[...] O melancólico sofre a angústia de um esvaziamento no eu (ego), um enfraquecimento do “sentimento de si”, e elabora sobre ele próprio um diagnóstico construído na menos-valia, na incapacidade para viver. Torturado sobre o não saber de tanto sofrimento, incrementa o autopadecimento e se interroga: “Por que sofro tanto?” (PERES, 2011,
p. 115).
Freud traz, conforme dissemos antes, uma importante contribuição sobre os estudos da melancolia em Luto e melancolia escrita em 1915 e publicada em 1917. Longe de fazer um estudo aprofundado da obra freudiana, gostaríamos de pincelar alguns pontos que consideramos relevantes em nossa pesquisa para desenvolver nossa ideia de melancolia de
resistência.
A melancolia é descrita por Freud como um quadro de “suspensão do interesse pelo mundo externo” (EDLER, 2008, p. 13), em que há uma profunda diminuição da autoestima, podendo chegar a um estágio de autopunição e desistência das “coisas do mundo”. Freud observa na melancolia “[...] uma divisão do eu na qual uma parte, ‘a instância crítica’, se volta contra a outra, tornando-se seu algoz implacável” (EDLER, 2008, p. 13). Para Freud a melancolia se estabelece analogamente ao luto, mas um luto prolongado, patológico, uma tristeza que invade o ego, que modifica o sujeito, que atrapalha o desenvolvimento social do indivíduo e que, portanto, necessita de tratamento e cura.
A melancolia se caracteriza por um desânimo profundamente doloroso, uma suspensão do interesse pelo mundo externo, perda da capacidade de amar, inibição de toda atividade e um rebaixamento do sentimento de autoestima, que se expressa em autorrecriminação e autoinsultos, chegando até a expectativa delirante de punição [...] (FREUD, 2011, p. 47).
O luto é definido como “o afeto que emerge quando perdemos alguém muito amado ou algo que nos é precioso” (EDLER, 2008, p. 19) e é a partir desse sentimento de perda que o sujeito adentraria num estágio profundamente melancólico, sendo a proposta de Freud para a cura da melancolia, mergulhar na subjetividade do enlutado.
[...] O luto, via de regra, é a reação à perda de uma pessoa querida ou de uma abstração que esteja no lugar dela, como pátria, liberdade, ideal etc. Sob as mesmas influências, em muitas pessoas se observa em lugar do luto uma melancolia, o que nos leva a suspeitar nelas uma disposição patológica [...] (FREUD, 2011, p. 47).
A melancolia chega a afetar a autoestima dos sujeitos, provocando um esvaziamento do eu, um empobrecimento da alma. O indivíduo vai perdendo suas referências e valores, o que leva a um desinteresse pelas coisas do mundo e ao afastamento de toda atividade que não esteja relacionada ao objeto perdido. Observa-se, ainda, no comportamento do melancólico, uma acentuada autocrítica o que torna este sujeito um profundo conhecedor de si mesmo. Para Freud,
Quando, em uma exacerbada autocrítica, ele se descreve como um homem mesquinho, egoísta, desonesto e dependente, que sempre só cuidou de ocultar as fraquezas de seu ser, talvez a nosso ver ele tenha se aproximado bastante do autoconhecimento e nos perguntamos por que é preciso adoecer para chegar a uma verdade como essa (FREUD, 2011, p. 55).
Neste sentido vê-se um quadro patológico chamado de autoreferência, em que as atenções do sujeito voltam-se apenas para si. Isolado das problemáticas do mundo, ele centra suas atenções apenas nas verdades que emanam do seu eu, promovendo um autocentramento, “tanto na censura e crítica de si [...] quanto no mecanismo de engrandecimento ou mesmo no delírio de grandeza [...]” (EDLER, 2008, p. 32).
No estado de melancolia é observada uma divisão entre o eu e o supereu, que aqui é entendido como a instância crítica do sujeito, portanto, é a partir de si mesmo que todo julgamento e apreciação são realizados, de si para si e apenas. Neste sentido, há uma tomada do eu pelo supereu, tornando-se este o próprio objeto. Por isto, muitas vezes, o melancólico
não tem medo ou receio de se expor, de compartilhar suas dores e misérias, uma vez que não mais será julgado pelo outro, mas apenas por si, sendo proprietário do seu eu, o que aqui será conhecido como o estudo da identificação (EDLER, 2008, p. 33).
[...] No caso da melancolia, sempre tendo como referência a divisão do eu, Freud observa que o mecanismo de identificação narcisista faz desencadear o ódio com o próprio sofrimento. Dito de outra maneira, tanto na neurose obsessiva quando na melancolia, a instância crítica, depois nomeada supereu, reveste-se de particular crueldade, esmagando o eu sob a pressão da culpa e encontrando, nesse movimento, algum tipo de satisfação. O automartírio implica algo da ordem do gozo, aqui entendido como uma parcela de satisfação, ainda que paradoxal, no sofrimento (EDLER, 2008, p. 36).
Na melancolia a ideia de ambivalência se estabelece, pois aquilo que causa sofrimento, de certa forma, também tem seu grau de prazer e gozo. A culpa se estabelece na dor, mas ainda assim permite o aflorar do deleite e da satisfação. Nosso autor estabelece três premissas da melancolia, ou seja, a perda do objeto (levando ao luto), a regressão da libido para o ego e a ambivalência, esta representando, “[...] a mola do conflito; depois de passado esse conflito, nada mais resta de parecido como o triunfo de uma condição maníaca” (FREUD, 2011, p. 85).
Uma ideia que nos interessa diretamente neste estudo freudiano é a concepção de
mania relacionada à melancolia, que objetivamos ressignificar em uma noção que leve a
ideia de mania à noção de resistência.
Freud observa a mania como um estágio da melancolia, talvez o mais agressivo da “doença”. Longe da passividade dos primeiros estágios que levavam o sujeito à autocrítica, ao isolamento pela dor e pela perda do contato com o mundo externo, nota-se um comportamento paradoxal: “[...] o sujeito que antes se isolava, queixava-se, recusava a alimentação e não demonstrava nenhum interesse diante do mundo, ressurge das cinzas exibindo uma extraordinária mudança de humor” (EDLER, 2008, p. 39).
Tal comportamento de enfrentamento e resistência, muitas vezes tido como um processo curativo, pelo contrário, aqui, é visto como o estágio mais radical e extremo da melancolia. Neste contexto, o sujeito que estava recluso, exilado em si, volta a perceber o mundo, e exibe um estado de ânimo eufórico e às vezes, violento. Durante este estágio, Freud anuncia que o sujeito pode experimentar um afastamento do objeto que o aprisionava no luto e promover um enfrentamento no mundo. Na mania, o sujeito experimenta libertar-se do
objeto que vinha provocando dor e sofrimento, tudo isso juntamente com uma energia e voracidade de ataque ao mundo exterior.
[...] na mania o ego precisa ter superado a perda do objeto (ou o luto pela perda, ou talvez o próprio objeto) e desse modo todo o montante de contrainvestimento que o doloroso sofrimento da melancolia atraíra do ego para si e ficara gora disponível. Na medida em que, como um faminto, o maníaco sai em busca de novos investimentos de objeto, ele nos demonstra de um modo inequívoco sua libertação do objeto que o fez sofrer (FREUD, 2011, p. 77).
Nossa tese visa pensar a melancolia de resistência, aquela que através do envolvimento profundo do sujeito com seu eu mais interior, faz com que ele responda de forma criativa, autoral, emancipada frente às adversidades e opressões do sistema, retornando do estágio de desencantamento e apatia renovado, recuperado. O exagero que Freud entende como mania de modo a patologizá-lo, entendemos como processos de resistência e enfrentamento à dominação.
Sabemos como o sistema constrói subterfúgios para abafar certos processos de luta e enfrentamento que os sujeitos produzem, a fim de manter a “ordem” e uma episteme padrão pode encobrir a potência da melancolia hoje substituída pelo termo clínico depressão. Ousar desafiar a estrutura padrão, fugir da normalidade, criar outras formas de luta e ação pode exigir a desconstrução, também, da medicina13.