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Chapitre 2 : Entre stigmatisation et liminalité

2.3 Le retour dans la vie sociale

Uma especificação dos termos empreendedorismo e empreendedor não garante necessariamente a determinação empírica de uma população de empreendedores. A população de estudo foi delineada quando se determinou a estreita relação do

conceito exposto com as empresas residentes em incubadoras ou as graduadas. Esta seção procura definir termos como incubadoras, parques, empresas pré- incubadas, incubadas, graduadas e associadas, caracterizando, nesse processo, os gerentes das empresas mencionadas como um tipo de empreendedor, objeto do presente estudo.

De modo geral, o processo de incubação pode ser entendido como uma nova estrutura organizacional, conforme a estágios pós-industriais da economia, em que a ênfase recai na informação, conhecimento e integração necessários em um contexto de intensificação da globalização devido, em parte, às emergentes tecnologias de informação e comunicação. Foi na década de 70 que começaram a despontar nos Estados Unidos da América empresas tecnologicamente avançadas nas indústrias eletrônicas, de computação e de comunicação, com muitos de seus empreendedores originados das universidades. Tome-se como exemplo as empresas do Vale do Silício, em torno da Universidade de Stanford, ou as da Rota 128, adjacentes ao Instituto de Tecnologia de Massachussetts, em Boston. As primeiras referências à existência de incubadoras também são encontradas nos Estados Unidos da América em meados da década de 70 (BAÊTA, 1999). No Brasil, surgem acanhadamente como resultado da aproximação do setor industrial e acadêmico no final dos anos 80 e início dos 90 (ANPROTEC, 2002a).

Dentre as várias concepções de incubadoras difundidas a partir dos anos 80, apropria-se aqui a menos global, que concebe as incubadoras como unidades onde funcionam empresas e que fornecem suporte dos mais variados tipos a elas. Conforme ANPROTEC (2002b), uma das principais referências que fundamentam todas as definições a seguir expostas, uma incubadora de empresas é um mecanismo, um agente nuclear e facilitador da geração, desenvolvimento, consolidação e inovação tecnológica de micros e pequenas empresas. Para isso, a incubadora usualmente oferece: (a) espaço físico para as empresas nascentes; (b) infra-estrutura e compartilhamento de serviços, como telefone, fax, acesso à Internet, salas de reunião, suporte em informática e outros; (c) acesso a órgãos de fomento e mecanismos de financiamento; (d) acesso a mercado e rede de relações; (e) assessoria técnica e empresarial, englobando consultorias especializadas em marketing, planejamento, qualidade e finanças; e (f) processos de avaliação,

acompanhamento e orientação. A intenção é criar um ambiente flexível e encorajador, propiciando aprendizagem interativa e transferência de tecnologia, especialmente do meio científico e acadêmico (BAÊTA, 1999). Muitas vezes os gerentes empreendedores compartilham os custos de locação e infra-estrutura, como limpeza, telefonia, secretaria e vigilância. Os custos habitualmente são menores que os valores de mercado, pois, além de serem compartilhados, costumam ser parcialmente pagos por parceiros, tais como prefeituras, instituições de ensino e pesquisa, associações empresariais e órgãos públicos.

Cabem várias observações. Nem todos os serviços são necessariamente fornecidos. Na modalidade de incubação virtual, não são disponibilizadas instalações de infra- estrutura e espaço físico, embora usualmente sejam providas as demais facilidades. A ênfase habitualmente é colocada na inovação e transferência tecnológica. No entanto, o entendimento é matizado quando se atenta para os empreendimentos de base tradicional, que utilizam tecnologias maduras em seu processo produtivo. Caso exemplar são as Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCP), instituições que abrigam empreendimentos associativos em processo de formação ou consolidação, surgidas aproximadamente a partir de meados da década de 90 e muito ligadas à intensificação da exclusão social no país. Seus agentes foram as universidades e a população agindo em prol da cidadania e do combate à miséria e à fome (SOUZA et al., 2003). Dessa forma, constata-se que existem várias modalidades de incubadoras, estruturalmente diferentes. Uma incubadora agroindustrial abriga empreendimentos de produtos e serviços agropecuários. A incubadora cultural visa promover o processo de empresariamento de produtos e serviços culturais. A incubadora de artes procura apoiar empreendedores e pessoas criativas que desenvolvem projetos inovadores na área de artes. A incubadora mista abriga empresas tecnológicas e tradicionais. A incubadora setorial suporta empresas de determinado setor da economia. A incubadora social, categoria das mencionadas ITCP, incentiva projetos sociais, que abarcam conhecimento de domínio público e são ligados a setores tradicionais, atendendo demandas de melhoria de emprego e renda e estando, assim, alinhados com programas de desenvolvimento das comunidades locais.

Um tipo que interessa particularmente é a incubadora de base tecnológica. Ela incentiva empresas que se concentram em produtos, processos ou serviços para os quais a tecnologia representa alto valor agregado e que normalmente resultam de pesquisa científica, em áreas como informática, biotecnologia, química fina, mecânica de precisão e novos materiais. As incubadoras tradicionais trabalham com empresas que utilizam tecnologias largamente difundidas e que agregam valor a seus produtos por meio de incrementos no nível tecnológico. As incubadoras tecnológicas distinguem-se das tradicionais na medida em que, além de apoiar a sobrevivência das empresas de base tecnológica nascedouras, oferecem também “acesso ao aconselhamento técnico, mediante sua estreita relação com universidades e laboratórios de P&D, e situam-se geralmente em parques tecnológicos já existentes, junto a universidades ou a centros de pesquisa.” (BAÊTA, 1999, p. 33).

Vale ainda um comentário sobre os parques tecnológicos, que são complexos industriais de base científico-tecnológica normalmente situados nos campi de instituições de ensino e pesquisa ou muito próximos a eles. Eles provêem uma infra- estrutura adequada para as empresas inovadoras, que lá residem permanentemente. No Brasil, a iniciativa de parques antecedeu a de incubadoras, mas o modelo não foi plenamente bem sucedido. No entanto, sem dúvida, estimulou a concepção de incubação (ANPROTEC, 2002a). Freqüentemente, parques tecnológicos alojam suas próprias incubadoras e recebem empresas recém- graduadas.

Empregar a tecnologia como um diferencial de competitividade é o que diferencia uma empresa de base tecnológica, residente em incubadoras ou parques tecnológicos, das demais empresas. Isso implica que a inovação tecnológica contribui para a maior parte dos custos e a competitividade do produto está associada a “um processo de aprendizagem tecnológica, desenvolvido na capacidade de relacionamento e troca de informações e conhecimento entre os vários agentes de inovação” (BAÊTA, 1999, p. 29). Uma das características das empresas de base tecnológica é a presença de profissionais de alta qualificação entre seus colaboradores. Além disso, muitas vezes os próprios gerentes desse tipo de empresas são pesquisadores de centros de pesquisas ou universidades, e

provêm de seus laboratórios ou cursos de mestrado ou doutorado. No entanto, isso pode apresentar um lado menos benéfico. Dornelas (2002), ao pesquisar 96 empresas de base tecnológica em 12 incubadoras, descobriu que os empreendedores tinham um alto nível de formação acadêmica, mas poucos deles tinham educação formal em negócios (apenas 26%) ou treinamento em ferramentas gerenciais, o que poderia ser um motivo de insucesso das empresas.

Desse modo, constata-se que a ênfase na importância da tecnologia como foco da atividade e base da produtividade é recorrente na literatura (LAHORGUE et al., 2004; BAÊTA, 1999) e serve para distinguir diferentes tipos de empresas incubadas (SOUZA et al., 2003). Assim, esse critério foi utilizado, neste trabalho, como um diferenciador significativo das atividades dos empreendedores.

Outro ponto importante para caracterizar as empresas estudadas é o estágio de sua evolução. Dependendo da fase do processo de incubação, uma empresa pode ser categorizada de diversas formas. A empresa incubada ou residente habitualmente passou por um processo de seleção e está fisicamente abrigada em uma incubadora, usufruindo os serviços oferecidos por ela. A empresa pré-incubada normalmente não está instalada fisicamente, mas recebe suporte para o desenvolvimento de um plano de negócios a fim de ser abrigada na incubadora. Nessa fase, a ênfase recai no aprimoramento do plano de negócios, no estudo e pesquisa do mercado e na preparação dos empreendedores para a adequada gestão dos negócios. A denominação de hotel de projetos, hotel de idéias ou hotel tecnológico usualmente está relacionada a instituições que possuam projetos de pré- incubação (ANPROTEC, 2002b).

Após um tempo determinado, e atendidas certas metas de crescimento e desempenho, uma empresa incubada é liberada da incubadora e torna-se uma graduada. Ela então pode manter um vínculo formal com a incubadora na condição de associada, continuando a usufruir alguns serviços e infra-estrutura, mas sem ocupar espaço físico.

Há evidências de que as empresas graduadas apresentem desempenho inovador por causa do contexto institucional favorável pelo qual passaram como incubadas

(MACULAN et al., 2002). No entanto, considerando a usualmente grande quantidade de serviços oferecidos pelas incubadoras (SOUZA; VIDIGAL; THIELMANN, 2001), assim como os próprios cuidados que cercam o processo de graduação (têm-se em vista, por exemplo, as preocupações em garantir a instalação de graduadas em parques tecnológicos, como destacado por LAHORGUE et al., 2004), constata-se que a graduação é uma etapa determinante na evolução da empresa, pelo que, neste trabalho, ela sinaliza um passo representativo de um novo estágio no seu desenvolvimento: de interna (pré-incubada ou incubada) para externa (graduada ou associada).

Desse modo, para os objetivos desta pesquisa, os gerentes, sócios-proprietários ou administradores de empresas incubadas e graduadas foram considerados empreendedores, de acordo com a definição anteriormente apresentada de Hisrich e Peters (2004). Eles são pessoalmente motivados a criar um produto, serviço ou processo novo, e institucionalmente demandados a fazê-lo, pois devem atender às normas de seleção das incubadoras, fortemente orientadas à inovação (aspecto da criação). Os gerentes empregam recursos, subsidiados e mesmo próprios, despendem esforços e consomem tempo, já que só o período de incubação varia, em média, de um a três anos (aspecto de tempo e esforço). Os riscos são iminentes, bastando para isso verificar as altas taxas de mortalidade de empresas iniciantes, sem comentar as repercussões financeiras e pessoais em caso de fracasso (aspecto de riscos financeiros, sociais ou psíquicos). Por fim, as expectativas de recompensas são evidentes, sejam elas monetárias ou referentes à auto-imagem e satisfação, pois são propulsoras de altos níveis de esforço, dedicação e trabalho em meio a grandes incertezas e instabilidades (aspecto de recompensas relativas à satisfação e independência econômica e pessoal).