A curiosidade é uma característica humana que move diferentes expressões do conhecimento, influenciando aspectos da nossa forma de conhecer e nos questionar sobre o do mundo. Para Rodrigues e Severo (2016):
São expressões com características de rigor e intencionalidade muito distintas, mas que, a sua maneira, podem utilizar a observação, o questionamento, a problematização, a formulação de ideias iniciais, os
testes e os resultados em sua busca por uma conclusão. (RODRIGUES, SEVERO, 2016).
Por isso é importante que o professor possa instigar, trabalhar e orientar a aptidão dos questionamentos, para os problemas da nossa vida. Conforme Oliveira (2008):
Cada indivíduo tem a capacidade de descobrir um novo mundo através da curiosidade e da mediação do professor. Ao refletirmos um pouco mais sobre essa característica peculiar das crianças, podemos notar que ela não permeia apenas o universo infantil (OLIVEIRA, 2008. p. 85-86).
Constantemente, somos questionados em sala de aula. As perguntas aparecem por todos os lados e, por isso, é preciso estar atento, aproveitar a oportunidade e trabalhar este instinto curioso, crítico e observador. Sobre isso, Rodrigues, Severo (2016) afirmam que esse aproveitamento é fundamental:
Para que nossos alunos tenham a oportunidade de aproveitar a sua autonomia e curiosidade de conhecer o mundo e achar as respostas para os seus questionamentos, pois desenvolver a curiosidade é sem dúvida uma das melhores e mais eficaz forma de abrir o seu horizonte para o saber (RODRIGUES, SEVERO, 2016, p. 4).
Entretanto, a educação científica costuma não privilegiar a curiosidade em suas atividades, ou como descreve Morin (2001), a escola frequentemente extingue, mata a curiosidade. Para o autor, a educação dever favorecer a aptidão natural da mente a formular e resolver problemas essenciais e, estimular o uso total da inteligência geral.
Este uso total pede o livre exercício da curiosidade, a faculdade mais expandida e a mais viva durante a infância e a adolescência, que com frequência a instrução extingue e que, ao contrário, se trata de estimular ou, caso esteja adormecida, de despertar (MORIN, 2001, p. 39).
Carl Sagan, no livro O mundo Assombrado pelos Demônios, também fala um pouco de como a escola mata a curiosidade dos alunos nas salas de aula. O autor descreve que,
De vez em quando, tinha a sorte de lecionar no jardim-de-infância (SIC) ou numa classe do primeiro ano do ensino fundamental. Os alunos eram curiosos e perguntas provocadoras e perspicazes saem delas aos borbotões. Demonstram enorme entusiasmo. Eles nunca ouviram falar da noção de perguntas imbecis (SAGAN, 1996, p. 273).
Ainda de acordo com Sagan, isso mudava quando participava das aulas nas turmas do segundo ano do ensino secundário, hoje ensino médio, encontrava algo
diferente. Os alunos memorizavam os fatos e, de modo geral, a alegria da descoberta, a vida por trás desses fatos, se extinguia em suas mentes. De acordo com Sagan (1996),
Eles ficavam preocupados com a possibilidade de fazer perguntas imbecis; aceitavam respostas inadequadas; não faziam perguntas encadeadas; a sala fica inundada de olhares de esguelha para verificar, a cada segundo, se eles tinham aprovação de seus pares (SAGAN, 1996, p. 273).
Por isso, em uma das minhas expedições procurei aportar em uma Ilha do Sul, que faz o caminho contrário, que não extermina a curiosidade, mas incentiva, encoraja, desperta, acende essa característica humana. Ancoramos o navio na Ilha do (Re)encantamento com as Ciências.
E lá estava o alegre, cativante, pesquisador, estudioso e curioso professor e pedagogo Jeú de Oliveira Rodrigues (do CMEI Carmen Fernandes Pedroza), junto com dezenas de crianças colhendo conchas e respondendo atenciosamente as perguntas que cada uma delas fazia sobre o mar. Aproximei e pedi para participar da aventura de responder acerca do mar. Em seguida, fomos a uma pequena e humilde cabana, repleta de desenhos colados em suas paredes, que ele havia transformado em sala de aula.
Ambiente simples e aconchegante onde ele dedica parte de suas aulas para estimular, instigar, conversar e dialogar sobre os questionamentos, inquietações e curiosidades trazidas pelos alunos. Suas aulas têm como prioridade estimular o despertar criativo que transforma os alunos em construtores de conhecimento, verdadeiros artesãos de ideias e curiosidades. Para Rodrigues e Severo (2016):
Utilizar a educação como uma ferramenta de ressignificação da curiosidade pode nos direcionar a caminhos diversos que, mesmo não seguindo um plano ou mantendo um padrão ao caminhar, desenvolve habilidades essenciais para a leitura complexa da realidade (RODRIGUES, SEVERO, 2016, p. 8).
Assim como a história do Navegador Thiago Severo, a experiência primeira do pesquisador também não foi fácil. Jeú iniciou sua caminhada com uma turma do nível II da Educação Infantil em uma comunidade rural do interior do Estado do Rio Grande do Norte. Segundo ele, foi um choque permear um universo tão novo e diferente, multiplicado pelos olhares controversos dos pais ao verem que um homem estaria responsável pela educação de seus filhos. Para o professor: – “inicialmente, foi muito difícil lidar com esta situação, mas com o tempo os pais foram se adaptando e ganhando confiança”.
Em um segundo momento, saímos a caminhar pela ilha e ele contou que viveu um dos momentos mais marcantes da sua vida como docente no CMEI (Centro Municipal de Educação Infantil Carmem Fernandes Pedroza), localizado no bairro de Felipe Camarão, numa turma de nível IV com crianças de 5 e 6 anos de idade. Foi neste cenário, com sujeitos buscando conhecer tudo que os cercava, que surgiu uma pergunta, uma curiosidade que o deixou desconcertado. Um de seus alunos perguntou: professor,
por que falta energia no céu quando fica de noite? Sem esperar e admirado com a
pergunta, o professor olhou para todos com cara de espanto e respondeu: – “crianças, essa pergunta que Cleiton fez é muito difícil e eu não sei responder, porque nós professores não sabemos de todas as coisas, mas juntos, vocês, Cleiton e eu vamos pesquisar, criar hipóteses e tentar encontrar uma resposta”.
Momento raro esse, já que alguns professores respondem com irritação ou mudam rapidamente de assunto quando são questionados com esse tipo de pergunta. Como afirma Sagan (1996):
Porque os adultos têm de fingir onisciência diante de certas perguntas é algo que nunca vou compreender. O que há de errado em admitir que não sabemos alguma coisa? A nossa autoestima é assim tão frágil? (SAGAN, 1996, p. 273).
Dessa curiosidade surgiram várias hipóteses trazidas pelos alunos como, por exemplo: a noite falta energia no Céu porque Jesus apaga a luz; porque a noite é a
hora que o sol vai dormir; porque o sol se apaga; porque é a vez da lua. Em seguida o
professor explicou que isso acontece porque o sol, à noite, vai embora devido ao movimento de rotação. Disse ainda que esse é o movimento que a Terra realiza em torno de seu próprio eixo e tem duração de 23 horas, 56 minutos e 4 segundos. E disse também que o sol fica parado e, por isso, quando a terra está de olho nele, está de dia; e quando a terra da às costas para ele, fica noite. Para explicar o movimento da terra de forma lúdica, para melhor compreensão das crianças ele disse: – “crianças é como se a terra dançasse balé, quando ela está olhando para o Sol está de dia, mas quando ela gira e dá as costas para o Sol, fica de noite”.
Essa atividade foi trabalhada durante uma semana, e para mostrar melhor como é realizado esse movimento, o professor usou um programa de computador chamado stellarium, no qual, todos puderam ver e perceber a forma do sol e dos planetas; que a terra é verde e azul; que se parece com uma esfera; e que existe uma diferença entre esfera e círculo.
Ao final da atividade os alunos chegaram à conclusão que o sol não apaga; que ele não dorme; nem é Jesus que apaga a luz, mas que a terra fica girando, igual uma bailarina e por isso existe o dia e a noite. A partir daí nasceu a ideia de aproveitar esses questionamentos e hipóteses trazidas pelos alunos para criar o dia da pergunta difícil. Momento de interação em que o protagonismo não é mais do professor, mas de todos os sujeitos que expressam seus entendimentos acerca de assuntos e temas que eles veem na televisão, em casa ou na rua.
Com esse olhar, o professor percebeu que ensinar não é apenas transferir conhecimento, “[...] mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção” (FREIRE, 2016).
Para o autor, quando entramos em sala de aula devemos estar abertos, “a indagações, a curiosidades, às perguntas dos alunos, a suas inibições; um ser crítico, inquiridor, inquieto em face da tarefa que temos que é a de ensinar e não de transferir conhecimento” (FREIRE, 2016, p. 47).
Desse modo, o professor Jeú Rodrigues valorizou a curiosidade dos alunos para estimular a criatividade, despertar o desejo de aprender, aprender brincando, criando e participando, desenvolvendo a criticidade, autonomia e o cognitivo dos alunos quando eles se posicionam, criam hipóteses e dialogam sobre uma problemática a partir da curiosidade.
Enquanto esteve com essa turma, todos os dias um questionamento era colocado em pauta na roda de conversa: por que o avião voa se ele não bate as asas?
Quem colocou a água nas nuvens? Todos os dias, falou o professor, Cleiton, chegava à
sala de aula e seu bom dia era: – “Professor porque isso? Professor o que é aquilo?”. “Era tão bom, porque trazia recordações minhas quando criança. Passávamos vários minutos conversando e dialogando sobre os seus questionamentos”, relata Jeú Rodrigues.
Sempre após as hipóteses expostas, surgiam questionamentos conflitantes provocados pelo professor, não para desestimular o pensamento, mas para que os alunos se envolvessem, assim como Cleiton, e refletissem sobre suas próprias hipóteses, percebendo quais posicionamentos eram mais frágeis e quais soluções poderiam ser encontradas para resolver aqueles conflitos.
Imagens eram utilizadas, vídeos, pesquisas e observações de tudo ao seu redor. Essa tempestade de ideias durava geralmente uma semana, e a função do professor era apenas a de mediar. O professor Jeú falou que aos poucos as outras
crianças chegavam perto e participavam daquela conversa, aquilo se tornou um cotidiano da sala de aula: “Cada um apresentava as suas hipóteses sobre o problema posto em questão. Não precisava dar uma resposta pronta, já que as hipóteses levantadas pelos alunos possuíam muitas verdades”, destaca Jeú Rodrigues.
O professor transformou esse momento no que chamou de dia da pergunta
difícil: um projeto que foi utilizado em todos os anos em que ele esteve em sala de aula.
O importante a ser citado, já próximo de encerrar esta minha caminhada pela Ilha do (Re)encantamento com as Ciências, é que o professor percebeu que os alunos mais tímidos e calados, com o tempo começaram a participar ativamente das atividades em sala de aula. Nos anos seguintes, não havia apenas um aluno curioso, a curiosidade fazia parte daquele espaço de resistência, daquela Ilha do Sul.
Antes da partida rumo à próxima expedição, pedi a Jeú Rodrigues um tesouro para levar de recordação. Uma resposta em poucas e sinceras palavras que represente o significado, a importância da “pergunta difícil” para ele hoje em dia. Ele olhou para o céu, respirou fundo e respondeu: – “Falar da pergunta difícil remete em especial a minha infância. Sempre fui uma pessoa extremamente curiosa, em todos os aspectos, sempre queria saber como e porque certo brinquedo funcionava daquela forma, como o avião conseguia voar se não batia as asas, como as pessoas cabiam dentro de uma caixa chamada televisão”.
Ele contou também, que geralmente as respostas eram com desdém ou irritação por parte dos mais velhos: “deixe de tanta pergunta”, “deixe de ser curioso”, “porque sim”, “sei não”. Aos poucos fui domesticado e adestrado, havia agora me tornado um jovem quieto, tímido e de poucas palavras, modelo ideal para um adolescente em sua fase “aborrecente”, relata o entrevistado.
Com o passar do tempo, já na fase adulta, a domesticação estava dentro dele e já não lhe permitia externar a curiosidade, contudo ela ainda estava presente. Certo dia, em uma aula de Ciência Natural, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a curiosidade explodiu, voltou a pulsar nas veias do então aluno Jeú Rodrigues, quando o professor de Ensino de Ciências Naturais, Thiago Emmanuel Araújo Severo, fez uma afirmação sobre o método científico e falou que todo cientista é um curioso. Ele impressionado, pensou consigo mesmo: “Como assim? Os cientistas são um bando de curiosos?! Aquilo me tirou o chão, como pode uma criança ser castrada de sua curiosidade e mais a frente escutar que a curiosidade é que gera conhecimento?”.
Pouco tempo depois, juntamente com o professor ele mergulhou em um profundo oceano de conhecimento. Conforme o entrevistado essa foi uma relação significativa de amizade e de troca de conhecimentos. Por isso, hoje em dia ele tenta de todas as formas proporcionar experiências de aprendizado significativas para essas crianças: – “Através daquele garoto de 5 anos e sua pergunta difícil, proporciono algo que eu não tive, diálogo entre uma criança e um adulto sobre questionamentos extremamente complexos e cheios de profundidade”, destaca o entrevistado.
Jeú Rodrigues falou que essa experiência com as crianças foi como um sonho realizado. Foi através do dia da pergunta difícil que ele extravasou seu lado curioso e abriu as portas da sala de aula para os questionamentos das crianças. Para o professor, foi a partir da curiosidade de cada uma delas que vários conhecimentos e aprendizados foram desenvolvidos durantes os dias de aula – “Aprendizados tanto da minha parte como professor, como das crianças que estavam comigo naquele oceano de possibilidades. Com o tempo, a pergunta difícil se tornou a queridinha das crianças”, destaca o professor.
As palavras desse pesquisador, estudioso, ético e rigoroso que desperta nos outros a curiosidade, foram o combustível para seguir minhas expedições em busca de outros espaços de resistência, outras Ilhas do Sul. Antes da partida, ele caminhou ao meu encontro e fez agradecimentos emocionados aos sujeitos que proporcionaram seu crescimento pessoal e profissional: – “Agradeço a meu professor exemplo de profissional e amigo. E ao pequeno Cleiton minha inspiração, sua pergunta difícil foi o divisor de águas, no qual eu pude perceber, descobrir e viver o Ensino em minha vivência e prática”.
Aqui encontrei outra pérola, a da sensibilidade, humildade e curiosidade, que não é construída apenas pelo marinheiro que está à frente do navio, mas por todos os marinheiros que compõem a embarcação, desenhando mapas, criando estratégias, descobrindo rotas, para que todos possam construir suas próprias aventuras marítimas. Com este novo tesouro, levantamos âncora e partimos rumo a outras ilhas do arquipélago.
4.2 Ilha da (Re)problematização da relação humano/natureza: educar pelo sonhar