012) ao entendimento de autor para Foucault. Porém, aquele conceito basilar, o de função autor, permane- ce, carecendo, como declara Chartier (2012), de um aperfeiçoamento, principalmen- te no que tange às cronologias declaradas por Foucault em sua conferência. Em ou- tros escritos, contudo, Chartier (2001) vem asseverar o papel dos lugares sociais, isto é, os múltiplos âmbitos sociais em que os textos são produzidos, na construção do autor. De acordo com Chartier (2001), é premente as interpretações dos lugares sociais para compreender da figura do autor, visto que eles influenciam a dinâmica da escrita. Mais uma vez, a distinção frente a concepção bakhtiniana vê-se posta sobre uma visão mais social-institucional de Chartier, como se esse aspecto se so- brepusesse a qualquer iniciativa criadora do autor. Nessa direção, os lugares sociais aparentam ser determinantes na configuração do autor, que parece incapaz de atuar a partir de posicionamentos axiológicos – como prevê a caracterização do sujeito, conforme Bakhtin –, ainda que construídos sob as relações dialógicas de determina- do lugar social. Em Bakhtin, o autor parece gozar de mais autonomia ou, pelo me- nos, de mais participação no que concerne à criação.
Para Navarrete (2012), Barthes, Foucault e Chartier destronam o tradicional conceito de autor, oferecendo, em substituição, a ideia de que ele é fruto de uma construção histórica e portador de uma funcionalidade discursiva. Todavia, para Na- varrete (2012), essa ruptura se baseia em algo mais profundo, que é a própria noção
de sujeito. A tradicional ideia de autor estava apoiada no sujeito percebido como
“instância invariável e capaz de criação, porque dotada de uma liberdade criadora” (NAVARRETE, 2012, p. 110). Os três pensadores franceses, porém, pareciam filiar- se à ideia de pouca autonomia desses sujeitos. “Há, entre eles, uma atenção privile- giada às funções estruturais, diferentes conforme os contextos, em detrimento da liberdade e da criação individual” (NAVARRETE, 2012, p. 110). Nesse caso, o autor
parece assumir mesmo um papel de mediador, em que pouco ou nada contribui para a originalidade dos seus escritos.
[...] Foucault, ao explicar os mecanismos da função autor, Barthes, ao defender a existência de um locutor vazio na enunciação, e Char- tier, ao desmontar a formação histórica do conceito de autoria, colo- caram em cheque o caráter absoluto e fundador do sujeito e o reduzi- ram à condição de um simples papel impessoal que existe à revelia do indivíduo e que, descontínuo, transforma-se conforme os contex- tos históricos (NAVARRETE, 2012, p. 110).
A crítica de Navarrete (2012) sobre Barthes, Foucault e Chartier auxilia a com- preender a concepção bakhtiniana de autor, que leva em conta o sujeito e a sua auto- nomia (e, mais ainda, a autonomia de uma personagem). Sob esse entendimento, as- sinto com a reflexão de Arán (2014), para quem o sujeito autoral que Bakhtin constrói ao longo de sua obra é um sujeito historicamente moral, pois compreende “a ação sin- gular do homem real em todas as suas manifestações e práticas, que se referem a de- terminados valores e normas sociais, contextuais, históricas, nunca absolutas nem uni- versais [...]” (ARÁN, 2014, p. 21). O sujeito autoral de Bakhtin é ativo e responsável.
*****
Nesta seção, explorei problemas relacionados à autoria, no tocante, principalmente, ao autor de literatura. Para isso, abordei como esse sujeito é percebido na visão bakhtiniana, além de outros teóricos, como Roland Barthes, Michel Foucault, Roger Chartier, de onde tentei buscar tangenciamentos com o pensamento de Bakhtin. Deste último, destaco para esta tese, a figura do autor pessoa, que é quem de fato compõe o corpus a ser analisado. Na próxima seção, objetivarei aliar a noção de autor pessoa com a noção, também bakhtiniana, de ato ético. Essa proposta é pri- mordial para o desenvolvimento da análise perseguida nesta pesquisa.
3 ESCREVER SEM ÁLIBI: ATO ÉTICO E AUTOR PESSOA
Eu escrevo para nada e para ninguém. Se al- guém me ler, será por conta própria e autor- risco. Eu não faço literatura: eu apenas vivo ao correr do tempo. O resultado fatal de eu viver é o ato de escrever.
Narrador-personagem de
Um sopro de vida, de Clarice Lispector
Nesta seção, discuto o conceito de ato ético, propondo a escrita literária como um desses atos, incluindo nessa proposta o sujeito escritor, o autor pessoa. Reapresen- to, também, os autores potiguares selecionados para a análise, esquematizando os estágios de abordagem sobre os seus discursos.