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A bruxa é representada, nos poemas bufões de Hilst, como nas histórias infantis: um ser perverso que não mede a consequência dos seus atos. Entretanto, essa personagem que é severamente punida nos contos tradicionais, no poema-fábula “Drida, a maga perversa e fria”, não sofre castigo, ficando para o leitor a moral de que “se encontrar uma, que a sodomize”. Essa bruxa (ou maga) já foi referenciada em uma obra anterior da mesma autora, Contos

d’escárnio – Textos grotescos, na qual Craso conversa com o seu demônio pessoal e este, que

tinha escrito um poema infantil, resolve lê-lo:

A bruxa perversa

voltou do mato às pressas. Numa valise

guardava o nariz da anti-tese. Na outra, a boca da antítese. No guarda-roupa

guardou as tetas da tese. Logo depois ficou louca

com epiclese contínua de pombas. Morreu de parangolese desconjuntada coisa mais complicada que a metalepse. A aldeia assombrada

só encontrou vestígios de valise: fundo, as alças

e um cheiro nauseabundo de palavras (HILST, 2002, p. 111).

Na retomada em um novo texto de outras obras do próprio autor, isto é, na intertextualidade homo-autoral, percebe-se inicialmente a “evidência narcisista”. Ao se espelhar em escritos próprios, o autor inova-os, e cria-se um outro texto (AGUIAR E SILVA, 2007, p. 630-631). Assim se processa a intertextualidade homo-autoral em Hilst. Da “bruxa perversa” dos Contos d’escárnio – Textos grotescos surge “Drida, a maga perversa e fria” de

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Bufólicas. No poema infantil da “bruxa perversa”, observamos o jogo de palavras com termos

da criação literária, como antítese, anti-tese, tese, epiclese e metalepse. Dessa bruxa que discute a língua, surge Drida, que satiriza o escritor Paulo Coelho, sobre o qual comentaremos a seguir. As características semelhantes entre os dois poemas se realizam na ordem da discussão metalinguística, em “bruxa perversa” a discussão estaria em torno do fim da criação, da morte da palavra: “A aldeia assombrada / só encontrou vestígios de valise: / fundo, as alças / e um cheiro nauseabundo de palavras” (HILST, 2002, p. 111). Em Bufólicas, a proximidade com duas obras do escritor Paulo Coelho é que evidencia a personificação da bruxa-maga na figura do escritor, o que se manifesta pelo nome da personagem Drida, que lembra Brida, e do caminho de Santiago de Compostela, que é citado em espanhol: “Me voy a Santiago” (HILST, 2002, p. 19-20). Para inventar um texto novo, a autora reutiliza a personagem anterior, com a adição de novas características. Os dois textos hilstianos, no entanto, mantêm traços em comum, pois refletem sobre o fazer literário de forma irônica.

Outra referência usada por Hilst para compor seu poema-fábula provém de sua crônica “Berta – Isabô”, reunida em Cascos & carícias & outras crônicas (2007); vemos a intertextualidade homo-autoral no trecho em que as duas personagens da crônica conversam sobre analidades: “Tu é que coçava os bagos dos menininho e tirava os ranho dos buraco do nariz e enfiava na boca da Dita, coitadinha, aquela neguinha fedida que era tua prima” (HILST, 2007, p. 383). Referência, ao que tudo indica, à Neguinha de “Drida, a maga perversa e fria”, de Bufólicas:

Incendiei o buraco da Neguinha. Uma crioula estúpida

Que limpava ramelas De porcas criancinhas. (HILST, 2002, p. 20).

No livro Cascos & carícias, ainda, percebemos citações de trechos de seus poemas, contos e de romances, juntamente com a utilização de palavras obscenas. Hilda Hilst, ao utilizar tal processo, parece profanar toda a sua obra, conferindo-lhe uma nova significação com o intuito de retirá-la do altar canônico, uma vez que antes era considerada de grande valor estético pelos críticos. É o que acontece com a personagem Leocádia, de “A Chapéu”, que representa a avó da menina, citada anteriormente em Cartas de um sedutor, como podemos observar no trecho:

76 Chamo-me Leocádia. Resolvi beber e berimbar antes de desaparecer na terra, ou no fogo ou na imundície ou no nada. Contratei uma secretária-acompanhante e disse- lhe o seguinte: és jovem e apetitosa. Quando os homens quiserem ter relações contigo diga-lhes que façam um esforço e deitem-se comigo. Pagarei muitíssimo bem a cada um deles e terás régias comissões a cada êxito. Ficou perplexa.[...]. Continuou: hei de portar-me indignamente para satisfazê-la, desde que meu salário seja compatível com tamanha velhacaria. Disse-lhe a quantia. Ficou radiante. Chama-se Joyce (!). É mignon e deliciosa, peitinhos de adolescente, tem 30 mas dão-se-lhe 20 (eu não tenho medo da mesóclise), a boca de cantinhos levantados, os olhos claros entre o amarelo e o castanho, os cabelos quase ruivos, elegante no andar e na postura (HILST, 2013, p. 100-101).

No livro, a personagem Tiu, um escritor frustrado com os desmandos editoriais, escreve a história de Leocádia no conto intitulado “besteira”, mote dado por sua companheira de mendicância Eulália. Dessa intertextualidade homo-autoral resulta a velha Leocádia reinventada; em vez de personagem de um conto “realista”, passiva na relação sexual heterossexual, isto é, com parceiros humanos, como se dá em Cartas de um sedutor, torna-se, em Bufólicas, ou melhor, no poema-fábula “A Chapéu”, personagem ativa, pois aparenta ter “um nabo”, um pênis, em prática de bestialidade. A avó Leocádia é um ser mascarado, indício carnavalizante “das transferências, das metamorfoses, das violações das fronteiras naturais” (BAKHTIN, 1993, p. 35). Comprova-se a violação das fronteiras naturais quando a avó passa de mulher para “avó taluda”, ou seja, aparece-lhe um pênis, como podemos perceber na própria fala do Lobo: “E sinto que tens um nabo / Perfeito pro meu buraco” (HILST, 2002, p. 24). Hilst, na nova versão da “velha”, coloca-a sexualmente ativa, como no conto “besteira” de Tiu, mas de forma invertida: se no primeiro texto ela procurava homens para “berimbar”, em “A Chapéu”, ela tem um “talo” para sodomizar Lobão. Tem-se assim uma figura mascarada por meio da qual Hilst dirige sua crítica, pois essas personagens que dissimulam sua sexualidade manteriam a sociedade preconceituosa e retrógrada.

A protagonista do último poema-fábula do livro, “Filó, a fadinha lésbica”, também é citada em Cartas de um sedutor, no diálogo entre Eulália e Stamatius:

tá bem. vou escrever Filó, a fadinha lésbica. não. escreve do menino que virou cachorro. mas só virou cachorro, só isso?

uai. e não é coisa pra burro?

é. é coisa pra editor sim, mas tem que ser um cachorro sacana, fodedor. ah, isso não era não, era um cachorro simpres, quietoso.

então não dá, tem que ser assim ó (e lambo os beiços lentamente e reviro a língua), um cachorrão sacana (HILST, 2013, p. 91).

77 No livro, a personagem Tiu escuta um relato de sua amante Eulália sobre um menino que vira cachorro e sobre uma fadinha viúva que ela conhecera em Rio Fino, personagem que se vestia toda de filó e gostava de mulher. Tiu então resolve escrever a história “Filó, a fadinha lésbica”, já que a história do menino que se transformara em cachorro não interessaria aos editores, pois esse cachorro não era “fodedor” e sim “quietoso” (HILST, 2013, p. 90-91).

Além de Filó, outra personagem igualmente reutilizada pela autora é Troncudão. Esta personagem aparece em Cartas de um sedutor, pois vemos a personagem com “focinho de tira” a vigiar “Cuzinho”:

Não colocaram bolas de polo na xota da Cuzinho. Sabes qual foi o castigo? Lamber o roxinho das duas equipes. Imagina-te, foi uma longa partida, cus e cavalos suados. Haja língua. Cuzinho foi colocada num cubículo de guardados e policiada por um “amiguelho” do Tom, um tipo enorme, parrudo, focinho de tira, até a partida terminar (HILST, 2013, p. 72).

Em Cartas de um sedutor, obra anterior a Bufólicas em que aparece Filó, surge também Troncudão – evidência da intertextualidade homo-autoral hilstiana. Naquele livro, há uma personagem de nome Cuzinho que havia sido castigada e que seria vigiada por “um tipo enorme, parrudo, focinho de tira”, para que fosse devidamente punida. O castigo aplicado foi lamber o “roxinho suado” de ambas as equipes de pólo, castigo esse que mais parece prêmio, pois ao final ela sai sorrindo “embriagada por pregas” (HILST, 2013, p. 72-73). Em “Filó, a fadinha lésbica”, Troncudão forma com a fadinha o “par romântico”, ou seja, temos a volta da personagem com focinho de tira juntamente com a fadinha em Bufólicas.

Como é característico em Bufólicas, constata-se que Hilda Hilst manteve igualmente a autorreferência: um texto com acréscimos e com outras personagens, alguns reaproveitados, como Filó, outros inventados, como os moradores da Vila do Troço. Desse modo, Hilst profana textos da literatura canônica ao colocar de forma obscena, personagens e escritores consagrados: “o abuso obsceno da escrita inverte a escritura do sexo enquanto as perversões do sexo transgridem a sexualidade da letra” (HANSEN; PÉCORA, 1998, p. 143). Assim, Hilst vai seguindo seu percurso criativo misturando referências às obras universais e às suas próprias. A profanação realizada por Hilda Hilst em suas próprias obras é um recurso eficaz na medida em que se denunciam os falsos moralismos da sociedade conservadora brasileira. Ao retomar de modo invertido as personagens anteriormente utilizadas, como Leocádia, que em Cartas de um sedutor era heterossexual, mas que agora se esconde atrás do fogão para

78 praticar bestialmente sexo anal com Lobão, desmonta o sórdido obsceno cotidiano em que as escolhas sexuais não são respeitadas pelo saber mediano de nossas elites preocupadas com aparências e falsos moralismos. Assim denuncia Hilst em todas as bufólicas.