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RIP

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Já próximo do pôr do sol, avistei uma pequena ilha. Nela era possível ver duas fogueiras acesas. Ao redor de uma, pessoas dançavam e cantavam como se estivessem comemorando algo. Ao lado, na segunda fogueira, estavam dezenas de crianças com olhar fixo em um sujeito mais velho que contava histórias. Aportamos e, ao nos aproximarmos, percebemos olhares desconfiados. A dança parou e o silêncio tomou conta desse ambiente por alguns segundos. Identifiquei-me como explorador e que estava ali não para trocar presentes e roubar suas riquezas, mas para conhecer e mostrar ao mundo suas crenças, sua cultura e seu modo de ver e compreender a natureza.

Sentei junto às crianças e comecei a ouvir aquele sábio que estava a contar histórias dos seus antepassados. Com uma fala mansa e olhar tranquilo, o pensador indígena, Daniel Munduruku, falou que antes de iniciar suas histórias ele saúda a todos porque na sua cultura quem chega sempre traz algo novo e, por isso, todo encontro é uma troca, um momento de praticar a humanidade.

Fiquei encantado com suas palavras e, a cada história contada por ele, surgia uma nova visão, um novo olhar sobre nossa relação com a natureza e com os povos indígenas. Passei a conhecer a verdadeira história do nosso povo – diferente da que está nos livros ditáticos. A relação entre os “invasores portugueses” e os indígenas nunca foi amorosa e, por isso, nunca foi dado o protagonismo aos povos indígenas, a oportunidade de contar o outro lado da história.

Destacou que não existe índio na cultura deles, esse foi um apelido inventado na era do colonialismo e dado a eles de forma errônea: eles são brasileiros. Contou também, que o povo Munduruku não faz estimativas de como passar num concurso, fazer uma viagem ou comprar um bem material, na concepção de tempo do povo Munduruku, o futuro não existe, “só existe o agora e é nele que vale a pena viver. É o presente que a gente recebe a cada dia, oferecido pelos espíritos de nossos antepassados” (MUNDURUKU, 2010, p. 29). E, concluiu a narrativa de sua expedição pessoal, dizendo que os seus conhecimentos, seu repertório individual de vida, foi construído da vivência com o seu avô. Conforme o próprio pensador:

Na cultura indígena o velho é um sábio e por isso, cabe a eles a educação da alma contada a partir das suas histórias. “As crianças

Munduruku vivem a vida a partir do que elas observam nos adultos. Dessa forma, os adultos são objeto de imitação dos mais jovens” (MUNDURUKU, 2010, p. 29).

Nesse cenário encantador entre belíssimas e instigantes histórias, ele contou que não se acha professor e sim educador, prontamente levantei a mão e perguntei: por

que o senhor prefere ser chamado de educador e não de professor? Sorrindo ele falou

que,

educar é um ato heroico e por isso seja para poucos, professores são profissionais do ensino, considerados os donos do conhecimento que usam as palavras como instrumento, e em alguns casos, tratam os alunos como clientes que estão ali para consumir, acumular conhecimentos. Já os educadores são mediadores que fazem do ensino estímulo para seu crescimento pessoal. “Talvez por isso, seja mais fácil encontrar professores do que educadores” (MUNDURUKU, 2010, p. 9).

Para Daniel Munduruku, o educador constrói, expande os conhecimentos dos alunos por acreditar que eles estão ali para serem orientados e seguir seus passos, “essa é a razão de ser do educador, por isso, ele precisa ser inteiro, completo, estar em sintonia consigo e com o universo” (MUNDURUKU, 2010, p. 10).

Além disso, o educador é um confessor de sonhos que detém imagens, abstrações, experiências e quer que elas cheguem a um horizonte mais distante. Sua realização está em conseguir cumprir tudo aquilo que ele sonhou, pois “na concepção indígena, não existe um conhecimento individual. O conhecimento é coletivo, portanto não se pode vendê-lo. Não é propriedade de uma pessoa só, mas de um povo” (MUNDURUKU, 2010, p. 26).

Para o povo Munduruku não há a figura do professor. Eles vivem em uma sociedade que educa; não se preocupar com o salário, mas com as pessoas, com sua formação integral. Para Munduruku (2010):

Em uma sociedade que educa, todos são responsáveis por tudo, pela harmonia do conjunto, de modo que ninguém é superior a ninguém. Todos seguem mais ou menos os mesmos princípios, relacionados a educação formal e informal, que ajudam nosso povo a crescer com dignidade, sabendo como ser gente, como ser Munduruku (MUNDURUKU, 2010. p. 31).

Em relação ao método educativo, o educador contou que eles trabalham com a oralidade, contando histórias de experiências vividas e essas histórias é o que dá sentido à presença deles no mundo: “quando ouvimos, desenvolvemos sentidos. Por isso, o sentido da audição é o mais importante, porque por meio do ouvido fazemos as

histórias chegarem à memória e descerem ao coração. E, então a gente nunca mais esquece” (MUNDURUKU, 2010. p. 33).

Ainda, segundo o pensador, educar é fazer sonhar, por isso, contar histórias é a maneira que eles encontraram para manter viva a cultura, o saber desse povo. Conforme Munduruku (2010):

Contar histórias é, para nós, uma das formas de manter nosso saber. É assim que a gente aprende quando é criança, para viver como criança mesmo quando cresce. Os adultos que conseguem contar e ouvir histórias são como crianças que têm na memória seu ponto de encontro (MUNDURUKU, 2010, p. 43).

Tarde da noite, próximo de a fogueira se apagar, as crianças já dormiam, pedi ao pensador para contar um pouco do seu conhecimento acerca da educação do corpo e dos sentidos. Ele também já cansado, falou que desde pequeno aprendeu que temos que cuidar do nosso corpo porque ele é sagrado e habitado por ausências, e estas precisam ser preenchidas com sentidos construídos por nós. Para Munduruku (2010):

É necessário valorizar o próprio corpo oferecendo a ele os instrumentos para que ele também possa cuidar da gente. É importante que cada um aprenda a conviver com seu grupo por ser ele quem vai nos “guiar”, dar um norte para as descobertas que o corpo precisa fazer (MUNDURUKU, 2010, p. 55).

Ao descobrir as ausências que o corpo possui, o sujeito compreende como é importante nutrir-se de conhecimentos complementares em um processo de aprendizagem que passa pela leitura do ambiente a sua volta e “entende que o uso dos sentidos atribui sentido às ações: a leitura das pegadas dos animais, o voo dos pássaros, os sons dos ventos, o crepitar do fogo, as vozes da floresta em suas diferentes manifestações” (MUNDURUKU, 2010, p. 55).

O sujeito passa a ter consciência de que andar pela mata é mais que um passeio; que nadar no rio e subir em árvores é mais que uma brincadeira. Começa a perceber metamorfoses; e que, em seu corpo, o sentido começa a ter vida e as ausências precisam ser formalizadas porque a partir de agora seu corpo está amadurecendo para o novo. As crianças começam a entender que é o momento de vivenciar os rituais de maioridade – “é nesse momento que ele vai viver conscientemente seus rituais de maioridade: é uma forma encontrada pelo corpo para construir o passo seguinte” (MUNDURUKU, 2010, p. 56).

É no passo seguinte que surge outro alimento para imunizar seu corpo do vazio da existência: a educação da mente, de que o velho sábio falou um pouco atrás.

Ele falou que, para os Munduruku, “o presente é o único tempo real, o passado é memorial, e o futuro, mera especulação” (MUNDURUKU, 2010. p. 57).

É a educação da mente que passa pelos contadores de história, orientadores, ativadores de ideias, imagens e pensamentos. Homens e mulheres que trazem para o presente o passado memorial. São os que leem e releem o tempo, e o tornam circular. Para muitos dos povos indígenas, são os guardiões da memória verdadeiras bibliotecas que conservam a memória ancestral. Compete a eles a educação da mente, manter viva a memória do povo com as histórias que carregam consigo, contadas por outros antepassados, em uma teia sem fim que os une ao princípio de tudo.

Portanto, é com o ato de ouvir histórias que o povo Munduruku educa a mente, ouvindo, observando atentamente os símbolos, rastros e sinais que as histórias trazem. Educam-se para ter a compreensão do mundo como eles foram presenteados pelos espíritos ancestrais. Para viver essa verdade plena que lhes mostra o caminho do bem estar, da alegria, da liberdade e do sentido.

É nessa perspectiva que sigo rumo a outro ambiente desse arquipélago, à procura de outra ilha que valoriza a contação de histórias, o pensar criativo e curioso, que dá autonomia aos sujeitos para que estes comecem a trilhar seus caminhos a partir de conhecimentos que permeiam sua vida, a Ilha da Racionalidade Quente. Nessa nova expedição, carregarei comigo uma nova pérola que estava guardada a sete chaves pelo povo Munduruku: a pérola do conhecimento ancestral. Esta tem como base os conhecimentos dos mais velhos, preocupados com a formação integral do ser, educando a mente, alma, e coração. É uma cultura que tem o educador como confessor de sonhos com suas imagens, abstrações, experiências e quer que elas cheguem a um horizonte mais distante.

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