A participação mediada pelas plataformas digitais de mídias sociais é o exemplo mais expressivo, atualmente, do potencial das mídias interativas para promover engajamento cívico em dimensões que se aproximam do ideal clássico. (CASTELLS, 2012, 2009; GOMES, 2011; MARGETTS et al., 2015; SCHLOZMAN; VERBA; BRADY, 2012). Mais de dois bilhões de pessoas, cerca de um terço da população do planeta, estão conectadas a esses sites em 201830. O Facebook
continua na liderança, com 2,23 bilhões de usuários mensalmente ativos até junho de 201831. O que torna a participação nestas plataformas tão atraente? Esta é a
primeira questão a ser respondida neste tópico. Em seguida, será analisado o impacto das mídias sociais nas formas e níveis de participação on-line e off-line.
Em relação à primeira questão, parece haver um consenso, até aqui, de que as plataformas digitais de mídias sociais promovem o fortalecimento da autonomia de ação individual dos cidadãos frente às instituições e organizações da sociedade civil (governos, partidos, parlamentos, sindicatos e outros) (GOMES, 2011; MARGETTS, 2015). Isso porque, viabilizam a possibilidade de os indivíduos se articularem em torno de interesses comuns sem intermediações destas estruturas burocráticas, para a participação em atos de larga e pequena escala, para além de suas fronteiras geográficas.
30 http://www.internetworldstats.com/ 31 http://newsroom.fb.com/company-info/
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Margetts e seus pares (2015) observaram que essas ferramentas estimulam a participação mesmo entre indivíduos com pouco ou nenhum interesse político, o que foi empiricamente comprovado neste estudo (Capítulo 7). Schlozman, Verba e Brady (2012) admitem que os blogs e as plataformas digitais de mídias sociais potencializam formas de participação política não hierarquizadas, que atraem os jovens e aquelas pessoas que, por alguma razão, não se sentem confortáveis com o repertório tradicional de participação (filiação partidária, participação em campanhas e comitês eleitorais etc.).
Por outro lado, os resultados das pesquisas empíricas apresentam divergências em relação ao impacto das mídias sociais na participação on-line e off- line, sobretudo no que diz respeito ao modo e a intensidade com que esse processo ocorre. Este fato é atribuído por Towner (2013, 2012) a causas que vão desde a utilização de amostras de pesquisas restritas a universos não representativos de populações mais amplas, como estudantes universitários, até a ausência de foco em uma plataforma específica, uma vez que cada uma delas possui diferentes funções e possibilidades tecnológicas (Ver Capítulo 2) (TOWNER, 2012, 2013; TOWNER; DÚLIO, 2011).
Alguns estudiosos afirmam que o uso de plataformas digitais de mídias sociais promove o aumento da participação política off-line. Body (2008) encontrou uma relação positiva entre o comportamento on-line dos usuários do Facebook e alguns tipos de participação política tradicionais. A autora partiu do pressuposto de que as interações mediadas pelo site, tal qual suas análogas face a face, geram capital social e promovem o engajamento cívico.
Outra corrente de pesquisadores não vê associação entre o uso de mídias sociais e a participação política off-line. Baumgartner e Morris (2010), por exemplo, investigaram o uso dessas plataformas e o engajamento dos jovens nas primárias da eleição presidencial americana de 2008. Eles observaram que as mídias sociais funcionaram como fonte de informação política para esse segmento do eleitorado, que é mais inclinado a se engajar em atividades políticas on-line, como enviar e-mails.
Para Vitak e seus pares (2011), o uso do Facebook reforça a participação política on-line e off-line. Eles concluíram que atividades desenvolvidas na plataforma do site, como a atualização de postagens politicamente orientadas e a ação de tornar-se fã de um candidato, conduzem a outras formas de
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participação, tais como ser voluntário em uma organização ou assinar petições on- line.
Tonwer (2013) analisou o uso das plataformas digitais de mídias sociais e
video-sharing como fonte de informação de campanha, nas eleições presidenciais
americanas de 2012, em uma série de três surveys, aplicadas antes, durante e depois do pleito. A autora concluiu que o uso de mídias digitais aumentou a participação on-line e off-line dos jovens na campanha. O uso de websites de candidatos, Facebook, Twitter e blogs contribuiu para os altos níveis de participação off-line em setembro de 2012. Os jovens eleitores usuários do Google+, Twitter e blogs registraram os mais altos níveis de participação fora da Internet, entre setembro e novembro. O Facebook aumentou a participação on-line, mas não o engajamento off-line (TOWNER, 2013). Por sua vez o Youtube não influenciou a participação on-line nem off-line, fato que a autora atribui ao baixo potencial de mobilização e envolvimento dessa plataforma (TOWNER, 2013).
Inspirada nos estudos de Towner (2013), investigação empírica da autora (SANTANA, 2017) sobre o uso das mídias sociais na participação eleitoral on-line e off-line em Salvador, durante as eleições presidenciais de 2014, também encontrou resultados diferenciados para o uso do Facebook, WhatsApp, Youtube, Instagram e Twitter. Todos os eleitores ativos on-line eram usuários de plataformas digitais de mídias sociais. Na participação off-line, apenas o YouTube não se mostrou significativo, o que pode ser explicado pelo fato de não ser uma mídia de mobilização (TOWNER, 2013).
O Twitter demonstrou um impacto positivo sobre a baixa participação off-line, aumentando as chances de um eleitor tomar parte de uma ação fora da Internet em 7 (sete) vezes (SANTANA, 2017), o que confirma estudos sobre o uso desta ferramenta para mobilização em campanhas eleitorais no Brasil e em outros países (AGGIO, 2016; TOWNER, 2013). Por sua vez, o uso do WhatsApp aumentou em 3 (três) vezes as chances do eleitor possuir uma baixa participação off-line e em 6,7 a probabilidade de possuir uma participação moderada. Ressalte-se, aqui, que também o WhatsApp tem sido largamente empregado em campanhas eleitorais para mobilizar o staff de candidatos e os eleitores (GUTIERREZ-RUBI, 2015).
O Facebook, por sua vez, apresentou um efeito negativo na participação off- line, diminuindo em quase 2 (duas) vezes as chances de o eleitor ter participação off-line moderada (SANTANA, 2017), o que confirma os resultados encontrados por
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Towner (2013). Em contrapartida, esta rede social é o principal canal de participação on-line, aumentando a web participação baixa e moderada dos eleitores desta amostra em 36 vezes e 22 vezes, respectivamente. Por fim, o uso do Instagram, plataforma que está sincronizada com o Facebook e o Messenger, apresentou um efeito positivo sobre a participação on-line moderada, aumentando as chances de o eleitor de Salvador ter acionado dois ou mais repertórios on-line em 4,3 vezes (SANTANA, 2017).
Já Zhang e colaboradores (2010) investigaram o comportamento de jovens americanos usuários do Facebook, YouTube e MySpace e afirmaram que o uso desses sites está significativamente associado à participação cívica, mas não à participação política, porque é direcionado aos relacionamentos com os amigos, podendo estimular o envolvimento comunitário.