3. PLANT ACTIVITIES FOR LTO
3.1. Review and modification of existing plant programmes
Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón, terceira filha de Guillermo e Matilde Kahlo, nasceu no dia 06 de julho de 1907, em sua casa, na esquina das ruas Londres e Allende, situada em Coyoacán, um antigo distrito residencial nos arredores da periferia sudoeste da Cidade do México. De acordo com Haydem Herrera, que escreveu Frida: a biografia, essa é a data que consta de sua certidão de nascimento. Mas Frida era filha da década revolucionária, quando as ruas da Cidade do México estavam coalhadas de caos e derramamento de sangue. Provavelmente, optando por uma verdade menos precisa, ela escolheu nascer em 1910, ano da explosão da Revolução Mexicana. Herrera (2011, p. 25), na biografia de Frida, define essa revolução como:
[...] movimento armado que começou com alguns motins em várias partes do país e com a formação de exércitos de guerrilheiros em Chihuahua (sob a liderança de Pascual Orozco e Pancho Villa) e em Morelos (sob o comando de
Emiliano Zapata); os conflitos e focos de revolta se estende- riam por dez anos. Em maio de 1911, caiu o antigo ditador, Porfírio Díaz, que partiu para o exílio. O líder revolucionário Francisco Madero foi eleito presidente do país em 1912, mas em fevereiro de 1913, depois da Dezena Trágica, etapa de dez dias de combates em que tropas antagônicas no Palácio Nacional e na Ciudadela bombardearam-se mutuamente, causando tremenda destruição e mortandade, Madero foi traído pelo general Victoriano Huerta e assassinado. No norte, Venustiano Carranza insurgiu-se para vingar a morte de Madero. Adotando o título de Primeiro Chefe do Exército Constitucionalista e contando com um pequeno contingente à sua disposição, lutou para derrubar Huerta. A cruel disputa de poder e o inevitável derramamento de sangue só cessariam com a posse do presidente Álvaro Obregón, um dos generais de Carranza, em Novembro de 1920.
Muitos desses conflitos foram presenciados pela pequena Frida. Em seu diário íntimo, publicado após sua morte, ela relata que a mãe abria a janela com acesso para a rua Allende e os zapatistas feridos, a quem alimentava e cuidava de seus ferimentos. Mais tarde, esse movimento vai contar com a juven- tude comunista da qual Frida fazia parte. Esse grupo procurou implantar mudanças fundamentais na estrutura social do México pós-colonialista. A identificação da artista com o mexicanismo (1910-1920) foi tão grande que se tornou um dos símbolos mais difundidos em toda a sua produção artística. Frida exclamava, em cartas, em telas ou em seu diário: ¡viva la revolución! Assim como ela, o México estava em um momento de reconstrução de sua identidade e contava com seus artistas para o fazer.
Não foi diferente com a arte da “pomba delicada” – um dos apelidos que Frida recebeu nas rodas sociais em que circulava. Seus autorretratos se enchem de elementos de seu cotidiano que ganham um valor simbólico e representam, com grande precisão, essa mulher exótica aos olhos estrangeiros, enquanto que, para seu esposo, o grande muralista mexicano Diego Rivera, ela era a personificação de toda a glória nacional. Seus escritos (cartas, poemas e diário íntimo) também não se diferenciam nesse aspecto cultural.
A questão do sentimento da identidade nacional no México pós-revolução, ou melhor ainda, a busca por uma iden- tidade mexicana que envolveu o país em discussões calorosas a respeito do mexicanismo, também era um tema contemporâneo de Frida. Essas discussões suscitaram questões e elementos que iam da esfera econômica às artes. Passou-se a pensar no papel social que teria a arte. Dessa forma, buscava-se uma arte genui- namente nacional que rompesse com os padrões europeus.
Na América Latina, a sociedade está representada na pintura desde a formação das nações. No século XIX, no período pós-independência, não apenas no México mas também em todo o continente, já se problematizava uma identidade nacional por meio das artes. Era necessário despertar um sentimento de pertencimento à nação recém-surgida. Nesse sentido, teve muita relevância a pintura histórica. Naquele período, era muito comum os Estados custearem jovens pintores promissores em seus estudos na Europa. No “Velho Mundo”, eles entravam em contato com usos de cores e luz, adquiriam as últimas técnicas e eram treinados para escolher temas em voga. No entanto, quando regressavam à terra natal, repensavam os temas para suas pinturas, tendo como tema recorrente a independência, evocando as lutas contra os exércitos espanhóis, a fundação
das repúblicas e os heróis desses processos. Dessa maneira, formaram-se símbolos nacionais representados na pintura.
É importante dizer que esses símbolos e imagens nacio- nais compunham uma identidade, na voz das elites, que já assumiam a mestiçagem, mas mantinham o discurso de que apenas os brancos letrados tinham a capacidade e o direito legítimo de terem propriedades e de assumirem o governo, enquanto que os pobres, índios, negros, mestiços e camponeses não tinham, para as elites, capacidade de assumir cargos públicos, nem mesmo poderiam comandar propriedades. Era utilizada a famigerada dicotomia “civilização versus barbárie” para justificar a dominação de um grupo pelo outro.
Em contrapartida, os grupos marginalizados formaram reivindicações sociais e, em meio a essa cultura mestiça, desenvolveu-se uma vigorosa cultura popular. Nesse processo, distintos pintores em diversos países se dedicaram a repre- sentar temas da vida cotidiana retratando pessoas simples.
As diferenças estéticas entre os pintores populares e os pintores viajantes são expressivas. Enquanto estes procuravam reproduzir sempre o mesmo estilo de pose, retratando mais um tipo de uma pessoa; aqueles retratavam sempre a pose dura e frontal, característica dos retratos coloniais e tinham ainda uma imensa preocupação com os detalhes das roupas, o que conferia um caráter deliberadamente realista ao retrato. Frida Kahlo, por sua vez, busca inspiração nesses pintores retratistas populares para compor os seus autorretratos.
Em seu segundo quadro – O tempo Voa –, feito em 1929, a artista já mostra sua adesão à arte popular mexicana. A apresen- tação de um rosto visto de frente com uma expressão determinada e a importância que ela dá para suas vestimentas remetem ao realismo dos retratos populares do século XIX. Com base nessas
influências, Frida também trata da questão indígena, que é reavi- vada pela Revolução Mexicana (1910) e, logo após, do mexicanismo. Essa foi uma questão que trazia em seu bojo um sentimento de pertencimento a sua cultura.
Frida Kahlo é uma mulher vista em seus autorretratos como exótica e bela, porém, torturada e martirizada por todo o sofrimento de uma vida e por um acidente que, entre outras dores, impossibilitou-lhe de realizar um de seus maiores sonhos: ser mãe. Além de tudo isso, Frida já havia sofrido com uma poliomielite aos seis anos de idade que lhe rendeu o apelido de Frida perna-de-pau na infância/adolescência. Interessa, no entanto, neste texto, a Frida escritora de inúmeras cartas, ao longo de toda sua vida, para diversos interlocutores, entre eles, o seu grande amor, Diego Rivera, seus amigos, suas amigas, seu médico, seu amor juvenil.
Tais cartas são reveladoras de vários ethé que não podem ser visualizados apenas observando seus quadros. Nessas correspondências, Frida mostra seus sentimentos mais profundos e toda a sua revolta com sua condição física e a concepção de fidelidade que seu amado marido seguia, pois, segundo ele, “ser fiel era apenas mais um dos valores burgueses”. Ao escrever, Frida usava de toda a sua franqueza, empregava um vocabulário singular e marcado de afetividade para externar suas ideias. Boca desenfreada, usava a linguagem da rua, da praça, dos artesãos que a muniam com palavrões e gargalhadas irônicas e carnavalizadas.