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P ROCESSUS DE REFROIDISSEMENT ET DE CRISTALLISATION D ’ UN MAGMA

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A. Les magmas

3. P ROCESSUS DE REFROIDISSEMENT ET DE CRISTALLISATION D ’ UN MAGMA

A Fenomenologia prioriza o vivido, pois é a partir dele que construímos e percebemos nossas noções de mundo. “Tudo aquilo que sei do mundo, mesmo por ciência, eu o sei a partir de uma visão minha ou de uma experiência do mundo sem a qual os símbolos da ciência não poderiam dizer nada. Todo o universo da ciência é construído sobre o mundo vivido” (Merleau-Ponty, 1945/1999, p. 03).

Prioriza, o método fenomenológico, a compreensão da experiência vivida através do resgate da essência de determinado fenômeno, essência essa que diz respeito a aspectos da referida experiência que são comuns a todos os participantes de um grupo de pesquisa (Moreira, 2002, p. 114). Dessa forma é que se orientou o método fenomenológico de pesquisa em sua construção. Em Holanda (2003), vemos que o objetivo da pesquisa fenomenológica é alcançar os significados atribuídos pelas pessoas em relação à situação pesquisada.

O método fenomenológico de investigação passa por três momentos básicos: a descrição fenomenológica, que expressa e retrata a experiência consciente do sujeito; a redução fenomenológica, que consiste na reflexão dos conteúdos descritos; e a interpretação fenomenológica, onde, através de uma relação dialógica entre pesquisador e pesquisado, ocorre a compreensão do acontecimento vivido por ambos (Martins, 1992).

Na descrição fenomenológica, na qual se busca explicitar a experiência consciente da pessoa, há esse movimento na tentativa de descrever a experiência vivida do sujeito, e não “explicar” ou justificar essa experiência, tal como no método positivista de pesquisa (Martins, 1992).

Pela redução fenomenológica, ou epoché – suspensão do juízo, não aceitando e nem refutando, não afirmando e nem negando (Abbagnano, 2007, p. 339) – tem-se o momento para a reflexão da vivência anteriormente descrita das pessoas participantes da pesquisa. Para Moreira (2002, p. 88), na redução fenomenológica colocamos em suspenso nossas opiniões e crenças na ciência e na tradição colocando-as entre parênteses. Lyotard (1967) explica esse “colocar entre parênteses” dentro de uma definição da Fenomenologia, ressaltando assim sua importância, ao afirmar que “o célebre ‘por entre parênteses’ consiste, em primeiro lugar, em

dispensar uma cultura, uma história, em refazer todo o saber elevando-se a um não saber radical” (p. 09, grifo nosso).

Para Holanda (2003, p.50), a redução fenomenológica contém dois momentos distintos e entrelaçados: o envolvimento existencial e o distanciamento reflexivo.

O envolvimento existencial consiste na abertura à vivência que se está investigando, deixando fora de ação os conhecimentos adquiridos sobre ela, colocando entre parênteses todo o conhecimento que se tem a priori de tal fenômeno, como uma espécie de “Não julgue enquanto cheira (...) Quando está cheirando, fique cheirando, e julgue depois5. Já o

distanciamento reflexivo é a postura que adota o pesquisador, postura essa que possibilita a compreensão e a captação do sentido que subjaz à vivência à sua descrição.

Durante o processo de redução fenomenológica, utilizamos da comunicação interpessoal para alcançar a compreensão do significado da experiência vivenciada pela própria pessoa (Martins, 1992). Amatuzzi (2003) discorre sobre a forma como se relaciona com o sujeito pesquisado, através do relato

que procura trazer, tornar presente, a experiência vivida. Um modo de fazer isso, de colher esse tipo de relato, é dizer à pessoa algo do tipo: “estou pesquisando tal coisa; o que você pode dizer-me sobre isso

a partir de sua experiência pessoal?” Cabe ao pesquisador, durante a coleta, permanecer ativo, presente como um interlocutor que solicita e acolhe e também pedindo à pessoa que retorne à sua experiência concreta quando ela foge para a opinião ou teoria. Isso pode ser feito no ato de uma única entrevista ou, então, em encontros sucessivos, quando se solicitam maiores detalhes experienciais sobre algum ponto. Em minha última pesquisa, por exemplo, depois de explicar o assunto da pesquisa, solicitava um depoimento escrito, examinando esse depoimento depois, identificava frases experiencialmente densas,

isto é, que tocavam em pontos fortes do vivido, mas sem oferecer maiores informações. Voltava a

encontrar-me com a pessoa para solicitar que escrevesse mais a partir daquelas frases. A expectativa era uma concentração maior sobre o vivido, com o fornecimento de descrições mais profundas (p. 21). No momento final de uma pesquisa de cunho fenomenológico, temos um movimento de retorno à pessoa ou ao grupo pesquisados, para uma construção conjunta da síntese final da pesquisa, isto é, a interpretação fenomenológica.

Por meio da interpretação fenomenológica, mostramos a síntese que fizemos do sujeito pesquisado para pedir sua confirmação sobre o que escrevemos a seu respeito, o que ele concorda, discorda, o que é novo para ele e etc. Para que para ambos, sujeito pesquisador e

5 Usando do recurso literário para alcançar novos sentidos de significado (tal como descrevemos no capítulo 1),

trazemos essa frase do perfumista Baldini, em O perfume, de Süskind (2010, p. 71), ao analisar o perfume de seu rival, Pélissier, a fim de se descobrir os ingredientes desse perfume e copiá-lo em seguida.

sujeito pesquisado, tenham claro “até que ponto o sujeito pesquisado se reconhece no que eu digo dele” (Amatuzzi, 2003, p. 21).

Para a análise fenomenológica como um todo (e não somente nessa parte final da pesquisa que é a interpretação fenomenológica), Martins e Bicudo (1989) destacam quatro momentos para o decorrer da pesquisa:

 No primeiro momento, tem-se a transcrição dos depoimentos dos sujeitos participantes da pesquisa, familiarizando-se com a descrição da experiência vivida;

 No segundo momento, tem-se a elaboração das unidades de significados, que são construídas em relação à perspectiva que o pesquisador tem em relação ao fenômeno;  No terceiro momento, a partir da elaboração das unidades de significados, tem-se o

agrupamento dessas unidades em categorias ou temas que expressam o insight psicológico que elas trazem, transformando a linguagem coloquial e de senso comum do sujeito de pesquisa em discurso psicológico inteligível conforme o referencial teórico usado pelo pesquisador;

 No quarto momento, tem-se a oportunidade de sintetizar e integrar os insights obtidos através das unidades de significados, identificando convergências e/ou divergências dos significados atribuídos pelos participantes da pesquisa e buscando, dessa forma, a compreensão geral da estrutura do fenômeno.

Um instrumento que pode facilitar o processo de apreensão do vivido do sujeito e que é muito utilizado em pesquisas de caráter fenomenológico (e que também usamos nesta pesquisa) é a Versão de Sentido, a qual consiste em “uma fala expressiva da experiência imediata da pessoa, diante de um encontro recém-terminado. Quando registrado por escrito, é um texto breve, escrito livre e espontaneamente” (Amatuzzi, 1996, p. 11). Para Holanda (2003, p. 50) a versão de sentido é “um ‘relato livre e espontâneo’ da experiência imediata do sujeito”.

A versão de sentido surgiu (Amatuzzi, 1996) como uma experiência de grupo de psicoterapeutas recém-formados que se reuniam uma vez por semana para discutirem sobre seus atendimentos psicológicos e experiências pessoais, para execução de uma pesquisa em curso sobre o desenvolvimento pessoal. A ideia era os participantes se expressarem a partir de

relatos escritos de forma condensada sobre o que aconteceu de mais importante durante a semana em relação aos atendimentos, fugindo da forma mecânica e objetivista dos relatos de estágio que estavam cansados de fazer, pois, “O que fazia sentido registrar era diferente daquilo que escrevíamos quando, de memória, tentávamos reproduzir a sequência dos fatos de forma neutra. O que fazia sentido registrar era o sentido vivo, presente no próprio ato de escrever” (p. 13). Em seguida, os participantes perceberam a atualidade desse processo, que consistia em escrever logo após cada sessão de atendimento. “Foi isso que nos levou à formulação de que o ‘sentido que interessa’ é sempre presente.

Um registro mecânico não o pode captar, pois ele só contém o passado. É só através de nosso presente que podemos estabelecer contato vivo com o sentido de um encontro. E é o contato vivo que é útil na

formação” (p. 13, grifo nosso).

De modo que Amatuzzi (1996) considera essa forma de relato como um poderoso instrumento de acesso ao vivido e à experiência – própria ou alheia – que é útil tanto numa pesquisa qualitativa quanto no processo de formação do psicoterapeuta. “A experiência mostrou que esse tipo de relato, principalmente quando lido e discutido num grupo, tem um poder muito grande de evocação do ocorrido e de presentificação do vivido, permitindo assim um acesso ao seu sentido” (p. 11).

O método fenomenológico comporta algumas críticas. Para Giorgi (1985) essas críticas vêm em razão da dificuldade de comunicação do pensamento fenomenológico, por causa da dificuldade intrínseca da fenomenologia, da obra inacabada de Husserl – que sofreu alterações ao longo de sua vida – e das diferentes ramificações que vieram a partir da fenomenologia e que não convergem entre si (já comentadas no capítulo anterior, como o Existencialismo de Sartre e a Fenomenologia Existencial de Heidegger).

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