Numa região como a Amazônia, o meio ambiente desde muito cedo condicionou seus habitantes a utilizarem os rios como meio de locomoção e, nestes, as embarcações (canoas) como o meio essencial de transporte. A quantidade e a qualidade das madeiras da região logo chamarão a atenção dos primeiros colonizadores, principalmente levando-se em conta a utilidade da madeira para a construção em geral e para a construção de embarcações, em particular. Nas diversas fábricas reais de madeira espalhadas pela região amazônica, especialmente no vale do Tocantins, como a Fábrica de Madeira de Moju (a Ribeira de Moju), a mão de obra indígena era fundamental. Os indígenas, além do conhecimento exímio da região, das diversas espécies arbóreas e seus diversos fins, dominavam as técnicas de fabricação de embarcações.
Se as embarcações indígenas do século XVI, portanto do início do Contato (e mesmo as canoas do século XVIII, dos índios dos sertões), eram fabricadas de maneira “rústica”, apenas com as cascas das árvores ou com troncos ocos de árvores, a partir da colonização tanto as embarcações como o processo de fabricação sofrem modificações.
Na fabricação das embarcações do século XVIII, período descrito por João Daniel (pelo menos os bergantins, grandes canoas dos povoamentos portugueses), os mestres e oficiais índios derrubavam as árvores com machados de ferro e a abertura do casco era feita com enxós, também de ferro; e apesar de utilizarem o fogo para a modelagem, são introduzidas tábuas nas laterais, o que aumentava a largura e o tamanho da embarcação, por exemplo. Ou seja: ferramentas e técnicas da carpintaria naval europeia haviam se hibridizado às técnicas e aos
conhecimentos indígenas. Entre o processo de fabricação de canoas do século XVIII, descritas por João Daniel, e do século XVI há, portanto, uma significativa diferença técnica.
Para Antônio Gualberto, na descrição feita por João Daniel, “já é constatada mudanças significativas no tratamento da madeira para fazer uma embarcação, a exemplo da tábua cortada (técnica europeia) e o curvamento da mesma com o fogo, procedimento muito utilizado pelos indígenas e assimilado pelos colonizadores”.312 Na fabricação da embarcação descrita por João Daniel, já é possível observar “transformações oriundas da fusão dos elementos culturais estabelecidos entre os colonizadores e indígenas ocorridos ao longo do processo de colonização da Amazônia”. Os saberes indígenas vão sendo, gradativamente, “incorporados ao projeto de conquista dos colonizadores, na medida em que militares, religiosos, comerciantes, estudiosos e aventureiros vão chegando e/ou ocupando a colônia Brasil”.313
Assim, pode-se falar que tais embarcações eram híbridas. Do lado indígena manteve-se o processo de abrir o casco com fogo, por exemplo. Do europeu assimilou-se, além da utilização dos instrumentos de ferro para a derrubada e a escavação do madeiro, a utilização de tábuas nas laterais da embarcação. A transformação das embarcações indígenas (da canoa de casco único em canoa de tábua) certamente obedecia à lógica da colonização. Para as necessidades que então passam a existir, a navegação em canoas pequenas e rústicas não seria mais viável. O território do extremo Norte da América portuguesa precisava constantemente ser guarnecido contra ataques de nações inimigas, como franceses, holandeses e espanhóis. Colonos, religiosos e militares luso-brasileiros precisavam percorrê-lo, seja à procura de índios para descimento, seja para a coleta das drogas do sertão. O trânsito de pessoas e mercadorias só aumentava. A demanda por transporte crescia proporcionalmente. As embarcações precisavam mudar, precisavam se adequar ao novo sistema. Apesar de híbridas, no entanto, tais embarcações não deixavam de ser indígenas, já que, apesar de novas ferramentas e novas técnicas, os índios continuavam sendo os grandes mestres e oficiais canoeiros.
Maria Regina Celestino postula que, no interior dos aldeamentos missionários, povos indígenas de diversas etnias, possuidores de culturas e línguas diversas, misturavam-se tanto entre si como entre colonos, mestiços e missionários. Ao olhar por esta perspectiva, os aldeamentos missionários não aparecem apenas como espaços de processos contínuos de aculturação, como a historiografia por muito tempo mostrou, mas sim espaços de
312 Ibidem, p. 75.
ressocialização, de recriação de identidades. Um espaço que “além de cristão e português, foi também dos índios, no qual se tornou possível a recriação de suas identidades”.314
Os índios, quando se integravam ao mundo colonial, não o faziam simplesmente por não ter outra opção, mas como forma de resistência. Cooperar com a colonização, mesmo de forma compulsória, também significava resistir. Esse fato é exemplar quando se trata da construção de embarcações. As fugas dos índios oficiais da Ribeira de Moju para as aldeias de origem podem ilustrar isso. Nas aldeias, diferente da Ribeira, eles tinham um tratamento diferenciado, status, já que possuíam um ofício específico que os fazia importantes e bastante requisitados. Longe da visão de uma contínua aculturação, com a cultura dos colonizadores sendo imposta aos colonizados, o que se percebe são trocas culturais num processo de reciprocidade. As técnicas europeias, longe de suplantarem as indígenas, são ressignificadas por estes num processo de resistência adaptativa.315
Indo na esteira do que postula Maria Regina Celestino, pensamos os estaleiros onde essas embarcações eram fabricadas não como simples espaços de aculturação, mas sim como espaços complexos em que processos de resistência se davam. Apesar da introdução de técnicas e ferramentas europeias a partir da colonização, o processo de construção de embarcações continuou a obedecer a rituais indígenas, tais como o de cortar a madeira num tempo certo, abrir o casco no fogo, seguir ritos específicos. Além do mais, em todo o processo a interação com o meio natural era fundamental. Direta ou indiretamente, índios e europeus se viam imersos num ambiente em que os “poderes da natureza” impunham regras que, respeitadas, poderiam influenciar diretamente no resultado final do trabalho.
Assim, o complexo encontro de culturas promovido pela colonização possibilitou um imbricamento entre as culturas nativa, portuguesa e africana, levando, dialeticamente, à “fabricação” de uma nova cultura. E dentro dessa nova cultura, pensamos as embarcações, como as “canoas de tábua”, descritas por João Daniel, como objetos híbridos.316
314 ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Op. cit., 2013, p. 24. 315 Ibidem, p. 303.