Não creio em Deus, abjuro e renego qualquer Pensamento, e nem posso ouvir sequer falar Dessa velha ironia a que chamam Amor. Já farta de existir, com medo de morrer,
Como um brigue perdido entre as ondas do mar, A minha alma persegue um naufrágio maior.
(“Melancolia” – Paul Verlaine)
A melancolia e a depressão são análogas, mas não iguais. Ambas podem ser manifestadas por uma tristeza profunda, altos picos de ansiedade, desesperança, perda de interesse pelas coisas comuns como trabalho, diversão, sexo. Também vêm acompanhadas de insônia, falta de apetite, pensamentos de morte e outros. No entanto, a principal diferença é que a depressão é, e fato, uma patologia, curável através da medicação e/ou terapia. A melancolia, porém, embora também tratada como doença, é melhor compreendida como “experiência existencial”, que leva o sujeito a um estágio mais profundo de reflexão. A bile negra vem acompanhada de tédio e pode ser até considerada uma marca da subjetividade: “tristeza, sim, e tristeza duradoura, e talvez até tédio, mas uma condição existencial envolta em aura filosófica, o que lhe dava dignidade e distinção” (SCLIAR, 2003, p. 58).
Em O eu e o isso, Freud (1923) irá referir-se às inibições que encontramos nos quadros depressivos e vai nomear a melancolia como o mais grave deles. Isso nos permite distingui-la de outros tipos de depressão. Tal recorte, por sua vez, nos possibilitará fazer um estudo comparativo entre as depressões de ontem e de hoje, valorizando a ideia de que depressão não é, necessariamente, sinônimo de melancolia (EDLER, 2008, p. 41).
A depressão, doença psíquica, esteriliza a criatividade e destitui sua autonomia, isola- o do convívio social, tendendo à autodestruição, daí a busca para sua cura. A melancolia, não, em que pese a “medicalização da sociedade” ter igualado os sintomas e aquela que era a aura humana, um aspecto relacionado a certa especificidade do sujeito, acaba fazendo parte do universo da depressão, algo a ser banido da sociedade, com muitos medicamentos e terapias, o que for.
Uma linha muito delgada separa o que eu chamo de melancolia e o que a sociedade chama de depressão. Para mim, o que as separa é o grau de atividade. Ambas são formas de tristeza mais ou menos crônica que conduz a um incômodo duradouro com o estado de coisas, sentimentos persistentes de que, tal como está, o mundo não está bem e é um lugar de sofrimento, estupidez e mal. Frente a esse incômodo, a depressão causa apatia, uma letargia que se aproxima da paralisia (...). Pelo contrário, a melancolia gera uma relação com a mesma ansiedade um sentimento profundo, uma turbulência no coração que desemboca no questionamento ativo do presente, um desejo perpétuo por criar novas formas de ser e de ver (WILSON, 2008, p. 8).
A modernidade inventada exige dos sujeitos uma vida de hiperatividade, de intensa sociabilidade, alegria plena, constante e duradoura, autovalorização de uma imagem sempre positiva de si, plenamente harmônica, “saudável”, corpos perfeitos, relacionamentos sem problemas, vigore equilíbrio. Algo compatível com as demandas de acúmulo de capital, uma existência voltada ao consumo, justificada pelo poder aquisitivo crescente.
[...] Um novo mundo está nascendo, mas para isso o velho terá de ser destruído; é a “destruição criadora” de que fala Schumpeter, e que virá a ser a característica maior do regime econômico que se instala naquele momento: o capitalismo. Contudo, a destruição não se faz sem culpa, e a culpa gera depressão – ou melancolia [...] (SCLIAR, 2003, p. 23).
A melancolia, espaço natural da reflexão e da crítica, o isolamento para um encontro com respostas profundas para toda forma de opressão e violência, o convívio com a tristeza e a distopia é inimiga da lógica da superprodução. O melancólico não se encaixa num sistema que exige sempre profundo ânimo e ação em detrimento do repouso e da contemplação.
[...] A situação agora é diferente. Pessoas de gênio, sobretudo aquelas com suporte material (como os artistas amparados por ricos patrocinadores), podem achar que a melancolia é uma qualidade do espírito; para os outros, ela não passa de excesso de uma substância negra, viscosa, excesso que a sociedade não está disposta a tolerar (SCLIAR, 2003, p. 94).
Tudo passa a se chamar depressão que deve ser combatida. Numa sociedade que apela o tempo todo para o ato de ser feliz a todo custo; que tem o trabalho como suprassumo do vigor humano, é preferível não pensar, mas agir. A reflexividade é uma patologia perigosa à nova ordem.
Por que é preciso remover das cidades os doentes mentais? Porque eles são, antes de mais nada, desocupados, improdutivos, e não podem ser tolerados numa época que valoriza o trabalho e o esforço para ganhar dinheiro. Não há mais lugar para o “louco da aldeia” medieval, nem mesmo para o místico que, em seu delírio, ouve vozes de santos. Os loucos são mau exemplo e devem ser confinados em lugares especiais [...] (SCLIAR, 2003, p. 95).
O melancólico vira um problema também para esta sociedade, e deve ser “curado”. Nasce o sentimento de culpa, de autocobrança. A culpa por não se adequar a um padrão exigido, culpa por não ser feliz, culpa por se permitir viver em letargia.
[...] O homem contemporâneo se sente insuficiente diante das pressões da competitividade econômica e das exigências de gozo que permeiam as relações afetivas. Em vez de manifestar a dimensão do conflito psíquico que, de certa forma, empurrava o neurótico de Freud para a frente, o deprimido de hoje é capturado pela própria insuficiência, que sempre se vale de modelos esmagadores para confirmar sua inferioridade (o corpo de Madonna, a inteligência e a riqueza de Bill Gates podem ser tomados – e o são – como agressões “pessoais” à própria capacidade e aos próprios dons) (SAROLDI, 2008, p. 15).
O ser culpado luta contra si mesmo e quer o que os outros são, fazer tudo aquilo que os outros fazem, gerando um sofrimento ainda maior. Assim, a melancolia vai cedendo espaço para a depressão e para a loucura, sendo então patologizadas, e, portanto, devendo ser curada.
Na possibilidade de confrontar certas epistemologias padrão, a melancolia é aqui pensada não como espaço infértil, por seu caráter letárgico, mas, pelo contrário, como ela mesma autocura e restauração, mesmo tendo que se confrontar uma estrutura que padroniza, que aglutina mentes, sentimentos, corpos, práticas e, por isso mesmo, asfixia, paralisa, gera culpa e caminha para a autodestruição.
É no encontro com toda a diversidade que o sujeito é constituído (e que a melancolia permite a este escavar) que pensamos numa saída para uma sociedade cada vez mais robotizada e inerte, reprodutora de devires e de afetos, portanto, aprisionada em si mesma.
A melancolia de resistência seria então o lenitivo para tantas dores e possibilidade real e plena da libertação.