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Méthodologie

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3.2 Formalisation

3.2.3 Méthodologie

No final do século XV a região conhecida hoje como Amazônia brasileira foi tocada pela primeira vez por europeus. Eram espanhóis em uma expedição sob o comando do navegador Vicente Yáñez Pinzón, a serviço da Espanha. Chegaram ao delta de um grande rio ao qual denominaram de Santa Maria de la Mar Dulce, mais tarde denominado de Amazonas, e navegaram por mais de cem quilômetros, seguindo o curso do rio. No entanto a expedição iria recuar diante da pororoca, fenômeno que colocara em grave risco as caravelas e os obrigou a voltar ao mar, indo explorar o litoral amapaense.91

Alguns dias após a passagem de Pinzón, outra expedição, comandada pelo espanhol Diogo de Lepe, também iria penetrar as terras amazônicas. No entanto, Lepe iria subir um rio cujas águas “eram menos doces que as percorridas por Yáñez Pinzón e que os índios denominavam Marañón”, muito provavelmente o rio Pará.92 Para o historiador Auxiliomar Silva Ugarte, as viagens comandadas por Pinzón e Diogo de Lepe inaugurariam uma dupla percepção europeia sobre a Amazônia. A primeira seria “o encanto pelo imediatamente visível e positivo – as águas doces e a aparente fertilidade da terra”. A segunda, “a expectativa, igualmente positiva, da existência de diversas riquezas”.93 Ao encantamento inicial, no entanto, e apesar da expectativa de riquezas, não tardaria a ser adicionado outra percepção: desilusão face aos perigos enfrentados pelo rio.

Com a “descoberta” da Região Amazônica pelos espanhóis, a partir das primeiras décadas do século XVI, e principalmente com a divulgação da possibilidade de existência de incontáveis riquezas, logo outras expedições seriam formadas para navegar o rio Amazonas a partir dos Andes. A primeira delas foi a expedição de Alonso Mercadillo, em 1538. Composta de 185 pessoas, a pé e a cavalo, a expedição saiu dos Andes e chegou até a Província dos Maina, na região do Alto Amazonas. No entanto, a viagem não prosseguiu. Os expedicionários

91 NETO, José Maia Bezerra. Conquista portuguesa na Amazônia. In: ALVES FILHO, Armando, et al. Pontos de

História da Amazônia. Vol. 1. Belém: Paka-Tatu, 2001, p. 12.

92 HEMMING, John. Op. cit., 2007, p. 274, nota 4.

93 UGARTE, Auxiliomar Silva. Margens míticas: a Amazônia no imaginário europeu do sec. XVI. In: PRIORE,

Mary del & GOMES, Flavio dos santos (Org.). Os senhores dos rios: Amazônia, margens e história. Rio de Janeiro: Campus, 2003, p. 5-6.

amotinaram-se e prenderam o comandante Mercadillo.94 De acordo com Ugarte, tal fracasso não iria desencorajar os espanhóis em novas tentativas de avançar para as vastas regiões a leste dos Andes.

Durante as primeiras décadas do século XVI uma série de histórias maravilhosas sobre o El Dourado e o País da Canela iriam se espalhar entre a população espanhola que habitava a região do atual Peru. Tais histórias passaram a povoar o imaginário dos espanhóis ávidos por riquezas e decerto atiçaram cada vez mais a cobiça dos conquistadores com a possibilidade de ganhos materiais de alto valor. Foi nesse contexto que novas expedições foram organizadas.

Em fins da década de 1540 o conquistador espanhol Francisco Pizarro, após ouvir de chefes indígenas e de soldados espanhóis notícias de grande riqueza para leste dos Andes, encarregou seu irmão, Gonzalo Pizarro, de preparar uma expedição ao “País da Canela” e à “Lagoa Dourada”. 95 Em fevereiro de 1541, a expedição composta de 220 espanhóis e 4.000 índios, aproximadamente, saiu de Quito em direção à Amazônia. Quase um ano depois, em outubro ou novembro do mesmo ano, chegaram ao vale do rio Coca, território onde estaria localizada a afamada especiaria. Encontraram as árvores de canela, todavia eram pequenas e estavam dispersas por grandes extensões de floresta, o que dificultava a coleta e tornava inviável a sua exploração para fins comerciais.96 Pizarro, malgrado o insucesso com a especiaria, resolveu continuar a viagem, desta vez à procura da Lagoa Dourada. No entanto, a ruina da expedição, somado aos perigos encontrados pelo caminho e às baixas humanas, fez com que a fome pairasse sobre o que restara do corpo expedicionário e a necessidade de sobrevivência falasse mais alto.

Após índios da região informarem que seguindo o curso do rio Coca encontrariam alimentos, Gonzalo Pizarro decidiu “enviar uma pequena tropa para buscar os anunciados alimentos na região de confluência do rio Coca com o rio Napo”.97 Pizarro entregou então o comando da referida tropa ao capitão Francisco de Orellana. Com um barco e quatro canoas, partiram 57 expedicionários com a intenção de descer o rio e retornar o mais breve possível, trazendo comida para o resto da expedição. Todavia, assim como a expedição de Pizarro em busca do País da Canela, a expedição de Orellana em busca de comida também não obteria sucesso. Como escreveu o frei dominicano Gaspar de Carvajal, cronista da viagem, “y comenzó

94 UGARTE, Auxiliomar Silva. Sertões dos Bárbaros: o mundo natural e as sociedades indígenas da Amazônia na

visão dos cronistas ibéricos (séculos XVI-XVIII). Manaus: Editora Valer, 2009, p. 35.

95 Ibidem, p. 40.

96 Ibidem, p. 41. Para mais sobre o assunto, Cf.: BÉNAT-TACHOT, Louise. Del sabor a canela a la navegación

en Mar Dulce: la improbable geografía del “río Marañon”. In: CHAMBOULEYRON, Rafael; SOUZA JUNIOR, José Alves de. (Org.). Novos olhares sobre a Amazônia colonial. 1ª Ed. Belém, PA: Paka-Tatu, 2016, p. 13-38.

a seguir su río abajo con propósito de luego dar la vuelta, si comida si hallase; lo cual salió al contrario de como todos pensábamos; porque no fallamos comida en doscientas leguas, ni nosotros la hallábamos, de cuya causa padecimos muy gran necesidad […]”.98

Os expedicionários não encontrariam alimentos nem para eles e muito menos para os demais que haviam ficado para trás. Bastante debilitados, não tiveram condições físicas de retornar ao acampamento de Pizarro, devido às fortes correntezas do rio Napo. Resolveram continuar a viagem seguindo o curso do rio, sendo Orellana eleito chefe supremo da agora autônoma expedição. Assim começava, segundo Auxiliomar Silva Ugarte, “uma epopeia que duraria 9 meses, de dezembro de 1541 a agosto de 1542, e seria a primeira expedição a percorrer quase todo o rio Amazonas até a foz, no oceano Atlântico”.99

Ao longo da expedição, Orellana e seus companheiros iriam sofrer bastante com a privação de alimentos, assim como com os perigos encontrados no rio. Como escreve Carvajal: El segundo día que salimos y nos apartamos de nuestros compañeros nos hubiésemos de perder en medio del río, porque el barco dio en un palo y sumióle una tabla, de manera que a no estar cerca de tierra acabáramos allí nuestra jornada; pero púsose luego remedio en sacarse de agua y ponerle un pedazo de tabla, y luego comenzamos nuestro camino con muy gran priesa; y como el río corría mucho andábamos a veinte y a veinte y cinco leguas, porque ya el río iba crecido y aumentando así, por causa de otros muchos ríos que entraban en él por la mano diestra hacia el sur […]100

Apesar de não fazer uma descrição pormenorizada dos rios – como outros cronistas farão mais tarde –, da Relación de Carvajal sobressaem-se principalmente os obstáculos encontrados e perigos causados pelos rios (como as fortes correntezas; os troncos de madeiras que, ao serem arrancados pelas tempestades, iam rolando pelo rio e colidiam com embarcações; o fenômeno da pororoca) e os perigos nos rios, como os ataques de índios. Com relação aos perigos causados pelo rio, a fúria das águas caudalosas pode ser vista, por exemplo, em duas passagens. Na primeira, os perigos seriam por conta da correnteza dos rios:

[...] pero en confianza que no podíamos estar lejos, acordamos de pasar adelante, y esto no con poco de trabajo de todos, y como otro ni otro día no se hallase comida ni señal de población, con parecer del Capitán, dije yo una misa, como se dice en la mar, encomendando a Nuestro Señor nuestras personas y vida, y suplicándole, como indigno, nos sacase de tan manifiesto trabajo y perdición, porque ya se nos traslucía, porque aunque quisiésemos volver agua arriba no era posible por la gran corriente, pues tentar de ir por

98 CARVAJAL, Frei Gaspar de. Relatório do novo descobrimento do famoso rio grande descoberto pelo capitão

Francisco de Orellana. Edição bilíngue. São Paulo: Scritta; [Brasília, DF]: Consejeria de Educación de la Embajada de España, 1992, p. 32.

99 UGARTE, Auxiliomar Silva. Op. cit., 2009, p. 42. 100 CARVAJAL, Frei Gaspar de. Relatório..., p. 32.

tierra era imposible: de manera que estábamos en gran peligro de muerte a causa de la gran hambre que padecimos […]101

Um pouco mais a frente, possivelmente falando sobre o fenômeno da pororoca, Carvajal descreve a fúria das águas e o perigo que era navegar por elas, devido aos redemoinhos e à grande quantidade de madeira que era arrastada:

[…] y aquí estuvimos en punto de nos perder, porque al entrar, que entraba este río en el que nosotros navegábamos, peleaba la una agua con la otra y traía mucha madera de un cabo a otro, que era trabajo navegar por él, porque hacía muchos remolinos y nos traía a un cabo y a otro; pero con harto trabajo salimos deste peligro sin poder tomar le pueblo, y pasamos a delante […]102

A Relación de Carvajal foi um dos primeiros escritos sobre a região amazônica. Por conta disso, não é de surpreender que os europeus se sentissem tão temerosos diante de um rio desconhecido. De acordo com Auxiliomar Ugarte, “Perigos e incômodos, aparecidos no e causados pelo rio, foram constantes durante a viagem capitaneada por Orellana”.103 Segundo este autor, na Relación de Carvajal,

[...] o registro dos obstáculos naturais cumpriam duas funções: a) transmitir aos leitores potenciais, com a maior fidelidade possível, informações acerca da realidade física com que os expedicionários encontravam a cada légua percorrida; b) demonstrar a intervenção de Deus, que transformava os obstáculos naturais em elementos de provação dos espanhóis, cuja sobrevivência naquelas paragens tão desconhecidas e adversas dependia da fé que depositavam n’Ele. Ademais, os obstáculos naturais dos rios, mesmo que fossem os mais perigosos, não deixavam de fascinar os expedicionários, numa estranha simbiose de temor e encanto [...]104

Escritos posteriores sobre a região amazônica estarão permeados por esta “simbiose” entre temor e encanto, fascínio e desilusão.

Entre os perigos causados no rio estavam, principalmente os ataques de índios. A primeira visão de índios acontece no dia 9 de janeiro de 1542. Na noite do dia anterior, os expedicionários ouviram o som de tambores e se animaram, já que estavam debilitados por conta da fome que passavam e aquele som poderia significar a existência de alguma aldeia por perto, o que consequentemente seria sinônimo de alimento. Pela manhã navegaram em direção ao povoado e avistaram quatro canoas que vinham cheias de índios em sentido contrário. Os índios de imediato fogem dando alarme. Pouco tempo depois, “en menos de un cuarto de hora”, como diz Carvajal, ouviram tambores tocando intensamente. O capitão Orellana manda que todos remem velozmente para chegar ao povoado antes que os indígenas se recolhessem. Não

101 Ibidem, p. 34. 102 Ibidem, p. 42.

103 UGARTE, Auxiliomar Silva. Op. cit., 2009, p. 173. 104 Ibidem.

houve embate. Permanecem alguns dias na aldeia, onde o capitão Orellana recebe os 13 Senhores daquelas terras, das quais toma posse simbolicamente em nome de Sua Majestade. Partem no dia 2 de fevereiro.

No dia 12 de maio chegaram às províncias de Machiparo, que eram terras grandes e populosas. Sobre Machiparo, informa Carvajal: “está asentado sobre el mismo río en una lona, y tiene muchas y grandes poblaciones que juntan de pelea cincuenta mil hombres de edad de treinta años hasta setenta, porque los mozos no salen a la guerra ni en cuentas batallas nosotros con ellos tuvimos no les vimos, sino fueron viejos…”.105 É na província de Machiparo, pois, que são travadas grandes batalhas pelos rios. Como diz Carvajal:

Antes que llegásemos a este pueblo con dos leguas vimos estar blanqueado los pueblos, y no habíamos andado mucho cuando vimos venir por el río arriba muy gran cantidad de canoas, todas puestas a punto de guerra, lucidas, y con sus pabeses, que son de conchas de lagartos y de cueros de manatís y de dantas, tan altos como un hombre, porque todos los cubren.106

Ao longo da expedição, o grupo se depara com grandes povoamentos, com índios ou navegando pelos rios ou nos portos, em grande quantidade que faz o capitão Orellana temer a tentativa de aportar os barcos em busca de provisões. Ao longo do caminho conflitos com grupos indígenas no meio do rio eram quase inevitáveis, pois os índios sempre estavam a postos para defender suas aldeias, com armas e escudos nas mãos e gritos de guerra. Para tentar fugir dos povoados e dos ataques, Orellana ordena que a navegação fosse feita pelo meio do rio.

No dia 25 de junho, saindo da província de São João, que tinha mais de 150 léguas de costa, a expedição passara por umas ilhas que, num primeiro momento, pensavam estar despovoadas. No entanto, diz Carvajal,

[…] después que nos hallamos en medio de ellas, fueron tantas las poblaciones que en las dichas islas parecían y vimos, que nos pesó; y como nos vieron, salieron a nosotros al río sobre doscientas piraguas, que cada una trae veinte y treinta indios, y de ellas cuarenta, y destas hubo muchas: venían muy lucidas con diversas divisas y traían muchas trompetas y tambores, y órganos que tañen en la boca, y arrabales que tienen a tres cuerdas; y venían con tanto estruendo y grita y con tanta orden, que estábamos espantados.107

O grande número de pirogas108 repletas de índios armados e prontos para a guerra causava grande espanto no capitão e nos expedicionários, e não passaram despercebidas por Carvajal. Ao narrar o encontro com um “esquadrão de pirogas” e fazer referência a um rio

105 CARVAJAL, Frei Gaspar de. Relatório..., p. 54. 106 Ibidem.

107 Ibidem, p. 82-84.

“qualhado de pirogas”,109 reforça a ideia de que além dos perigos representados pelo rio, os perigos no rio também eram constantes e perseguiriam a expedição até o final.

Ao fim da expedição, Carvajal retornou a Lima. Para Antônio Porro, as notícias que o dominicano trouxe “reavivaram no Peru a crença já existente de países fabulosamente ricos perdidos nas florestas equatoriais”, e iria incentivar, nos anos seguintes, diversas expedições a adentrarem a região a Leste dos Andes “na procura inútil dessa miragem...”.110 Por ser um dos primeiros relatos sobre a Amazônia, a Relación de Carvajal iria inaugurar um rico filão de relatos sobre a região, que a revelariam tanto como uma terra fértil, farta, mas que também estava repleta de perigos.

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